sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Esgotado

Recomeçar... outra vez

Recomeça…

Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar e vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

Aproveitem porque já quase não há

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Preto no branco

A cor branca é a predominante na loja. As prateleiras colocadas nas paredes são brancas e a maior parte dos artigos é de loiça branca, aqui e ali pintada com cores garridas. A cor está presente também nas flores artificiais colocadas desajeitadamente em jarras que mantêm o mesmo desenho desde que a loja abriu, certamente há muitos, muitos anos, provavelmente os mesmos que têm os bibelots que quase já ninguém compra mas que os donos da loja insistem em expor em grande quantidade.
Até há pouco tempo era o casal que recebia os clientes. Ela fazia as honras da conversa e ele, em silêncio, ia buscar os artigos. Limitava-se a sorrir.
Hoje não sorria. Estava sentado atrás do balcão com os olhos postos no chão. Mas era nele que recaía o nosso olhar. No mar branco da loja ele era um náufrago todo vestido de preto.

O que resta do Natal

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma guitarra portuguesa

Ricardo Rocha já foi distinguido com vários prémios, entre os quais o Prémio Carlos Paredes. Percebe-se bem porquê. Este tema é do seu primeiro disco que já tem 7 anos.

domingo, 26 de dezembro de 2010

É caso para dizer: uma desgraça nunca vem só...

Tal como no ano passado também há umas semanas atrás comprei "O Verdadeiro Almanaque Borda D'Água", edição para 2011. E depois de uma passagem rápida pelas páginas interiores, recheadas de informações, ligadas aos ciclos da natureza e religiosos, eis que o texto da contracapa se destaca, pelo título, "Juízo do Ano" e pelo seu conteúdo quase apocalíptico. Num ano de 2011 dominado pelo planeta Saturno, ficamos a saber que "Saturno traz destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza; tem domínio sobre os velhos, os caducos e solitários, os tristes e melancólicos."...
"... No reino animal, as ovelhas serão atingidas pela elevada mortandade.
Nas pessoas as desuniões reinarão e os divórcios proliferarão; na saúde podem-se esperar febres e epidemias não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo."
E nem o aspecto físico será uma excepção neste 2011 aziago: "Os que nascem neste ano de 2011 terão o rosto grande e feio; os olhos serão inclinados para a terra e assimétricos sendo o nariz grande e largo, os lábios grossos, as sobrancelhas juntas, a pele escura, os cabelos negros e ásperos e os dentes encavalitados e desproporcionados. As mulheres terão peitos volumosos em corpos magros e esqueléticos."

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dúvidas pré presidenciais

Quem são José Manuel Coelho, Luís Botelho Ribeiro e Amândio Madaleno?
E o que os levará a recolherem assinaturas para se candidatarem ao cargo de Presidente da República?  
E como é que José Pinto-Coelho obtém as assinaturas necessárias para o fazer?
E o seu slogan será "O candidato de alguns portugueses"?
E a candidatura de Manuel João Vieira, é menos séria que outras?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Música para a época

Confesso que muitos dos nomes da lista não me dizem nada. Mas o de Legendary Tigerman parece ficar ali muito bem. E atenção aos concertos.

Em tempo de crise

Neste Natal o apelo a desfazer-se dos objectos de que já não precisa não passa apenas pela dádiva e pela solidariedade. 

                                                      Cartaz de empresa de compra e venda de objectos em segunda mão.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Representar a vida e vivê-la

Pilar, Pilar, Pilar... O nome é repetido vezes sem conta, em discurso directo ou nos sonhos, como se o tempo fosse pouco para José a chamar. E ela está lá sempre, nos momentos de euforia e nos de tristeza, secundando as suas opiniões ou discordando delas abertamente, acompanhando-o nas suas inúmeras viagens, ouvindo as declarações de amor que ele faz em público sem qualquer constrangimento.
Ao longo dos anos fui ouvindo várias pessoas dizerem que gostavam de ler Saramago mas não gostavam da sua postura enquanto cidadão. Ao sair do filme duas senhoras diziam isso exactamente mas acrescentavam que, depois de o verem, ficaram com uma outra ideia de Saramago, homem. Aos seus olhos ele foi "reabilitado". Não conseguimos perceber se isso é intencional para o realizador, para o próprio Saramago ou para os dois. Certo é que se sente o escritor enquanto alguém que representa. É até estranho porque percebemos que a câmara nunca é esquecida. Tal como em qualquer documentário ela é uma presença que se sente.
E no entanto Saramago, que nos parece plenamente consciente de que está ali enquanto actor, representa a sua vida vivendo-a, sendo ele próprio, apercebendo-se da precariedade da vida e do aproximar do fim.
É um belo filme este. Pouco nos importa que possa ser um documentário. Pouco nos importa que tenha sido rodado maioritariamente em Espanha e o significado que isso possa ter. Miguel Gonçalves Mendes mostra-nos um homem. Que, não por acaso, era português e escreveu livros belíssimos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

O "comunista"

Hoje cruzei-me com ele. Mais velho, mas a mesma figura de sempre. Baixo, com a barriga proeminente, com a roupa que me parece ter usado sempre. E a boina basca que usou toda a sua vida e que só levantava ligeiramente para limpar o suor que lhe escorria da testa enquanto trabalhava. Era canalizador e, numa altura em que os problemas com as canalizações eram frequentes, lá andava ele, de vez em quando, muitas vezes à noite, a fazer biscates pelas casas das redondezas. Ele morava numa rua ali perto e todos os dias o via vir do trabalho. Gostava de o ver passar. Caminhava devagar como se não tivesse pressa, com a sua mala preta que o acompanhava sempre. Já só o via regressar pois quando saía de manhã era certamente muito cedo.
Depois de 74 encontrava-o à porta do mercado, ou da Academia Recreativa, a distribuir panfletos. Antes de Abril desse ano só a sua imagem misteriosa, sempre sozinho, sempre calado, aguçava a minha imaginação de criança. Porque todos os vizinhos diziam, uns com desdém, outros com admiração, que ele era comunista. E ele, com a sua postura muito discreta, não precisava de o negar ou confirmar. Limitava-se a passar com a sua mala e a sua boina. Foi o "meu primeiro comunista".

