quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma das razões/poemas porque gosto de Nuno Júdice

e como também vem a propósito...

Declaração

Eu, abaixo assinado, não sei o que
hei-de declarar.

Mas posso declarar que foi ontem que eu,
abaixo-assinado, declarei que era hoje que
iria declarar o que tinha de declarar.

E declaro hoje que não sei o que declarar no dia
de hoje enquanto amanhã não chega.

Eu abaixo-assinado declaro que
amanhã terei de declarar tudo o que tenho
de declarar.

Ontem teria declarado e subscrito
o que tinha de declarar.

E amanhã também iria declarar
todas as declarações do mundo se, quando
amanhã chegar, não descobrisse que amanhã
é hoje.

Por isso é que eu, abaixo-assinado,
declaro que não sei declarar hoje, que é o amanhã
de ontem, tudo o que tenho de declarar.

E eu, abaixo-assinado, declaro solenemente
por minha honra que só não declaro nada hoje porque
hoje é o amanhã de ontem,
e também não vou declarar nada amanhã porque
amanhã é o hoje em que irei deixar para depois
de amanhã o que tenho de declarar.

E cumpra-se esta declaração que vou datar
de amanhã, sabendo que só a poderei escrever
depois de amanhã, quando ontem for o amanhã
em que a vou adiar para ontem.

in Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Dom Quixote, p. 49

2009/2010/2011...

E, quase sem darmos por isso, estamos no último dia do ano. Será por isso mais imperfeito que os outros? Ou será, pelo contrário, mais perfeito?

A perspectiva de cada um fará certamente a diferença. Para alguns 2009 terá sido um ano positivo. Outros terão razões para o querer esquecer. Para alguns ainda terá sido igual a tantos outros, sem nada significativo a assinalar. Estes últimos terão vivido menos mas, dependendo das circunstâncias, menos pode ser mais.

E o próximo ano? Porque pensamos nele como se fosse novo? O calendário assim o diz mas será novo na realidade? Tantas situações negativas que nos marcaram passam para 2010. A nível global ou a nível pessoal. E porque é que sabemos, antecipadamente, que no dia 31 de Dezembro de 2010 estaremos a desejar que 2011 seja melhor que este que agora se irá iniciar? Ah, pois, é a renovação, é a força que está contida nos nossos desejos que contribuirá para melhorar o que precisa ser melhorado. Está bem, vamos todos acreditar, por um dia, pelo menos, que isso é possível.

Ganho de mais uns dias

Para os que defendem que a gravidez se  inicia com a fecundação e que a vida começa no momento da fertilização e, por isso, rejeitam os métodos abortivos, esta pílula é mais um problema. Para os outros é uma boa notícia.

E a vida continua...

Mesmo no tronco de uma árvore cortada.


Réquiem por uma esplanada

Hora do almoço, Príncipe Real. As máquinas avançam destruindo o que resta do pavimento alcatroado do jardim, exactamente onde as mesas e cadeiras da esplanada costumam estar. O dono do quiosque olha o que está a acontecer com um ar de desalento. Alguns clientes habituais, encostados ao balcão, em silêncio, têm também, estampado no rosto, o mesmo desânimo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O meu último filme do ano: um dos primeiros



Não foram só os magníficos diálogos ou a música, belíssima, que contribuíram para fazer da minha ida ao cinema hoje um prazer.

As conversas que temos. As perguntas que fazemos. O que sabemos responder e o que apenas pensamos que sabemos. Está lá tudo. Neste filme, de Agnès Jaoui, somos nós que ali estamos no ecrã. A verdade é que não é preciso sair de onde nos encontramos para escrever uma história. E é o cinema que, de quando em vez, nos relembra isso.




Já não se fazem ocupações como antigamente

Há quem diga que não se deve brincar com coisas sérias (e o dinheiro de cada um é uma coisa séria) mas não resisto a comentar a ocupação da sede do BPP, dia 28, no Porto, por parte de alguns clientes que queriam garantir o acesso às poupanças que têm na instituição.

Todos os que estavam dispostos a passar ali a noite de final do ano, entretanto, já abandonaram o local, depois de terem recebido ordens da polícia nesse sentido. Mas eram bem menos que os ocupantes iniciais pois foram saindo aos poucos para lancharem, para tomarem medicamentos a horas certas e até para tomarem um café. Parece que, ao quererem regressar, às instalações do banco, a PSP já não os deixava. Que agentes tão pouco solidários!

A RTP sempre em cima do acontecimento

Raramente vejo televisão. Não porque não queira mas porque não consigo arranjar tempo para o fazer. Já sei que perco imensas coisas interessantes.

Mas hoje vi parte do Telejornal da RTP. De tudo o que vi (e foi bastante) o tema foi sempre o mesmo: o mau tempo e as suas consequências por todo o país. Depois de se falar das situações em Vila Nova da Barquinha, no Porto, na Régua, em Faro e noutros locais; no início da 2.ª parte, José Alberto Carvalho introduz uma “notícia de última hora”: “e o mau tempo acaba de fazer 3 desalojados, numa derrocada junto a algumas habitações no concelho de Alenquer” (por causa do mau tempo, claro!).

Passando a emissão em directo para o local encontramos a repórter, Daniela Santiago, cuja primeira frase é: “tudo aconteceu às 9 da manhã!”. E lá ficámos a saber que, por volta dessa hora, (há cerca de 12 horas atrás) em Espiçandeira, freguesia de Meca, concelho de Alenquer, uma casa tinha ficado praticamente destruída devido à derrocada de algumas pedras o que tinha obrigado a protecção civil e os bombeiros a selá-la. Tirando uma pequena lanterna do bolso, qual MacGyver, gesto completamente ridículo, pois era a luz da câmara de filmar que iluminava a cena, Daniela Santiago apontou o foco ao interior da casa onde conseguimos ver o mau estado em que tinha ficado a habitação. Mas, quando pensávamos que era ali que vivia a família desalojada, a repórter diz: “ a sorte, neste azar, é que esta casa estava desabitada há dois anos”. Esta introdução era só para criar algum suspense.

Passámos então à casa do lado. Eu já imaginava que não havia duas sem três; afinal era mesmo ali que tinha sido necessário desalojar os residentes. A moradora, Cláudia de seu nome, muito nervosa, contou, numa voz trémula, e quase em lágrimas, o que tinha acontecido. Daniela Santiago, ia fazendo perguntas que já continham a resposta e acabou por dizer que “as pedras só não caíram para o seu quarto por uma sorte do destino”. Cláudia anuiu mas aposto que ainda agora estará a pensar nessa “sorte do destino” que a obrigou a ficar fora de casa não se sabe por quanto tempo.

O directo terminou com a frase: “é o desespero de uma mãe, com um filho de 4 anos” e um grande sorriso para a câmara. Bom trabalho, Daniela!

Assim, com notícias sempre em cima do acontecimento e tão bem documentadas, dá gosto ver televisão.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

50 anos de Metropolitano em Lisboa - Aditamento

Através do Rui Ribeiro da webrails.tv (obrigada mais uma vez) tomei conhecimento da realização de uma exposição, organizada pelo Metropolitano de Lisboa, no âmbito desta efeméride. Assim, até 15 de Janeiro de 2010, podem ser visitadas, na estaçao de Alvalade, duas carruagens onde estão expostas fotografias, vídeos e objectos que fazem parte desta história de 50 anos. Aqui podem visitar um pouco da exposição.

