sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Estado de espírito para 2012

Um pessimista e um optimista conversam sobre a vida e as dificuldades do momento.
Diz o pessimista: 
- Isto bateu no fundo! Não há já mesmo nada a esperar. Pior que isto é impossível! Da maneira que estamos pior não pode ficar!
Responde o optimista:
- Ai pode, pode!

Um outro método

Há já algum tempo que não ia ao cinema. Hoje vi: "Um método perigoso". Não é um filme típico de Cronenberg  diz quem sabe. Não será. Mas muitos foram os motivos para ter gostado deste filme. A beleza das imagens, a reconstituição da época que me pareceu muito bem conseguida, a interpretação dos actores, numa pose muito teatral e sobretudo a hipótese de ficarmos a conhecer (para quem não se interessa tanto pelas coisas da psicologia) as ideias de Freud e de Jung, aquilo que os aproximava e afastava. Baseando-se no que realmente se terá passado, este filme lembra-nos as constantes partilhas entre o desenvolvimento da ciência e os contextos em que ela é produzida. E não nos deixa esquecer que os homens que lidam com sentimentos dificilmente deixam os seus próprios sentimentos de lado.

"Come on, get happy Cause nothing lasts forever"

Fez ontem 65 anos. Com uma vida tão cheia certamente não a esqueceremos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Além disso os EUA não são em África nem são o Brasil...

Hoje, logo pela manhã, mal liguei o computador, pensei que Passos Coelho me tivesse mandado um email. Era um convite para participar na lotaria oficial do green card dos Estados Unidos. Dizia "Viva e trabalhe nos EUA. 55,000 pessoas ganharão um green card para os EUA para a vida toda". "Inscrição fácil e assistência online a cada passo". Só depois percebi que era SPAM.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Desabafo

O que vale é que só teremos novamente um dia como este daqui a um ano!

Onde estavam vocês no Natal de 1984?

Ao longo deste dia ouvi várias vezes, na rádio, passarem esta canção. Também em programas de televisão ela apareceu como "a" canção de Natal, para várias pessoas. Eu lembro-me bem dela. Mas daí até destronar o Sinatra... Pelo sim, pelo não, podem ver o original, esta versão dos Clã, esta de David Fonseca, ou esta de Erlend Oye, dos Kings of Convenience:

Despedida de... (como hei-de chamar-lhes)... pré-procriadores?

Tínhamos a honeymoon. Agora temos o babymoon. Dizem os inventores da ideia que é uma despedida dos momentos a dois dirigidas aos futuros papás. Esta inclui sessões de massagens relaxantes. De acordo com a tradição cristã, há 2011 anos, um casal fez o mesmo mas o método escolhido foi a caminhada.

sábado, 24 de dezembro de 2011

É Dezembro, de certeza. Natal, hum...

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma questão de reputação

Embora sabendo nós que estas classificações valem o que valem é interessante perceber que este ano as boas notícias sucedem-se. E será que esta boa imagem da cidade, para quem está de fora, corresponde a uma percepção semelhante para os que cá estão? É que parecê-lo é importante. Mas sê-lo ainda é mais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um Natal pela metade


Desde que nasceram as minhas filhas que a época natalícia lá em casa começava quando, numa das primeiras noites de Dezembro, íamos até à Baixa de Lisboa ver as iluminações de Natal. Era apenas um pretexto. Lanchar, comprar castanhas assadas e comê-las enquanto passeávamos, víamos as montras e apreciávamos os efeitos das luzes era um ritual que já fazia parte das nossas vidas.
Este ano a crise interrompeu a tradição. Devido à necessidade de contenção de despesas a Câmara Municipal de Lisboa decidiu cortar nos gastos e não há iluminações. Algumas instalações de alguns artistas nas principais praças da cidade é o que nos lembra a época. Compreendo e aprovo esta decisão. Mas não posso deixar de sentir que o Natal em Lisboa não será a mesma coisa. Para quem, como eu, tem um défice de espírito natalício sair ao final da tarde do trabalho e passear por baixo das luzes era algo que gostava de fazer e que, de alguma forma, me aproximava mais de algo a que não atribuo grande importância.
E se, por exemplo, Fernão de Magalhães, na Praça do Chile, está muito bem protegido por centenas de chapéus de chuva coloridos, já quem percorre a R. Augusta e chega ao Arco encontra umas metades de árvores vermelhas que nos demonstram que, pelo menos este ano, é difícil termos um Natal inteiro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Miúdos

Têm cerca de 11 anos. Estão os dois sentados na rua, numa daquelas caixas de electricidade. O passeio não é largo e as suas pernas, que esticam à vez, quase parecem tocar os carros que passam. Riem. Têm um ar feliz. Estão de mãos dadas. 

Água mole em pedra dura...

Ora, cá está!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um título duvidoso

Para alguma coisa acabar com outra coisa não é suposto a segunda coisa existir? É que, pelo menos na parte que me toca, é uma questão que não se coloca há muito tempo...

Bicicleta a pilhas

O ciclista efectuava, com a sua bicicleta de plástico e metal, voltas e mais voltas. Enquanto as pilhas não se gastassem, o dono da loja iria continuar a pô-la em movimento. A música incorporada no brinquedo (o que mais afasta potenciais compradores), não parava, fazendo eco naquele túnel de acesso à estação dos comboios. A mulher estava encostada a uma parede. Os seus olhos não paravam de olhar o boneco. Não pareciam vê-lo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A bandeira

O local é o Centro Escolar Republicano Almirante Reis. Numa das paredes uma vitrina com uma bonita moldura castanha. Dentro dela uma bandeira, a bandeira portuguesa. Está gasta e as linhas utilizadas para bordar a esfera e o escudo estão a soltar-se do tecido, que por sua vez está a esboroar-se. As cores, que ocupam exactamente a mesma área e estão dispostas de forma oblíqua, estão já desbotadas. Uma bandeira cheia de história.

E mais qualquer coisa...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quem tem recursos... mete recursos

"Ora dá cá um 
A seguir dá outro
Depois dá mais um
Que só dois é pouco..."

Lembrei-me da canção do Herman a propósito desta notícia.              

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mais uma vez: "Sweetheart, you're so cruel"

O caso é sério. Mas apetece mesmo brincar.
Com o motivo, prosaico mas compreensível: o rapaz "estava «entediado com a namorada» pois «ela não era tão bonita como as raparigas que via no ginásio» e queria «livrar-se dela»"; 
com a capacidade de rivalizar com os melhores truques de escapismo de Houdini, da rapariga que "conseguiu abrir a caixa e sair da vala «com muita dificuldade»";
com a pressa e ansiedade demonstrada pelo criminoso que "duas semanas antes de tentar matar a namorada, ... mudou o seu status de «casado» para «solteiro» no Facebook"
e com a explicação do promotor que elucidou que «enterrar alguém vivo tem consequências que são conhecidas. Depois de pouco tempo a pessoa morre por falta de oxigénio".
 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

"Sweetheart, you're so cruel"

Numa altura em que Bono terá confessado algumas dúvidas em relação às suas capacidades vocais aqui está uma versão do meu agrado de "So cruel".

