segunda-feira, 18 de maio de 2015

Três coisas para lá do bicampeonato:

- a cor uniforme (tipo loiro) dos cabelos das mulheres/namoradas dos jogadores do Benfica;
- as brincadeiras azedas dos adeptos de outros clubes que, nas redes sociais, dão largas à sua imaginação para tentarem enfraquecer e tornar menos intensa a vitória que o clube mereceu;
- o prazer que foi rever em casa o filme Singin' in the rain nesta noite. 




sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os festivais de cinema e as passadeiras

Hoje em Cannes

                                                                     Foto aqui

e em Gaza
                                                                     Esta e outras aqui

sábado, 9 de maio de 2015

As cores são diferentes...

... mas, por estes dias, no Reino Unido, há uns quantos agachados...

         Imagem aqui

          Imagem aqui


          Imagem aqui

E dentro dos penicos o que estará? Talvez as sondagens...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O livro que tem dado que falar nos últimos dias ou a biografia do cidadão imperfeito

Apesar de muito criticado por aceitar a publicação de uma biografia quando está apenas com 50 anos, a verdade é que Passos Coelho não é propriamente um caso único. Muitos o fizeram neste ponto da sua carreira, em épocas em que o seu futuro político está em vias de definição. Não há nada de excepcional na situação. E se há editoras prontas a fazê-lo é porque o mercado existe. Terá que ser o leitor a relativizar, tendo em conta as circunstâncias em que o texto é publicado, a autora, o facto de ter sido autorizado, os episódios que conta, os que são omitidos. Diz a editora na apresentação que "baseada num amplo trabalho de pesquisa, investigação e recolha de diversas opiniões e testemunhos, Sofia Aureliano escreveu uma biografia única que nos aproxima de Pedro Passos Coelho". Aproximará? E se o trabalho de pesquisa e investigação foi tão bem feito por que razão não falou com alguém próximo de Paulo Portas, ou com o próprio, para esclarecer as questões que mais celeuma levantaram? O testemunho de Secundino Cardoso do restaurante «O Comilão» poderá ser importante mas o de Diogo Feio poderia também ter sido equacionado.

 Imagem aqui

No entanto é o título escolhido que mais dúvidas me suscita. Por mais que o leia não consigo perceber a ideia que lhe está subjacente. "Somos" indica que estamos no presente. Significa isto que, nesta altura, Passos Coelho é o que escolheu ser? E como é que isso aconteceu? Como é que escolheu? Será que a biografia é assim tão clara?
E depois, numa perspectiva que é normalmente a correcta, devemos generalizar a expressão e considerar que basta escolher o que queremos ser para o sermos? E quem não consegue? É porque não tem capacidades? E que tipo de capacidades? As intelectuais, as económicas, as sociais? Ou será porque não quer com força suficiente? E o gesto de pôr a gravata tem alguma coisa a ver com tudo isto? Será uma piada a Varoufakis? A cor é uma provocação a António Costa?
Será que para responder a estas questões terei que ler o livro? Hum... Acho que vou ficar sem saber...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Quatro mães

Ontem, depois do jantar, a minha mãe resolveu ir buscar duas fotografias que, em grande formato, se encontravam na parede da sala da casa dos seus pais antes de ser vendida; e das quais eu me lembro muito bem quando lá ia nas férias. Numa delas a mãe do meu avô materno, com o seu cabelo apanhado e o seu ar distinto olha-nos com uma beleza serena do início do século XX. A outra é a única fotografia que conhecemos da minha avó materna que morreu quando a minha mãe tinha 9 anos. 73 anos já passaram entretanto. Mas a minha mãe continua a recordá-la com a mesma emoção que sempre lhe observei quando fala dela. Esse momento em que as minhas próprias filhas testemunharam o carinho com que a avó guarda essas imagens foi o mais significativo deste dia da mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Daqui a poucos dias já só nas Avenidas Novas

Não as frequentava muito é certo. A última vez que lá fui foi há um mês. Falo das salas de cinema do Fonte Nova, geridas até agora pela Medeia Filmes. Nesse dia a sala estava muito composta. Era um domingo, logo a seguir ao almoço e lembro-me de ter registado que parecia, de facto, um cinema de bairro com muitos casais já mais idosos, provavelmente moradores ali perto. O filme era Leviatã e àquela hora era o único cinema que o passava. Daqui a poucos dias deixará de ser uma opção. O Colombo e as suas salas onde o cinema é apenas mais uma coisa (e por vezes parece não ser a mais importante) parece ter levado a melhor

sábado, 25 de abril de 2015

"Guerras perdidas e ganhas"

Esta brincadeira no post anterior não pode ser a única referência a um dia tão importante como o que hoje comemorámos.
Nestes 41 anos tanto mudou para melhor mas tanto há ainda por fazer. Nos avanços e recuos a que assistimos neste tempo muitas coisas ditas, lidas, cantadas, deixaram de fazer sentido. Outras podem ser actualizadas como se o que levou os seus autores a escrevê-las estivesse novamente presente. Não está. Não da mesma maneira. Mas os sentimentos que as inspiraram e as emoções que despertam estão, por vezes, muito próximos.

Em Abril, comemorações mil

Este ano, neste dia, o que deverei fazer para comemorar o 25 de Abril? Estive a analisar algumas das inúmeras propostas e percebi que estou dividida. Utilizar a pista tumbling insuflável ou experimentar a estampagem com vegetais e fruta? Em comparação com a segunda, provavelmente a execução de saltos mortais e piruetas é mais adequada à data. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Partilhas

- (Falando do Facebook) Eu às vezes partilho fotografias com alguns amigos. Mas nunca autorizo que eles as partilhem com outros. Não gosto nada que pessoas que eu não conheço fiquem a saber coisas sobre mim.
Isto dizia a senhora para a sua companheira de mesa num tom bem audível para todos naquele restaurante cheio.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Ler sempre

Mesmo que doa.

                               Imagem aqui                                                           Girl in Grey (1939)
                                                                Louis le Brocquy (Ireland, 1916 – 2012)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Os clássicos podem ser fixes?

Há uns dias atrás, Francisco José Viegas colocava esta questão. Não é fácil chegar a uma conclusão. Ou porque somos um país onde a qualidade e a quantidade de clássicos torna difícil a escolha, ou porque muitos portugueses, infelizmente, não conseguiriam votar tendo uma opinião fundada. Ou pelas duas coisas e outras ainda.
Curiosamente esta semana, numa fila no supermercado, deparei-me, junto às caixas, com um livro infantil que me suscitou sentimentos opostos. 

                                                     Imagem retirada daqui.

Se, por um lado, me parece que pode ser uma forma de divulgar junto das crianças algumas informações sobre escritores fundamentais do nosso país; por outro, o adjectivo usado não me convenceu. Claro que a palavra fixe pode ser utilizada como sinónimo de algo que agrada e tem qualidades positivas mas quando a ouvimos não deixamos de pensar em "porreiro". É certo que já tivemos um presidente fixe. Mas a utilização deste termo fará sentido quando falamos de escritores e das suas obras? Almeida Garrett é fixe? E Florbela Espanca será?  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fiat Lux

Sentou-se no banco e imediatamente fez a chamada. Quando do outro lado atenderam, e depois dos cumprimentos, num tom de felicidade que se manifestou na voz e que parecia querer partilhar com toda a carruagem, informou: 
- Já tenho dinheiro! Hoje vou pagar a luz!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Definindo as curvas da modelo

- Mais para a esquerda! Mais para baixo! Não, não, foi demais! Um bocadinho para cima! Ele bem via que a curva não estava correctamente desenhada pois as duas folhas teimavam em não encaixar de forma irrepreensível e este era um trabalho que queria que ficasse impecável. A modelo era muito bonita e o seu corpo merecia um investimento em tempo. Não interessava que a carrinha estivesse mal estacionada e que o colega, empoleirado no cimo da estrutura, estivesse num equilíbrio instável. Não sairia dali enquanto a perna da mulher do cartaz daquele painel publicitário que anunciava um novo ginásio não ficasse perfeita.

Born Eleanora Fagan

Fui à procura dela e não a encontrei: a minha cassete com músicas de Billie Holiday. Uma amiga, adolescente como eu, emprestou-me alguns discos que eu gravei na aparelhagem. O som era mau (já o original devia ter muitas imperfeições). Mas até aparecerem os CD's foi essa cassete que eu ouvi e voltei a ouvir vezes sem conta. Músicas curtas mas que não precisavam ser maiores para nos encherem as medidas. Lembro-me que ficávamos contentes quando dizíamos "me, myself and I" ou outros versos mais conhecidos e alguém à nossa volta reconhecia a canção. Ainda hoje é uma expressão que utilizo.


