sábado, 13 de junho de 2015

Desse livro inesgotável

Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. 
Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e, ao voltar, perdi-me na fixação destas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e contradição. Não sei se isso é melhor ou pior do que o contrário, que também não sei o que é.

O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.


in Fernando Pessoa,  Livro do Desassossego, Edição Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Relógio D'Água Editores, 2008, p. 458

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Confusão histórico-geográfica

E para aproveitar esta noite em que o sono ainda não chegou, relembro que hoje foi o dia em que a RTP, no seu Jornal da Tarde (logo no início da segunda parte), noticiou a inauguração de "dois monumentos" que o incêndio no Chiado em 1988 destruiu: os Terraços do Carmo e o Elevador de Santa Luzia. Segundo explicaram a "recuperação" permite que sejam "devolvidos aos lisboetas dois espaços há muito perdidos" nestes que são "projectos -chave para a requalificação da baixa lisboeta".
Ora se é verdade que as jornalistas, tanto a que estava no estúdio como a que estava no local, não têm idade suficiente para se lembrarem do incêndio ocorrido há 27 anos, a sua profissão deveria obrigá-las a informarem-se antes de cumprirem a sua função que é informar.
Para lá de algumas coisas, pelo meio da peça jornalística, que se podem considerar correctas, as asneiras ditas com convicção foram mais que muitas: chamar monumentos a um espaço ajardinado desenhado agora e a um elevador projectado recentemente não faz qualquer sentido. Dizer que o incêndio destruiu coisas que não existiam faz ainda menos. Confundir Alfama (onde se encontra o edifício onde foi construído o elevador) com o Chiado é um disparate. E dizer que o incêndio do Chiado destruiu ambos é uma enormidade. A tragédia que ocorreu naquele dia de Agosto de 1988 teve consequências terríveis para a cidade. Mas a zona afectada, felizmente, esteve longe de chegar ao bairro que tem no topo os miradouros das Portas do Sol e de Santa Luzia...

...though we started early we got here real late...



quarta-feira, 10 de junho de 2015

O feriado de Camões

- Não há direito! Andamos tanto tempo a falar de Camões durante o ano e depois o feriado calha logo na semana em que não temos aulas...

M., 15 anos

terça-feira, 2 de junho de 2015

Um registo de há 40 anos

A data era 2 de Junho de 1975. Ali estava eu, de dedo na boca, na fotografia da primeira página de um jornal diário de grande tiragem. No dia anterior, ainda Primavera, mas já perto daquele Verão que haveria de ficar conhecido como quente, a festa tinha acontecido no Parque de Jogos 1.º de Maio. Os meus pais, sempre avessos a grandes ajuntamentos, não sei bem porquê, tinham decidido que me levariam até lá para comemorar o dia mundial da criança. Nunca eu tinha estado num sítio assim, com tanta gente e com tanta animação. Tinha um vestido branco com joaninhas vermelhas e uma fita na cabeça. As outras crianças que por ali andavam misturavam-se com os muitos pais, adultos que aproveitavam mais uma ocasião para sair à rua e festejar um tempo novo a que não sabiam ainda o que chamar. Na fila de miúdos que estava à frente não deixava de estar também um militar que impunha alguma ordem mesmo que sem grande convicção. Como se só houvesse aquela canção, a voz de Ermelinda Duarte e a sua gaivota que voava, voava, lembrava-nos que éramos finalmente livres. Livres para voar, para crescer, para dizer. Eu não sabia bem o que queria dizer liberdade mas não havia música melhor para aquele dia. O título da notícia era "Dia mundial da criança na força da liberdade".

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Arquitectura das palavras

"A mí me gusta mucho el lenguaje simple. Hay que intentar simplificar. Yo dedico mucho más tiempo a simplificar que a escribir. Si puedo decir algo en cinco palabras en vez de en quince lo digo en cinco. Suelo citar una historia de un escritor clásico que escribió una carta muy larga a un amigo y al final puso: "Pido disculpas por esta carta tan larga; no he tenido tiempo de hacerla más corta". Ahí está la síntesis de mi metodología. Con esa simplicidad intento que mis libros sean lo más densos posible, concentrando mucho la energía y las ideas en poco espacio. Si tengo una idea que ocupa cien metros cuadrados, mi trabajo ha de ser mantener la idea pero ponerla en diez metros cuadrados, después en diez centímetros cuadrados y por último en un centímetro cuadrado. Para mí es fundamental que el lector pueda coger esa idea y desdoblarla como si desdoblara un lienzo...
... Para mí cada frase tiene que decir algo sustantivo. Escribir una frase es una responsabilidad. Creo que hay que escribir una frase solamente si tienes algo que decir."