Uns "Yes, we can" à portuguesa

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A morte acontece

Depois da realização de um trabalho me ter levado todas as forças que tinha regresso aos dias imperfeitos. E foi quando estava há pouco a tomar um café que vi Carlos Pinto Coelho numa televisão afastada. Fixei o olhar pela estranheza de o ver no ecrã. Há já tanto tempo que não o via. Pensei que se tratasse de um directo em que ele, por alguma razão, comentava algo que aconteceu. Mas as suas imagens em diversas situações sucederam-se o que me levou a compreender que se trataria de outra coisa. Outra coisa que confirmei agora aqui, pela net. Recordo-me dele sobretudo no "Fim de semana", com o Mário Zambujal e claro no "Acontece". Mas a realidade é que, qualquer que fosse o tema, mais próximo ou mais afastado dos seus interesses, era sempre tratado com a mesma paixão; quem quer que fosse o entrevistado as entoações na voz davam conta da importância que lhe era conferida. Era um jornalista de mão-cheia. E de coração cheio.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A noiva careca

Chovia. Chovia muito. Numa imobilidade total em frente à montra deixava que os seus cabelos, compridos e desgrenhados, absorvessem essa chuva que caía, sem aproveitar o pequeno toldo que lhe poderia servir de abrigo. Mas não é exactamente no grupo dos sem-abrigo que o costumam colocar? A rua era escura e a luz da loja, apesar de muito branca, iluminava pouco o exterior. Era como se toda a luminosidade se concentrasse lá dentro, onde os manequins femininos exibiam vestidos de noiva, também eles brancos e cheios de brilhos. O seu olhar pousava num desses vestidos ou num desses manequins que o proprietário da loja entendeu deixar sem cabeleira. Seria isso que o deixava tão absorto? Ou seria antes alguma recordação de um passado menos sombrio, menos cheio daquela solidão que o tinha levado até ali?

Uma das razões/poemas porque gosto de Ana Salomé

Lume


Comecei a fumar para te pedir lume.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.


in Resumo - a poesia em 2009, Assírio & Alvim/FNAC, Lisboa, 2010, p. 24

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Lua e um queijo

O Lôbo e a Raposa

Raposa esfomeada
(Pois que para roer nem tinha um osso!)
Viu no fundo de um pôço
A lua retratada.
A orbicular figura um queijo crê
E pula de contente!
Água dois baldes alternadamente
Dêsse pôço tiravam. No que vê
Suspenso pelo pêso do segundo
Do pôço desce ao fundo;
Mas - coitada! -
Viu que fôra lograda e bem lograda!
«Em maus lencóis, dizia, eu vou achar-me!...
A menos de que alguém, como eu, com fome,
Por queijo a lua tome
E fazendo o que eu fiz, venha salvar-me.»
Nisto, com sêde, um lôbo se aproxima
E quere beber no pôço. Ao vê-lo em cima,
Diz-lhe a raposa muito amávelmente:
«Desça, desça , compadre!... vou presente
Fazer-lhe dêste queijo - convencida
De que outro assim não vê neste arrabalde»
O lôbo desce pronto, e na descida
Faz subir a raposa no outro balde.
Que motivo de riso isto não seja;
Dá-se o mesmo connosco exactamente:
Qualquer de nós crê sempre facilmente
Tudo o que teme e tudo o  que deseja.

                                                                 Luís de Macedo


in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 154                                                                                                                                                                                                          

Radicalismo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Pintar o que poderia ter sido


Imagem aqui

Não são quartos reais os pintados por Nikias Skapinakis. Nem os ateliers ou os recantos. Não é como se uma qualquer revista nos mostrasse fotografias das casas dos "famosos". Os famosos, presentes nestes quadros, mesmo não estando visíveis, são dos que não precisariam de nos mostrar a sua intimidade para os admirarmos. Todos os pintores e escritores, mesmo os que, pela sua obra, estão perto da transcendência, têm um quarto e uma cama. O desta imagem poderia ter pertencido a Amadeo de Souza-Cardoso. A série "Quartos Imaginários" faz-nos ficar mais perto de todos eles. Mesmo que só na imaginação do nosso quarto.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Séries, séries e mais séries

Actualmente a minha dificuldade, em termos de tempo, para ver televisão faz com que não acompanhe nenhuma série. Mas já houve tempos em que não perdia nenhum episódio de algumas séries, umas com mais, outras com menos qualidade. Em relação a todas elas, quem queira tirar as teimas pode ir ao "MyTVShows", um site criado pelo português Ivo Gomes, que é um sucesso internacional e onde se pode gerir o que já se viu, o que se anda a ver e o que gostaríamos de ver futuramente. A busca é muito simples e pode ser muito divertida. Experimentem!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"questo inverno di foglie"

"Nelson" ainda não está à venda por cá. Mas já se pode ouvir todo por exemplo no iTunes. E apesar de ainda faltar algum tempo o concerto em Lisboa de Paolo Conte já está marcado. (Obrigada Joana, pela chamada de atenção). A ver as novidades todas aqui.

E para deixar um exemplo do que perdem se não ouvirem:



Com direito a poema e tudo...

 Tra Le Tue Braccia

Scuserai
questo inverno di foglie
e i pensieri che
vanno scalzi per lontane vie...
via da te... via da me...
È un privilegio stare con te,
dolce persona vicina a me
Sentirai tra le dita
il respiro e la voce mia
che ti invita al mare,
o quel che sia...
sentirai, sentirai....
È un privilegio stare con te,
tutto è distante
niente lo è...
È un sortilegio
vivere in te
dolce persona vicina a me....

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1640 - Portugal e Catalunha
















"A Catalunha é como Portugal mas sem os Restauradores". Esta frase foi proferida há poucos anos atrás pelo vice-presidente do Governo Autónomo da Catalunha, Josep-Lluís Carod Rovira. Não é por acaso que o ditado popular "De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento" é comum ao nosso país e àquela região autónoma. Nem foi por acaso que a primeira conversa que tive em Barcelona, quando lá estive pela primeira vez, foi com um senhor já idoso, no metro, que mal soube que éramos portugueses, nos quis ajudar, dando-nos indicações, após ter manifestado a admiração que tinha pelos portugueses por terem conseguido, faz hoje 370 anos, tornar-se independentes de Espanha.
Muitos catalães têm, por outro lado, ainda hoje, a noção de que Portugal teria quase uma obrigação de apoiar as ideias independentistas da Catalunha pois só o facto de o rei espanhol se ter visto obrigado a desviar tropas para fazer face às revoltas naquela região teria permitido acabar com o domínio filipino em Portugal.
De uma forma bastante simplista, se a opção não tivesse sido a repressão das sublevações catalãs e da Biscaia, no que o reino espanhol foi apoiado pela França, hoje Portugal seria uma região espanhola e a Catalunha um estado independente. O exercício é puramente especulativo mas não deixa de ser interessante pensar como estaríamos hoje em dia.