Billie Holiday nasceu há 100 anos. Explorar o site oficial é uma boa forma de comemorar a data.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A homenagem lá de casa

No período passado a professora de História pediu à turma de que faz parte a minha filha mais nova para apresentarem trabalhos sobre figuras da História de Portugal no séc. XX. Ela pediu a minha opinião e eu sugeri Salgueiro Maia. Ela aceitou. No final do período apresentou o trabalho aos colegas na aula.
(No sábado passou mais um ano sobre a morte deste homem, capitão à altura do 25 de Abril de 1974.)

sábado, 4 de abril de 2015

Os prémios da "nossa academia"

Na mesma noite, o filme “Os gatos não têm vertigens” dominou os prémios atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema. Confesso não saber quais os critérios para atribuição dos prémios mas, tendo visto este filme e "Os Maias", não compreendo como se atribui o prémio de melhor filme ao de António-Pedro Vasconcelos. O filme de João Botelho, pela complexidade e originalidade, apesar de inspirado num texto clássico, merecia mais.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Aprender com Manoel de Oliveira

De Manoel de Oliveira não vou falar. Já tantos disseram tanta coisa... A verdade é que a sua morte deixa, de uma forma a que eu nunca tinha assistido, uma sensação de vida cumprida. E não se trata de um trocadilho com "comprida". É mesmo cumprida. Muitos o disseram desde que o velho realizador morreu ontem. De tanto fazer parte deste mundo alguns amigos disseram que achavam que ele já não morreria. Mas claro que a sua humanidade era plena e essa condição implica a mortalidade. De qualquer forma são poucos os que assim vivem em quantidade e qualidade. Das tantas homenagens que ouvi retenho a conversa ontem na RTP Notícias entre várias pessoas ligadas ao cinema. Notava-se a tristeza ligada à sua morte mas também a alegria por falarem de alguém que tanto deu ao cinema e com quem, mesmo não estando cá, se continuará a aprender.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Resultado das eleições de ontem na Madeira: complexificação...

... da morfologia da palavra-chave: do "jardinismo" para o "albuquerquismo".

Benfica

Não chove nem está sol. Mas o grande guarda-chuva que segura entre as mãos está aberto. Adormeceu e o seu corpo escorregou encontrando-se apoiado no banco onde o homem se sentou, formando quase um ângulo raso. Também os óculos escorregaram e estão suspensos na ponta do nariz. Na manhã de domingo muitos são os casais de velhos que passeiam pela rua num bairro onde se vêem poucos jovens. Uns vão de mãos dadas, caminhando devagar, conversando. Outros, lado a lado, em silêncio, olham as montras das lojas olhando-se por vezes, quando estas lhes devolvem o seu reflexo. Aparentemente ninguém repara no homem que dorme. Como se tivesse percebido que estava quase a cair, está agora mais sentado no banco. O grande guarda-chuva que segura entre as mãos continua aberto. Mas não chove nem está sol. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Aqui não há heróis ("positivos")

Ao procurar o trailer do filme, li alguns dos comentários que anónimos foram deixando. Mesmo não compreendendo os que utilizam o alfabeto cirílico podemos perceber que muitos russos não se revêem neste filme. Isso parece-me absolutamente normal. Esta é uma história particular. Mas o facto de se passar na Rússia actual, o retrato das relações de poder com a maioria dos indivíduos a serem completamente esmagados face a quem o detém; as referências a um passado não tão distante assim; a imagem de uma sociedade dominada pelos poderosos e pela Igreja que os protege, com uma justiça arbitrária; criou uma discussão à volta do filme, acentuada pelo facto de a sua visibilidade nos países ocidentais (com os quais as relações já foram melhores) ter sido bastante grande (candidato à Palma de Ouro em Cannes, escolhido como melhor filme estrangeiro nos Globos de Ouro e candidato ao Óscar de melhor filme estrangeiro). Responsáveis no país criticaram a falta de heróis positivos. Mas como se poderia ser positivo se o que sobressai na vida das principais personagens é a impotência  face a uma realidade demasiado marcante e inóspita? E não é só a paisagem do Norte do país, junto ao mar de Barents, que reflecte a dureza daquelas vidas. Elas podem não ser reais. Mas não podemos deixar de pensar que se fossem reais elas só poderiam ser ainda mais duras. A imagem do filme que mais nos faz lembrar um Leviatã é não o esqueleto de um animal que deu à costa e perto do qual Roma se senta, mas o cortejo de carros de topo de gama que se afasta do edifício da igreja ortodoxa.

domingo, 22 de março de 2015

quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma vez por ano

Aniversário

Soprava trezentas e sessenta
e cinco vezes
a minha idade, as duas velas
estremeciam,
recolhiam-se, mas eram uma
surpresa e voltavam
sempre a acender-se.
Não sejam cruéis comigo.

in , Pedro Mexia, Menos por Menos , D. Quixote, 2011, pág. 29

quarta-feira, 18 de março de 2015

Compras e vendas

                                       Publicado esta semana na "The New Yorker"

terça-feira, 17 de março de 2015

Pensamento egocêntrico do dia

O que me chateia nesta coisa da lista VIP de contribuintes é que eu nunca poderia estar nela...

segunda-feira, 16 de março de 2015

VEM com estilo

Afinal, parece que, ao contrário do que disse Pedro Lomba, o Governo PSD/CDS-PP vai conceder um apoio exclusivo aos emigrantes, que quiserem regressar a Portugal. Trata-se de uma mala especial que quer fazer esquecer as tradicionais malas de cartão e que o ex-emigrante futuro empreendedor (ou futuro empreendedor ex-emigrante ou futuro emigrante ex-empreendedor) deverá encher com ideias empreendedoras, meios para as desenvolver e sobretudo muita esperança. Não faltam já as más línguas, no entanto, que afirmam que elas são verdes para encher de recibos com a mesma cor ou que a versão insuflada é boa para guardar os melhores incentivos do governo que não passam exactamente disso mesmo: ar.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Casamentos temáticos

O grupo de jovens entra no metro e todos se sentam. A conversa que vinha de fora continua: a preocupação com as fotografias que se publicam nas redes sociais em que os protagonistas não aparecem no seu melhor ângulo. Uma das raparigas queixa-se de uma sua, em especial, em que se destaca uma das unhas das mãos que não estava bem pintada. Logo de seguida informa os outros que, no dia seguinte, tem que enviar os convites do casamento. "Mas ainda faltam oito meses", diz uma das amigas, que acrescenta a pergunta: "Qual é o tema?"; ao que ela responde: "o Outono".
Foi assim que eu fiquei a saber que os casamentos, ou pelo menos alguns casamentos, agora têm tema. Aliás procurei agora no Google e logo encontrei sites que dão sugestões a esse nível (para além de ter encontrado a designação "wedding planner" para alguém que é especialista na preparação de casamentos). E se pensarmos bem os temas são inesgotáveis. Alguns há que poderiam ser bem originais... Nem vou lembrar nenhum. Deixo à vossa imaginação.