A espada e o escudo

O rapaz caminhava com as mãos nos bolsos, com um ar bastante decidido. Da mochila pendia o escudo. A espada tinha sido colocada transversalmente no topo. Eram de cartão mas a segurança que transmitiam fazia-nos imaginar que ele estava a regressar de um torneio medieval onde a sua agilidade com esses objectos lhe teria permitido alcançar o prémio da sobrevivência. Estaria ele disposto a contar as suas aventuras?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Em que estou a pensar...

A minha relação com o Facebook sempre foi de desconfiança. Não me perguntem porquê. É uma coisa instintiva. Lá tenho uma conta e alguns amigos. Mas para além de dizer que gosto de algumas coisas, comentar muito de vez em quando e mandar parabéns, pouco lhe ligo. Passam-se, aliás, muitos dias sem que lá vá espreitar. 
Não sou muito adepta das teorias da conspiração. Mas a minha postura em relação a quase tudo é acreditar que tudo é possível. Daí achar que a questão levantada por este rapaz pode fazer sentido.



Ah, quanto a este vídeo vi-o, pela primeira vez, no Facebook.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Por enquanto...

Embarcações, naves...

Aqui há uns anos estive no barracão onde o local de culto e todos os outros serviços da Paróquia de S. Francisco Xavier funcionavam. De facto, o espaço deixava muito a desejar. O Padre Colimão não conseguia milagres. E a capela ou ermida de S. Jerónimo não servia os propósitos de uma paróquia com bastantes fiéis. Depois de tanta polémica parece que este sábado lá será inaugurada a nova igreja do Restelo. Apesar das alterações ao projecto inicialmente apresentado esta versão continuará a merecer muitas críticas. Lá irei fazer umas fotografias qualquer dia.
Quanto a esta lá continua a estrutura à espera de ser preenchida pela... apetecia-me dizer carlinga mas isso é só a parte de cima da nave... 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma versão que nos faz sorrir

Passe a publicidade (apesar de ser uma boa causa), a verdade é que achei muito engraçada esta versão do Rui Pregal da Cunha para a canção "Indo eu, indo eu..."

sábado, 26 de novembro de 2011

O estádio de Babel

Ena!...
Já repararam que este sábado no Estádio da Luz vamos ter um jogo em que os dois treinadores são portugueses? Deve ser tão interessante ouvir as instruções que eles gritarão para dentro do campo! E qual será a língua utilizada?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Blue Mountains

A minha belíssima nota no exame global de História no 12.º ano (ou terá sido no 10.º?) foi obtida com uma enorme ajuda do "Por Este Rio Acima". Sabia as letras todas de cor (ainda hoje as sei) e muitos dos termos serviram, que nem uma luva, às respostas às questões colocadas. 
As "Crónicas da Terra Ardente" já não "li" com o mesmo fervor. Mas merecem um lugar especial.
Agora Fausto lançou o último volume da trilogia. Curiosamente o tema que Vinicio Capossela explora no seu último disco, lançado também este ano. Do que já ouvi pareceu-me uma sonoridade muito semelhante aos anteriores volumes com o que isso tem de bom e de mau. Mas só ouvindo...
Ainda não sei onde ficam as montanhas azuis de que fala Fausto. Serão as da Austrália? Se souberem não me digam que quero ser eu a descobrir.

A minha ironia

Depois de ver o post do jaa apeteceu-me falar da "minha ironia". É que hoje também foi um dia bastante produtivo. Fiquei a trabalhar em casa e o dia até rendeu bastante, mesmo descontando o tempo em que tive que interromper para fazer de mãe e "dona de casa" uma vez que as minhas filhas, como não tiveram escola por causa da greve, estavam comigo. 
Por contingências pessoais, esta funcionária pública que sou viu-se, este ano, a ganhar menos e a trabalhar mais por ter decidido mudar de local de trabalho abraçando um novo desafio, que só com muita força de vontade se leva a bom porto. E um relatório a entregar segunda-feira obriga-me a um esforço extra. Sabia, portanto, que não poderia perder um dia de trabalho nesta altura. 
Mas vamos lá à ironia: a primeira coisa que fiz de manhã foi telefonar para o sítio onde trabalho a avisar que faria greve para registarem a respectiva falta. Pois é. Já ouvi e li os argumentos que demonstram que não serve de nada, que prejudica mais o país que outra coisa. Compreendo e respeito os que não fizeram greve. Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. Foi com muitas dúvidas que decidi aderir, tal como o tinha feito há um ano atrás. Podem argumentar que assim não vale. Fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve. As minhas filhas também não compreenderam. Na realidade não só não prejudiquei como beneficiei o Estado pois além do dinheiro que poupou, nem a água e a luz consumi.
Mas digo-vos: o dinheiro perdido é compensado por este sentimento de que, mesmo no meio das contradições e desconhecendo quais os números reais, estou no lado certo das estatísticas.

post publicado também aqui.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Tenham dó!

Hoje nuns minutos que vi de um concurso na televisão, daqueles em que os concorrentes respondem a perguntas de cultura geral,  o apresentador pedia: complete o seguinte verso da canção dos Beatles. Obladi Obla..... E o  interrogado respondeu: ...dó.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A pequena harmónica

Era de manhã cedo. Chovia. Não muito mas o suficiente para me obrigar a semicerrar os olhos enquanto caminhava. Na minha direcção um homem aproximava-se. Pareceu-me que aquecia as mãos enquanto andava. Quando passou por mim percebi que não era essa a explicação para as mãos junto ao rosto. Ele tinha uma pequena harmónica que tocava baixinho, como se fosse só para ele. Só para o ajudar a caminhar. À chuva. Sozinho. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

domingo, 20 de novembro de 2011

Parabéns Rui, Tóli e Jorge

Desde a altura em que o Alexandre, o Vítor e o Tóli queriam ver Portugal na CEE até hoje eles mudaram bastante. O país mudou bastante. Também eu e muitos dos que começaram a ouvi-los nessa altura mudámos muito. É certo que há muitos anos que deixei de os acompanhar, musicalmente falando. Mas é um facto que fazem parte da minha história.

Pouca terra...

Não será exactamente, como era no início da exploração da linha, uma viagem "morosa, poeirenta, fatigante, sacudida de solavancos", como se lê neste texto publicado no "Cantinho dos Comboios" pelo Luís.
No entanto, de há algum tempo a esta parte, parece que, na linha de Cascais, temos andado para trás no tempo. A supressão de comboios, que começou por ter umas desculpas esfarrapadas e a garantia que era uma situação temporária até se tornar num facto permanente; notícias sobre as dificuldades em garantir a manutenção do material; a falta de limpeza das composições, pelo menos no exterior, que tornam os comboios um misto de mupi para colocar publicidade e parede para vermos graffiti; são a face mais visível da situação. 
A austeridade, ao que parece, é a grande culpada impedido a CP de equacionar a compra de novos comboios e de cumprir o que até agora era uma obrigação. A empresa tem perdido certamente. Mas, sobretudo, perdemos todos nós. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Crazy. Uma versão.

