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sábado, 13 de junho de 2015

Desse livro inesgotável

Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. 
Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e, ao voltar, perdi-me na fixação destas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e contradição. Não sei se isso é melhor ou pior do que o contrário, que também não sei o que é.

O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.


in Fernando Pessoa,  Livro do Desassossego, Edição Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Relógio D'Água Editores, 2008, p. 458

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Presa no subúrbio

Sim eu sei que "o tráfego automóvel continua a ser a principal causa da degradação da qualidade do ar na cidade de Lisboa, dado que constitui a principal origem de poluentes atmosféricos prejudiciais à saúde humana" e que há que cumprir o "Plano e Programa de Melhoria da Qualidade do Ar (Região LVT)". Também sei que quem toma as decisões não tem a culpa que eu não resida no centro da cidade ou que não tenha tido capacidade para, ao longo dos meus anos de trabalho, amealhar dinheiro suficiente para trocar o meu carro matriculado no ano de 1993.  
Mas com esta e outras medidas ninguém me tira esta sensação de falta de liberdade. E não é a liberdade para levar o carro para o trabalho, o que nunca fiz desde 1995, quando comecei a trabalhar em Lisboa. É a liberdade para, por exemplo, quando as minhas filhas estão doentes, poder levá-las ao médico que fica numa área da cidade onde, mesmo que só raramente, o meu carro não pode emitir partículas (PM10) e dióxido de azoto (NO2). A liberdade para poder chegar a um jantar num restaurante da capital antes das 21.30, sem ter que utilizar os transportes públicos que a partir de certa hora deixam de ser uma boa alternativa.  
A Avenida de Ceuta, o Eixo Norte/Sul, a Avenida das Forças Armadas, a Avenida dos Estados Unidos da América, a Avenida Marechal António de Spínola, a Avenida Santo Condestável e a Avenida Infante D. Henrique,  no período compreendido entre as 7 horas e as 21 horas passam, a partir de hoje, a ser os meus limites. Fico presa do lado de fora. Ainda por cima eu tenho esta mania parva de cumprir as regras...

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Uma convivência difícil

Um passageiro, ao sair do comboio, depois de uma senhora que ia a ler se ter mostrado incomodada por ele falar muito alto durante a viagem, diz para a sua mulher e para quem quisesse ouvir: filha da puta! Vem para aqui com o livro! Ela que vá mas é ler para a biblioteca!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Próxima paragem: mudar a nossa vida

Não gosto de falar do que não sei. E realmente não sei bem o que se passa com os comboios da linha de Cascais. 
No Verão do ano passado chegavam as notícias da supressão temporária de comboios (por exemplo, aqui) que, tal como se esperava, passou a definitiva. Determinadas notícias davam conta de um fim previsível. 
Em Novembro também do ano passado falei aqui sobre este assunto.
Nesta última semana, depois do serviço se ter vindo a deteriorar, mais supressões têm acontecido. Comboios cheios, espera à chuva, informações inexistentes, passageiros confusos...
Entretanto a notícia da concessão a privados. Se, em princípio, essa ideia me causa estranheza, pior ainda é a sensação de que a nossa vida vai mudar, sim. Mas não posso deixar de pensar que não será para melhor...



quinta-feira, 3 de maio de 2012

A vida mesmo ao seu lado

O homem vinha numa das carruagens, há longos minutos, num tom de voz bastante alto, a contar anedotas intercaladas com frases em que pedia "a mais pequena moeda" que cada um tivesse na carteira. Que não roubava, só pedia.
A mulher vinha sentada à minha frente e, numa longa conversa de telemóvel, tratava de questões profissionais com alguém que conhecia bem. À passagem do homem, sem o olhar, pediu desculpa ao seu interlocutor pelo barulho: "é um mendigo que está aqui aos gritos". Antes de se despedir, recomendou a essa pessoa a leitura de um livro de Pepetela que não identificou. Eu pensei que podia ser um romance, ou um conto que contenha uma personagem como a que a mulher não viu mas que estava ali, mesmo ao seu lado.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ai, as conversas...

Acho que já disse aqui que, nas viagens nos transportes públicos, me agrada poder ouvir as conversas de quem faz o mesmo trajecto. É assim uma espécie de voyeurismo auditivo. Só que, nestas circunstâncias, quase sempre quem é ouvido sabe que o está a ser, pelo que não é completamente inocente o que se diz e a maneira como se diz e por isso é atenuado o sentimento de escutar conversas alheias. Vem isto a propósito de duas conversas que ouvi nestes dois últimos dias, nas viagens de comboio de regresso a casa. 
Na primeira, dois homens, de cerca de 70 anos, algarvios, percebi a meio da conversa, trocavam opiniões sobre peixes, as melhores maneiras de os cozinhar e os melhores sítios para os comer. Foi como ter lido um suplemento de uma revista da especialidade. A lampreia, o sável, a abrótea, a cavala, a sardinha, o cação, a garoupa, o imperador, o salmonete e outros, foram ali falados de maneira rica e interessante como só dois bons apreciadores o poderiam fazer e de uma forma tão espontânea que me fez ter pena de levantar e sair na minha estação deixando-os ainda a tecer loas ao mercado de Vila Franca de Xira nos idos de 60.
A outra conversa juntou duas amigas que discorreram sobre as vantagens e desvantagens de comprar nas lojas de chineses e o problema de ser convidada para um casamento em pleno Inverno com temperaturas tão baixas. Se, no primeiro caso, as opiniões divergiam, tendo cada uma delas experiências opostas; já no caso do segundo estavam em sintonia: as toilettes vaporosas usadas no Verão não têm concorrente à altura numa época em que está guardado, para a noiva, o sacrifício de usar um vestido sem costas quando lá fora estão 5 graus.
Se bem que, de registos completamente diferentes, ambas as conversas me distraíram do meu livro e me fizeram sorrir. 