A primeira vez de Statler e de Waldorf

O aprendiz de excel

No metro, avô e neto, sentados frente a frente, discutiam a melhor forma de resolver alguns problemas num documento em excel. O mais velho, inexperiente na matéria, fazia as perguntas e o mais novo, de cerca de 10 anos, dava as respostas. O avô, cheio de dúvidas, colocava questões simples que o miúdo ia respondendo com paciência e num tom educativo. Claro que em muitas situações da vida podemos assistir a uma transmissão de saberes feita na direcção inversa ao que normalmente acontece. Mas esta achei-a particularmente interessante.
Para aquele avô há ainda muito caminho a percorrer mas a curiosidade e a vontade de aprender estão presentes. E afinal não seria esse exemplo uma bela transmissão de saberes para o neto?

quarta-feira, 11 de março de 2015

A Nova Lisboa que já não há

Desde que deixei de trabalhar na Baixa e estou para os lados do Campo Grande vou com alguma frequência, à hora de almoço, até à Av. da Igreja. É uma rua movimentada, com lojas e pessoas (e sem a quantidade enorme de turistas que tornam, por vezes, difícil a circulação nas áreas mais centrais). Nesses dias comia sempre na Confeitaria Nova Lisboa, uma daquelas pastelarias-restaurante que há na capital com pratos a preços acessíveis e fabrico próprio de fazer crescer água na boca. Percebi também, ao vê-las em qualquer altura do ano, que era a mesma empresa que fabricava aquelas amêndoas de Páscoa de que sempre gostei. Os clientes, percebia-se, eram habituais e alguns residentes na zona deixavam recados para familiares que passariam ali mais tarde. A mim, que não era propriamente cliente habitual, ofereciam sempre um pequeno bolinho com o café. Não era isso que me fazia voltar mas claro que ajudava apesar de não gostar nada do "avançado" em alumínio sobre o passeio.
Esta semana li no Corvo  que a Nova Lisboa tinha fechado. Ontem, ao passar por lá, li o recado que deixaram na porta a agradecer aos clientes os 65 anos de trabalho. Uma senhora telefonava a alguém a avisar que o almoço que tinham marcado afinal não se poderia realizar ali. "Não compreendo. Vou perguntar ao senhor do quiosque, dizia". 
Na esquina da rua, o McDonald's tinha muitos estudantes (a escola secundária é mesmo ali) e do outro lado da rua a esplanada  da "Padaria Portuguesa" estava cheia. Não sei se a abertura desta última há poucos anos terá contribuído para este desfecho. Eu que, confesso, não consigo gostar nem um bocadinho daquela cadeia de lojas, espero que não. As modas nestas coisas fazem a diferença, eu sei, mas não compreendo como muitas pessoas deixaram os seus cafés habituais para estarem imenso tempo em filas (é o que vejo, normalmente) para comprar produtos caros e com qualidade normalmente inferior ao propagandeado. Aquela coisa da "guerra dos bairros" então...
Bem, mas não é para dizer mal da Padaria Portuguesa que escrevi. É para dizer que, tal como outras lojas que vão desaparecendo, a Nova Lisboa faz falta a Lisboa.



terça-feira, 10 de março de 2015

As liberdades semânticas

                                Foto Aqui

Esta é uma fotografia do Hotel Porto Bay Liberdade, projecto do Arq. Frederico Valsassina. Em vários locais que referem a abertura deste hotel diz-se que foi preservada a fachada original do início do século XX ou, de forma mais abrangente, que preserva a fachada dos palacetes de Lisboa do início do século XX.
Ora, se é verdade que, relativamente a esta obra, tal como a outras, a liberdade de se gostar ou não é plena, a verdade é que dizer-se que se mantém a fachada original é o mesmo que dizer que a nossa receita de Bacalhau à Brás leva beterraba e inhame. É um facto que o bacalhau está lá. Mas chamar ao prato Bacalhau à Brás...


domingo, 8 de março de 2015

Ontem foi dia da mulher. Amanhã será dia da mulher.

Hoje é só o dia internacional da mulher.

                     Morning Sun, Edward Hopper, 1952

sexta-feira, 6 de março de 2015

Pais e filhos

Comecei a escrever este post num tom generalista que abandonei por me parecer que esta minha experiência não tem necessariamente que ser comum a mais ninguém (embora certamente seja).
Não seria difícil imaginar que a fase da adolescência das minhas filhas (e porque elas não são diferentes de todas as outras adolescentes) não iria ser fácil. Não é, realmente. E ultimamente tenho-me dado conta que esta será, provavelmente, aquela fase das nossas vidas em que o desequilíbrio em termos de personalidade entre mim e elas se encontra mais acentuado e em que a forma como olhamos a realidade se encontra no ponto mais alto de afastamento. Se, por um lado, as minhas filhas estão absolutamente cheias de certezas e não há argumentos que as demovam das suas convicções, eu estou naquela fase da vida em que percebo que as poucas certezas que ficaram da minha própria adolescência, afinal, são bem pouco resistentes à passagem dos anos. No meu caso esta situação é agravada pela circunstância de, até naquela altura, as certezas não abundarem para o meu lado. E se admiro a sua capacidade de defenderem, até com teimosia, os seus pontos de vista, sinto-me impotente por não conseguir explicar-lhes o quanto as suas ideias já foram testadas e ultrapassadas, o quão idealistas e impossíveis de concretizar são alguns dos seus objectivos. Depois ponho-me a pensar que é por ser assim, com esta consciência da imperfeição do passado sempre em mente, que me sinto tão velha e, decididamente, não quero que elas se sintam velhas antes de tempo. Se isso acontecer que seja depois das escolhas que fizeram e dos erros que cometeram. E falar-lhes dos meus erros pode ser importante mas não é determinante para que elas evitem os seus próprios. Mesmo entre pais e filhos as diferenças de personalidade e a perspectiva que advém do lugar em que cada um está podem ser demasiado grandes para que a forma de encarar as situações passadas sirva de aprendizagem. Lembro-me, então, da frase atribuída a Kierkegaard: "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente". E, face à dificuldade de conciliar no tempo as duas perspectivas, pois não podemos praticar as duas acções ao mesmo tempo, o que contará mais: compreender ou viver a vida?
Para esta pergunta é claro que não há resposta. Elas continuarão muito diferentes de mim. Os nossos tempos, no que à sabedoria diz respeito, nunca se cruzarão. Sabê-lo será, porventura, uma das maiores angústias dos pais. Estes, além do mais, têm a sua própria vida para viver. Mesmo que, olhando para trás, tenham dificuldade em compreendê-la.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Blogger... mas pouco

Eu gostava tanto de ter tempo... Tempo para escrever todos os posts que estão aqui iniciados na caixa dos rascunhos do blogue (neste momento são já 103 a contar com este). Vou deixando lá os assuntos que me suscitam interesse e sobre os quais queria escrever alguma coisa. Constato, no entanto, que, na maior parte dos casos, a oportunidade já passou. Notícias das quais já ninguém se lembra, filmes que já podemos agora ver nos videoclubes, exposições que já encerraram, ideias que não foram desenvolvidas e cujo raciocínio se perdeu. E agora, que nas estatísticas das visitas os endereços ligados ao spam são maioritários, percebo que este blogue está moribundo. Talvez possa ainda criar uma etiqueta com a designação "fora de tempo" mas, mesmo assim, não sei quando conseguirei ter tempo para este fora de tempo...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um documentário

A minha filha M. ficou acordada até mais tarde porque queria ver o documentário que a RTP1 iria passar sobre imagens feitas pelos aliados aquando da libertação dos campos de concentração nazis. Por ter passado tarde, acabou por não o ver. Eu vi e fiquei com dúvidas sobre se ela o deverá ver ou não. Bem sei que um documento histórico, como os que serviram de base a este documentário, é sempre importante para melhor compreender uma realidade. Mas este, que levantou questões interessantes sobre a divulgação, ao tempo, dos filmes então realizados; e que a RTP passou sem bolinha vermelha ao canto do ecrã, é demasiado definitivo. Uma mãe não deveria nunca ter que ajudar um filho a lidar com os sentimentos que aquelas imagens, por certo, suscitarão. Porque elas são demasiado reais e irreais e reais novamente, numa espiral de incompreensão que, por mais voltas que se dê, nunca terão qualquer paralelo com nada do que o nosso pensamento possa alcançar. Eu não lhe vou conseguir dizer grande coisa quando ela me questionar. Ninguém conseguirá certamente. Tantos anos de civilização e o ser humano ainda nos é tão desconhecido. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uma opinião original

Estação de metro da Alameda. O senhor que, segundo dizia, tinha acabado de sair do local de culto nas imediações está sentado num dos bancos e, enquanto espera, vai falando sozinho, mas em voz alta, talvez à espera que alguém lhe responda, o que não acontece. O seu discurso anda à volta dos acontecimentos internacionais das últimas semanas ligados aos atentados terroristas. Percebe-se que o preocupa o fanatismo religioso. Finalmente remata: - Eu vou lá (à IURD), mas eles também são uns "fanatistas"!