Numa das carruagens

Ele era grande. Um homem muito alto. As mãos acompanhavam o seu tamanho. O livro que elas agarravam era pequeno (de bolso) mas ficava-se com a ideia que, naquelas mãos, qualquer volume pareceria insignificante. Era como uma árvore, maior que as que se encontram à sua volta. Do boné saíam chamas. Ele estava a arder. Ao pé dele todos os passageiros daquela carruagem de metro eram pequenos. Ele não estava à vontade. O hábito de se sentir observado ainda não devia ser suficiente para ignorar os olhares. Curvou-se quando saiu como que a pedir desculpa por estar acima de todos os outros e não porque só assim conseguiria sair.

50 anos de Metropolitano em Lisboa

Nem sempre necessito andar de metro. Muitas vezes faço-o simplesmente porque gosto. Das novas estações há algumas que ainda não visitei. Talvez hoje para comemorar o seu aniversário. Pois é, o Metropolitano de Lisboa faz hoje 50 anos. A sua história pode ser vista aqui.

A rapidez com que nos leva de um lado para o outro e o respeito pela cidade são fundamentais. Recordo, a propósito, uma frase utilizada aqui há uns anos numa campanha e que foi escrita por uma amiga copywriter: não queremos pisar Lisboa.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cantar com sentimento

Concha Buika (intérprete do flamenco jazz) lançou recentemente um novo disco. Apesar de não ser o tipo de música de que mais gosto abro excepções quando os sentimentos que se transmitem são tão genuínos. Esta canção é ainda do anterior álbum:

Aquecimento ou arrefecimento global? As teses contraditórias.

Estou plenamente convencida que, a nível global, a intervenção humana na Terra causa ao planeta mais danos que benefícios e que tudo o que puder ser feito, por cada um de nós, para minorar esses danos, deve ser feito. E claro que, se ao nível individual há muito a fazer, quando pensamos em organizações, com dimensões variadas, desde empresas a governos, esse muito tem que ser várias vezes multiplicado.

Mas enquanto ser humano preocupado com o ambiente não posso deixar completamente de lado a possibilidade de todas as teses que são comummente aceites, não estarem completamente encerradas nas suas conclusões. Esse é aliás o princípio do espírito científico.

Não sou adepta de teorias da conspiração e afins mas acho até contraproducente, para as aspirações dos que tomaram para si a defesa dos interesses do planeta, o constante relegar para segundo plano das teorias que não estão de acordo com as que tomamos como adquiridas. Por exemplo as que defendem que o planeta sofrerá não um aquecimento mas um arrefecimento global. Não possuo conhecimentos suficientes que me permitam sequer ter opinião sobre o assunto mas acho muito pouco ético notícias como as que surgiram no final de Novembro (e podemos ver aqui alguma tentativa de influenciar a cimeira de Copenhaga) que dão conta de situações graves de omissões e tentativas de alteração de dados que tentam demonstrar o contrário do que hoje em dia se dá já como adquirido relativamente ao aquecimento global.

Há ainda quem, como Bjørn Lomborg, defenda uma profunda alteração relativamente à forma como se deve reagir aos fenómenos climáticos, colocando a tónica nas questões económicas e considerando exagerado a situação, de algum pânico, criada à sua volta.

Acredito, como já disse, que, ou pelo arrefecimento ou pelo aquecimento, o futuro do planeta Terra parece estar a sofrer condicionamentos que, mais tarde ou mais cedo, terão consequências graves. Mas não me parece que seja calando as vozes discordantes, sem que as suas teses tenham hipóteses de ser discutidas, que este problema maior será ultrapassado.

Chegar a casa


Lisboa, Novembro 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A música deste Natal

Há já algum tempo que não comprava um disco de música francesa. Esta foi, sem dúvida, uma compra acertada. La Superbe é realmente soberbo. Lembra-nos que "on gagne, on perd, on perd la gagne". A banda sonora deste meu Natal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Razões para noites mal dormidas

Na reunião de final de período escolar, hoje de manhã, li uma composição feita pela minha filha de 9 anos numa ficha de avaliação.
A propósito de noites mal dormidas, dois amigos conversavam. Um dizia que não tinha dormido nada porque a mulher tinha passado a noite a ressonar. O outro dizia que, ao menos, a razão dele era melhor: tinha passado a noite, sem conseguir parar, a ler um livro de José Saramago.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Síndrome do DAEN




Não é fácil, para quem sofre de Défice Acentuado de Espírito Natalício, ultrapassar esta época que, ainda por cima, se prolonga até Janeiro.

O que fazer quando tudo à nossa volta nos lembra que estamos numa quadra especial em que é suposto demonstrar que afinal até temos um espírito solidário, que afinal nos preocupamos com os outros? Como contornar esta febre que arrasta tudo e todos, crentes e não crentes, finalmente unidos para celebrar o nascimento do filho de um deus em quem muitos acreditam, em quem outros não acreditam mas aceitam e que outros rejeitam? Mas, nesta altura, nem que seja para celebrar apenas a figura histórica, quase todos estão em sintonia.

É altura de comprar presentes para todos. E as dúvidas surgem. “O que foi que dei o ano passado à tia Amélia? Aquele conjunto de copos? Ou terão sido os sabonetes perfumados? Ai, eu não queria nada voltar a dar as mesmas coisas às mesmas pessoas! Ainda por cima já não sei onde guardei o ficheiro de Excel onde tinha tudo apontado!”

É altura de ir ao supermercado comprar aquelas coisas que é obrigatório ter na mesa no Natal e que passaremos a noite, e os dias que se seguirão, a comer; e os meses seguintes a lamentar termos comido. E aí, no supermercado, tentarmos furar por entre gente e mais gente em corredores atravancados com bancas de bolo-rei, bolo-rainha e todas as outras variantes, caixas e caixas de “ferrero rocher” ou embalagens pré feitas com gel de barbear, after shave, gel de banho e desodorizante.

É altura de responder à pergunta inevitável: “onde vais passar o Natal?” A resposta invariável: em casa (quando o que apetecia era ir para um bar e passar a noite a esquecer que é Natal).

E quando se tem crianças tudo isto se agrava com uma tentativa, nem sempre conseguida, de se manter um ar festivo e bem disposto.

Perdoem-me os que gostam do Natal e os que fazem desta uma festa genuína. O meu problema é que nunca consegui associar esta fase do calendário a algo realmente renovador e desejavelmente repetível. Mesmo na minha infância o que eu mais recordo é a vontade que tudo acabasse depressa, a sensação de estar num dia que era suposto ser diferente mas que, apesar dos esforços que se faziam, era igual a todos os outros… ou melhor, era diferente porque se sentia o ridículo do esforço… E aqui para nós, continua a ser assim. Claro que se pode argumentar que nada nos obriga a estar numa situação na qual nos sentimos desconfortáveis. Mas é aí que se prova que afinal não somos completamente desprovidos de espírito natalício. É que continuamos a fazer aquilo que quem gosta de nós espera que façamos.

Por isto, e depois de tudo o que disse, vou fazer a lista das pessoas a quem vou comprar presentes porque amanhã tirei um dia de férias para ir às compras (vá lá, este ano não vai ser no dia 24).

E sabem que mais? Um Feliz Natal a todos!

Rua do Capelão


Setembro, 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

“A minha pele está a cair”. Por vezes é a única coisa que conseguimos dizer.

Um exercício muito interessante. É o que tenho dito a quem me tem perguntado o que achei do filme.




A certa altura, a personagem principal, um rapaz na idade a que se convencionou chamar de adolescência, estudante interno num colégio americano, realiza um documentário a que o professor reage de forma muito negativa. Porque o que este esperava do trabalho não se aproxima, nem um pouco, do resultado final. Também António Campos, o realizador deste “Afterschool”, nos apresenta um filme diferente do que poderíamos esperar.