Concorrência

O metro parou e as portas abriram-se. Eles estavam prestes a entrar. Com os seus bombos, guitarras, triângulos e as vestes pretas queriam, certamente, dar música aos passageiros. Mas, mal a primeira entrou na carruagem, imediatamente recuou e, com ela, todos os outros. O homem, com o acordeão já bastante velho, tocava "Les feuilles mortes" com empenho e concentração. Naquele momento era ele o rei. Não havia lugar ali para mais músicos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um prazo demasiado curto

Sem saber que filme escolher abri a página do CineCartaz. A imagem de um filme chamou-me a atenção. Era Restless. Li a sinopse e apesar de estranha achei a história interessante e arrisquei. Depois de tanto tempo sem ir ao cinema este foi um regresso inquieto. 
Escolher o que fazer quando se tem pouco tempo de vida,  agir no presente sabendo que em breve ele será passado... Ou então lidar com o passado quando é ele que assombra o presente. Simultaneamente sabe-se que os últimos dias são os melhores e mais importantes de uma vida. 
Não percebi ainda o que sinto em relação a esta história. Mas conseguimos compreender as personagens. Admiramos a coragem de Annabel. Percebemos o comportamento de Enoch. Sofremos com Elizabeth. É por isso que o filme nos toca tanto. Afinal de contas quantos de nós não estão inquietos?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A propósito de museus

Ao fim de algum tempo a pensar ir lá fui, finalmente, ao Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. O edifício, projectado por Alcino Soutinho, cumpre muito bem a sua função. 
A exposição permanente permite-nos ficar com uma perspectiva global. Numa época em que me parece que se tem esquecido com frequência este movimento este museu lembra-nos a sua importância histórica e literária. A minha geração, logo a seguir a Abril de 74, recorda-se certamente de muitos textos que constavam dos livros da disciplina de Português e até dos livros de leitura obrigatória, numa tentativa de compensar os muitos textos censurados e as vidas difíceis dos seus autores antes dessa data. Muitos de nós tomavam contacto com estes escritores nessa altura. 
Um dos que mais líamos era Alves Redol. O seu Constantino, personagem admirável, tinha a nossa idade e apesar de estar longe de nós, no tempo e na vivência, vivia as aventuras que nós imaginávamos que gostaríamos de viver também.
E até final deste ano, em que se comemora o centenário do nascimento de Alves Redol, o museu dedica-lhe uma importante exposição. Vale a pena ir até Vila Franca. Uma grande parte da História do nosso país no século passado está lá. E nunca é demais lembrarmo-nos dela.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Arte na rua

Os museus não estão mortos. Alguns estão adormecidos. É um facto. E a arte na rua existe desde sempre. Os custos são muito limitados e o público está quase sempre garantido. Mas o que terá acontecido a esta obra com a chuva que tem caído?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ciclos

Mais do que os enfeites em espaços comerciais, que já estão aí, o dia em que "o homem do lixo" bate à porta é um sinal de que entrámos na época natalícia. E hoje, estava eu a fazer o jantar, lá apareceu um funcionário da autarquia com o seu fato laranja a entregar um papelinho, que já foi um cartão mas que agora é apenas um pedacinho de papel mal cortado, onde vemos um pai natal e uma fotografia de uma camioneta do lixo, modelo de brinquedo. O texto diz invariavelmente o mesmo, de ano para ano: "o pessoal da camioneta de recolha do lixo deseja a V. Exa. e família um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo". Mas este ano não me limitei a dar a minha pequena contribuição da praxe e dei também uns dedos de conversa. O Sr. Daniel, assim se chama, trabalha há 30 anos na câmara. Já conheceu dois presidentes, muitos vereadores, chefes, técnicos. Queixou-se de que ninguém quer fazer o trabalho que ele faz. Mas há que aguentar que "isto está mau". Os 475 euros por mês chegam-lhe para pagar a renda de uma casa num bairro social e contribuem para a sobrevivência da família agora reduzida a duas pessoas desde que as suas filhas constituíram, elas próprias, uma família. Do passado recorda a noite fatídica, num dia de 1979, em que a tempestade lhe levou o seu bebé de 7 meses, arrastado numa vertente junto a um dos faróis, ali mesmo na Marginal, onde ficava a barraca onde viviam. A imagem de um rapaz de 18 anos com o bebé nos braços e da sua mulher de 15 a fazerem sinal aos carros para pararem numa tentativa desesperada de salvamento deixou-me uma forte impressão. E, no entanto, foi o seu sorriso que mais marcou toda a conversa. Mesmo quando contou que o presidente da Câmara da altura, em visita ao local, não encontrou nada melhor para dizer a não ser que a vista daquele sítio para o rio devia ser uma maravilha no Verão. 
No fogão os meus tachos reclamavam atenção. Despedi-me com o tradicional "boas festas". E ele lá seguiu para bater a outra porta, depois de me dizer um "até para o ano" que, mesmo com as dificuldades que aí vêm, terá também um Natal. E tenho a certeza que, se se mantiver na recolha do lixo, e apesar de todas as dificuldades, o Sr. Daniel tocará à minha porta com um sorriso e um papelinho na mão.

domingo, 6 de novembro de 2011

Pergunta e resposta

Ela pergunta-lhe: «O que queres?» Ele diz: «Quero cair e que tu me apanhes na queda».

James Ellroy referindo-se, numa entrevista, a um diálogo entre personagens do seu livro Sangue Vadio.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Pedro Tiago

Uma conversa de almofada

revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
«não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.

in Pedro Tiago, O Comportamento das paisagens, Lisboa, Artefacto, 2011, p. 46

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Inversão dos factores

Depois de ouvirmos todos os dias notícias sobre a Grécia a tremer por causa da Europa; hoje a comunicação social teve algo de verdadeiramente diferente para nos dar: a Europa treme por causa da Grécia. Só que, neste caso, a comutatividade não está garantida, ou seja, a ordem dos factores pode alterar o resultado final.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Perseverança

Teria uns 10 anos. Seguro, para a sua idade, aproximou-se e ali ficou. Talvez tivesse sido atraído pelo grupo de seis miúdas sentadas na relva, talvez pelos cães que todas seguravam pelas respectivas trelas. Imediatamente começou a falar. De si, do seu irmão com quem se zangava muitas vezes, da sua casa. Elas, umas mais novas, outras mais velhas que ele, primeiro ignoraram-no. Ele não desistiu. Falava, ora olhando para uma, ora para outra, depois uma terceira, procurando um sinal que não vinha. Até que uma delas resolveu passar ao ataque: "vai-te embora! Não vês que não estamos interessadas nessa conversa?" O miúdo pareceu surpreendido. Mas não deu parte de fraco. Respirou fundo e recomeçou. A situação repetiu-se várias vezes. Até que elas, talvez cansadas ou talvez puxadas pelos cães, se foram levantando e se afastaram. Ele ficou sentado a olhá-las.  