O nevão

"- Estamos aqui isolados, olhe!"
Quem o diz é uma habitante da aldeia de Sendim em Trás-os-Montes. Não lhe parece estranho estar a dizer isto enquanto está a ser entrevistada por uma jornalista que prepara uma peça que passará no telejornal das 8 da RTP. O desabafo não dirá respeito, certamente, à situação provocada pelo forte nevão. Serão outras coisas. Mais antigas, mais profundas. Estão isolados quase sempre. Hoje, por causa do forte nevão, não.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O concílio do A330

                                                 
                                              Foto aqui

Não é bem um concílio... Mas também se abordam questões pastorais, de doutrina, de fé e de costumes. E está a tornar-se um hábito. Será que assim o Papa Francisco se sente mais inspirado por supostamente estar mais perto de Deus?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Presa no subúrbio

Sim eu sei que "o tráfego automóvel continua a ser a principal causa da degradação da qualidade do ar na cidade de Lisboa, dado que constitui a principal origem de poluentes atmosféricos prejudiciais à saúde humana" e que há que cumprir o "Plano e Programa de Melhoria da Qualidade do Ar (Região LVT)". Também sei que quem toma as decisões não tem a culpa que eu não resida no centro da cidade ou que não tenha tido capacidade para, ao longo dos meus anos de trabalho, amealhar dinheiro suficiente para trocar o meu carro matriculado no ano de 1993.  
Mas com esta e outras medidas ninguém me tira esta sensação de falta de liberdade. E não é a liberdade para levar o carro para o trabalho, o que nunca fiz desde 1995, quando comecei a trabalhar em Lisboa. É a liberdade para, por exemplo, quando as minhas filhas estão doentes, poder levá-las ao médico que fica numa área da cidade onde, mesmo que só raramente, o meu carro não pode emitir partículas (PM10) e dióxido de azoto (NO2). A liberdade para poder chegar a um jantar num restaurante da capital antes das 21.30, sem ter que utilizar os transportes públicos que a partir de certa hora deixam de ser uma boa alternativa.  
A Avenida de Ceuta, o Eixo Norte/Sul, a Avenida das Forças Armadas, a Avenida dos Estados Unidos da América, a Avenida Marechal António de Spínola, a Avenida Santo Condestável e a Avenida Infante D. Henrique,  no período compreendido entre as 7 horas e as 21 horas passam, a partir de hoje, a ser os meus limites. Fico presa do lado de fora. Ainda por cima eu tenho esta mania parva de cumprir as regras...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Foram eles... Ou como os ovnis afinal são ovis

Tanto livro publicado, tanta série de televisão, tanto filme sobre o tema. Tantas vidas dedicadas a uma procura incessante de vestígios da passagem por aqui de seres de fora deste nosso planeta. Afinal havia uma explicação. A mais óbvia, a de que quase todos desconfiavam. A de que os criadores do nome da coisa foram os criadores da própria coisa. Para muitos, é um mito que se desmorona. Para outros, uma contribuição para a certeza de que não existem objectos voadores não identificados. Só objectos voadores identificados... Mas entre uns e outros há os que aguardam por novas notícias e que se questionam sobre se terão sido mesmo os U2 os responsáveis por todas as situações. Pelo sim pelo não é melhor não rever já a ortografia do acrónimo. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

A terceira e a sétima

Integrar a pintura no cinema é algo que nem todos conseguiriam fazer da forma como Mike Leigh fez. Mr. Turner, artista reconhecido e ao mesmo tempo incompreendido na Inglaterra do seu tempo, precursor nas técnicas, capaz de absorver, quer a natureza mais selvagem, quer as mais recentes inovações da era industrial; é-nos apresentado como alguém excêntrico mas absolutamente humano, capaz de actos tão elevados quanto censuráveis.
Mas o filme, se se centra na figura do pintor, leva-nos a conhecer melhor a sua obra e vai muito para lá de uma simples história de vida (dos seus últimos anos e que não nos é contada, apenas sugerida). Compreendemos as suas fontes de inspiração, percebemos as relações com os pintores seus contemporâneos, com os críticos, com os compradores das obras, com o público ou os públicos e a forma como estes olhavam o seu trabalho. E com esta abordagem entendemos melhor a sociedade inglesa da época com tantos pormenores que nos vão sendo dados a ver. 
Timothy Spall, no papel principal, está de facto fantástico e Dorothy Atkinson é também excelente como a mulher que mesmo tratada com crueldade nunca deixa de amar o seu patrão.
A fotografia do filme, fundamental e sob os holofotes com um tema como este, está à altura e cenas há que nos deixam com um sorriso de satisfação. Numa das cenas, uma das que mais gostei, um comboio, maravilha da tecnologia da época, surge real, para se transformar no tema de uma das pinturas que vemos imediatamente a seguir. O filme vale por si e por aquilo que nos sugere. As duas artes estão bem representadas, portanto.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Poesia para começar ou só recomeçar

NOVO ANO

Sempre que recomeço
eu descuro o tempo
tentando seguir o próprio passo

pelo trilho do ano
que acabou
desenredando os nós

do seu baraço

E aquilo que é futuro
à minha frente
tanto pode ser

rosa como aço

Mas ao querer entender
um outro tempo
eu entreteço

sonho, poesia, liberdade
um ano de luz
no seu começo

Maria Teresa Horta, 31 de Dezembro de 2014 
(publicado no Facebook)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Amanhã

Queria tanto escrever aqui qualquer coisa sobre o ano que passou... mas o trabalho nestes últimos dias não me deixou. Talvez amanhã, talvez num novo ano.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Presentes sem esforço

Há também esta questão dos presentes. Dantes recebiam-se e mesmo que não gostássemos das meias, da toalha de chá, do conjunto de chávenas, lá agradecíamos e ficávamos com as coisas a pensar que, em último caso, poderíamos oferecê-las no ano seguinte a uma das tias. Agora tudo o que nos dão e não serve ou de que não gostamos temos oportunidade de trocar. Já não há qualquer pudor em dizer abertamente que não é bem aquele o tom de que gostamos ou que preferimos outro autor no caso dos livros. Além disso já não são só as embalagens a denunciar onde se compraram os artigos. Há os "talões de troca" que facilitam muito. 
Mas se assim se tornam mais fáceis as trocas, de alguma forma também se desresponsabiliza quem oferece uma vez que o esforço para escolher o presente certo tende a diminuir. E o que dizer do papel que se gasta? Numa altura em que o aspecto ecológico é valorizado faz uma certa impressão que, para além do talão do multibanco e da factura (com dois papéis), haja ainda um talão de troca por cada artigo comprado.
E depois há ainda os cartões-oferta para quem não quer ter trabalho a escolher ou a pensar o que oferecer. Muitas lojas os têm. Em algumas podemos optar por diferentes modelos e é o máximo de personalização que podemos obter.
Tudo isto tem como objectivo facilitar o consumo. Mesmo assim, eu ainda tenho algumas dúvidas em relação a uns presentes que ficaram por dar...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Desabafo natalício

Mesmo não tendo uma especial ligação ao Natal, admito que estes dias têm algumas coisas positivas. Uma delas é, sem dúvida, pôr em contacto pessoas das quais, em alguns casos, só nesta altura temos notícias. Família, amigos e conhecidos, trocam entre si desejos favoráveis e optimistas, quase sempre, genuínos. 
Mas, de há uns anos para cá, deixámos de perceber se de facto quem nos envia os votos de Boas Festas está realmente a pensar em nós ou se limita a reenviar frases escritas por alguém, algures, não se sabe quando e que, só porque são engraçadas ou "cheias de significado", passam de telemóvel para telemóvel, de mural de facebook para mural de facebook, de forma absolutamente impessoal. 
Acho que começo a sentir saudades de um simples e sentido "Feliz Natal".

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"The state or time of being a boy" = All life

Acho que nunca tinha lido ou ouvido a palavra antes. Mas bastou ver a apresentação para saber que ia gostar do filme.
Richard Linklater em "Antes do Amanhecer", "Antes do Anoitecer" e "Antes da Meia-Noite" já me tinha habituado à simplicidade presente nas histórias e na forma como elas nos são mostradas. E simplicidade é uma noção de que gosto especialmente. A vida, com todas as suas vertentes, já tem em si uma complexidade extrema. E essa complexidade cabe nessa minha noção. Aliás, no cinema, como na literatura ou outras artes, são os filmes onde não há grandes artifícios ou excessos que mais gosto de ver. Até na forma como foi filmado, acompanhando o envelhecimento real dos actores, há um realismo desarmante.
No que tenho lido acerca de Boyhood sobressai a ideia de que é um filme sobre "a vida como ela realmente é". Mesmo que o argumento diga mais a algumas pessoas do que a outras, vê-lo é uma experiência que não pode deixar de tocar todos os que estão a crescer e todos os que já cresceram, ou melhor, que pensam que já cresceram. É que, na verdade, e suponho que esta é uma realidade comum a todos nós, apesar das mudanças físicas e ao nível psicológico, que nos acontecem e que fazemos acontecer ao longo da vida, fica sempre uma sensação de que há determinadas áreas em nós que permanecem inalteráveis nesse percurso.
E é dessas áreas que este filme se aproxima, lembrando-nos os tais momentos em que, paradoxalmente, deixámos para trás partes importantes de nós e seguimos em frente, levando-as connosco.  