domingo, 20 de novembro de 2011

Pouca terra...

Não será exactamente, como era no início da exploração da linha, uma viagem "morosa, poeirenta, fatigante, sacudida de solavancos", como se lê neste texto publicado no "Cantinho dos Comboios" pelo Luís.
No entanto, de há algum tempo a esta parte, parece que, na linha de Cascais, temos andado para trás no tempo. A supressão de comboios, que começou por ter umas desculpas esfarrapadas e a garantia que era uma situação temporária até se tornar num facto permanente; notícias sobre as dificuldades em garantir a manutenção do material; a falta de limpeza das composições, pelo menos no exterior, que tornam os comboios um misto de mupi para colocar publicidade e parede para vermos graffiti; são a face mais visível da situação. 
A austeridade, ao que parece, é a grande culpada impedido a CP de equacionar a compra de novos comboios e de cumprir o que até agora era uma obrigação. A empresa tem perdido certamente. Mas, sobretudo, perdemos todos nós. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dois grupos

Um grupo de estudantes, caloiros certamente, contava animadamente as peripécias do dia - estamos em plena época de praxes -. Eram quatro, estavam sentados e tinham as roupas e os rostos pintados. Na estação seguinte, um grupo de trabalhadores, da construção civil, com certeza, entrou no comboio. Em silêncio ficaram a olhar os estudantes. Eram quatro. Ficaram em pé. Tinham as roupas e os rostos pintados.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A realidade e o sonho

Numa mão o chapéu de chuva que servia de bengala. Na outra o saco de plástico. Os artigos que trazia hoje para vender eram "carteirinhas para o passe". Ali ninguém lhe comprou nada. Arrastando os pés, passou então à carruagem seguinte.
As pantufas que trazia calçadas, que causam estranheza nestes dias quentes, (ou noutros, se pensarmos que não é suposto serem trazidas para a rua) estavam cheias de um pó branco por cima. Imaginei-as, de noite, junto a uma parede, onde a caliça vai caindo, numa casa em que o abandono a que é votada é semelhante ao que é votado o seu ocupante.
E imaginei-o a ele. A sonhar. Um sonho em que lhe bastava uma carruagem para vender tudo o que trazia. E a sair com um sorriso, na direcção de uma sapataria.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mas afinal quem é esse Tchaikovski?

Um cartaz afixado no interior do comboio chamou-me a atenção. Tratava-se de uma peça de teatro dirigida a crianças: "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos". Na ficha técnica e artística destacavam-se  os autores da música: Quim Tó e Tchaikovski.

domingo, 8 de agosto de 2010

Almoço de domingo

De um lado o rio. Do outro a grade que os separa da linha do comboio. Uma lona azul cobre a estrutura improvisada de madeira. Mesa, cadeiras, fogão, geleiras estão ali para servir o propósito de fazer uma refeição domingueira fora de casa. Há muitos anos que aqueles casais cumprem o mesmo ritual. A passagem do comboio não parece perturbá-los. A vista do rio, que ali não é particularmente limpo, parece compensar o barulho e a trepidação que acontecem a intervalos regulares. Sentados à mesa, à vista de todos, mas num momento só deles, quase íntimo, aquele é o almoço mais importante da semana.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Imagens dos números do desemprego

Pela manhã, quando o comboio chega ao Cais do Sodré, a plataforma, de onde sairá o próximo, na direcção de Cascais, encontra-se cheia. Cheia de gente que transporta mochilas, sacos, chapéus-de-sol, geleiras. A algazarra é grande. Pelo meio alguns rostos mais fechados que não partilham da aparente alegria e que olham quem chega e vai a caminho do trabalho com alguma nostalgia.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Acolhimento ao turista

A cara de espanto do casal de turistas (não percebi qual a língua que falavam entre eles) quando o senhor que vende “carteirinhas para o passe a 1 euro” se lhes dirigiu em inglês. Eles, depois de responderem que não queriam, ficaram a rir e a comentar a situação. Certamente inesperada, esta capacidade linguística causou muitos sorrisos entre os passageiros da carruagem que pareciam pensar que este vendedor de ”carteirinhas para o passe” contribuía, significativamente, para uma apreciação positiva por parte daqueles visitantes em relação ao nosso jeito de acolher.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Vontade de aprender