Aquilo que poderia ser o motor de um ataque ao mundo dos vídeos que se podem ver no YouTube ou em sites da Internet, alertando pais, mais ou menos desatentos da realidade, para os “perigos” que neles se encontram é, quanto a mim, apenas uma constatação de que é aquilo que nos rodeia que influencia os nossos comportamentos. E agora não precisamos sair de casa, do nosso quarto ou sala ou de onde for, para sermos testemunhas de cenas, que tanto podem ser reais como encenadas, mas que adquirem enorme importância quando a descodificação não é feita correctamente; quando, não compreendendo tudo o que se vê, não temos ninguém a quem fazer perguntas ou colocar dúvidas, conduzindo, por exemplo, como neste filme, a fenómenos de imitação, com trágicos resultados. E não é só na fase da vida de que nos fala o realizador que isto se passa, mas em todas. Nós sabemos disso por isso não é preciso moralizar nada.

A visão do realizador é conseguida através de corajosos enquadramentos em que, ao contrário do que é habitual, não é todo o corpo que nos aparece, nem sequer o rosto, mas outras partes desse corpo ou apenas os espaços que lhe estão contíguos, em que apenas imaginamos o actor/a personagem. Isso facilita-nos o processo em que podemos preencher o que está em falta como que a dizer-nos que aquelas personagens podiam ser qualquer um de nós. E podiam.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Rua João do Outeiro


Setembro 2009

“A política como vocação” (continuação VII - fim de citação)

“As diversas éticas religiosas acomodaram-se de diferentes modos ao facto de vivermos integrados em organizações vitais distintas, governadas por leis distintas entre si…

… A corrupção do mundo pelo pecado original permitia, com relativa facilidade, introduzir a violência na ética como meio para combater o pecado e as heresias que põem a alma em perigo…

…não foi a moderna falta de fé, nascida do culto renascentista pelo herói, que suscitou o problema da ética política. Todas as religiões, com êxito muito variável, lidaram com ele… A singularidade de todos os problemas éticos da política é, única e exclusivamente, determinada pelo seu meio específico, a violência legítima nas mãos das associações humanas.

… Quem quiser impor a justiça absoluta sobre a terra valendo-se do poder necessitará de partidários, um “aparelho” humano. Para este funcionar tem de lhe pôr diante dos olhos as necessárias recompensas morais e materiais… O chefe depende para o seu triunfo do funcionamento deste aparelho, dependendo portanto dos motivos do aparelho e não dos seus próprios. Tem pois que assegurar permanentemente essas recompensas para os partidários de que necessita… em toda e qualquer organização submetida a uma chefia, uma das condições do êxito é o empobrecimento espiritual, a coisificação, a proletarização em prol da disciplina. É pois coisa habitual que o partido triunfante de um caudilho se transforme com especial facilidade num grupo, absolutamente vulgar, de prebendados.

Em geral, quem quiser fazer política e, muito em especial, quem quiser fazer política como profissão, deverá tomar consciência destes paradoxos éticos e da sua responsabilidade pelo que ele próprio, submetido à pressão desses paradoxos, pode chegar a ser…

É verdade que a política se faz com a cabeça mas de modo algum apenas com a cabeça. E neste ponto têm toda a razão os que defendem a ética da convicção. No entanto ninguém pode determinar se se deve agir de acordo com a ética da responsabilidade ou de acordo com a ética da convicção, nem quando de acordo com uma ou com outra… quando nestes tempos… vejo aparecer subitamente os políticos da convicção… a primeira coisa que faço é auscultar a “solidez interior” que existe por detrás desta ética da convicção. Tenho impressão que em nove de cada dez casos me encontro frente a odres cheios de vento que não sentem nada do que estão a fazer, mas que, unicamente se incendeiam com sensações românticas. Humanamente isto pouco me interessa e não me comove absolutamente nada. Pelo contrário, é infinitamente comovedora a atitude de um homem maduro (de muitos ou poucos anos, isso não importa), que sente realmente e com toda a sua alma essa responsabilidade perante as consequências e actua de acordo com uma ética de responsabilidade, e que, ao chegar a um certo momento diz: “nada mais posso fazer, é aqui que paro”. Isto sim é algo de autenticamente humano e toca-nos fundo… Deste ponto de vista a ética da responsabilidade e a ética da convicção não são termos absolutamente opostos, mas sim elementos complementares que devem concorrer para formar o homem autêntico, o homem que pode ter “vocação política”…

A política consiste numa dura e prolongada penetração através de tenazes resistências e para ela se requer, ao mesmo tempo, paixão e medida. É absolutamente certo, e assim o prova a história, que neste mundo nunca se consegue o possível se não se tentar, constantemente fazer o impossível. Mas para ser capaz de o fazer é necessário ser não só um caudilho mas também um herói no sentido mais simples da palavra… Só quem está certo de não desanimar quando, segundo o seu ponto de vista, o mundo se mostra demasiado estúpido ou demasiado abjecto para o que ele tem a oferecer; só quem, face a tudo isto, é capaz de responder com um “no entanto”; só um homem assim formado tem “vocação” para a política.” (págs. 89 a 99)

(o negrito é meu)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Puzzle musical

Os Koop são dois músicos suecos que fazem música em puzzle, juntando amostras de muitas músicas que eles transformam em magníficas canções. As vozes, essas, são bem reais e normalmente muito bem escolhidas.

O único disco que tenho é o último, de 2006, “Koop Islands”. É daí este tema:

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Mais uma linha encerrada

Fiz uma única viagem nesta linha, entre Faro e o Barreiro, há 20 anos, no Verão de 1989. Viagem de que ainda hoje recordo alguns agradáveis pormenores. Mas há muitas pessoas que irão recordar muitos mais.
A realidade é que, tal como diz a CP que, não há muito tempo, tinha investido nela, em termos de modernização, não é viável a exploração de uma linha que apresenta um número inferior a 1 passageiro por comboio, na totalidade da ligação (eram as ligações para estações intermédias que tinham mais passageiros). A auto-estrada para o Algarve pode ser apontada como a grande culpada. Mas esta nossa forma de eleger o automóvel como rei e senhor de todas as deslocações também.
Um filme da passagem deste comboio pela estação do Lavradio pode ser visto aqui (obrigada Rui Ribeiro).

Pinheiro artificial todo o ano

Não é só no Natal que vemos pinheiros artificiais. Deste ponto de vista, Natal é quando uma operadora móvel quiser.
Deve haver mais por aí. Este encontra-se, há alguns anos, junto a uma estrada no concelho do Seixal.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma das razões/poemas porque gosto de Mário Cesariny

(a propósito)

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca


Mário Cesariny, "Pena Capital", Assírio e Alvim, p. 44

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Diz que é uma espécie de… Playboy



Sabemos que os portugueses sempre foram pioneiros em muitas coisas. Mas disto nem o Infante D. Henrique se iria lembrar. E o que dirá Hugh Hefner de tanta inovação?

domingo, 13 de dezembro de 2009

Rua do Benformoso


Setembro 2009

“A política como vocação” (continuação VI)

geralmente, o resultado final da acção política mantém uma relação absolutamente inadequada, e frequentemente mesmo paradoxal, com o seu sentido original. No entanto, tal não permite prescindir desse sentido, do serviço de uma causa, se queremos que a acção tenha consistência interna…

…encontramo-nos já perante o último dos problemas… o de ethos da política como causa… Qual é, por assim dizer, o lugar ético que ela ocupa? Neste ponto, chocam-se entre si concepções básicas do mundo entre as quais, em última instância, há que escolher.