Entre aspas, no título, está a definição dada pelo tradutor da Google. 
Curiosamente as duas imagens deste e do anterior vídeo apresentam rapazes na escola durante a infância.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um arquivo importante

Habituei-me a ouvir falar dela como a a única mulher que, até hoje, desempenhou o cargo de primeiro- ministro em Portugal. Eu era muito miúda quando isso aconteceu por isso achei a situação absolutamente natural. E era, claro. Mas não deixava de ser, também, uma novidade num país onde, até há pouco tempo atrás, as mulheres tinham tantas restrições na sua vida cívica. Ainda hoje quando se fala em Maria de Lourdes Pintassilgo é esse facto que se refere sempre, apagando outros que não deveriam ser esquecidos. É que esta mulher deixou uma obra importante, materializada em documentos como ensaios, relatórios, artigos, etc.
O seu arquivo político e pessoal estará agora à guarda do Centro de Documentação 25 de Abril na Universidade de Coimbra que virá a disponibilizá-lo ao público. O público, certamente, agradecerá.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Homonímia

"Só agora eu sei", "Senhor delegado", "Encontro por telefone", "Rosto inocente", "Busca sem fim", "Motivo", "Jogo sujo", "Queria tanto", "Vou pegar no pé", "Não tem mais jeito", "Porque você não responde", "Sei", "Agora é tarde", "Vá pra cadeia", "Chora", "Eu queria ter poderes", "Sei sei", "Não vou abrir a porta", "Nem pense nisso", "Te prendo outra vez", "De uma vez para sempre", "Chega de papo".

Alguns dos títulos de êxitos do artista brasileiro (já falecido), Carlos Alexandre.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Nos telejornais das oito

Depois dos directos constrangedores dos primeiros dias em que meios técnicos e humanos se amontoavam à frente do edifício do tribunal no Campus de Justiça, onde estaria Sócrates, passámos agora aos directos e reportagens frente ao estabelecimento prisional de Évora. Se no primeiro caso ficámos a conhecer melhor algumas das viaturas usadas pela PSP, agora ficamos a saber que naquele lugar se come queijo, que o local é muito usado como cenário de "selfies" e que é um bom sítio para o sindicato dos jornalistas fazer uma reunião com os seus associados.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ainda o Cante

Desde há alguns dias a esta parte toda a gente parece adorar o cante alentejano. Eu, apesar do episódio contado no post anterior, nunca lhe atribuí, pensando em mim em particular, uma importância relevante. 
Já como traço do património cultural percebo que tem um valor que se enquadra bem nas definições que levam a UNESCO a atribuir estas classificações. As regras daquela organização são muito rígidas e a burocracia necessária para se chegar onde o Cante chegou agora parece não ter fim. Mas, sendo um dos principais objectivos desta classificação, torná-lo visível a todo o mundo e contribuir para sensibilizar os poderes para a necessidade de se tomarem medidas para assegurar a transmissão desta forma específica de cantar, percebe-se, de facto, a sua importância. Claro que a inclusão nesta lista é um princípio e não um fim. Implica trabalho constante e a participação de um conjunto alargado de intervenientes pois não basta apenas identificar e protegê-lo. É preciso valorizá-lo, transmiti-lo, devolver às comunidades que o integram nas suas vivências, algumas das vantagens que estas classificações podem trazer. Ninguém deixará de concordar que, no caso do Fado, por inúmeras razões, esse movimento está mais facilitado.
Eu não passei a adorar o cante alentejano. Mas ele merece que as manifestações de regozijo que agora se multiplicam se transformem em verdadeiro apoio.  

domingo, 30 de novembro de 2014

Numa noite fria, no Alentejo

Na sala do lado, a do restaurante, as vozes, só de homens, misturavam-se naquele burburinho normal das refeições em conjunto. De repente, silêncio. E então, de forma que me pareceu espontânea, eles começaram a cantar. Eu estava de saída do bar daquele hotel. Aquelas vozes, naquele lugar de paredes brancas, fizeram-me sentir arrepios e ficar. Permaneci à escuta. Não havia na sala mais ninguém para lá daqueles homens. Eles cantavam para si, uns para os outros, numa comunhão de emoções que partilhavam por puro prazer. Talvez pela situação inusitada senti aquele como um momento mágico e não mais o esqueci.

(Este episódio passou-se há poucos anos, num hotel em Portel.) 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Um conceito moderno de televisão

É verdade que, naquela altura, a nossa escolha era muito limitada. A televisão oferecia e para nós era "pegar ou largar". Mas ninguém nos obrigava a ver o TV Rural. E, mesmo nas cidades, eram muitos os que não perdiam um. Certamente não era por acaso. E não foi por acaso, também, que aquele foi o programa com maior longevidade na televisão portuguesa (esteve no ar de 1959 a 1990). E o elemento chave era, sem dúvida, o seu apresentador, o Engenheiro Sousa Veloso que percorria o país a falar de um tema que manifestamente o apaixonava. Todos recordam o respeito que demonstrava pelos agricultores que entrevistava mas também pela própria natureza. A forma como ela era transformada pela agricultura era apresentada de forma didáctica mas também emocionante, até. Era um conceito muito moderno, mesmo se os meios técnicos não eram muito evoluídos. 
Esta noite, a RTP Memória passou um programa, de 2005, em que era ele o convidado. Percebi que o final do TV Rural não o preocupou tanto quanto a sensação que tinha do abandono da agricultura, enquanto actividade produtiva. E gostei de o ouvir dizer que ficava irritado quando ouvia, mesmo da boca de jornalistas, que estava um tempo muito bom quando, em tempo de chuva, ela teimava em não cair; porque se lembrava daqueles para quem a chuva era um bem precioso.
Talvez pelas minhas raízes rurais, durante alguns dos anos da minha infância e adolescência, nunca perdia um programa ao domingo. Provam-no os registos do meu diário. Depois fui crescendo e a minha atenção não acompanhou o TV Rural. Hoje, com a morte do Engenheiro Sousa Veloso, não podia deixar de o recordar.

Acto de contrição

Depois do post anterior, confesso que fiquei um pouco arrependida de ter brincado com esta questão. Não porque ache que no humor há assuntos tabus mas porque nesta, como noutras questões, todos falamos muito do que não sabemos. De facto sabemos tão pouco sobre o caso que é até constrangedor ouvir tanto comentador a dar a sua opinião. E se há os que se limitam a referir teorias aplicadas a cenários variados, há aqueles que enviam recados aos que têm o poder para fazer avançar o caso. Esperemos que estes façam o seu trabalho sem serem influenciados. Às vezes penso que deveriam fazer como os jurados em julgamentos. Fechavam-se numa sala, alheios às opiniões de outros e decidiam o melhor que podem. Todos nós, cidadãos portugueses, merecemos que tudo se faça de acordo com a lei. E a lei não prevê consultas a "opinadores" profissionais. Acho que mais vale, de facto, a abordagem dos humoristas que, essa sim, apela a sentimentos, quer os mais básicos, quer os mais elaborados, permitindo sempre um avanço. E nós precisamos mesmo de avançar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Um êxito a médio prazo

Não sei quem poderia fazer, no PS, um dueto com Sócrates, neste bonito tema... Mas um destes intérpretes tem o apelido Costa...