Men in red

Já tínhamos esta noção para a associação entre esta cor e a atractividade nas mulheres. Agora chegam as provas científicas para o caso dos homens. Não foi certamente por esta razão que a cor do equipamento de grandes clubes desportivos foi escolhida. Mas é um dado a reter, por exemplo, na próxima campanha para as presidenciais.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Na esplanada

O nome escrito num autocolante na cadeira de rodas lembra-nos que vem de um lar ou centro de dia, onde durante as 24 horas só a posição de estacionamento das cadeiras muda: frente a uma mesa durante o dia, lado a lado durante a noite.
Mas agora está cá fora. Na esplanada, onde o sol, na tarde fria, aquece as cadeiras de metal. Não que a ela faça diferença. Há muito que aquela é a única cadeira onde se senta.
O homem que está consigo, filho ou neto, num gesto que se adivinha de um imenso amor, segura numa mão uma chávena de café onde, instável, se encontra uma palhinha enquanto com a outra lhe segura a cabeça que teima em pender para o lado direito. Num tom que para nós é demasiado alto mas que se vê obrigado a usar, se quer ser ouvido, incentiva-a a sorver o café o que demora algum tempo a acontecer.
Bebido o café num esforço partilhado, o dedo mais pequeno da frágil mão daquela mulher ergue-se e toca a mão do homem, numa expressão de agradecimento sincero. Ele aperta-lhe o dedo enquanto lhe limpa a boca.
Quando se vão embora da esplanada e a cadeira se vira vejo a cara da mulher pela primeira vez. É linda e o seu sorriso não engana: está feliz.

domingo, 28 de novembro de 2010

"Final de Rascunho"

No centro do palco uma mesa. Nela os "finais de rascunhos" em cábulas que vão sendo usadas porque as canções ainda são novas. Mesmo as mais antigas são apresentadas com arranjos mais recentes. Grandes músicos os que acompanharam, sexta-feira à noite, Sérgio Godinho na Culturgest. Nuno Rafael, um dos "Assessores", por exemplo, é fantástico. Os convidados foram Bernardo Sassetti (os seus solos de piano e o acompanhamento em algumas canções resultaram muito, muito bem) e António Serginho, com a sua marimba. Esta capacidade de trabalhar com novos músicos tem sido uma constante no trabalho de Sérgio Godinho e nós só temos a ganhar. Eu teria dispensado a leitura de poemas. Mas foi um bom concerto, que se repetiu esta noite e se repetirá amanhã. Fica aqui a versão ao vivo, em 2008, da última canção do encore.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Processo de criação na tribo

39

é o número de mulheres assassinadas este ano, num contexto de violência doméstica. Mais 37 tentativas de homicídio. Maus tratos físicos e psíquicos, ameaças, coacção, difamação e injúrias, violação e outros crimes sexuais, subtracção de menores, violação da obrigação de alimentos são outros dos crimes cometidos na família. Dia 25 de Novembro foi o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. Dia de nos lembrarmos e nos envergonharmos com estes números. E de nos envergonharmos por não nos lembrarmos nos outros dias .

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O dia seguinte e os outros

E pronto, o dia de greve já passou. Nas televisões e rádios ouvi comentários de várias pessoas que aderiram, manifestando alguma esperança nos efeitos que esta acção provocaria em quem decide. Mas isso foi ontem. Hoje estamos todos novamente submersos e com dificuldade em respirar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Na pastelaria

Estava só. Vestia de cinzento. Do ponto de onde eu a via apenas sobressaía o seu cabelo, completamente branco, preso, num penteado muito contido. Toda a sua figura respirava sobriedade. À sua frente, um prato. Nele, um bolo, grande, cheio de chantilly e fios de ovos que comia com enorme satisfação, sem esconder o prazer que lhe causava.

Mas afinal quem é esse Tchaikovski?

Um cartaz afixado no interior do comboio chamou-me a atenção. Tratava-se de uma peça de teatro dirigida a crianças: "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos". Na ficha técnica e artística destacavam-se  os autores da música: Quim Tó e Tchaikovski.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Uma visão da NATO aos 10 anos

É certo que os pressupostos que estiveram na base da criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte já ficaram lá para trás no tempo. A ameaça do bloco do leste europeu deixou de existir. Mas a política de segurança da Europa e da América do Norte continua a estar enquadrada por esta organização. E mesmo sabendo que muitos erros foram cometidos em nome dessa segurança eu não consigo ter uma opinião definitiva e considerar a NATO como exclusivamente causadora de situações de conflitos, sem qualquer contribuição para a paz.
O mesmo, pelos vistos, não pensa a minha filha M. que, este sábado, sem que eu desse conta, esteve a fazer este cartaz que resolveu pendurar da varanda do quarto de onde foi salvo por mim, prestes a ser destruído pela chuva.

Esperar vai valer a pena



Os "irmãos Dupont" explicam como começa a aventura:

domingo, 21 de novembro de 2010

Puzzles XXL

Há quem goste de fazer puzzles com peças muito pequenas. Joe Berardo prefere fazê-los com peças um pouco maiores.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Votar será assim um prazer tão grande?

Na Catalunha há quem queira chamar as pessoas às mesas de voto, de formas muito estimulantes:



Num estudo publicado não há muitos anos concluía-se que 32% das mulheres portuguesas têm dificuldade em atingir o orgasmo. Por outro lado, as taxas de abstenção nas eleições dos últimos anos não são nada animadoras...Mas cá para mim, que nunca falhei uma eleição, a senhora do vídeo está a fingir...

Será que ela tem razão?

"Sabes, mãe, isto que estás a viver, a tua vida, é um sonho. A realidade é muito pior. Por isso aproveita..."

M., 10 anos

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Do PIB para a FIB

O Produto Interno Bruto é eficiente para medir a quantidade de riqueza que um país consegue gerar com as suas actividades produtivas – comércio, indústria e serviços, mas não mede, por exemplo, a degradação do meio-ambiente, o desaparecimento dos recursos naturais ou o declínio na qualidade de vida de todos os humanos. É assim, uma medida unidimensional que não tem em conta todos os outros aspectos que fazem do homem um ser multidimensional. Porque não, então, pensar num novo conceito que considere essas variáveis e o bem-estar psicológico, a manutenção do equilíbrio. Foi o que fez, em 1972, o rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, tendo-o definido como a Felicidade Interna Bruta. (Ver o vídeo sobre este tema que, em Setembro, foi publicado no Sustentabilidade é Acção).
Enquanto os modelos tradicionais de desenvolvimento têm como objectivo primordial o crescimento económico, o conceito de FIB baseia-se no princípio de que o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade humana surge quando o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento material são simultâneos, complementando-se e reforçando-se mutuamente. Os quatro pilares da FIB são, assim, a promoção de um desenvolvimento sócio-económico sustentável e igualitário, a preservação e a promoção dos valores culturais, a conservação do meio-ambiente natural e uma boa gestão dos recursos dos países através de acções eficientes e eficazes dos governos.
Hoje em dia, depois de estudado por especialistas do Canadá, dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia, este conceito inclui também questões ligadas à educação de qualidade, à saúde, à protecção ambiental, ao acesso à cultura, entre outros. Pretende-se assim agregar aos elementos disponíveis para os decisores políticos, até agora da ordem do económico, ligados sobretudo ao consumo; os valores éticos e culturais que remetem não só para os critérios dos Índices de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, mas também para a sistemática análise de factores ambientais, culturais e ecológicos, ligados ao bem-estar.
Vem esta questão a propósito da intenção, anunciada pelo instituto que produz as estatísticas na Inglaterra, de seguir o exemplo do governo francês e começar a analisar estes índices. (Ouvir aqui). Não deixa de ser interessante observar um país que tanto contribuiu para o desenvolvimento de novos meios de produção, tendo sido pioneiro na Revolução Industrial, aceitar que a definição das políticas públicas deve passar também por estes índices.
E claro que a maior importância dada a conceitos como o FIB terá certamente a ver com a tomada de consciência de que a busca incessante de mais riqueza de forma mais rápida tem conduzido a um modelo de desenvolvimento económico cujos efeitos colaterais negativos estão à vista de todos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vide Gal e o Google Earth