Gonçalo M. Tavares, numa entrevista aqui.

A flexibilidade e a polivalência no início do séc. XX

- Quando eu era nova (há 60-70 anos) havia no bairro uma mulher que fazia tudo: era parteira, organizava casamentos, tratava dos velórios, vestia os mortos…

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Catarina era o seu nome

Foi em 19 de Maio de 1954 que Catarina Eufémia foi morta. Discussões à parte (entre os que defendem que esta mulher pertencia, na altura, ao Partido Comunista Português e os que defendem que o partido se apoderou da situação tendo criado um mito que serviu para reforçar a sua identidade) o que é facto é que aquele acontecimento perdura na memória da terra onde tudo aconteceu e, de forma mais ou menos presente, na dos portugueses em geral. 
No meu caso, como no de muitos outros, foi na canção de Zeca Afonso, ouvida na adolescência, que ouvi falar dela pela primeira vez. Uma mulher tão nova e tão corajosa era uma figura que só me podia causar admiração. Continua a causar, claro. Mas percebi depois que, a existir, a sua inspiração heróica estaria misturada com o acaso e que a sua história era a de uma mulher com uma família, com três filhos pequenos (a mais velha com 6 anos, o mais novo com 8 meses), que sofreram, mais que ninguém, com a situação. 
Esta perspectiva foi muito bem desenvolvida na reportagem "Catarina é o Meu Nome" de Maria Augusta Casaca que passou na TSF em Abril de 2013 e de que me lembrei ontem ao ler que este acontecimento fazia 61 anos. Nela se dá conta, por exemplo, de que a família nunca teve a possibilidade de decisão sobre o corpo, tomado a seu cargo primeiro pelas autoridades do Estado Novo e depois pelo PCP; que os seus filhos foram colocados em instituições e separados; que os que lhe estavam mais próximos e os habitantes de Baleizão nunca se puseram de acordo em relação ao seu papel na história. 
O seu túmulo conta uma versão que, mesmo que possa ser discutível, é ilustrativa de uma época importante do nosso passado recente. Ir para além dela, numa abordagem mais humana foi o que aquela reportagem conseguiu fazer. (Quem queira pode ouvi-la em podcast aqui).

Gosto muito de andar a pé

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Três coisas para lá do bicampeonato:

- a cor uniforme (tipo loiro) dos cabelos das mulheres/namoradas dos jogadores do Benfica;
- as brincadeiras azedas dos adeptos de outros clubes que, nas redes sociais, dão largas à sua imaginação para tentarem enfraquecer e tornar menos intensa a vitória que o clube mereceu;
- o prazer que foi rever em casa o filme Singin' in the rain nesta noite. 




sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os festivais de cinema e as passadeiras

Hoje em Cannes

                                                                     Foto aqui

e em Gaza
                                                                     Esta e outras aqui

sábado, 9 de maio de 2015

As cores são diferentes...

... mas, por estes dias, no Reino Unido, há uns quantos agachados...

         Imagem aqui

          Imagem aqui


          Imagem aqui

E dentro dos penicos o que estará? Talvez as sondagens...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O livro que tem dado que falar nos últimos dias ou a biografia do cidadão imperfeito

Apesar de muito criticado por aceitar a publicação de uma biografia quando está apenas com 50 anos, a verdade é que Passos Coelho não é propriamente um caso único. Muitos o fizeram neste ponto da sua carreira, em épocas em que o seu futuro político está em vias de definição. Não há nada de excepcional na situação. E se há editoras prontas a fazê-lo é porque o mercado existe. Terá que ser o leitor a relativizar, tendo em conta as circunstâncias em que o texto é publicado, a autora, o facto de ter sido autorizado, os episódios que conta, os que são omitidos. Diz a editora na apresentação que "baseada num amplo trabalho de pesquisa, investigação e recolha de diversas opiniões e testemunhos, Sofia Aureliano escreveu uma biografia única que nos aproxima de Pedro Passos Coelho". Aproximará? E se o trabalho de pesquisa e investigação foi tão bem feito por que razão não falou com alguém próximo de Paulo Portas, ou com o próprio, para esclarecer as questões que mais celeuma levantaram? O testemunho de Secundino Cardoso do restaurante «O Comilão» poderá ser importante mas o de Diogo Feio poderia também ter sido equacionado.