Publicidade, ali não, obrigada

Nas cidades, lugar por excelência da diversidade, cabe tudo. E desde que alguém se começou a dedicar à publicidade que esta está ligada àquele espaço de uma forma marcante. Dificilmente conseguimos pensar numa cidade sem os painéis, os mupis, e outros, que anunciam produtos ou acontecimentos. A eles nos fomos habituando e frequentemente nem os notamos. No entanto, muitas são as situações em que esses elementos criam verdadeira poluição visual. Na Europa há já alguns locais onde se tentou minorar os efeitos dessa realidade e agora os responsáveis de uma cidade com alguma dimensão, como Grenoble, vão tomar medidas que certamente terão grande impacto. Será um exercício interessante e cá estaremos para saber como correrá a experiência. Em cidades como Lisboa o que se perderia em verbas que chegam à câmara com a publicidade certamente não permitirá a realização de uma experiência semelhante. Mas não deixa de ser curioso imaginar certos locais sem o mobiliário urbano que suporta a publicidade. Eu já o fiz e gostei do que vi.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Popper ao final do dia

Tinha acabado de saber que se comemorava o Dia Internacional da Filosofia. De regresso a casa, no metro, a rapariga sentada no banco à minha frente comia uma maçã e olhava para fora, pela janela, embora, provavelmente, porque o que se vê é reflexo, o que via fosse o interior da carruagem.Terminada a maça tirou um livro da mala. Como é costume, espreitei para ver o título. Era Busca Inacabada, de Karl Popper. Não podia ser mais adequado, pensei. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A rapariga

Habituei-me a vê-la na rua. Sempre de chinelos de enfiar no dedo, de Verão e de Inverno. Aproveitava as portas entreabertas e esgueirava-se para o interior dos prédios, muitas vezes só para dormir nalgum canto mais escuro. O seu ar era sempre de alguém a quem o cansaço nunca deixava. Desta vez vi-a no centro comercial. Era um dia de semana à noite e pouca gente andava por ali. Provavelmente ninguém reparou nela. Dormia num sofá no meio do corredor, o corpo dobrado, a cabeça pendente para um dos lados. Estava descalça mas, numa das mãos, segurava um par de sapatos. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros sabia...

...que crescer não adianta muito. Hoje morreu um guri.

"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...)."

Citação copiada daqui

O marco do correio

Já tinha escurecido. Aproximei-me da passadeira e vi um homem, com cerca de 80 anos, a afastar-se do centro do passeio e a aproximar-de da berma. Travei e parei pensando que ele iria atravessar. Em vez disso dirigiu-se ao marco do correio que, apesar de ali passar todos os dias, eu nunca tinha reparado que ali estava e depositou nele uma carta. Fiquei surpreendida. Percebi, então, que há já muito tempo não via alguém a utilizar um marco do correio. Lembrei-me de mim própria quando era criança. Deve ter sido um dos primeiros recados que fiz. O marco do correio ficava no cruzamento. Quando dizíamos cruzamento já sabíamos que era daquele cruzamento que falávamos. Era preciso andar um bocadinho mas não tinha que atravessar ruas. E lá deixava as cartas que seguiriam depois para a aldeia no Norte ou para Moçambique e para o Brasil. Nessa altura achava extraordinário como é que, algum tempo depois, o envelope com aquela folha de papel iria estar na mão de outra pessoa que estava num sítio tão longe. Ao pensar nisso sorri sozinha. Depois avancei. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Para trocar o sofá lá de casa pela cadeira do teatro

Há cartões para tudo e para nada. Este é um cartão para uma coisa boa, muito boa: ir ao teatro. E a divulgação está interessante. Vários vídeos testemunham o que acontece quando se cruzam uma Maria e um Luiz. Este é um deles:




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Um ano com dores

Fazer uma ressonância magnética no Serviço Nacional de Saúde não é coisa fácil. Mas, após 8 meses à espera, lá conseguiu. O médico tinha-lhe dito para ir logo à consulta mal tivesse o resultado. Por azar, quando o resultado ficou pronto, o médico entrou de férias. Logo a seguir entrou em licença de paternidade. Quando finalmente, dois meses depois, a consulta ficou marcada para o mês seguinte ela pensou que bastava ter mais um pouco de paciência. Mas umas semanas depois uma carta informou-a que, por motivos imprevistos, a consulta tinha sido adiada mais um mês. Com resignação, pensou: ainda bem que é só um pé!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Enquanto o autocarro percorria as ruas

Foi o sorriso da rapariga que primeiro me chamou a atenção. Ela olhava em frente. Sentados nos bancos, que eu também via, estavam dois rapazes. Eram gémeos e, aos nossos olhos, só as roupas eram diferentes. Ambos tinham auriculares nos ouvidos. Não sabemos se estariam a ouvir a mesma música. Estavam de olhos fechados e as suas cabeças balouçavam nas mesmas direcções em simultâneo e com o mesmo ritmo. Durante longos minutos foi assim. Quem os olhava não podia, de facto, deixar de sorrir.

domingo, 26 de outubro de 2014

No interior de um tanque. No interior de uma guerra.

Não gosto de filmes de guerra. Por isso ir ver "Fúria" seria sempre um risco. Mesmo assim fui. Tinham-me dito que este era um filme diferente. Logan Lerman, que interpreta o papel de um muito jovem soldado que se vê, de repente, na tripulação de um tanque, dizia outro dia numa entrevista que, durante as gravações, todos os dias se chocava com o que via. De facto, mesmo estando com toda a equipa em filmagens não deve ser fácil participar naquelas cenas. A mim custou-me ver o filme. O seu realismo obrigou-me a fechar os olhos algumas vezes. Senti-me muito desconfortável como se também eu estivesse presa naquele tanque. Isso significa que eu não gostei do filme? Não. Isso significa que eu não gosto da guerra.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Refeição especial

Vou com alguma frequência ao Café Império. Mesmo que a comida não seja nada de especial, o espaço compensa. Fechado durante algum tempo, temeu-se que não voltasse a reabrir com a anterior função o que teria sido lamentável. Felizmente tal não aconteceu.
Integrado no edifício do Cinema Império, um projecto de Cassiano Branco, podemos ver, no interior, numa parede revestida a cerâmica (de Jorge Barradas), uma composição de esculturas de Martins Correia. Na mesma sala e ocupando uma área considerável, uma pintura mural de Luís Dourdil. 
Durante muito tempo, sentia-me triste ao olhar para esta obra, de 1955, tal era o seu estado de degradação. Nas últimas vezes que lá estive, porém, pude apreciar muito melhor aquele magnífico trabalho, agora restaurado no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do pintor.
Não sei se os estudantes que enchem a sala ao almoço estarão conscientes da importância das obras em causa. Talvez não. Eu sinto-me uma privilegiada por poder tomar uma refeição na sua companhia. Passem lá e vejam. O café ganha muito. Lisboa também. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Prémio "Um pouco de modéstia não ficava nada mal"

Se é que a TSF citou bem (foi de uma notícia da rádio que a copiei), foi assim que Cristiano Ronaldo se referiu às suas novas chuteiras: «Estas chuteiras têm tudo a ver comigo: são elegantes, bonitas e brilham (...)»

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma consequência positiva da greve do metro de hoje

Estava quase a chegar ao meu destino depois de longos 45 minutos de autocarro. O rádio foi-me fazendo companhia. Em pé e sem possibilidade de me mexer nem o livro tinha sido aberto.  Nada faria pensar que terminaria a viagem com um sorriso nos lábios com o prazer da descoberta. Mas foi o que aconteceu ao ouvir a voz de Marisa Mena, ou melhor, Mimicat. Esta voz e esta canção.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

Publicidade barata

Depois de ter herdado, há algum tempo, um iPod que está já bastante desactualizado, a minha filha mais nova tem tentado convencer-me que o ideal seria comprar um mais recente.
Após a minha argumentação no sentido de lhe dizer que faria mais sentido algo que a ajudasse mais na escola ela respondeu: -Sim, é um brinquedo... Mas eu ainda sou uma criança. E isso é bom. Isto depois do já clássico: - Não estou a pedir para tabaco.
Por fim, perante a minha pergunta: - E tem que ser mesmo um iPod?; ela responde: -Ó mãe, o mundo da Apple só tem porta de entrada. Não tem porta de saída.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Outono de Modiano

Não tenho uma opinião clara sobre a atribuição do prémio Nobel da literatura deste ano. Aliás, de nenhum ano. A sua importância é muito grande mas o júri, tal como noutros prémios, terá, certamente, dificuldades em decidir e as suas decisões não podem ser aceites por todos. Vem isto a propósito deste post do Pedro Correia. Depois de o ler resolvi fazer o mesmo exercício.
Tenho dois livros de Patrick Modiano. Dora Bruder, foi-me oferecido em Janeiro de 2001 e li-o no mês seguinte. A memória que tenho dessa história de uma rapariga de origem judia no período de ocupação de Paris pelos alemães não é nítida embora ache que gostei de o ler (a falta de sublinhados, no entanto, poderá indicar o contrário). Anos depois fui eu a comprar No café da juventude perdida (lido em Maio de 2012). Mais uma vez a personagem principal é uma mulher e o cenário é Paris, mas agora nos anos 60 (do século XX). Deste sei que não gostei especialmente. Mesmo assim, este último tem mais sublinhados. Deixo aqui um deles. Porque também gosto do Outono.