Dúvidas incompreensíveis

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A bicicleta cor-de-rosa

De um dos lados um grande carro preto, não reparei na marca, brilhava de tão limpo. Do outro lado, um outro carro, este cinzento, gritava: "vá, admirem-me!". No entanto era ela que atraía todos os olhares. Tinham-na amarrado ao poste de um sinal de trânsito. Permanecia ali, altiva, resistente. Estava pintada de um cor-de-rosa forte. Assente na parte de trás, uma caixa de madeira, das que se usam normalmente para a fruta. Estava vazia. Mas não era difícil imaginá-la cheia de cor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Foi há uns dias atrás

Um autor ambicioso...

(Este post não é publicidade)
Há uns dias atrás o Daniel falava da publicidade na RTP ao livro de José Rodrigues dos Santos. Hoje, em vários pontos da cidade, me deparei com a cara do senhor, sobretudo em montras de livrarias. Ao primeiro olhar parecia que a televisão estava ligada e tinha chegado a hora do telejornal pois a parte visível do corpo era exactamente a que vemos nos programas de informação. À saída da estação de comboios, dois rapazes, vestidos com o que pareciam ser fardas da guarda do Vaticano, seguravam um grande cartaz a anunciar o lançamento da obra. Era totalmente despropositado até porque a amena cavaqueira dos jovens retirava seriedade ao acto de guardar um segredo. Fiquei logo sem vontade nenhuma de conhecer "O último...". Mas devo perder uma grande obra que, segundo o autor, procura “a verdadeira identidade de Jesus Cristo”. Muito bem. Quem quiser ler o livro até ao fim depois conte-me...

sábado, 22 de outubro de 2011

"...per l'alto mare aperto"

Felizmente já o tenho. Vindo directamente de Itália. Falo do novo disco de Vinicio Capossela, todo dedicado ao mar. 



Mais informações aqui.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O saldo

Sentou-se ao meu lado no metro, vestida com um traje tipicamente africano. Na mão trazia um talão do multibanco. Passado um pouco pediu-me para lhe ler, porque não tinha óculos, o saldo. Eu li: 22 euros e 20 cêntimos. Ela agradeceu. Não disse mais nenhuma palavra. Mas até sair vi-a limpar, por várias vezes, as lágrimas que corriam pelo seu rosto.

A inversão do provérbio

Dá Deus dentes a quem não tem nozes.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O seu nome não era João

Não sabemos o seu verdadeiro nome. Desta vez, muito bem, o jornal preservou a identidade da família e do próprio. Sabemos que tinha 19 anos. Dizem-nos que era um exemplo. Para o seu irmão, para os seus colegas. Para todos nós. Alguém que, dadas as dificuldades à sua volta, conseguia fazer a diferença deverá ser merecedor dos maiores elogios. Da minha parte, que já conheci alguns miúdos como o "João", sei que os dias ficarão muito mais imperfeitos sem ele.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Rui Tinoco

nesta época de tempestades, o que é
possível acrescentar? já dobrei, 
estiquei e dividi o recolhimento.
soprei, uma a uma, as sombras
das minhas mãos. poisei as 
mãos em cima da mesa,
perguntando-me: «para que serve
o homem?», não sei que dizer...
e se um de vós souber,
o que é que saberá?

in Rui Tinoco, O Segundo Aceno, Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2011, p. 22

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Uma palavra muito feia

Estas coisas das campanhas, já se sabe, valem o que valem. Mas quando, a uma causa maior se alia um trabalho bem feito, fica tudo mais interessante. Por isso...



E já agora em francês...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quinta-feira, 13 de Outubro, ao final do dia

Saiu do supermercado com dois sacos de compras, um em cada mão. Não mais do que isso. À sua volta rodopiavam carrinhos quase cheios, empurrados por mulheres bem vestidas e com sapatos de salto alto. Dirigiam-se para os seus automóveis reluzentes e jipes que nunca viram uma estrada de terra. Algumas exibiam penteados elaborados recentemente por cabeleireiros e unhas bem tratadas. Mas o que mais a feriu foram os sorrisos, sorrisos de quem, aparentemente, não pretende vir a ser tocado pelas dificuldades. Aproximou-se do seu carro, que utiliza para transportar as crianças e pouco mais. Há já algum tempo que pensa no que fará quando ele deixar de trabalhar. Sabe que não terá possibilidades de comprar um novo. Sentou-se ao volante. Não chegou a pôr a chave na ignição. Lembrou-se do que tinha ouvido na rádio há uns minutos atrás. Encostou a cabeça ao banco e chorou. Chorou com um misto de raiva e pena de si própria. Sabia que este cenário poderia vir a tornar-se real. Mas perante o facto consumado reagiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Não que pensasse que não conseguiria sobreviver nos anos mais próximos. Mas porque, até àquele momento, não tinha conseguido chegar mais longe. 

"The future was wide open"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

E antes que acabe o dia... Parabéns Mr. Simon

Espero que ainda esteja "crazy after all these years"

Um momento alto televisivo

Horário nobre das 20 horas. Eu vi no telejornal da RTP mas estavam lá outras televisões. Na tentativa de obter um depoimento de Isaltino Morais sobre a recusa do último pedido de recurso, interposto junto do Tribunal Constitucional, os repórteres deslocam-se ao local onde o presidente da Câmara de Oeiras está prestes a inaugurar um conjunto escultórico de Pedro Cabrita Reis. Durante um tempo, que em televisão é precioso, assistimos aos cumprimentos entre os convidados para a inauguração, às conversas meio segredadas, e às instruções para alguém telefonar a um vereador que, pelos vistos, estava atrasado. Finalmente lá chegam à fala com Isaltino que, como seria de esperar, não diz nada de novo. E nem a escultura consegui ver!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ver e fotografar

A minha máquina fotográfica está a ser reparada e por isso não tenho hipótese de ir tirando umas fotografias por aí. A fotografia digital tem destas coisas. Tiramos fotografias sem olhar a quantidades, sem ajustar qualidades, confiando que, em 10 ou em 20, alguma há-de escapar. Mas a ânsia de fotografar não se poderá sobrepor ao prazer da observação não mediada pela lente. A não ser em situações especiais, por exemplo, profissionalmente, este deverá vir em primeiro lugar e só depois dispararemos. 
Vem isto a propósito de ter visto hoje, novamente, naqueles autocarros de turismo que percorrem as ruas da cidade, alguns turistas que, com a preocupação de não conseguirem registar tudo, não largam as câmaras fotográficas ou as de filmar que, à altura dos olhos, não lhes permitem ver ao vivo, tudo o que verão mais tarde, no ecrã do computador.
Fazer o registo "para mais tarde recordar" é importante. Mas viver os locais também me parece indispensável.

sábado, 8 de outubro de 2011

Bem vivos!