 Imagem aqui

No entanto é o título escolhido que mais dúvidas me suscita. Por mais que o leia não consigo perceber a ideia que lhe está subjacente. "Somos" indica que estamos no presente. Significa isto que, nesta altura, Passos Coelho é o que escolheu ser? E como é que isso aconteceu? Como é que escolheu? Será que a biografia é assim tão clara?
E depois, numa perspectiva que é normalmente a correcta, devemos generalizar a expressão e considerar que basta escolher o que queremos ser para o sermos? E quem não consegue? É porque não tem capacidades? E que tipo de capacidades? As intelectuais, as económicas, as sociais? Ou será porque não quer com força suficiente? E o gesto de pôr a gravata tem alguma coisa a ver com tudo isto? Será uma piada a Varoufakis? A cor é uma provocação a António Costa?
Será que para responder a estas questões terei que ler o livro? Hum... Acho que vou ficar sem saber...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Quatro mães

Ontem, depois do jantar, a minha mãe resolveu ir buscar duas fotografias que, em grande formato, se encontravam na parede da sala da casa dos seus pais antes de ser vendida; e das quais eu me lembro muito bem quando lá ia nas férias. Numa delas a mãe do meu avô materno, com o seu cabelo apanhado e o seu ar distinto olha-nos com uma beleza serena do início do século XX. A outra é a única fotografia que conhecemos da minha avó materna que morreu quando a minha mãe tinha 9 anos. 73 anos já passaram entretanto. Mas a minha mãe continua a recordá-la com a mesma emoção que sempre lhe observei quando fala dela. Esse momento em que as minhas próprias filhas testemunharam o carinho com que a avó guarda essas imagens foi o mais significativo deste dia da mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Daqui a poucos dias já só nas Avenidas Novas

Não as frequentava muito é certo. A última vez que lá fui foi há um mês. Falo das salas de cinema do Fonte Nova, geridas até agora pela Medeia Filmes. Nesse dia a sala estava muito composta. Era um domingo, logo a seguir ao almoço e lembro-me de ter registado que parecia, de facto, um cinema de bairro com muitos casais já mais idosos, provavelmente moradores ali perto. O filme era Leviatã e àquela hora era o único cinema que o passava. Daqui a poucos dias deixará de ser uma opção. O Colombo e as suas salas onde o cinema é apenas mais uma coisa (e por vezes parece não ser a mais importante) parece ter levado a melhor

sábado, 25 de abril de 2015

"Guerras perdidas e ganhas"

Esta brincadeira no post anterior não pode ser a única referência a um dia tão importante como o que hoje comemorámos.
Nestes 41 anos tanto mudou para melhor mas tanto há ainda por fazer. Nos avanços e recuos a que assistimos neste tempo muitas coisas ditas, lidas, cantadas, deixaram de fazer sentido. Outras podem ser actualizadas como se o que levou os seus autores a escrevê-las estivesse novamente presente. Não está. Não da mesma maneira. Mas os sentimentos que as inspiraram e as emoções que despertam estão, por vezes, muito próximos.

Em Abril, comemorações mil

Este ano, neste dia, o que deverei fazer para comemorar o 25 de Abril? Estive a analisar algumas das inúmeras propostas e percebi que estou dividida. Utilizar a pista tumbling insuflável ou experimentar a estampagem com vegetais e fruta? Em comparação com a segunda, provavelmente a execução de saltos mortais e piruetas é mais adequada à data. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Partilhas

- (Falando do Facebook) Eu às vezes partilho fotografias com alguns amigos. Mas nunca autorizo que eles as partilhem com outros. Não gosto nada que pessoas que eu não conheço fiquem a saber coisas sobre mim.
Isto dizia a senhora para a sua companheira de mesa num tom bem audível para todos naquele restaurante cheio.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Ler sempre

Mesmo que doa.