"Para mim, o Outono nunca foi uma estação triste. As folhas secas e os dias cada vez mais curtos nunca me recordaram o fim de alguma coisa, antes uma expectativa do futuro. Há electricidade no ar, em Paris, nas tardes de Outono, à hora em que cai a noite. Mesmo quando chove. Não fico deprimido, nem tenho a impressão de que o tempo me foge. Sinto que tudo é possível. O ano começa no mês de Outubro."

in , Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida, Edições Asa, 2009, pág. 16

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

505

Uma grande canção dos Arctic Monkeys que é, ao mesmo tempo, neste dia mundial da música, o novo valor do salário mínimo nacional em Portugal. Se, na canção, não podemos saber ao certo a que corresponde o número (que pode ser um quarto de hotel, por exemplo) já para muitas famílias portuguesas ele significa mais 20 euros por mês. Ainda chega para comprar um CD da banda britânica mas, dada a situação real, não me parece que seja a comprar discos que a maioria o irá gastar. 

Frugal, espartano e que mais?

Da Mouraria, para Lisboa. E agora, quem sabe, a caminho de Portugal inteiro... 
Alguém com um estilo de vida espartano pode ser exactamente o que o país precisa. Esta, pelo menos, será a opinião dos credores da dívida pública portuguesa. 
Para fazer jus a esta fama e depois de um primeiro-ministro a morar em Massamá e a passar férias na Manta Rota; ainda teremos um primeiro-ministro a morar num quartinho arrendado na R. da Imprensa à Estrela e a passar férias no Parque de Campismo da Costa da Caparica...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Parabéns, Sr. Joaquín Tejón

                                                                                                                  (imagem encontrada na net)

Os livros sempre tiveram, para mim, grande importância. Por isso, há muitos anos atrás, fiz uma lista dos livros que emprestei e das pessoas a quem os emprestei para não lhes perder o rasto. Infelizmente, nunca tive coragem de os pedir de volta e muitos deles nunca foram devolvidos. Entre eles estava o álbum "Toda a Mafalda".
Há muitos anos que não sei da amiga da altura a quem o emprestei. Ela certamente não conhece este blogue. Mas no dia em que se somam 50 anos desde que esta menina inocente e contestatária apareceu, pela primeira vez, nas páginas de um semanário argentino; apelo à sua devolução. Se tal não acontecer serei, certamente, uma das primeiras compradoras desta edição.
Gostaria muito de dar a ler às minhas filhas as reflexões, cheias de crítica social e de sentimentos de justiça, que Quino punha na boca da sua personagem, mesmo sabendo que, o próprio autor já o disse, Mafalda, hoje, seria diferente (esta entrevista é muito interessante).
Ao mesmo tempo não posso deixar de pensar que aquilo que me fascinava na idade que as minhas filhas têm agora, já não será tão marcante para elas. A minha ingenuidade, que encontrava eco nas palavras e atitudes da Mafalda, é difícil de repetir hoje em dia. Ou será que esta é a minha sensação, agora que essa ingenuidade se perdeu? Pelo sim, pelo não, o melhor é fazer as apresentações. Elas depois dirão.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Simpatizante "ma non troppo"

Sempre me julguei simpatizante do PS. Nestes últimos tempos percebi, no entanto, que não era simpatizante o suficiente para me inscrever como simpatizante. Da minha parte tinha todas as condições formais necessárias: sou cidadã portuguesa, tenho idade suficiente e estou inscrita no recenseamento eleitoral; não sou militante do Partido Socialista; não sou militante de qualquer outro partido político; não fui expulsa do partido; não fui reconhecida como demente, entre outras. Mas da parte do PS não estavam reunidas as condições mínimas. Entre Costa e Seguro só não se pode dizer que venha o diabo e escolha porque, provavelmente, um dos dois será, de facto, primeiro-ministro e o assunto já é demasiado do reino das trevas para pôr a personificação do mal a decidir. Confesso que Seguro tinha mais a minha simpatia porque sou das que, perante a sensação de vitória antecipada de um dos candidatos, tendem a pender para o perdedor. E o estilo "isto são favas contadas" de Costa não me agrada. Mas isso não chega para querer ver Seguro como primeiro-ministro de Portugal. Por isso esta disputa despertou-me um interesse relativo. Nem vi os debates anteriores. Mas, esta noite, lá me predispus a ouvi-los. Já me tinham falado da estranheza que é ouvir adversários tratarem-se por tu. Mas isso ainda foi o menos. O que se viu e ouviu não esclareceu absolutamente nada mesmo quem, ao contrário de mim, apresenta um grau de simpatizante suficiente para votar no domingo. As disputas de estilo e as acusações trocadas sobrepuseram-se a qualquer assunto ligado a propostas concretas que, no futuro, possam vir a ser apresentadas. Fiquei com a sensação de que, depois do debate de hoje, será muito difícil aos dois candidatos e respectivos apoiantes entenderem-se num futuro próximo. E isto tudo dentro de um mesmo partido... 
Ora, numa altura em que se questiona se estes não serão os últimos dias de Passos Coelho no Governo, mercê de uma situação que tem a ver, não com alguma medida concreta do executivo, mas com um crime que, mesmo que o seja, já não o é, e que envolve dificuldades de memória do primeiro-ministro; nesta altura, dizia, poderia ser mais fácil simpatizar com o Partido Socialista. O facto é que, com uma situação interna destas, nem com estes bombons oferecidos pela Comunicação Social, os simpatizantes serão capazes de simpatizar mais que um tanto...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A t-shirt

Era ainda cedo mas, pelo passo apertado, já deveria estar atrasada. A inclinação da rua, acentuada, não ajudava e as crianças, agarradas a ela em fila indiana, meio arrastadas, trotavam no passeio estreito até ao cimo, onde ficava a escola. A sua expressão fechada e de preocupação acentuava-se quando se virava para trás e dizia: - Vá lá! Despachem-se, que eu ainda tenho que ir trabalhar! Deixá-las-ia junto ao portão e desceria, novamente apressada, para ir em direcção à estação dos comboios, provavelmente, rezando para que o patrão não lhe descontasse a primeira hora que já não faria por completo. Na t-shirt que vestia estava escrito" La vie est Belle".

O lado bom

ou a ingenuidade numa canção:

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Enganos

Ontem entrei num café e li em rodapé na televisão "Quaresma no banco". Pensei cá para mim: - Olha, queres ver que o Banco de Portugal resolveu colocar de quarentena o Novo Banco?
Quando chegou a vez de falarem sobre o assunto percebi que, afinal, a notícia era sobre o facto de Lopetegui ter decidido deixar Ricardo Quaresma no banco de suplentes, num jogo do F. C. Porto.
Sendo assim, parece que os coleccionadores de lepidópteros não precisam de cumprir um período de meditação preenchido por jejuns e orações. Para alguns dos que se têm pronunciado sobre este assunto a ressurreição terá que ser precedida de uma reflexão. Para outros, mais vale agir já, convencidos que estão de que o arrependimento dos pecados não leva a lado nenhum. Entre uns e outros os fiéis estão confusos e por enquanto sentem-se em plena época carnavalesca.
Seja como for, o treinador é que decide quem põe a jogar e todos (accionistas e depositantes, perdão, sócios e simpatizantes) esperam que o resultado do jogo seja favorável. Aliás, os portugueses em geral, salvo alguns mais empedernidos, torcem por esses bons resultados. É que, mais uma vez, mesmo quem não comprou bilhete, pode ser chamado a contribuir, em caso de derrota.

Lá estão eles outra vez...