Estive para ir hoje vê-los ao Sport Clube Intendente. O programa prometia. Não fui. Mas aqui fica um "aperitivo" para o último álbum:



E entretanto um tema anterior: 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Um processo natural

"Envelhecer é, em si mesmo, um processo natural e um homem de 65 ou 75 anos, desde que não queira ser mais jovem, será tão saudável e normal como um de 30 ou de 50. Infelizmente nem sempre estamos de bem com a nossa idade, no nosso íntimo é frequente andarmos adiantados, mas ainda mais frequente é sermos apanhados e ultrapassados - a consciência e a disposição íntima estão menos amadurecidas do que o próprio corpo, reagem contra as suas manifestações naturais, exigem dele algo que este já não consegue cumprir."

in Hermann Hesse, Elogio da Velhice, Algés, Difel, 2003, p. 51

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Praça do Município, 2011

Eu sei que os tempos não estão propriamente para comemorações mas não deixa de ser impressionante a quantidade de pessoas que, mesmo com o feriado no dia seguinte, passa por aqui e não percebe porque é que os Paços do Concelho estão engalanados.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Em tempos de GPS um mapa de bolso muito avançado...

A dificuldade vai ser não o deitar fora, confundindo-o com algum papel que já não serve. Este é muito útil e já não é preciso perder tempo a desdobrá-lo e a dobrá-lo cada vez que chegamos a um cruzamento onde parece que já passámos há 10 minutos atrás; nem temos que o guardar sempre que chove. Este é de Lisboa mas já há de 12 cidades.

Imagem retirada daqui.

Comentar não está fácil

Até podia não haver quem quisesse deixar qualquer comentário por aqui. Mas a verdade é que, devido a um problema que ainda não identifiquei, todos os que têm tentado fazê-lo, nos últimos dias, não têm conseguido. Espero que a coisa se solucione. Até lá, espero que desculpem.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Incontrolável

O "Sr. Jorge" e o Sr. Isaltino

Parece que George Wright e Isaltino Morais estão ambos no estabelecimento prisional anexo à directoria nacional da Polícia Judiciária em Lisboa. O primeiro era procurado há 41 anos. As primeiras denúncias do caso Isaltino aconteceram há cerca de 8. E ainda por cima, alega o advogado que o seu cliente terá sido preso com dois recursos pendentes. E ainda dizem que a justiça em Portugal é muito lenta!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dois grupos

Um grupo de estudantes, caloiros certamente, contava animadamente as peripécias do dia - estamos em plena época de praxes -. Eram quatro, estavam sentados e tinham as roupas e os rostos pintados. Na estação seguinte, um grupo de trabalhadores, da construção civil, com certeza, entrou no comboio. Em silêncio ficaram a olhar os estudantes. Eram quatro. Ficaram em pé. Tinham as roupas e os rostos pintados.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma combinação bela e inesperada

Um semáforo que demorou demasiado tempo a abrir; a lavagem, do outro lado da estrada, feita por dois funcionários, de um grande mupi de onde escorriam grossos fios de água num fundo de árvores frondosas e sol forte; a música de Gershwin na rádio, no aniversário do seu nascimento. 

domingo, 25 de setembro de 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

"Mesmo morto hei-de passar"


Foto aqui

Naquele tempo, dizem-me, eu colocava a cabeça entre as grades da varanda e cantava lá para fora as canções de que gostava. Muitas eram de José Niza. Como esta (o poema é de António Gedeão), lembram-se?

Regresso à infância...

para os que chegaram a sair dela. É o que acontece nesta loja (Na R. da Madalena):

Foto da Página do Facebook

Bonecos da Playmobil, uma bóia da Heidi, figuras em PVC do Bana e Flapi, ferramentas de brincar, bonecas anteriores ao império das Barbies... tantos brinquedos que nos trazem à memória tantas, tantas brincadeiras. A visitar!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Coisas importantes que aprendemos nestes últimos dias

- Nem sempre se torna necessário podar as anoneiras. Mas num Jardim há sempre podas fundamentais a fazer. 
- As vacas sorriem perante a visão de um pasto verdejante. O mesmo não se passa connosco perante a visão de um Jardim esburacado.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

É assim em muitas aldeias

A porta está fechada. Nas janelas não há folhas coladas com fita cola com desenhos das crianças. Mas as folhas das árvores, que já ninguém varre, espalham-se pelo antigo recreio. Aqui, de onde os sons das  brincadeiras se espalhavam para as ruas mais próximas, impera agora o silêncio. Os velhos sentem-lhes a falta.

domingo, 11 de setembro de 2011

Lembrança de um mundo que já não existe

Lembrança do Mundo Antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

in Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade

(Um dos poemas lido numa das cerimónias de homenagem às vítimas do 11/9 realizadas hoje nos EUA)

Por que razão continuamos nós a ir por outro caminho?

Será isto envelhecer?

É suposto iniciativas destas criarem uma maior dinâmica no comércio, contribuindo para um aumento dos lucros dos comerciantes; é suposto olharmos os manequins, em carne e osso das lojas como figuras apetecíveis, desejáveis; é suposto invejarmos os rostos maquilhados, os vestidos glamourosos, os saltos vertiginosos; é suposto ficarmos ofuscados com os corpos jovens e bem trabalhados dos que sobem e descem a rua, esperando que uma das câmaras de filmar os apanhe.
Em vez disso, senti que se gasta demasiado dinheiro nestas iniciativas sem que o retorno compense; que as manequins fazem tristes figuras, com os seus movimentos tolhidos pelas paredes das montras; que as pessoas bonitas são, afinal, adolescentes que se limitam a copiar uma imagem vista numa revista ou na televisão, desconhecendo completamente o que de dentro querem mostrar; que a sede de aparecer, ficar bem na fotografia está a ocupar demasiado tempo a quem deveria estar a crescer por dentro; que, em época de crise, aquele fogo de vista é até obsceno.
Ou será tudo isto a prova de que estou a ficar velha?

(ideias suscitadas numa passagem pelo Chiado, na última noite de quinta-feira)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

António Chiado não morou aqui


Sem nunca terem percebido que a estação da Baixa-Chiado tinha essa designação por servir a Baixa e o Chiado, muitas pessoas dizem que vão para a estação da Baixa do Chiado. Neste momento temos mais um elemento a contribuir para a sua confusão. Será a sede da PT aqui? Mas não era nas Picoas? 
E as paredes todas ocupadas com imensa informação, luzes a brilhar por todo o lado, música a sair de gigantescas colunas... Help... Isto não são corredores do Metro. São câmaras de tortura! 

Dá vontade de me tornar feminista

As medidas sucedem-se a uma velocidade estonteante. Estava eu ainda a pensar quão ridícula era esta quando, pela manhã, ouvi as notícias que falavam nos cortes nas comparticipações de pílulas anticoncepcionais e algumas vacinas. Mesmo sem saber os detalhes da coisa fico triste. Muito triste.  
Pensando na pílula, a liberdade que as mulheres têm de controlar os seus ciclos férteis não será, certamente, posta em causa. É uma questão de prioridades e esta estará à frente de outras, mesmo sendo mais um sacrifício financeiro a fazer. 
Mas, em termos do que tudo isto significa, a minha tristeza tem a ver com o sentimento face à diminuição que estas alterações provocam na, já de si reduzida, liberdade de interferir nos processos naturais que conduzem à gravidez. Podia-se mexer em outras áreas mas esta não deixa de ser um murro no estômago das mulheres em geral. Não sei se será um recuo civilizacional. Mas lá terá que se proceder a outros recuos, dignos de outros tempos...
E, duma forma mais ligeira, apetece defender uma discriminação positiva a favor das famílias que têm filhas. De facto, as despesas com rapazes não incluem, nem pílulas anticoncepcionais, nem as vacinas contra o cancro do colo do útero...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um nome trágico

Li algures que é um grupo argentino de revisão não reaccionária do tango. Por curiosidade fui procurar. Achei interessante.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Todos. Mesmo todos.