Depois de uma visita virtual ao Rio de Janeiro feita hoje, via Google Earth, surgiu a questão: como é que uma economia que é a décima maior economia segundo o Banco Mundial e a segunda maior do continente americano, atrás apenas dos Estados Unidos, e que, de acordo com os especialistas, continuará a crescer nos próximos anos; lidará com a questão da habitação que, no caso daquela cidade, se traduz em extensões enormes de favelas e condições de vida extremamente precárias?
Mesmo assim, o Rio continuará a inspirar canções como esta:

Razão da escrita

"Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre a causa e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese."

in Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: livro de horas I, Assírio & Alvim, Lisboa,  p. 44

sábado, 13 de novembro de 2010

Directamente da fábrica

À beira de um lago que enfeitiça

Em 1896, quando estreou em São Petersburgo, foi um fiasco. No ano anterior, Tchékhov dizia numa carta a um amigo: "Estou a escrever uma peça. (...) Escrevo-a com bastante agrado, embora pecando horrivelmente contra as regras de cena. É uma comédia com três papéis femininos, seis masculinos, quatro actos, uma paisagem (vista para um lago); muita conversa sobre literatura, pouca acção, cinco arrobas de amor" *. Mas, n'"A Gaivota" o amor não é linear. Ele serpenteia pelas personagens e dificilmente os desencontros são ultrapassados.
Na encenação de Nuno Cardoso, que vi há algumas semanas, não só o texto, mas o próprio cenário, nos transmitem essa ideia de movimento contínuo. As árvores da floresta obrigam a constantes desvios e o lago reflecte, duplica a imagem de todos os que dele se aproximam, lembrando-nos que nem sempre a realidade é clara.
"TRIGÓRIN: Este sítio é muito bom! (Ao ver a gaivota) O que é isto?
NINA: É uma gaivota. Konstantin Gavrílovitch matou-a.
TRIGÓRIN: É uma bonita ave. Na verdade não me apetece ir embora. Veja se convence Irina Nikoláevna a ficar. (Escreve no caderno.)
NINA: O que está a escrever?
TRIGÓRIN: Estou só a tomar uma nota... Surgiu-me um tema... (Escondendo o caderno) Um tema para um pequeno conto: na margem do lago vive desde criança uma jovem, assim como você; gosta do lago como uma gaivota, e é feliz, e livre como uma gaivota. Mas por acaso apareceu um homem, viu-a e por não ter nada que fazer, destruiu-lhe a vida. Como a desta gaivota. (Pausa.)" *


Foto aqui 
* Retirado da brochura do programa

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sorrisos

Os cartazes na montra de vidro transparente mostravam vários sorrisos onde se adivinhavam os dentes perfeitos. No interior da clínica dentária alguns clientes esperavam, enquanto folheavam revistas que continham fotografias de gente, também ela sorridente, exibindo dentes muito brancos. Cá fora um homem sentado no chão tem à sua frente uma pequena caixa de cartão. No interior duas moedas e uma pedra. Ao lado um pequeno cartaz diz apenas: "Tenho Fome". Não o vi sorrir. Os seus dentes também não apareciam no rosto fechado.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de José Tolentino Mendonça

Murmúrios do mar

«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o Inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»

in José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999, p. 44

Os pombos não têm culpa

Dispenso:


pessoas que continuam a alimentar os pombos em Lisboa.

Cat Power

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Intoxicated Man"

Não é por acaso que quando procuramos "Serge Gainsbourg" no Google nos aparece logo um vídeo de um programa de televisão francês, tipo talk show, de 1986, em que ele, provavelmente depois de ter ingerido algum álcool a mais, ao ser apresentado a Whitney Houston, a todos deixa perplexos com as suas boutades. Lembrado sempre pelos seus excessos, neste filme de Joann Sfar podemos acompanhá-lo desde a sua infância até ao final da sua vida. Mas, como diz o realizador, não se trata de um documentário mas um conto no qual não falta sequer uma personagem de ficção, um alter ego, que nos ajuda a compreender melhor o protagonista. Para quem gosta de Gainsbourg e para quem não o conhece este é um filme a ver. De referir ainda a bela Laetitia Casta, que vai tão bem como Brigitte Bardot.

domingo, 7 de novembro de 2010

Património. Mais de 100 anos.

Actualmente quando pensamos em património pensamos em tudo, ou quase tudo. Todas as realizações do ser humano, sejam elas materiais ou imateriais, são passíveis de serem entendidas como património. De facto, desde que socialmente seja relevante, qualquer peça de uma qualquer engrenagem, qualquer canção que se cante na hora de deitar, qualquer par de sapatos, podem entrar na mesma designação que utilizamos para falar de um monumento que chegou até nós, dando-nos a conhecer determinadas técnicas de construção ou perspectivas arquitectónicas. É, entre outras coisas, por isto que a gestão do património, sobretudo aquele que se refere a um tempo passado, é um assunto tão delicado e que envolve, necessariamente, verbas significativas. O armazenamento das obras, a sua conservação são preocupações quer de particulares, quer do Estado. Este, pela natureza do património que tem à sua guarda, nomeadamente o construído, não tem uma tarefa nada fácil. E a forma como a gestão é levada a cabo varia de época para época, de orientação política, para orientação política. No que toca, por exemplo, à conservação de edifícios os orçamentos disponíveis são sempre fundamentais. Mas as opções tomadas têm sobretudo a ver com diferentes perspectivas de intervenção que nunca deixam de ter forte impacto na forma como esses edifícios nos aparecem. A opção por uns em detrimento de outros, a intervenção mais minimalista ou mais intrusiva, a escolha dos arquitectos, nunca são indiferentes para o resultado final.
Tudo isto vem a propósito da exposição "100 anos de património, memória e identidade" que visitei há umas semanas no Palácio Nacional da Ajuda. Nela podemos dar-nos conta da forma como o poder público lidou com estas questões desde as primeiras preocupações no séc. XIX, passando pelas visões da 1.ª República, pela febre de restaurar, restaurar do Estado Novo, pelas novas perspectivas introduzidas pela "Carta de Veneza" até à forma como actualmente é entendido o património. E a verdade é que também a forma como o poder político olha o património de todos nós diz bastante sobre as suas  formas globais de olhar o mundo. É isso que os documentos, nomeadamente as fotografias presentes na exposição, nos permitem perceber. O interesse da exposição ultrapassa, por isso, o conhecimento da evolução das perspectivas de intervenção ao longo dos últimos 100 anos. É que se o património a que atribuímos significado e a forma como o vivemos está ligado ao que nós somos esta exposição é um espelho onde nos podemos observar e sobretudo pensar naquilo que esse património significa hoje e no papel de todos nós na sua salvaguarda.