Qual é então a verdadeira relação entre ética e política? Não terão, como às vezes se diz, nada a ver uma com a outra? Ou é, pelo contrário, verdade que há apenas uma ética, não só válida para a actividade política como para qualquer outra actividade? ...

… A ética sobrenatural manda-nos não resistir ao mal pela força, mas para o político é o mandamento oposto que tem validade: deves resistir ao mal pela força, pois, de contrário, tornas-te responsável pelo seu triunfo.

Finalmente, a obrigação de dizer a verdade, que a ética absoluta nos impõe sem condições... devem ser publicados todos os documentos, sobretudo aqueles que culpam o próprio país, e, com base nesta publicação unilateral, fazer uma confissão, igualmente unilateral, incondicional das próprias culpas, sem pensar nas consequências. O público dar-se-á conta de que agindo assim, não se ajuda a verdade, mas que, pelo contrário, ela será obscurecida pelo abuso e desencadeamento das paixões. Verá que apenas uma investigação total e bem planeada, levada a cabo por pessoas imparciais, pode render frutos, e que qualquer outro procedimento pode ter, para a nação que o siga, consequências que não poderão ser eliminadas em dezenas de anos…

Chegamos assim ao ponto decisivo. Temos que ver com clareza que qualquer acção eticamente orientada pode ajustar-se a duas máximas, fundamentalmente diferentes entre si e irremediavelmente opostas: pode orientar-se de acordo com a ética da convicção ou de acordo coma a ética da responsabilidade. Não quer isto dizer que a ética de convicção seja idêntica à falta de responsabilidade, ou a ética da responsabilidade à falta de convicção. Não é nada disso em absoluto. Mas há realmente uma diferença abissal entre agir segundo as máximas de uma ética da convicção, tal como a que ordena (religiosamente falando) “ o cristão age bem e deixa o resultado à vontade de Deus” ou segundo uma máxima da ética da responsabilidade, como a que manda ter em conta as consequências previsíveis da própria acção… Quando as consequências de uma acção realizada em conformidade com uma ética da convicção são más, quem a executou não se sente responsável por elas e, pelo contrário, responsabiliza o mundo, a estupidez dos homens ou a vontade de Deus que os fez assim. Quem, pelo contrário, actua em conformidade com uma ética da responsabilidade, toma em linha de conta todos os defeitos do homem médio…

…Quem age em conformidade com uma ética da convicção não suporta a irracionalidade ética do mundo…

Este problema da irracionalidade do mundo foi a força que impulsionou todo o desenvolvimento religioso.” (págs. 78 a 89)

(o negrito é meu)

Nota: no quinto parágrafo Weber referia-se a situações de guerra

sábado, 12 de dezembro de 2009

Editors

Quando entrei na sala do Campo Pequeno temi pelo ambiente do concerto. Plateia em pé meio vazia, mais que muitos lugares sentados vagos. Felizmente, à medida que o tempo foi passando, a sala foi ficando mais composta. Dos dois grupos que tocaram primeiro gostei mais dos Wintersleep do que dos The Maccabees.

Quanto aos Editors, eu não tenho termo de comparação com concertos anteriores e apesar do que já li sobre o concerto, como esta notícia, por exemplo, que diz que o grupo não conseguiu “ter o público na mão” ou que os novos temas “não levaram muitos à dança”; eu fui certamente das excepções já que a mim tiveram-me na mão e só não dancei mais porque o pouco espaço disponível, na plateia, no meio de tanta gente a dançar, não o permitiu.

Claro que o novo disco é ainda recente e poucos sabiam de cor as canções mas para mim, que os tenho ouvido imenso nos últimos tempos, foi muito, muito bom.

Deixo um vídeo com imagens destes novos concertos e uma música do segundo disco:

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A minha igreja é mais ecuménica que a tua

Numa altura em que o projecto da nova igreja do Restelo, que tanta polémica tem causado, é apresentado como remetendo para um sentido ecuménico (é pelo menos esta uma das justificações para o minarete, por exemplo) foi colocado em Algés um painel onde sobressai a imagem da nova igreja, a ser construída no local, e que, sendo embora do mesmo arquitecto, é um edifício com uma imagem bem diferente. Segundo Troufa Real, para este trabalho, a sua inspiração surgiu-lhe pela via da “arquitectura do fantástico”.




Ora se já existia o termo “macro-ecumenismo”, em que a busca da unidade se refere à própria humanidade, parece-me que terão que inventar um termo ainda mais abrangente pois, certamente, caso sejamos visitados por civilizações de outro planeta, em que a religião esteja presente, será à Igreja de Algés que se irão dirigir.

Quando as missas forem celebradas neste espaço, não sei qual será o grau, mas os encontros imediatos estão garantidos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Nossa Senhora da Saúde


Setembro, 2009

“A política como vocação” (continuação V)

“Pode dizer-se que são três as qualidades decisivamente importantes para o político: paixão, sentido da responsabilidade e medida. Paixão no sentido de… entrega apaixonada a uma causa… A paixão não transforma um homem em político se não estiver ao serviço de uma causa… Para tal é necessária (e é esta a qualidade psicológica decisiva para o político) medida, a capacidade para deixar que a realidade actue sobre a pessoa sem por isso perder o domínio e a tranquilidade, ou seja, para manter a distância em relação aos homens e às coisas. O não saber guardar distâncias é, para qualquer político, um dos pecados mortais; sabê-lo é uma dessas qualidades cujo esquecimento condenará a nossa actual geração de intelectuais à impotência política. O problema reside precisamente em como conseguir que existam juntas, nas mesmas almas, a paixão ardente e a frieza medida. A política faz-se com a cabeça e não com outras partes do corpo ou da alma. E, no entanto, a entrega a uma causa só pode nascer e alimentar-se da paixão para ser uma atitude autenticamente humana e não um frívolo jogo intelectual. Só o hábito da distância (em todos os sentidos da palavra) torna possível o enérgico domínio sobre a alma que caracteriza o político apaixonado e o distingue do simples diletante político, esterilmente agitado. A força de uma personalidade política reside, em primeiro lugar, na posse destas qualidades.

Por isso tem o político que vencer em cada dia e em cada hora um inimigo muito trivial e demasiado humano, a tão comum vaidade, inimiga de toda a entrega a uma causa e de toda a medida, neste caso particular da medida perante si próprio.

A vaidade… talvez ninguém esteja livre dela. Nos círculos académicos e científicos é uma espécie de doença profissional. Mas precisamente no homem de ciência, por muito antipáticas que sejam as suas manifestações, a vaidade é relativamente inócua dado que, em geral, não estorva o trabalho científico. No político, que utiliza inevitavelmente como arma o desejo do poder, os seus resultados são muito diferentes. O instinto de poder, como se lhe costume chamar, está… entre as suas qualidades normais. O pecado… começa no momento em que este desejo de poder deixa de ser positivo, deixa de estar exclusivamente ao serviço da causa para se converter em pura embriaguez pessoal. Em última análise, só existem dois pecados mortais no terreno da política: a ausência de finalidades objectivas e a falta de responsabilidades. Esta coincide frequentemente, embora não sempre, com aquela. A vaidade, a necessidade de aparecer em primeiro plano sempre que seja possível, é o que mais leva o político a cometer um destes pecados ou os dois ao mesmo tempo… A sua ausência de finalidade objectiva torna-o propenso a procurar a aparência brilhante do poder em vez do poder real; a sua falta de responsabilidade leva-o a gozar o poder pelo poder, sem tomar em conta a sua finalidade. Embora o poder seja o meio iniludível da política, ou mais exactamente, precisamente porque o é, e o desejo de poder seja uma das forças que a impulsionam, não há mais perniciosa deformação da força política que malbaratar o poder como um adventício ou comprazer-se vaidosamente no sentimento de poder, ou seja, em geral, toda a adoração do poder puro enquanto tal. O simples político do poder… poderá actuar energicamente, mas actua de facto no vazio e sem qualquer sentido” (págs. 74 a 77)

(o negrito é meu)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Florbela de tantas almas

Florbela Espanca escolheu para se suicidar o dia do seu aniversário. Faz hoje 79 anos.