O ano passado não fui. Mas em 2009 o ambiente estava fantástico. Foi nesse dia que fiz os Instantes Nocturnos - Mouraria. Este ano o programa promete. O bairro da Mouraria está ainda por descobrir... digo-vos eu que tenho intenção de o conhecer melhor.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Decididamente um homem à frente do seu tempo...


Não havia necessidade

Eu sei que sou um pouco ingénua e que não domino as regras da competitividade entre empresas (se é que as há). Também sei que os responsáveis pelas campanhas publicitárias não têm qualquer obrigação, nem dever, nem sequer vocação, para respeitar princípios que não são universais. Mas cada vez que ouço um determinado spot na rádio - que conta a história de dois homens que, perante um leão, na selva, têm reacções diferentes. Um corre, o outro calça uns ténis. Perante a pergunta do primeiro: "pensas que vais correr mais que o leão?" o segundo responde: "não, mas vou correr mais do que tu". E o spot termina com a moral da história: o mercado está uma selva e por isso há que calçar ténis, havendo uma empresa que ensina a fazê-lo - penso que, neste contexto, a história é de mau gosto. Os valores da solidariedade e da entreajuda provavelmente nunca serão seguidos, neste mundo das actividades comerciais, mas apelar, de forma tão primária, ao seu oposto...

Uma explicação plausível?

- Sabes, mãe, eu quando dou erros é porque estou demasiado concentrada... a escrever.

M.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

1000 posts

"Um blogue é a voz particular de alguém. Um blogue é o estilo do seu autor, os seus pontos de vista, as suas preferências, as suas manias e os seus gostos. Um blogue é a projecção de uma pessoa na rede, é uma identidade que se vai construindo e expressando a pedaços (links, textos, vídeos, imagens). Os blogues são pessoas que nos propõem uma conversa."
José Luís Orihuela

"Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas. A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total."
Miguel Esteves Cardoso

"É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas a sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego..."
Gilles Lipovetsky

"Actualmente, o mundo divide-se entre os que procuram razões para entrar na blogosfera e os que procuram razões para não sair"
José Luís Orihuela

"Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros."
Eugène Ionesco

"Os blogs não vão acabar... nunca. Quem difundiu a ideia dos blogs como uma moda foram os meios de comunicação tradicionais, quando se aperceberam de que deixaram de ter a administração exclusiva do espaço público de comunicação e da agenda."
José Luís Orihuela

"A blogosfera substitui o "speakers corner" de Hyde Park, a porta e paredes das casas de banho, aquele monte no qual, e a coberto do breu da noite, nas aldeias, se berrava em plenos pulmões os segredos de vícios privados que eram do conhecimento de todos. Nesse sentido é um contexto verdadeiramente terapêutico com a vantagem de não provocar intoxicação química, nem excessivos gastos em psiquiatras e psicólogos. É o maior espelho de Narciso conhecido."
Catarina Campos e José Manuel Fonseca

Todas estas citações vêm publicadas em várias páginas do livro de Paula Oliveira Silva, Blogo, Logo Existo, Editora Media XXI, 2009 que analisa, de um ponto de vista sociológico, o "fenómeno" dos blogues.
De diferentes autores elas levantam algumas questões interessantes e em que todos pensamos quando surge este tema. 

Vêm estas citações a propósito do facto do presente post ser o milésimo a ser publicado neste blogue. (Deixei passar os dois anos do blogue sem uma referência mas agora, o blogger e as suas estatísticas chamaram-me a atenção). 
E pronto... Cá se vai enchendo este meu "diário de bordo", aberto para que qualquer um possa ler, ou apenas ver. Não sou eu que aqui estou. É apenas uma parte de mim, aquela que eu quero ou não me importo de mostrar. Daí que às vezes fique com a sensação que estes blogues são, acima de tudo, uma ficção, uma construção do seu autor que, não raras vezes, pretende ser melhor do que é. 
Continuam válidas as premissas iniciais. Enquanto a vida de todos os dias, mesmo que pouco excitante, me dê motivos para ir reflectindo cá irei arriscando as minhas interrupções no silêncio. Obrigada a todos os que vão lendo; aos que comentam; aos que passam por aqui, desde os mais antigos aos mais recentes; e aos amigos que fiz entretanto. Convosco os dias são menos imperfeitos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um sorriso

Não foi o som da guitarra que me chamou a atenção. Nem o facto de assim tocar, sem público, naquele túnel onde ninguém àquela hora passava. Foi o seu sorriso. Sorria de prazer ao tocar. Sorria para os seus dedos que faziam soar as cordas. O som era ampliado por todo o espaço mas era dentro de si que ele o sentia. Era para si que tocava, indiferente ao que o rodeava.
O sorriso prolongou-se quando me viu a sorrir também. As moedas que lhe dei premiaram esse sorriso que, de tão genuíno, me recordou que, mesmo sozinhos, onde ninguém nos vê, vale a pena sorrir. 

Está bem que fica no Continente mas...

Com uma boa localização, condições climatéricas amenas, boas condições para o desenvolvimento da actividade agrícola, uma boa relação com as autoridades locais para o apoio e desenvolvimento de projectos imobiliários... bem que o Governo Regional da Madeira podia comprá-la para local de estágio do próximo presidente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Na procissão

A procissão, como tantas outras, avança com os membros do clero à frente. Segue-se o andor, levado por paroquianos mais acostumados a estas coisas de transportar aos ombros a santidade. Depois a banda que toca, a um ritmo lento, músicas que os que vêm atrás entoam, uns com mais, outros com menos devoção. É no meio destes, anónimos, alguns turistas, que um, em particular, se destaca. À medida que prossegue, no ritmo cadenciado dos demais, a garrafa de cerveja é levada à boca também com uma devoção que se adivinha forte.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Saartjie