Ao Pedro, ao Miguel e à Benjamina

Obrigada!

- ao primeiro por sugerir a leitura da minha leitura d'o Beijo, de Klimt, no Delito de Opinião.
- ao segundo, do Vermelho Cor de Alface, e à terceira do Armazém de Pedacinhos, pelo Prémio Dardos, cujo selo aqui reproduzo, mas que, dada a minha dificuldade em seguir a cadeia neste momento, não atribuirei, pelo menos por enquanto, a outros blogues que o merecem certamente.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sketches de Espanha por Miles Davis

Melodias de sempre

O som era o de uma "melodia de sempre", daquelas que tanto se podem ouvir numa gravação enquanto esperamos que nos atendam o telefone numa empresa; ou num elevador num edifício onde não se acredita que alguém aguente o silêncio dentro de uma caixa fechada, com pessoas que podemos não conhecer.
O homem, já velho, sentado no banco em frente, permanece imóvel, como que enfeitiçado. A música parece ser-lhe  indiferente. Ele olha aquelas teclas que, obedecendo a uma ordem pré-formatada, dão ao piano a ilusão de não precisar de pianista.
O seu ar não é de surpresa. É apenas de resignação, como se ele fosse aquele piano, tocado por umas mãos invisíveis que o obrigam a estar ali sentado a olhar o movimento das teclas que, de outra forma, não conseguiria acompanhar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Trick or treat"

Dispenso:


crianças mascaradas que estão convencidas que isto de pedir doces nesta data é coisa do "Halloween", moda recentemente importada dos Estados Unidos, via séries e filmes que passam na TV. Este ano tinha decidido: só darei alguma coisa a quem disser "Pão por Deus" ou "Bolinhos, bolinhos em louvor de todos os santinhos!". Não ouvi, no entanto, nenhuma das versões. Esta tradição, pelo menos nas áreas urbanas, está a desaparecer de ano para ano.

sábado, 30 de outubro de 2010

Relax

2D versus 3D

Há poucos dias vi no programa "Onda Curta" da RTP 2 uma curta metragem realizada por Andrés Sanz. A história, narrada por Isabella Rossellini, fala-nos de um homem que se apaixona por uma mulher pintada num quadro exposto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Esta mulher, em duas dimensões, não sai da sua cabeça, ocupando mais espaço que a namorada que, com as suas três dimensões, não consegue competir com a nova obsessão. Um exercício muito, muito interessante.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Trabalhadores de última geração

A conversa desenrolava-se ao telefone. O rapaz, com vinte e poucos anos, contava ao seu interlocutor as últimas novidades sobre o projecto que se encontrava a desenvolver. A propósito do grupo que com ele trabalhava ouvi-o dizer que ele era o mais velho. "Só para tu veres: outro dia estávamos a conversar e chegámos à conclusão que eu era o único que tinha visto os Ficheiros Secretos na televisão"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Uma leitura de O Beijo


Apesar da quase unanimidade em relação a esta obra eu ainda não percebi se gosto ou não dela. Ou melhor, gosto no que diz respeito às questões mais visuais, das cores e dos padrões. Mas a atitude dos protagonistas sempre me deixou dúvidas.
Não consigo afastar-me da sensação de que é uma perspectiva muito masculina em que o homem controla subjugando, de alguma forma, a mulher (ele segura a sua cabeça não lhe deixando quase liberdade de movimentos) enquanto, não mostrando o rosto, se está a furtar ao nosso olhar e à possível exposição que isso lhe traria. A indefinição das suas formas, por contraste com as da mulher, mais contidas, sugere-me que, a concretizar o que deseja, a conseguirá dissolver no seu eu, dominando-a por completo.
Quanto à mulher, o facto de estar ajoelhada lembra submissão e o seu rosto revela resignação ou medo. Também a situação, à beira de um eventual precipício, em que é a mulher que está do lado de fora, pode indicar, até, um beijo de despedida antes do empurrão fatal. As mãos dela não me parecem muito decididas, oscilando entre a  vontade de o afastar e a certeza de não o conseguir. Definitivamente parece-me que não está ali mas em algum outro lugar para o que contribuem os olhos que se fecham (para não o ver ou para o ver melhor?).
Esta é a minha leitura de O Beijo. A maioria dos que conhecem este quadro (e são muitos, muitos mesmo) fazem uma interpretação menos crua e consideram-no uma representação por excelência de uma relação amorosa feita de paixão sem restrições em que a confiança e a entrega são tais que o facto de estarem à beira de um abismo só contribui para aumentar a união entre o homem e a mulher. É uma outra leitura, também possível. Mas eu não poria em qualquer lugar de destaque uma reprodução desta obra.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um beijo sui generis na hora de deitar

- Mãe, sabes que não me estás a dar um beijo a mim? É que eu sou sentimentos e portanto tinhas que me beijar o coração; e inteligência e para isso tinhas que me beijar o cérebro. E tu estás a beijar só as células mortas que estão na minha pele. (M., 10 anos)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma cidade, um filme triste e cenas de comédia

Lecce fica no "salto da bota". Depois de a vermos no filme apetece visitar esta cidade. É aí que se desenrola a história dramática da família Cantone, marcada pelo peso dos preconceitos e pelas tentativas de os ultrapassar. Pelo meio, cenas delirantes que nos deixam muito bem dispostos. Não será um grande filme. Mas saímos do cinema a achar que valeu a pena.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A razão principal da ida a Sintra...