Loucura

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

Pesadelos de insónia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!


Florbela Espanca, Sonetos, Publicações Anagrama Lda. Porto,

A versão natalícia da herança de Scolari


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sometimes "is terribly important to let go"

Nos últimos tempos, a propósito de várias situações na política, e não só, tenho-me lembrado desta magnífica cena da série Little Britain.


Matiné de domingo

O título deste post parece remeter-nos para o passado. Na realidade quero chamar a atenção para um programa de rádio, de Luís Oliveira, na Antena 3, que se chama exactamente "Matiné" e que passa aos domingos à tarde, entre as 15 e as 17 horas. A música que aí ouvimos é nova, muito nova, mas quase sempre boa, muito boa. Vejam os alinhamentos dos últimos programas e digam lá se tenho ou não razão.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A ditadura no Brasil (1964-1985)

Lembrei-me de Thiago de Mello a propósito de uma exposição que vi na 6.ª feira no CIUL (Centro de Informação Urbana de Lisboa) que fica no Picoas Plaza, cujo título é “A Ditadura no Brasil 1964-1985 Direito à memória e à verdade”. A exposição pretende lembrar aqueles anos apresentando, para isso, uma cronologia bastante completa, muitas fotografias e até reproduções de textos, como letras de canções, que a censura não deixou passar e integra-se num projecto, de 2006, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil (os militares brasileiros não gostaram muito desta iniciativa do presidente Lula da Silva).

Para nós, portugueses, que seguimos tanto o que se passa no Brasil e particularmente para os que, como eu, tenham referências na música e nas telenovelas que se faziam nesse período, ver esta exposição é uma forma de aprender a contextualizar essas manifestações de cultura uma vez que a verdade é que sabemos muito pouco da história recente daquele país.

“A política como vocação” (continuação IV)

“… O domínio dos notáveis e o governo dos parlamentares acabaram. A empresa política está nas mãos de profissionais trabalhando em regime de tempo inteiro, que se mantêm fora do parlamento… Formalmente, produz-se uma acentuada democratização. Já não é a fracção parlamentar que elabora os programas adequados, nem são os notáveis locais que decidem a proclamação de candidatos. Tais tarefas são reservadas às assembleias de membros do partido, as quais designam candidatos e delegam aqueles que hão-de assistir às assembleias superiores… até chegar à assembleia geral do partido… O que é decisivo é que todo este complexo humano… ou melhor, aqueles que o dirigem, estão em situação de neutralizar os parlamentares e de, em grande parte, lhes impor a sua própria vontade. Este facto é de especial importância para a selecção da direcção do partido. Converte-se agora em chefe aquele a quem o mecanismo do partido segue, mesmo passando por cima do parlamento…

É evidente que os militantes do partido, sobretudo os funcionários e dirigentes do mesmo, esperam do triunfo do seu chefe uma retribuição pessoal em cargos ou privilégios de outro género. E o que é importante é que o esperam dele e não dos parlamentares ou apenas deles. O que esperam é, sobretudo, que o efeito demagógico da personalidade do chefe ganhe, na luta eleitoral, votos e mandatos para o partido, dando-lhe assim poder e, consequentemente, aumentando ao máximo as possibilidades dos seus partidários de conseguir a almejada retribuição…

Esta reforma impôs-se em medida muito diversa nos diferentes partidos e países, e sempre em luta constante com os notáveis e parlamentares que defendem a sua própria influência… A evolução que até ela conduz sofre continuamente retrocessos, cada vez que não existe um caudilho geralmente reconhecido. Mesmo quando tal caudilho existe há que fazer concessões à vaidade e aos interesses dos notáveis do partido. No entanto, o risco principal consiste na possibilidade de o mecanismo cair sob o domínio dos funcionários do partido… Não obstante os funcionários inclinam-se com bastante facilidade perante uma personalidade de chefe que actue demagogicamente, dado que os seus interesses, tanto materiais como espirituais, estão vinculados à desejada tomada do poder pelo partido… Muito mais difícil é a subida de um chefe onde, como acontece na maioria dos partidos burgueses, existem além dos funcionários alguns notáveis com influência sobre o partido.” (págs. 52 a 54)

(o negrito é meu)
 
(...)

As linhas que já não seguimos

A Linha do Sabor, desactivada há 21 anos, foi visitada por jornalistas do Público que nos dão um retrato triste das localidades por onde o comboio passava e cujos habitantes, ainda hoje, a recordam com saudade. As belas fotografias, de Paulo Pimenta, podem ser vistas aqui.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pintar um bairro como quem pinta um mundo

Há uns meses atrás, durante alguns dias, cada vez que passava na Galeria Bernardo Marques, na R. D. Pedro V, em Lisboa, ficava longos minutos a olhar a obra que estava na montra, uma planta do Bairro Alto, que tinha tanto de mapa real como de mapa mental. Era nitidamente de alguém que amava o bairro e cujos traços e aguarelas sugeriam um sítio vivido, um sítio que, sendo do pintor, era também nosso.

Este foi o meu primeiro contacto com Tiago Taron. Agora, algum tempo depois, Tiago passou nos “dias imperfeitos” e pude então perceber que ele não só pinta bem como, além disso, escreve bem e defende, seriamente, as causas que considera justas.

Porque a beleza está em todas as suas obras, mesmo as que se nos afiguram mais taciturnas, vejam-nas e deliciem-se no AMOR AO QUADRADO.

Uma das razões/poemas porque gosto de Thiago de Mello

Deste poeta brasileiro tenho apenas um livro cujo título é "Poesia comprometida com a minha e a tua vida", publicado pela primeira vez em 1975.
É deste livro que retiro este poema, comprometido...

Alfabetização de adultos

Faço hoje,
                agora,
                          aqui,
                                  o que é preciso
e acho que sei fazer.
                               Não farei mais,
só pelo turvo gosto do esplendor
(acaso oculto ao fundo do ventrículo)
o que a hora não pede e a circunstância
rejeita abertamente.
                              Se me chamam
para amarrar o mar, só ajudarei
se servir à alegria da menina
que me ensina a ser claro sobre o chão.
Não faço o que não amo.
                                       E me preparo
para amanhã fazer o que amanhã
vai ser preciso: e pra melhor fazer,
aprendo no que errei fazendo agora.

É por isso que aqui não faço nada,
a não ser aprender, porque é preciso
(já algo consigo), a ler na escuridão.

                                        Em Berlim, Welserstrass,
                                        dia de São Nicolau, 74

Thiago de Mello, Poesia comprometida com a minha e a tua vida, Moraes Editores, Lisboa, 1976

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

中國商店在市中心



(Se confiarmos no tradutor do Google o que está escrito é "Lojas chinesas na Baixa")

Não tenho nada contra a comunidade chinesa presente no nosso país, nem contra o desenvolvimento de actividades económicas por parte dessa comunidade. Esse desenvolvimento é tanto mais pujante quanto as condições económicas das famílias portuguesas as obrigarem a comprar artigos, nem sempre com a qualidade que se exige a outros fabricados noutros países mas que, dados os preços mais baixos, têm cada vez mais mercado.