Cais do Sodré. A feira do livro (daquelas numa tenda que agora há todo o ano em quase todas as estações de metro e de comboio) estava praticamente vazia. Apenas algumas pessoas junto a uma banca à entrada. Com o afastamento de uma delas pude ver quais as obras que suscitavam mais interesse: alguns livros do género “auto-ajuda” e ainda, em destaque, “O Kama Sutra Pack” e “O Kama Sutra Box”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

“Reportório útil a toda a gente”

É este o subtítulo do “Verdadeiro Almanaque Borda D’Água”.
1,50€ é quanto custa a edição para 2010. "Descontraia no comboio e ofereça-o à família". Era isso que ia dizendo o senhor que o vendia hoje no comboio.

- Quantos anos tem o senhor?, pergunta uma passageira
- 80, responde ele.
- Está aí rijo!
- Sabe, foram muitos anos dedicados à agricultura.

Deve ser também pelo facto de lhe estar tão grato, por o ter conservado assim, que este senhor lhe presta homenagem, vendendo este almanaque, presença indispensável nas casas onde os ciclos naturais ainda regem os dias. Na cidade estamos longe disso mas hoje, talvez com alguma nostalgia, lembrando-me que, na casa dos meus avós havia sempre um exemplar, resolvi comprá-lo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ver e ouvir os comboios

O Rui Ribeiro, que trabalha em audiovisuais, mandou-me este pequeno filme sobre uma das estações da Linha de Cascais: a da Cruz-Quebrada, que aqui partilho. E neste site há mais filmes a ver.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O livro mais esperado de sempre?

Li agora mesmo este texto de João Lopes no Sound+Vision. Não podia concordar mais. Aliás ia também referir aqui algo que vi hoje e me deixou perplexa. Logo de manhã, ao chegar à estação do Cais do Sodré, me deparei com uma bancada, do género das que vendem pirilampos mágicos na época dos ditos. Mas, neste caso, a bancada estava repleta do mais recente livro de Dan Brown. Junto a ela, um homem, vestido de fato e gravata, que tomei como o vendedor. Eu não gosto de falar do que não conheço e por isso não me vou pronunciar sobre o conteúdo do livro, nem de nenhum outro livro do autor. Posso, no entanto, dizer que as capas dos seus livros me parecem todas iguais.
À tarde lá estava o vendedor e a sua bancada repleta. Não percebi se não vendeu os livros ou se o ritmo da reposição era superior ao da reposição de produtos em promoção nos hipermercados em horas de ponta. Pelos vistos a polícia não o multou, nem lhe apreendeu a mercadoria, o que significa que tinha autorização para ali estar. E, desta vez, tinha uma cliente. Uma senhora, na casa dos 60's, a quem dizia, provavelmente depois de ter sido questionado sobre o tema do livro: "é sobre coisas antigas".
Como estratégia de vendas talvez resulte. Quanto a mim ainda não vai ser desta que lerei um livro de Dan Brown. Será que a editora considera que estamos todos tão ansiosos por comprar esta obra que não conseguimos sequer chegar a uma livraria para o fazer?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma questão de uniformização de linguagem

A partir do momento em que, no metropolitano, se começou a ouvir, no sistema de som, o nome da estação seguinte havia um tratamento diferenciado em relação a duas das linhas de comboio, com estações servidas pelo metro. Assim, nos Restauradores, dizia-se “há correspondência com o comboio suburbano". No Cais do Sodré dizia-se ”há correspondência com a linha de Cascais”.
Uma questão de pormenor mas que poderia ser entendida como a atribuição de diferentes significados valorativos às duas linhas.
De há uns meses para cá uniformizou-se a linguagem e utiliza-se a expressão “comboio suburbano” nas duas situações. Eu teria preferido a outra hipótese (Linha de Sintra e Linha de Cascais). Não porque considere que a palavra suburbano seja depreciativa mas porque individualizava as linhas e facilitava a sua identificação por quem, não sendo de Lisboa, ou mesmo de Portugal, não conhece estas ligações. Opções.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Afinal havia outra..."

exposição. Vai estar aberta mais tempo mas a divulgação é igualmente muito discreta. Provavelmente é para não destoar da forma como decorreu a inauguração, "em 30 de Setembro de 1889, do ramal, que deveria ligar Cascais a Santa Apolónia". Como se vê não é de agora a dificuldade para concretizar os planos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

120 anos da Linha de Cascais

É certo que a exposição está aberta ao público durante pouco tempo mas a divulgação não deve ter sido muito eficaz porque eu, utilizadora regular desta linha, só hoje vi um cartaz. Não sei se a exposição vai para algum outro lado, nem se vale a pena visitar, mas, para os amantes dos comboios, aqui fica o alerta: é só até ao próximo sábado!