...foi o Sr. Lloyd Cole. Gosto do novo álbum, apesar das vozes menos contentes com o facto de, morando agora nos Estados Unidos, o músico estar mais "americanizado". Neste concerto foi acompanhado por Mark Schwaber (na guitarra e no bandolim) e Matt Cullen (na guitarra e no banjo). Juntos constituem o Small Ensemble. Muito sóbrio, sem grandes efeitos de luz, centrado na música, Cole tocou e cantou temas do tempo em que estava com os Commotions, dos seus discos anteriores a solo e claro deste último. Gostei mas confesso que senti alguma monotonia. O acompanhamento, sempre o mesmo, cansou-me. Não deixou, no entanto, de ser um bom concerto. A proximidade que o músico conseguiu criar com o público, a cumplicidade, foram constantes. Tal como disse outro dia, a sua capacidade para fazer boas canções permanece. E por isso ouvi-las é um prazer.

sábado, 16 de outubro de 2010

Conhecer Hedda

Há já bastante tempo que não ia ao teatro. Agora, ao ver Hedda, uma produção dos Artistas Unidos, relembrei como é bom estarmos ali, numa sala cheia de emoções, encenadas, mas nem por isso menos verdadeiras.
O texto, de José Maria Vieira Mendes, a partir de Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, é muito bom e as interpretações, à excepção de António Pedro Cerdeira, do qual nunca fui capaz de gostar, são excepcionais. O destaque vai, obviamente, para  Maria João Luís. O comportamento da sua personagem já deu azo a tantas interpretações, todas elas possíveis, que se torna difícil saber qual a que estaria na mente de Ibsen ou dos autores mais recentes. De qualquer forma, se todos entendêssemos Hedda da mesma forma seria um sinal que a peça não atingia os seus propósitos.
Até domingo, no S. Luiz podem tentar formar a vossa opinião. Verão que valerá a pena.

Foto aqui

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma das razões/textos poéticos porque gosto de Rosa Maria Martelo

Vidros

Não há como colar o vidro das palavras ao vidro das coisas. Ainda que sendo o mesmo vidro, não há como juntar vidro com vidro e ocultar a cicatriz que não continua o mesmo quando do mesmo se separa. E para mais neste caso, sendo um como o outro translúcido, e eu sem saber de qual dos dois estou a falar agora. Vidro do mesmo vidro, em dois pedaços - contíguos, não contínuos: este, que agora uso, como uma lente, e o outro que através dele procuro ver, sem discernir qual dos dois o mais opaco ou qual dos dois mais transparente.

in Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp, Averno, Lisboa, 2009, p. 19

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu quero lá saber dos segredos desta gente...

Ainda não tive oportunidade de ver "A Casa dos Segredos" na TVI à excepção de um minuto ou dois em que Júlia Pinheiro, num vestido vermelho, explicava umas regras que os concorrentes tinham de cumprir e que giravam à volta de uma tal de "A Voz" (não percebi o que é que Frank Sinatra tinha a ver com o assunto a não ser o facto, dizem, de ter tido, também ele, muitos segredos). Mas o programa já foi motivo de desentendimento com as minhas filhas que depois de terem ficado deslumbradas com a casa onde tudo se passa se preparavam para acompanhar as peripécias dos residentes. Por enquanto o assunto ficou resolvido, mas...
A propósito deixo duas críticas ao programa: uma séria e outra ainda mais séria.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O meu nome não é Alexandre

O mundo do cinema de Hollywood está cheio de casos de actores que, por terem nomes estrangeiros, eram aconselhados a mudar de nome. Mas aí até se podia argumentar que seria difícil alcançar o estatuto de estrela com um nome, muitas vezes, difícil de pronunciar. Neste caso, parece que o dono da empresa terá achado que Mohamed não agradaria aos clientes. Nada melhor, portanto, do que "sugerir" o uso de um outro nome, supostamente mais francês. São situações como esta que têm tendência para acontecer cada vez mais num país onde se vai instalando um clima xenófobo que poderá tornar-se dificilmente controlável.

Ironias de um regime

Segundo ouvi hoje na rádio, a mulher de Liu Xiaobo disse que  foram os guardas prisionais que informaram o marido que era ele o vencedor do Prémio Nobel da Paz deste ano.

domingo, 10 de outubro de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Philip Larkin

High Windows


When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives--
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.


in Philip Larkin, Janelas Altas, Livros Cotovia, Lisboa, 2004, p. 44

sábado, 9 de outubro de 2010

O valor de uma "golden share"

A crise a preto e branco

Já foi uma loja com muito movimento. Agora, encerrada há algum tempo, por ter deixado de ser necessária, mantém na montra os retratos de alguns dos clientes que ali tiravam as fotografias para o bilhete de identidade ou outros. Provavelmente estes foram os últimos clientes e ali permanecem em jeito de homenagem. Mas agora os rostos já não são nítidos. O sol encarregou-se de apagar os pormenores e agora até as reproduções que já foram a cores ficaram esquecidas no preto e branco. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"Ler é sonhar pela mão de outrém"

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego.

Nesta escola (Secundária de Miraflores) os livros estão sempre onde menos se espera. Há brigadas que “assaltam” aulas com o propósito de lerem, há poemas que aparecem aqui e ali… Dois alunos ficaram, este ano, em primeiro lugar: um no Concurso Nacional de Leitura no Ensino Secundário e outro no Concurso Nacional “Faça lá um poema”. Para Novembro está marcada uma homenagem a José Saramago onde estará presente João Tordo, vencedor do prémio Saramago 2009. Grande parte deste dinamismo deve-se à equipa da biblioteca da escola que promove a leitura e a escrita de forma muito apelativa para os alunos.

Porque me parece um bom exemplo deixo aqui a ligação para o blogue .

terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro sempre! Ou como os regimes são imperfeitos, como os dias.

Busto da República que pertenceu ao meu avô (e que agora me pertence)


Sim, eu sei. Podemos discutir imensa coisa relacionada com a República. Podemos dizer que, nestes 100 anos, foram mais os anos negativos que os positivos. Podemos dizer que os dias, meses, anos, mais recentes desta República não têm trazido grandes motivos de alegria. Podemos argumentar que os dias futuros que se avizinham não serão fáceis.
Mesmo assim a República continua a ser o sistema de governo que me parece mais equilibrado. Vejam-se, por exemplo, as ideias de Philip Pettit.