Ainda o calor aperta e já os estudantes mais velhos correm para as universidades vestidos de preto e branco envergando as pesadas capas ou levando-as apenas no braço. O traje académico, um nicho de mercado aproveitado pelas empresas que os produzem, é usado com desenvoltura por uns, com alguma falta de jeito por outros. É a integração dos caloiros que os move, dizem. Estes, ao fazerem a matrícula, cumprindo uma obrigação que fariam de qualquer maneira, vêem-se "ajudados", por estes colegas mais velhos, quer queiram quer não. Talvez por serem tão visíveis ficamos com a ideia que, por cada caloiro, há dois ou três alunos mais velhos que zelam pela sua "feliz integração". Penso não existir nenhum estudo sobre a postura dos novos alunos perante as praxes. No entanto, certamente, serão muito variadas, incluindo os que as praticam por prazer até aos que se recusam a participar. Muitos, sem qualquer convicção, limitar-se-ão, de forma passiva, a tolerar a situação pensando que os anos que passarão na universidade serão mais difíceis se não o fizerem. Para esses, a campanha lançada pela Secretaria de Estado do Ensino Superior que tem como um dos slogans “Não és obrigado a ser praxado!" poderá servir como um alerta que eventualmente os fará, pelo menos, pensar.
Em todo este panorama, há algumas coisas que me intrigam (obviamente, sem generalização possível): o afinco com que estudam regulamentos de uma maneira que nunca repetirão com as sebentas; o aprumo dos trajes que vestem que dificilmente repetiriam se fossem incorporados na vida militar; a observância de hierarquias rígidas; a agressividade, mesmo que apenas linguística e aparente, de "praxantes" para com "praxados"; o cumprimento de regras que, em quantidade e qualidade, rivalizam com as de uma verdadeira sociedade secreta. Isto quando, com frequência, esquecem e passam por cima das simples regras da boa educação e da convivência com os seus pares e pessoas com quem se cruzam.
Mas o que mais me chama a atenção e que muitas vezes apercebo em conversas ouvidas na rua, é a ânsia dos novéis universitários em serem praxados como se disso dependesse o sucesso da vida académica ou, pelo menos, daquela parte da vida académica que mais suscita entusiasmo: a que acontece fora das aulas. Não sei se as preocupações com os conteúdos das cadeiras que têm que fazer alguma vez rivalizará com as preocupações em cumprir as normas apertadas impostas pelos códigos das praxes. Fico com a sensação de que o objectivo da frequência universitária não é, para muitos, a formação e a preparação para a vida profissional mas sim este percurso de alguns anos em que o que conta é brincar a ser estudante em vez de verdadeiramente o ser.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

The big puffs are watching you

Pois eu nem dados queria esta espécie de budas sentados em versão filme de terror...


Maniche em dose dupla ou as personalidades que ficaram em casa

Mais um momento divertido nos telejornais das nossas televisões, neste caso, da RTP 1. José Rodrigues dos Santos falava da rescisão de contrato de Paulo Bento com a Federação Portuguesa de Futebol. Depois de Gilberto Madaíl apresentar a sua surpresa via telefone passa uma entrevista a Maniche que dá a sua opinião sobre o assunto. De seguida o apresentador anuncia que "muitas figuras do futebol concentraram-se no lançamento de um livro sobre José Mourinho" onde se encontra, em directo, um repórter do canal. Este dá imediatamente conta aos telespectadores que "houve algumas personalidades que acabaram por não comparecer de alguma forma também para fugirem às reacções" à notícia desportiva do dia. Mas uma estava no local. E quem era? Nada mais nada menos que Maniche que teve direito a dar a sua opinião pela segunda vez, agora em directo. 
Quanto ao livro apresentado, de um autor que já escreveu a biografia de Paulo Futre, é descrito como "uma análise de Mourinho numa analogia entre futebol e música", sendo o treinador comparado a Jim Morrison ou Mick Jagger. Tenho impressão que as figuras do futebol português gostam mais dos Beatles.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Go ask Alice

Esta é uma música muito adequada aos dias de loucura que o mundo tem vivido e que as televisões nos têm devolvido. E tem a minha idade... Não podia ser mais actual. Talvez a Alice saiba mesmo. Nós definitivamente não. E juro que não comi nenhum bollycao crack...

domingo, 31 de agosto de 2014

Crack!?

Considerando que o crack é uma das formas mais perigosas de consumir cocaína o que é que teria passado pela cabeça dos responsáveis da Panrico quando resolveram dar o nome de bollycao crack a um dos seus produtos? E o spot publicitário é, no mínimo, de mau gosto. Numa suposta "Vila Crack" os seus habitantes apresentam um comportamento... agitado e eufórico porque comem o tal bollycao crack. O protagonista ainda pergunta, incrédulo: - crack!? Pois...

Na feira

À sua volta as luzes fortes e a música estridente das diversões enchem os olhos e os ouvidos de todos os que passam e que parecem não se incomodar. Também ele parece indiferente à algazarra. Olha as filas que se formam junto aos carrocéis que são novidade este ano. Ali, à frente da sua barraquinha, não está ninguém. Os cromados brilhantes, os nomes em inglês e os apelos gritados pelos altifalantes atraem o público, mesmo que aquilo que se paga por uma "viagem" que dura poucos minutos afaste algumas pessoas com bolsos menos recheados. A sua atitude contrasta com a dos outros feirantes. Vestido com fato e gravata, calado, limita-se a estar perto da espécie de teatro de fantoches onde três bonecos nos olham. Numa mesa, três bolas de pano esperam que alguém pague para as atirar contra os bonecos. Apenas isso. São quase iguais aos bonecos e bolas que se encontravam nas feiras na sua infância. De repente, o homem anima-se. Um pai aproxima-se com uma criança. No entanto o objectivo não é atirar as bolas mas utilizar a mesa para a criança se sentar enquanto o pai lhe ata os atacadores dos ténis. A criança nem olha para os bonecos. O homem olha para a criança. Está triste. Penso se para o ano ainda cá virá...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Captain! my Captain! our fearful trip is done...

Dizem que era um dos melhores actores de comédia de sempre. Dizem que nos papéis dramáticos nunca deixou de nos impressionar. Dizem que o álcool esteve sempre presente na sua vida. Dizem que a cocaína também. Dizem que tinha uma depressão grave. Dizem que se suicidou. 
Há umas semanas atrás, vi com as minhas filhas "O Clube dos Poetas Mortos". Achei que já era tempo de verem o filme que ficará sempre associado à passagem à idade adulta e à ajuda da figura livre que era o professor Keating, Robin Williams. Elas gostaram do filme. Saber isso é a minha homenagem.

“Fui para os bosques para viver livremente,
para sugar o tutano da vida,
para aniquilar tudo o que não era vida,
e para, quando morrer, não descobrir que não vivi.”

Thoreau

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Canto porque és real"

Porque sou fã de Fausto e de Noiserv gostei desta versão ainda antes de a ouvir.



E depois também.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Escorregando...

As imagens deste vídeo fazem disparar a imaginação. Mal o vi pensei em alguns assuntos que poderiam ser comentados, num tom humorístico, à luz deste mega escorrega.
A primeira coisa de que me lembrei é que, comparada a isto, a iniciativa de um presidente de uma Junta de freguesia da Capital ao reutilizar, como piscina, um lago num jardim, não é nada!
Já António Costa, continuando no tema autarquias, se visse isto teria certamente vontade de aproveitar a ideia para instalar “uma destas coisas” desde o Largo do Rato, via Marquês de Pombal e Av. da Liberdade, atravessando a Baixa para finalmente desaguar no Tejo (com direito a duas voltas completas na rotunda). Para a sessão experimental seriam convidados Seguro e os seus apoiantes, de preferência sem bóia ou colchão…. Ou então, dada a circunstância de ser Seguro o actual inquilino do edifício que já se designou Palácio Marquês da Praia e Monforte (isto anda tudo ligado), poderia ser ele a querer levar a ideia para a frente (mas talvez, neste caso, a obtenção da licença fosse mais complicada). O mais certo seria os dois digladiarem-se para ver quais dos dois seria o autor da iniciativa…
A verdade é que o caso GES/BES veio fazer com que outras imagens se sobreponham. As escorregadelas, trambolhões e reviravoltas dadas pelos utilizadores deste escorrega associam-se quase involuntariamente na nossa mente à situação actual de muitos portugueses, das nossas empresas, da nossa economia, no fundo de todos nós. Isto tudo, obviamente, sem a sensação de alegria que parece estar presente no caso dos moradores de Salt Lake City.
Este ano, se pensarmos nas notícias, quer nacionais, quer internacionais, parece que a silly season definitivamente não nos visitou.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

No jardim do Campo Grande

Calças demasiado curtas para as pernas. Fato demasiado quente para um dia de Verão. Mãos que junta atrás das costas, demasiado vazias para trazer alguma coisa consigo. Passos demasiado lentos para ir ao encontro de alguém.