Quando fui ver o filme desconhecia este facto: o realizador é o mesmo de "O Segredo de um Cuscuz", de que eu tanto gostei. Mesmo depois de o ver acho que não chegaria a perceber que tinham sido ambos realizados pela mesma pessoa. Esta "Vénus Negra", ao contrário das personagens do "Segredo...", não tem uma vida comum. Mesmo depois da sua morte, em 1815, o seu corpo não teve descanso pois logo foi feito um molde em gesso e conjuntamente com partes dele, conservadas em formol, estiveram em exibição, até 1974, num museu em Paris. Mais recentemente, em 2002, o governo francês  devolveu os restos mortais ao seu país de origem, a África do Sul, mais por motivos políticos que por uma convicção de justiça humana. 
Uma vida, como a de Saartjie, é motivo mais que suficiente para um argumento de um filme. Mas, parece-me, o realizador alongou-se demais, prolongando cenas que se tornam penosas para nós, dada também a violência nelas presente. Mas não será isso que se pretende? 
Mostrar-nos a violência presente em todas as exibições forçadas, quer em feiras de curiosidades; quer em festas privadas para satisfazer os caprichos de nobres com posses; quer junto de cientistas sedentos de confirmações para teorias que nos lembram que a ciência deve ser sempre historicamente lida. 
E é aqui que o filme cumpre a sua função mais "pedagógica" pois se esta história pessoal já é, de si, suficiente para com ela aprendermos muito é a sua relação com o meio histórico em que aconteceu que a torna tão interessante. E a exploração de um ser humano pelas suas características físicas bem como a tentativa de as tornar na base de sistemas de poder estão ainda hoje demasiado presentes. 
Talvez se pudesse fazê-lo mais curto. É um facto. Mas as interpretações são muito boas e as ambições  do filme muito meritórias. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Luís Filipe Castro Mendes

À Tarde, Em Casa


Entardecer entre animais pequeninos,
pássaros que debicam a relva do jardim,
esquilos que sobem e descem das árvores,
eu próprio, no meio dos jornais.

Nenhum deus se lembrou de aparecer esta tarde:
e foi melhor assim.

in Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2011, p. 85

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Final de dia feriado

Logo à entrada do túnel a luz que vem do exterior ilumina e faz brilhar o plástico e o metal dos brinquedos espalhados na manta. Ninguém parado a comprar ou sequer a ver. Ele não parece esperar que ninguém o faça. Está de cabeça baixa, agarrado aos joelhos nus. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Olhares

Era o seu olhar que surpreendia quando a fitei. Sentada num banco era impossível não a notar enquanto eu subia a escada rolante naquele centro comercial. E era tristeza que se via naquele olhar. O local parecia ter sido escolhido para poder contemplar a aparente felicidade dos outros que, sorridentes, entravam e saíam de lojas. Quanto a ela pouco se parecia interessar pela impressão que causava. Já no final da subida os nossos olhares cruzaram-se. Desviei o meu rapidamente. Não queria ser apanhada a olhar assim, entrando na sua intimidade, testemunhando algo que eu não podia adivinhar mas que me magoava também. E tive medo. Como se a possibilidade daquela tristeza se pegar existisse verdadeiramente. 

4 anos depois...

Em Setembro sai o "Biophilia". Até lá...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Elementar, meu caro...

Estava parado há tempo de mais no corredor. Fazia frio, bastante frio. Olhava fixamente, muito de perto, talvez procurando exactamente o que pretendia. Indeciso, pensei. À sua volta outros chegavam, olhavam e tiravam da prateleira o que queriam. Finalmente um movimento. A mão dirigiu-se ao bolso e de lá retirou um objecto. Era uma lupa, potente, a avaliar pelo aspecto. Finalmente podia escolher os iogurtes e passar a outro corredor onde a temperatura era mais amena.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Agradecimento público...

ao programa Master Chef (neste caso a versão australiana) por ser o causador de uma onda de vontade de cozinhar que atingiu as minhas filhas e que fez com que eu, que só cozinho porque a isso sou obrigada, não tenha ainda preparado uma única refeição esta semana.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A nova temporada em análise ou os nossos infundados preconceitos

Cada uma das senhoras tinha mais de 70 anos. Sentadas numa das mesas da esplanada, procuravam a sombra do grande chapéu de sol que ajudava a suportar o calor que se fazia sentir. De frente uma para a outra pouco conversavam. Uma delas parecia um pouco entediada. Do local onde eu estava podia ver que a outra lia uma revista. Imaginei a primeira pouco dada a notícias cor-de-rosa ou, pelo contrário, em pulgas para poder ler as últimas sobre os namoros de alguém com o nome acabado em inha. Quando me levantei para sair dei uma espreitadela à capa da revista. Era a Mística, a revista oficial do Benfica, com tudo sobre a nova época.

A lupa de Sherlock Holmes já não chega

Por termos chegado perto da hora de fecho da exposição não foi possível trabalhar nos 8 laboratórios e por isso ficou por descobrir o autor do crime. Lá terei eu que voltar... Mas vale a pena. A "exposição" está muito bem conseguida.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Porque o útil é uma mentira"

Foi no Uma casa em Beirute que primeiro o li. É brasileiro e chama-se Solivan Brugnara.  Depois encontrei mais poemas aqui. Foi de onde retirei este:

Uma descompostura em Diógenes

Útil, a arte não deve ser útil,
são os utensílios que deveriam ter inutilidades.
Que se faça em tudo que é útil,
belas inutilidades.
Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe
e talheres com lente de aumento para examinarmos
com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite
sobre a salada.
Que façam
estradas com aquelas descidas que causam inércia
e dão um friozinho na barriga
que as crianças gostam tanto .
E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,
ou contêineres em legos gigantes.
Tirem das prisões,
o minimalista reto e objetivo das grades,
que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,
grades cinzeladas, folheadas a ouro,
reproduzindo querubins com safiras nos olhos, grades que elevem.
Porque o útil é uma mentira.
É uma mentira.
A utilidade das fábricas, é uma mentira,
e do aço da máquinas,
das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,
é uma mentira a utilidade da automação.
Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.
Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool
é uma inutilidade prazerosa.
São inúteis as grandes fábricas de tecidos,
o que move a indústria de roupas não é a utilidade, mas a criativa moda.
E a utilidade das colheitadeiras,
também é uma mentira.
A utilidade das plantações, dos rebanhos,
a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.
Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,
são todos uma gostosa inutilidade.
É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.
Mas com que coragem
enfrentam com suas insignificantes armas,
seus avanços postergadores, com suas máquinas
ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,
o inevitável.
Como é bonito
ver um corpo em uma oferenda inversa
e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,
tentando retirar o homem da morte.
É uma mentira a medicina,
mas como são destemidas,
como são renitentes e sábias
suas utópicas e caras tentativas heróicas de vencer o inevitável
sem nunca ter conseguido, uma só vitória.
É uma mentira a utilidade
das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,
todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.
Sim, Sim.
É a inutilidade que move os trens, os caminhões, os aviões,os navios
que abre novas rodovias,
e nos trazem e levam ao lixo,
os magníficos eletrodomésticos descartáveis, os lindos sapatos fúteis,
os supermercados cheios de alimentos tão saborosos
com seus indispensáveis
e atávicos sais e calorias,
os computadores
com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,
sexo virtual e música,
As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos, panis et circus virtuais,
notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.
E o concreto,
o concreto
que constrói as casas,os edifícios, os shoppings
todos valorizados se excessivos e luxuosos
e desvalorizados se essencial.
É Verdade, é verdade existe o útil
Mas o útil é sempre primitivo e rude,
existe ou existiu,
é seu pé e sua mão, seus instintos,
a fruta colhida,
a carne crua.
Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada
com as lanças.
nasceu junto com a inteligência ,
com a inteligência,
que é a única inutilidade da natureza
e evoluíram juntos
descobriram metais, impérios , calendários
e foram à lua.
Sim, foram à lua, a mais obscena loucura, a mais linda loucura da humanidade,
que magnífico excesso
bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.
E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,
com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.
Oh! A inútil fé, obrigado ,muito obrigado
por decoraram cavernas e fazerem monólitos,
por construírem as ociosas pirâmides
e catedrais com vitrais.
Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,
Todos os avanços,
dói, mas é
preciso desmascará-lo
quando pedante e pretensioso,
quando finge-se necessário,
e engana os crentes há tantos milênios.
e se auto-engana há tantos milênios,
que acredita-se imprescindível
e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças
é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,
de ritos de poder
mostra-se arrogante
com a leveza delicada da arte,
que é puramente desnecessária,
quando é áspera com o sorriso, com as férias e os jogos eletrônicos.
Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,
é mais indispensável que o útil.
Sim. Sim. Mais imprescindível que o útil.
Diógenes!
Diógenes!
Diógenes!
Como estava enganado Diógenes!
Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil
e se voltou para o tão primitivo necessário.
Devia ter acumulado inutilidades,
devia ter feito muitas inutilidades,
estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.
Acharia com mais facilidades os
verdadeiros homens que com sua ineficaz lanterna.
Porque estátuas,
porque poemas,
são mais eficazes armas que lanternas.
Há em frente aos quadros, em frente aos livros
mais homens bons, que na frente dos cofres e agências bancárias.