Levantem o “Embargo”

Eu e outra pessoa éramos os únicos espectadores na noite de 6.ª feira numa das salas de cinema de um centro comercial dos arredores de Lisboa. O filme era “Embargo”, de António Ferreira.
Corajoso este realizador que faz um filme baseado num conto de José Saramago onde impera o absurdo: um homem que, querendo mudar a sua vida e tendo finalmente uma arma para o fazer se vê preso, literalmente preso, ao seu automóvel, que o impede de alcançar um outro patamar na escala social. Apesar de incompreendido pelos outros personagens, ele não deixa de tentar.
Entendo este filme como uma alegoria. Querendo entrar na dinâmica do mercado capitalista, através da sua própria iniciativa, é o automóvel, um símbolo desse próprio mercado, que se constitui como o seu primeiro inimigo, criando um obstáculo intransponível.
Os locais escolhidos num qualquer subúrbio não identificável, o tempo que podia ser qualquer um, reforçam essa ideia de alegoria.
A interpretação de Filipe Costa é muito boa. A banda sonora também.
Pode não ser um grande filme. Mas merece ser visto. Está por aí nas salas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí""

Parece que não será hoje que o Brasil terá um novo presidente. A candidata apoiada pelo PT, Dilma Rousseff, terá que ir a uma segunda volta com José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira. Serão mais alguns dias de campanha, aqui tão bem analisada.

Entretanto:

sábado, 2 de outubro de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Teresa M. G. Jardim

Mulher-Sono
(com imagens de Paula Rego)

Se tivesse uma filha
mostrava-lhe como fiar
e desfiar um novelo,
para que fosse mais desconfiada
com a vida que leva.
Ensinava-lhe desde o berço
a dar utilidade a tudo: à Branca de Neve
como toalha de mesa, ao nariz do Pinóquio
para colher peras abacates, etc.
Viver seria mais simples para ela
do que tem sido para mim.

in Teresa M. G. Jardim, Jogos Radicais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 27

Revolta só no futebol

Continuo a ver os funcionários públicos e todos os outros trabalhadores a sorrir, mesmo depois do anúncio das intenções do governo. Na comunicação social este, na capa d'a Bola, parece ter sido o grito de revolta mais visível desde quarta-feira (e ainda por cima apresentado pelo lado positivo), o dia em que percebemos finalmente o alcance da mensagem da ministra da educação: vamos agarrar-nos aos livros, relembrar sobretudo a aritmética. Nunca, como agora, foi tão importante saber fazer contas. E é melhor começarmos já. 2011 está quase aí.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O poeta e o louco

O homem estava sentado na mesa da esplanada. Falava sozinho, ou para si próprio, como só os que consideramos loucos podem fazer. Fernando Pessoa, no seu fato de bronze, com a perna esquerda sobre a direita, estava ali numa mesa mesmo ao lado. Ninguém lhe fazia companhia. Nenhum turista, dos que habitualmente se sentam, sem serem convidados. Neste momento estavam os dois sós.  

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"You can get a beat from a broken heart You could write the book while falling apart"



Serão cinco os concertos em Portugal, no próximo mês. A última vez que o vi foi na FNAC do Chiado. Agora lá estarei em Sintra. Os cabelos estão mais brancos e as rugas são cada vez mais. Mas a capacidade de fazer boas canções mantém-se.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Quando ambos os lados são certos



Parabéns, Tiago! É bom ver a rua assim...

A tradição ainda é... o que já não era

Esquina sim, esquina não, lá estão eles: os homens e as mulheres das capas pretas. Mesmo que faça muito calor, mesmo que as meias de vidro que cobrem as pernas das raparigas pareçam tão ridículas quanto a maior parte dos emblemas cosidos às capas. Desde os que dizem respeito aos concelhos (ligados por motivos vários à vida de quem a usa) até aos que transmitem conselhos a quem os lê, parece que, inclusivamente, existem regras específicas para a sua colocação.
A ligação não é directa mas, nesta altura do ano, lembramo-nos inevitavelmente das praxes que pretendem a integração no espírito académico dos chamados caloiros. Por estes dias a cena repete-se nos locais públicos das cidades onde existem universidades ou outras instituições ligadas ao ensino superior. Um grupo de jovens com os tais trajes académicos (as lojas que vendem os trajes viram, nos últimos anos, o seu negócio aumentar) mistura-se com outro grupo de jovens, "vestidos à civil". Estes, obrigados pelos primeiros, cumprem uma série de ordens mais ou menos ridículas que incluem quase sempre andar de gatas e cantar umas canções. Parece que é tradição. Nos últimos anos, após se ter tomado conhecimento da dureza de algumas praxes, (dizem que Dura Praxis, Sed Praxis) surgiram vários movimentos de contestação àquelas práticas sendo bastante conhecidas as cartas às universidades do Ministro do Ensino Superior, Mariano Gago ou os manifestos anti-praxe assinados por personalidades mediáticas do mundo da literatura ou da música. E por falar nisso: sabiam que, já no final do séc. XIX, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão assinaram um manifesto desse género?
Eu, que sempre me queixei da falta de espírito académico na Universidade que frequentei, sinto-me bastante satisfeita por ter por lá andado numa época em que estas "tradições" estavam adormecidas. E para bem dos estudantes (caloiros e não só) e dos transeuntes que se deparam com estes espectáculos nas ruas, deixem-nas adormecer novamente... 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

"Duma existência banal até às luzes da ribalta..."

Ao cimo das escadas aí estão eles. Munidos de máquinas fotográficas que disparam incessantemente, todos querem apanhar o melhor ângulo, antes que o elevador se ponha em marcha. Lá dentro, o guarda-freio, do lado oposto ao que ocupará quando levar o famoso veículo até ao fundo da calçada, olha na direcção dos turistas e, com o seu melhor sorriso, posa para fotografias que levarão o seu rosto até bem longe dali.

Arquitectura e Ficção

Uma conferência com um tema muito interessante e com uma designação muito bem conseguida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

"...in the fullness of time"

O preço dos cigarros

- Ó amigo, não me arranja um cigarrinho? O homem interpelado parou e puxou do maço. O outro acrescentou: - Eu dou-lhe 50 cêntimos. Perante o espanto de quem, de boa vontade, lhe daria um cigarro, explicou: - Sabe, é que eu ando a ver se deixo de fumar e decidi que não compro mais tabaco e que sempre que cravar um cigarro o pagarei a este preço.
Não cheguei a saber se a transacção se fez. Mas, pela urgência na voz de quem definiu as regras, se quiser mesmo deixar de fumar, o preço terá ainda que aumentar bastante.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sinuosidade onde menos se espera

Nesta o Pai Natal não caberia. Mas ainda bem porque, se entrasse, ficaria de tal forma tonto que trocaria todos os presentes.

Alentejo, Setembro 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

Uma manhã de Agosto na Torre do Tombo

Este mês de Agosto de que falo é o do ano passado. Não sei se esta estória se poderia passar agora mas há alguma probabilidade que assim seja.