A Baixa é uma das zonas da cidade de Lisboa de que mais gosto. Passear nas suas ruas, sobretudo agora com o tempo mais frio, é uma terapia que não dispenso.

É por isso que é uma dor de alma ver os pisos térreos dos edifícios pombalinos completamente descaracterizados por estas caixilharias e estas montras, sem qualquer cuidado estético, onde a mercadoria se amontoa e os manequins, todos iguais de loja para loja, com traços ocidentais mas com a atitude rígida que faz lembrar os tempos da revolução cultural chinesa, nos conseguem deixar deprimidos.

A quantidade de lojas deste tipo que têm surgido, sobretudo na R. dos Fanqueiros e na R. da Prata, substituindo outras lojas que não conseguiram sobreviver, é assustadora.

Não sei se alguma coisa poderia ser feita. A ideia de pura e simplesmente proibir a sua instalação, como já se falou, não me parece possível nem, quanto a mim, é desejável.

Uma coisa eu sei. Tem sido mais difícil, para mim, fazer a terapia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

“A política como vocação” (continuação III)

“Como aquilo que, naturalmente, fica na memória é a obra jornalística irresponsável por causa das suas funestas consequências, poucas pessoas sabem considerar que a responsabilidade do jornalista é muito maior que a do sábio e que, na média dos casos, o sentido de responsabilidade do jornalista honesto não fica a dever nada ao de qualquer outro intelectual… As tentações incomparavelmente mais fortes que rodeiam esta profissão…

… todo o político importante tinha necessidade de influência sobre a imprensa e de ligações com ela, mas não era de esperar que , salvo algumas excepções, os chefes de partido saíssem das suas fileiras. Temos que procurar a razão deste facto na crescente falta de liberdade do jornalista, especialmente do jornalista sem meios de fortuna… o homem que trabalha no jornalismo tem cada vez menos influência política ao passo que o magnate capitalista da imprensa… tem cada vez mais.

Entre nós, os grandes consórcios capitalistas da imprensa, que se tinham apoderado sobretudo dos jornais com “anúncios redigidos”, cultivavam com extremo cuidado a indiferença política. Não tinham nada a ganhar com uma política independente e, em troca, corriam o risco de perder a benevolência, economicamente rentável, dos poderes políticos estabelecidos. O negócio dos anúncios pagos foi pois o caminho pelo qual… se tentou, e aparentemente se continua a tentar ainda hoje, exercer sobre a imprensa uma influência política de grande estilo. Ainda que se possa esperar que a grande imprensa consiga subtrair-se a essa influência, a situação é muito mais difícil para os pequenos jornais. Em todo o caso… a carreira jornalística não é actualmente… no nosso país, uma via normal para ascender à chefia política…

Enquanto que o jornalista, como tipo de político profissional, tem já um passado apreciável, a figura do funcionário de partido apenas se desenvolveu nos últimos decénios…

… a empresa política é, necessariamente, uma empresa de interessados… os primariamente interessados na vida política, no poder político, recrutam livremente grupos de partidários, apresentam-se eles mesmos ou aos seus protegidos como candidatos às eleições, reúnem os meios económicos necessários e tratam de captar os votos… Isto significa praticamente a divisão dos cidadãos com direito a voto em elementos politicamente activos e politicamente passivos… (págs. 41 a 46)

(o negrito é meu)

(e ainda continua)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Kit Salva-Vidas (Ser ou não ser… virgem)



Penso que deveria dizer, aliás, estar ou não estar virgem. Parece que este kit tem tido grande saída nos países islâmicos onde teólogos e activistas se têm manifestado contra a sua utilização. No Egipto terá já sido proibido (ver, por exemplo, esta notícia).

A sua utilização é simples. Basta introduzi-lo na vagina e “adicionar alguns gemidos e suspiros”, como recomenda o fabricante. E, pelos vistos, está em promoção. É triste, no entanto, pensar que o seu uso, para lá de uma simples brincadeira entre duas pessoas, poderá fazer a diferença entre a vida e a morte.

Martim Moniz (II e III)




Setembro 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Edifício Reabilitado? - a importância das definições


As ironias de um dia

R. da Prata, Lisboa, cerca das 19 horas do dia 28 de Novembro. Uma mendiga abriga-se do frio na entrada de uma dependência bancária, junto às caixas de multibanco. Está suja e descalça, sentada no chão, com as costas encostadas à parede. À sua volta, espalhadas pelo chão, estão dezenas de beatas que ela parece contar e escolher com enorme cuidado, como quem olha para um tesouro que lhe custou a encontrar.

Duvido que  esta mulher saiba da iniciativa do "Buy nothing day". Mas certamente não terá comprado nada durante todo o dia.

domingo, 29 de novembro de 2009

Gazeta dos Caminhos de Ferro (2)

No dia 30 de Outubro falei da colocação em linha desta gazeta (aqui e aqui). Agora chamo a atenção para um texto que ajuda a melhor compreender as quase 30.000 páginas que podemos consultar na Hemeroteca Digital.

Numa sala de cinema, este foi o primeiro

Não sei qual foi o primeiro filme que vi. Foi certamente na televisão. Mas o primeiro que vi no cinema foi um filme francês, de 1973, chamado "Le grand bazar", com uns actores que se intitulavam "Les Charlots" (percebe-se porquê). De algumas cenas nunca me esqueci. Há uns tempos descobri que, apesar da imagem ser má, e aos bocados, conseguia ver o filme praticamente todo aqui.
Por aqui deixo só as primeiras cenas:

sábado, 28 de novembro de 2009

Buy Nothing Day

Apesar deste vídeo se dirigir ao mercado americano não deixa de fazer sentido também por aqui.



Confesso que sou um pouco consumista. Não resisto a muitas coisas que sei que não me fazem falta. Este dia, mais do que evitar as compras a todo o custo, serve sobretudo para reflectirmos sobre os excessos que todos cometemos (lembro o que escreveu a Manuela Araújo no Sustentabilidade é Acção). Por isso mesmo convém não esquecer uma frase que, durante muito tempo, tive pendurada junto à minha mesa de trabalho e que dizia:

The more you buy the less you live

“A política como vocação” (continuação II)

“Com o incremento do número de cargos, consequência da burocratização geral e o crescente apetite por esses cargos como modo específico de assegurar o futuro, esta tendência aumenta em todos os partidos, cada vez mais encarados pelos seus seguidores como o meio para alcançar o fim: a obtenção de um cargo.

No entanto opõe-se a esta tendência a evolução do funcionalismo moderno, que se está a converter num conjunto de trabalhadores intelectuais, altamente especializados, mediante uma vasta preparação e com uma honra do tipo feudal muito desenvolvida, cujo supremo valor é a integridade. Sem esse funcionamento abater-se-ia sobre nós o risco de uma terrível corrupção e uma generalizada incompetência…

A questão que agora nos interessa é a de qual seja a figura típica do político profissional… Esta figura modificou-se com o passar dos tempos…

… a figura do advogado moderno fica estreitamente unida à moderna democracia… A política actual é, cada vez mais, conduzida face ao público e, consequentemente, utiliza como meio a palavra falada e escrita. Pesar as palavras é tarefa central e peculiaríssima do advogado…

Para ser fiel à sua verdadeira vocação… o autêntico funcionário não deve fazer política, mas limitar-se a administrar, e acima de tudo imparcialmente… o que lhe está vedado é precisamente aquilo que sempre, e necessariamente, têm que fazer os políticos, tanto os chefes como os seus partidários. Parcialidade, luta e paixão constituem o elemento do político … Toda a actividade deste se coloca sob um princípio de responsabilidade diferente, e mesmo oposto, ao que orienta a actividade do funcionário. O funcionário honra-se com a sua capacidade de executar precisa e conscientemente… uma ordem da autoridade superior… A honra… do estadista dirigente, está, pelo contrário, em assumir pessoalmente a responsabilidade de tudo o que faz, responsabilidade esta que não deve nem pode repelir ou lançar sobre outro…

Desde que apareceu o estado constitucional e, mais completamente, desde que foi instaurada a democracia, o “demagogo” é a figura típica do chefe político no Ocidente… A demagogia moderna também se serve do discurso, mas, embora o utilize em aterradoras quantidades… o seu instrumento permanente é a palavra impressa. O publicista político, e sobretudo o jornalista, são os mais notáveis representantes da figura do demagogo na actualidade”… (págs. 26 a 40)

(o negrito é meu)

(continua)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O que nos ensina o cinema sobre nós?