sábado, 30 de julho de 2011

Há comparações que nunca deveriam ser feitas

Eu gosto do "rapaz" (o.k., ainda mais dos The Smiths). E até posso perceber a sua intenção ao ter posto as coisas desta forma. Mas este tipo de fundamentalismos e comparações odiosas não me parece que sejam dignas de alguém com algum protagonismo. E não, isto não é normal. Mesmo que "there is no such thing in life as normal".

terça-feira, 26 de julho de 2011

Guitarra e voz

Uma versão linda da canção dos The Cure...



 E para verem o que ela é capaz de fazer com a guitarra:

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Há mudanças muito difíceis de fazer...

Num anúncio a um banco, que ouço na rádio, uma mulher tenta aceder ao site da entidade mas só com a ajuda do marido lá consegue chegar. Isto porque as palavras utilizadas na pesquisa não são as correctas, complicando o que, à partida, é muito simples.
Mais outra pérola, lida num texto do "Público", sobre um novo modelo automóvel da Lancia:
"Mas há coisas que não mudam: o novo Ypsilon continua a ser um modelo ultrafeminino com detalhes pensados, assegura a marca, especificamente para elas, ao acrescentar o Smart Fuel System, que facilita o reabastecimento ao substituir o vulgar tampão por um dispositivo automático que não permite enganos... ou à inclusão do Magic Parking com o qual o carro encontra o lugar que mais lhe convém e estaciona (quase) sozinho."

domingo, 24 de julho de 2011

Podia ter sido escrito hoje

"Riqueza e velocidade é tudo o que o mundo admira e a que todos aspiram. Caminhos de ferro, correios rápidos, barcos a vapor e todas as facilidades possíveis da comunicação, é para isso que tende o mundo civilizado, para se ultra-civilizar e assim persistir na mediocridade."


GOETHE, W. (1749-1832)  - «Carta a Zelter», cit. in W. Benjamin- Hommes Allemands, Paris, Payot, p.21-22

quinta-feira, 21 de julho de 2011

E o vento continua...

Ouço-o lá fora. Tenho-o ouvido todas as noites. Lembrei-me de um poema do Ruy Belo. Fui procurá-lo e aqui está ele:

O Valor do Vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

in Ruy Belo, Orla Marítima e outros poemas, Assírio & Alvim, 2008, p. 25

domingo, 17 de julho de 2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Começar e acabar a meio

A certa altura uma das personagens diz: "Nós não estamos perdidos. Só andamos à procura do nosso caminho."
Neste filme não sabemos exactamente como começou a viagem. Nem saberemos, no final, como acabará. Mas percebemos que isso não nos faz falta. As coordenadas espaço e tempo passam para segundo plano ao acompanharmos a evolução daquele grupo, no sentido de uma alteração das relações de poder, que está inicialmente do lado clássico, do mais forte; para estar, no final, do lado daquele que, noutras condições, seria certamente ignorado.
Talvez por a realização ser de uma mulher, a perspectiva feminina é predominante. A câmara está normalmente junto a elas e ouvimos muitas vezes os diálogos dos homens a uma certa distância. E é o comportamento de uma mulher que, apesar do medo face ao desconhecido, irá fazer mudar alguma coisa. 
O filme é também uma homenagem aos espaços agrestes e à natureza, que ali decide tanto quanto os humanos. 
Falta acrescentar que a música, tal como o silêncio, acentuam a tensão presente em certas cenas de uma forma muito bem conseguida.
Ah! E eu gosto tanto da Michelle Williams!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Pequenos crimes conjugais"

Há uns anos atrás vi, no Teatro Nacional D. Maria II, a peça "Pequenos crimes conjugais", da autoria de Eric-Emmanuel Schmitt. A encenação era de José Fonseca e Costa e as interpretações principais de Paulo Pires e Margarida Marinho. O texto, muito inteligente, é um misto de desencanto, tragédia e ironia. Porque o encontrei à venda, comprei-o pouco tempo depois. Hoje reli algumas páginas das quais vos deixo aqui umas linhas: 

Lisa. O destino do amor é a decadência… No início eu era a preferida mas será que continuo a sê-lo? Tu pretendes que me amas mas será que te continuo a agradar? Como eu estou aqui, a questão desapareceu e o desejo também. Tu já não desejas viver comigo porque tu vives comigo. Eu já não sou a tua fuga para a liberdade, eu sou a tua prisão, tu prendes-te a mim, tu estás resignado a suportar-me. 
Gilles. Mas eu quero continuar. Ou melhor, queria… 
Lisa. Continuar porquê? Também em relação a esse aspecto eu li o que escreveste. Homens e mulheres só permanecem juntos pelo que têm de mais sórdido, de mais vil, de mais feio neles: o interesse, a angústia que está presente na mudança, o medo de envelhecer, o medo da solidão. Eles ficam num estado de dormência, apoucam-se, abandonam a ideia de que podem fazer alguma coisa das suas vidas, apenas dão as mãos para não avançarem sozinhos para o cemitério. Tu só ficaste comigo pelas piores razões. 
Gilles. Enquanto que tu, naturalmente, só tinhas boas razões. 
Lisa. Sim. 
Gilles. Quais? 
Lisa. Tu. 
Embora emocionado pela violência com que ela admite a sua dedicação, Gilles não pode impedir a ironia: 
Gilles. Tu amas-me e por isso matas-me? 
Lisa, de cabeça baixa e os olhos no chão, murmura mais para ela que para ele: 
Lisa. Eu amo-te e isso mata-me. 
Gilles compreende que ela está a ser sincera. 

in Eric-Emmanuel Schmitt, Petits crimes conjugaux, Paris, Éditions Albin Michel, 2003, p. 96-98

(A tradução é minha)