Um amigo, que não é de Lisboa, pediu-me para ir à Torre do Tombo levantar umas fotocópias de um documento cujo pedido ele tinha feito.
Tudo começou por um telefonema, que tinha como objectivo saber se estava tudo pronto, feito para o balcão de fotocópias em que o senhor que atendeu me explicou que, dadas as férias de alguns funcionários, a satisfação do pedido teria que ser adiada.
Algum tempo mais tarde voltei a ligar e falei com uma senhora, muito simpática (demasiado simpática, diria eu) que, depois de me assegurar que as fotocópias estavam tiradas, me confidenciou alguns factos do seu dia-a-dia. Queixou-se de ter ficado sozinha durante o mês de Agosto e por isso ter imenso trabalho. Perguntei-lhe se estavam abertos à hora de almoço pois era essa a indicação que tinha. Respondeu: “aberto à hora de almoço? Não! Eu chego por volta das 10. Depois à hora de almoço o balcão está fechado. E à tarde fecha às 16, mas não venha mesmo a essa hora porque, como preciso de fechar a caixa, convém estar despachada 10 minutos antes”.
Uns dias mais tarde, quando tive disponibilidade, lá fui eu, logo de manhã, convencida que seria chegar lá e levantar as fotocópias, sem qualquer problema. Pois estava enganada. Cheguei por volta das 10.10. O segurança, na entrada, disse-me logo que “a Vera” ainda não tinha chegado. Às 10.30, depois de, de livro aberto à minha frente, ter passado pelas brasas, sentada num sofá muito confortável, voltei a perguntar a uma senhora, que estava sentada numa mesa à entrada de uma sala, que me confirmou que a funcionária ainda não estava.
Dez minutos depois observei algum movimento no interior da sala contígua ao tal balcão das fotocópias, que não tinha deixado de estar no meu campo de visão. Aí me dirigi, acreditando que desta é que era. Mas, por mais que visse a sombra de alguém passar de um lado para o outro, ninguém se chegou ao balcão, ignorando o meu chamamento.
Quando finalmente “a Vera” se abeirou de mim e lhe disse o que pretendia, sem que eu tivesse feito qualquer referência ao tempo de espera, perguntou-me pelo papel (verde, acho eu) que eu não tinha pois estava na posse do meu amigo, mas que já tinha confirmado, ao telefone, que não seria imprescindível. Lá lhe dei o número do pedido e ela lá foi procurar as cópias. Entretanto chegaram, quase em simultâneo, dois senhores, um deles estrangeiro. Depois de ter interrompido várias vezes a busca para me vir dizer que não estava a encontrar nada (ao que eu lhe respondia que me tinha confirmado que já estavam tiradas as fotocópias) e ter atendido uma técnica que trabalhava no local, a quem tratava apenas por doutora, e que lhe pedia clips e perguntava pela saúde e disposição; a Vera veio perguntar-me se, uma vez que não estava a encontrar o que procurava, eu me importaria que ela atendesse os senhores que, entretanto, já estavam a ficar impacientes.
Nesse momento eu não aguentei mais e expliquei-lhe que estava ali desde as 10.10 e que não iria ficar muito mais tempo mas que queria levar aquilo que tinha ido buscar. Isto fez a senhora perder mais algum tempo em justificações do género: “eu estava aqui às 10 (quando os colegas me tinham dito o contrário) mas, como estou sozinha, tive que ir aqui e ali e acolá para distribuir expediente”.
Mas, pelos vistos, resultou porque, na incursão seguinte na sala do lado, lá encontrou as cópias.
Pensava eu que o assunto ficaria resolvido. Mas ainda demorou um pouco mais. A “doutora dos clips” ainda voltou para pedir mais algum material. Entretanto, para ser possível passar o recibo, era preciso, para além do nome, o número de contribuinte que, como eu não tinha, originou mais um tempo de hesitação. Finalmente, depois de atender uns telefonemas, e de alguma dificuldade com os trocos, que teve que ir buscar a outro sítio (era o primeiro pagamento do dia) lá me deu o recibo, não sem antes me recomendar, com muita ênfase, que o papel verde teria que ser destruído, ao que eu prometi que seria feito.
E assim foi. Mais de uma hora depois, consegui finalmente sair do edifício levando na mão o envelope com as fotocópias e na minha cabeça a certeza que nunca iria conseguir esquecer a Vera.


(O nome da funcionária foi alterado)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um outro Elvis

O seu pai, o actor Anthony Perkins, gostava muito de Elvis Presley. Daí ter optado pelo nome Elvis para o seu filho. Podia ter escolhido outro nome qualquer. Gostaríamos, na mesma, de o ouvir.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Homem Invisível passou

Lembro-me dele na faculdade (ele frequentava o curso de Comunicação Social) quase sempre junto à mesa de matraquilhos. Segui muitas das coisas que fez, muito por culpa do meu gosto pelo humor (dos programas do Herman, do Inimigo Público…). Recebeu, neste dia 13, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu livro “Deixem Passar o Homem Invisível”. Ainda não li o livro, apesar de já o ter comprado, mas não é só por este escritor ser benfiquista e ter a minha idade que destaco este prémio. É que do seu primeiro romance, “E se eu gostasse muito de morrer” gostei muito, muito mesmo.
É desse romance este excerto:
“Temos frutarias na Venezuela e mercearias na África do Sul, ok, há-de haver um restaurante a servir sardinha fresca de Peniche no Alasca, muito bem, mas que é feito da saga das Descobertas?
Quero lá saber.
Conto as minhas descobertas num instante, se prometeres não rir, mas estás tu farto de saber quais são.
Navego como faz a malta toda, na Net. Mas desconheço se é normal falar-se com tanta gente esquisita, difícil de qualificar (e até perigosa) no mundo, como faço no meu quarto. Na janela cruzetina.
Há pessoas na rede que não prestam para nada, são bostas com pernas.
Outras, no entanto, não me importava de as conhecer ao vivo. Com a evolução diária dos motores de busca, encontras tudo tudo mas mesmo tudo o que te interessa, felizmente ou infelizmente.
Desde que saí de casa, de madrugada, que ando a saltar de assunto em assunto, esta coisa lembra-me aquela, a outra uma nova, a nova uma do passado, vai tudo para a misturadora, e se calhar perdi a noção do que interessa. É muito zapping e pouco timing. Já me deu para ir chatear o Bispo e agora o Camões! Triste Camões, no fim da vida de amores errados, no Tejo, no Mondego, sobre os rios que vão por Babilónia, foi zarolho em África, náufrago na China, esfomeado em Lisboa, ele viu escuro o lume das estrelas.
A verdade é que, passado e presente, tudo me perpassa pela retina, como escrevem os palermas que enviam postalinhos ilustrados das viagens, e os que revêem a vida inteira no minuto em que vão morrer.
E o futuro, deixa-o chegar, que já faltou mais.”

in Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2006, p. 163-164