Este podia ter sido o título (se tivesse havido um título) do debate que se seguiu à projecção do filme “O quarto do filho” de Nanni Moretti em mais uma sessão do Ciclo de Cinema e Saúde Mental que aconteceu ontem no Cinema S. Jorge e na qual estiveram presentes Graça Castanheira, realizadora e professora na Escola Superior de Cinema e Teatro e António Coimbra de Matos, psicanalista da Ass. Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica.

Nunca tinha visto o filme. Já me tinham avisado que era muito triste. O tema, a perda de um filho, não seria para menos. No entanto a sua construção não me permitiu achá-lo assim tão triste. Os elementos de comédia, tão caros ao realizador, estão presentes e a conclusão a que chegamos é que é possível, pelo menos possível, ultrapassar uma situação que, à partida, parece condenar-nos ao sofrimento para toda a vida.

Do debate aprendi que a representação da dor, neste filme, permite-nos falar de dois tipos de luto que, no caso, se segue à morte de alguém tão próximo como é um filho. O luto patológico, assente numa lógica de culpabilidade e um luto “normal” em que intervêm os elementos clássicos associados à perda. Um pai com uma personalidade narcísica (que ainda por cima, sendo psicanalista, se confronta com as suas pulsões e as soluções para as ultrapassar) estará menos predisposto a ultrapassar esta situação extrema.

Outra das questões debatidas foi o afastamento entre as pessoas (entre o casal, entre pais e filhos) que se segue a situações traumáticas deste tipo. Quanto a mim, ele poderá ser entendido como uma defesa; poderá haver uma reacção de desinvestimento em relações que se prova que poderão ter, abruptamente, um fim.

No caso deste filme é o aparecimento de um novo elemento, alguém que, estando de fora da esfera familiar, mas tendo tido contacto com quem desapareceu, tem a distância suficiente e ao mesmo tempo a aproximação para que seja possível a cooperação entre os membros da família, no sentido do renascimento após o trauma. A simbologia da cena da chegada à fronteira (um novo espaço), ao nascer de um novo dia (um novo tempo) é bastante clara; e a aparente conciliação com o mar, na cena final, também parece ir no mesmo sentido.

Graça Castanheira dizia que, apesar de amar o filme, há coisas menos boas nele que não consegue ultrapassar. Uma delas é a presença da banda sonora, não por ser a que é, mas por achar que não há banda sonora para a dor e que a intensidade do cinema se vê, por vezes, diminuída com a introdução de música.

Mas, para mim, apesar de compreender o seu ponto de vista, a música não está a mais. Sobretudo sendo esta música, esta fantástica música:

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"A política como vocação" (continuação)

"A diferença entre o viver para e o viver de situa-se pois, a um nível muito mais grosseiro, ao nível económico. Vive da política como profissão, quem trata de fazer dela uma fonte de receita; vive para a política quem não se acha neste caso. Para que alguém possa viver para a política neste sentido económico… deve ser economicamente independente das receitas que a política lhe possa proporcionar. Dito da maneira mais simples: tem que possuir um património ou uma situação privada que lhe dê rendimentos suficientes… Quem vive para a política tem de ser… economicamente "livre"…

A direcção de um estado ou partido, por parte de pessoas que, num sentido económico, vivem para a política e não da política, significa necessariamente um recrutamento plutocrático das camadas politicamente dirigentes. Naturalmente que esta afirmação não implica a sua inversa. O facto de existir essa direcção plutocrática não significa que o grupo politicamente dominante não trate também de viver da política, acostumando-se ainda a utilizar o seu domínio político para benefício dos seus interesses económicos privados. Não é disto, evidentemente, que se trata. Nunca existiu grupo algum que, de uma forma ou de outra, o não tenha feito. A nossa afirmação significa apenas que os políticos profissionais deste tipo não se vêem na obrigação de procurar uma remuneração através do seu trabalho político, o que, por outro lado, têm que fazer aqueles que carecem de meios de fortuna. Por outro lado, também não pretendemos dizer que os políticos carecidos de fortuna se proponham apenas, e nem sequer principalmente, atender às necessidades pessoais e não pensem principalmente na causa. Nada poderia ser mais injusto. A experiência ensina que para o homem endinheirado a preocupação pela segurança monetária da sua existência é, consciente ou inconscientemente, um ponto cardeal de toda a sua orientação vital. Como podemos observar, sobretudo em épocas excepcionais, ou seja revolucionárias, o idealismo político totalmente desinteressado e isento de alvos materiais é próprio principalmente, se não exclusivamente, dos sectores que, em virtude da sua falta de bens, não tem qualquer interesse na manutenção da ordem económica de uma determinada sociedade. Queremos significar apenas que o recrutamento não plutocrático do corpo político, tanto dos chefes como dos subordinados, se vai apoiar sobre o evidente pressuposto de que a empresa política irá proporcionar a esse pessoal receitas regulares e seguras. A política pode ser “honorífica”, e então será conduzida por pessoas a quem chamaríamos independentes, quer dizer ricas, e principalmente em rendimentos; mas se a direcção política é acessível a pessoas carentes de património, elas terão forçosamente de ser remuneradas. O político profissional que vive da política pode ser um puro prebendado ou um funcionário a soldo. Ou recebe receitas provenientes de taxas e direitos por serviços determinados (as gratificações e subornos não passam de uma variante irregular e formalmente ilegal deste tipo de receitas), ou recebe um emolumento fixo, em espécie ou em dinheiro, e, por vezes, em ambos ao mesmo tempo. Pode assumir o carácter de patrão… Pode ainda receber um ordenado fixo, como é o caso do redactor de um jornal político, ou de um secretário de partido, ministro, ou funcionário público moderno… O que os chefes de partido dão hoje como pagamento de serviços leais são cargos de todo o tipo em partidos, jornais, confrarias, Caixas de Segurança Social e organismos municipais ou estatais. Toda e qualquer luta entre partidos visa, não só um fim objectivo, mas ainda e acima de tudo o controlo sobre a distribuição dos cargos.” (págs. 20 a 24)

(o negrito é meu)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Uma conferência e uma das razões/poemas porque gosto de Cecília Meireles



Porque gosto da poesia de Cecília Meireles aí vai a divulgação de uma iniciativa interessante:

Conferência Cecília Meireles e o Mar das Descobertas
O poeta brasileiro Carlos Nejar vai estar na Casa Fernando Pessoa, dia 26 de Novembro pelas 18h30, para apresentar a conferência Cecília Meireles e o Mar das Descobertas. "Nejar tratará do vínculo de Cecília às raízes portuguesas, relacionando o mar de Cecília e o de Pessoa (Álvaro de Campos), e o mar de Sophia de Mello Breyner Andresen. Haverá ainda lugar à leitura de poemas da autoria desta voz singular e universal."

Divulgação da Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

E para vos dar uma razão/poema escolhi esta:

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água, 2002

Após uma breve leitura …

do Borda d’Água que contém "todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral", fiquei a saber, entre outras coisas igualmente interessantes, que:

- os homens e mulheres do signo Aquário são calados mas aventureiros. Procuram estar próximos da água e as viagens são uma tentação;
- no mês de Março devem-se vacinar os porcos contra doenças rubras e os bovinos, caprinos e ovinos contra o carbúnculo.
- o Feriado Municipal de Freixo de Espada à Cinta é no dia 5 de Abril
- em Julho, no jardim, se deve semear amores-perfeitos, calêndulas, cinerárias, etc., e as plantas bienais e vivazes de germinação lenta, para transplante no Outono;
- em Setembro, na horta, se deve semear, ao ar livre e local definitivo, agrião, cenoura, chicória, feijão, nabo, rabanete, repolho, salsa; em canteiro, acelga, alface, alho-porro, cebola e tomate;
- Novembro é o mês em que, aos pomares, se deve estercá-los no Crescente e podá-los no Minguante;
- em 11 de Julho irá acontecer um eclipse total do Sol que será visível a partir do Sul da América do Sul e no Sul do Oceano Pacífico;
- existem vários modos de fazer enxertias: de borbulha, de garfo, de canudo ou de verruma. As árvores devem ser enxertadas quando têm a casca a despegar ou quando querem rebentar. Só se deve proceder a enxertias quando a Lua está no Crescente; contudo os “garfos” devem ser tirados em Lua Minguante, devendo enterrá-los até à Lua Crescente.

Por fim não resisto a citar o último parágrafo do “Juízo do Ano”, texto de Célia Cadete, na contracapa:
“Aos jovens digo para não ficarem parados, olhem sempre para a frente, o futuro será vosso. O caminho faz-se caminhando. Os nossos comportamentos determinam em grande parte os próximos (comportamentos); procurem uma relação sadia com o natural, o diálogo cara a cara é mais saudável do que o ecrã de PC. Exercitem a argumentação; ponderem as vossas teses e deixem que os outros possam convosco debater, mas afastem-se da manipulação, sejam verdadeiras pessoas.”

Desde as simples informações aos conselhos aos jovens sobre atitudes e comportamentos... que mais podemos nós querer por 1,50 €?

domingo, 22 de novembro de 2009

Uma das razões/textos poéticos porque gosto de Carlos de Oliveira

(em consonância com o T. Mike)

Fruto

Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.

Do livro "Sobre o Lado Esquerdo". Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Círculo de Leitores, 2001

Parabéns...



Foto encontrada aqui

a Paulo Freitas do Amaral, que foi o único presidente de junta, entre as 10 que constituem o concelho de Oeiras (a da Cruz-Quebrada/Dafundo), a ser eleito por um partido que não o movimento Isaltino Oeiras Mais à Frente (no caso o PS). É certo que apenas 16 votos o separaram do 2.º mais votado mas... Uma coisa é certa: a sua tarefa não será, de modo algum, fácil.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Poço do Borratém

Depois das aldeias históricas, uma noite num bairro histórico de Lisboa: a Mouraria


Setembro, 2009

“Reportório útil a toda a gente”

É este o subtítulo do “Verdadeiro Almanaque Borda D’Água”.
1,50€ é quanto custa a edição para 2010. "Descontraia no comboio e ofereça-o à família". Era isso que ia dizendo o senhor que o vendia hoje no comboio.

- Quantos anos tem o senhor?, pergunta uma passageira
- 80, responde ele.
- Está aí rijo!
- Sabe, foram muitos anos dedicados à agricultura.

Deve ser também pelo facto de lhe estar tão grato, por o ter conservado assim, que este senhor lhe presta homenagem, vendendo este almanaque, presença indispensável nas casas onde os ciclos naturais ainda regem os dias. Na cidade estamos longe disso mas hoje, talvez com alguma nostalgia, lembrando-me que, na casa dos meus avós havia sempre um exemplar, resolvi comprá-lo.

"A Política como Vocação"

Sou daquelas pessoas (ou serei mesmo só eu?) que consideram a política uma nobre ocupação. A ideia de alguém se dedicar a pensar na melhor forma de resolver problemas que nos afectam a todos sempre me fez olhar os políticos como pessoas diferentes do resto dos cidadãos e que deveriam merecer o nosso respeito.

Considero, no entanto, que a escolha de uma carreira política quase nunca é baseada em motivos altruístas. Ou porque a família já possuía capital político, ou porque algum acontecimento na vida pessoal levou alguém a inscrever-se num partido, ou porque as organizações juvenis partidárias têm uns programas engraçados que levam os miúdos a inscreverem-se… Enfim as hipóteses são múltiplas. Mas aquilo que é verdadeiramente importante não é a forma como se chegou lá (desde que não seja de forma ilícita). É o que se faz com o poder que, inevitavelmente, se adquire quando se está em determinadas situações.

Se não me engano, foi logo no primeiro ano da faculdade que li um pequeno (mas só no tamanho) livro de Max Weber, “O Político e o Cientista”, que, ainda hoje, considero uma obra fundamental e a que recorro com frequência (a minha edição deste livro é a da Biblioteca Universal da Editorial Presença, Lisboa, de 1979).

Trata-se do conjunto de dois textos publicados, pela primeira vez, em 1919 e cujas ideias tinham sido previamente apresentadas numa conferência dirigida a estudantes em Munique.

Do primeiro, A política como vocação , porque as ideias nele contidas continuam válidas e sempre actuais, vou deixar uns excertos de vez em quando. Para começar:

“Que entendemos por política? O conceito é extraordinariamente lato... Por política entenderemos apenas a direcção ou a influência sobre a direcção de uma associação política ou seja, no nosso tempo, de um Estado (pág. 8)…

a política significará… a aspiração a participar no poder ou a influir na distribuição do poder entre os diversos estados ou, dentro de um mesmo Estado, entre os diversos grupos de homens que o compõem. (pág. 9).

Quem faz política aspira ao poder; ao poder como meio para a consecução de outros fins (idealistas ou egoístas) ou ao poder pelo poder, para desfrutar o sentimento de prestígio que ele confere. (pág. 10)

Pode fazer-se política,… como político ocasional, como profissão secundária ou como profissão principal. … Políticos ocasionais somos todos nós quando depomos o nosso voto, aplaudimos ou protestamos numa reunião política, fazemos um discurso político ou realizamos qualquer outra manifestação de vontade de natureza análoga. Para muitos homens, a isto se reduzem as relações com a política. Políticos semi-profissionais são hoje, por exemplo, todos os delegados e dirigentes de associações políticas que, em geral, apenas desempenham essas actividades em caso de necessidade, sem viver principalmente delas e para elas, nem no plano material nem no espiritual… (pág. 18)

Há duas formas de fazer da política uma profissão. Ou se vive “para” a política ou se vive “da” política. Os opostos não se excluem absolutamente. Pelo contrário, fazem-se geralmente as duas coisas, pelo menos idealmente; e, na maioria dos casos, também materialmente. Quem vive “para” a política faz dela a sua vida num sentido íntimo; ou goza simplesmente com o exercício do poder que possui, ou alimenta o seu equilíbrio e tranquilidade com a consciência de ter dado um sentido à sua vida, pondo-a ao serviço de algo. Neste sentido profundo, todo o homem sério que vive para algo, vive também desse algo." (pág. 20)