                               Imagem aqui                                                           Girl in Grey (1939)
                                                                Louis le Brocquy (Ireland, 1916 – 2012)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Os clássicos podem ser fixes?

Há uns dias atrás, Francisco José Viegas colocava esta questão. Não é fácil chegar a uma conclusão. Ou porque somos um país onde a qualidade e a quantidade de clássicos torna difícil a escolha, ou porque muitos portugueses, infelizmente, não conseguiriam votar tendo uma opinião fundada. Ou pelas duas coisas e outras ainda.
Curiosamente esta semana, numa fila no supermercado, deparei-me, junto às caixas, com um livro infantil que me suscitou sentimentos opostos. 

                                                     Imagem retirada daqui.

Se, por um lado, me parece que pode ser uma forma de divulgar junto das crianças algumas informações sobre escritores fundamentais do nosso país; por outro, o adjectivo usado não me convenceu. Claro que a palavra fixe pode ser utilizada como sinónimo de algo que agrada e tem qualidades positivas mas quando a ouvimos não deixamos de pensar em "porreiro". É certo que já tivemos um presidente fixe. Mas a utilização deste termo fará sentido quando falamos de escritores e das suas obras? Almeida Garrett é fixe? E Florbela Espanca será?  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fiat Lux

Sentou-se no banco e imediatamente fez a chamada. Quando do outro lado atenderam, e depois dos cumprimentos, num tom de felicidade que se manifestou na voz e que parecia querer partilhar com toda a carruagem, informou: 
- Já tenho dinheiro! Hoje vou pagar a luz!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Definindo as curvas da modelo

- Mais para a esquerda! Mais para baixo! Não, não, foi demais! Um bocadinho para cima! Ele bem via que a curva não estava correctamente desenhada pois as duas folhas teimavam em não encaixar de forma irrepreensível e este era um trabalho que queria que ficasse impecável. A modelo era muito bonita e o seu corpo merecia um investimento em tempo. Não interessava que a carrinha estivesse mal estacionada e que o colega, empoleirado no cimo da estrutura, estivesse num equilíbrio instável. Não sairia dali enquanto a perna da mulher do cartaz daquele painel publicitário que anunciava um novo ginásio não ficasse perfeita.

Born Eleanora Fagan

Fui à procura dela e não a encontrei: a minha cassete com músicas de Billie Holiday. Uma amiga, adolescente como eu, emprestou-me alguns discos que eu gravei na aparelhagem. O som era mau (já o original devia ter muitas imperfeições). Mas até aparecerem os CD's foi essa cassete que eu ouvi e voltei a ouvir vezes sem conta. Músicas curtas mas que não precisavam ser maiores para nos encherem as medidas. Lembro-me que ficávamos contentes quando dizíamos "me, myself and I" ou outros versos mais conhecidos e alguém à nossa volta reconhecia a canção. Ainda hoje é uma expressão que utilizo.


Billie Holiday nasceu há 100 anos. Explorar o site oficial é uma boa forma de comemorar a data.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A homenagem lá de casa

No período passado a professora de História pediu à turma de que faz parte a minha filha mais nova para apresentarem trabalhos sobre figuras da História de Portugal no séc. XX. Ela pediu a minha opinião e eu sugeri Salgueiro Maia. Ela aceitou. No final do período apresentou o trabalho aos colegas na aula.
(No sábado passou mais um ano sobre a morte deste homem, capitão à altura do 25 de Abril de 1974.)

sábado, 4 de abril de 2015

Os prémios da "nossa academia"

Na mesma noite, o filme “Os gatos não têm vertigens” dominou os prémios atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema. Confesso não saber quais os critérios para atribuição dos prémios mas, tendo visto este filme e "Os Maias", não compreendo como se atribui o prémio de melhor filme ao de António-Pedro Vasconcelos. O filme de João Botelho, pela complexidade e originalidade, apesar de inspirado num texto clássico, merecia mais.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Aprender com Manoel de Oliveira

De Manoel de Oliveira não vou falar. Já tantos disseram tanta coisa... A verdade é que a sua morte deixa, de uma forma a que eu nunca tinha assistido, uma sensação de vida cumprida. E não se trata de um trocadilho com "comprida". É mesmo cumprida. Muitos o disseram desde que o velho realizador morreu ontem. De tanto fazer parte deste mundo alguns amigos disseram que achavam que ele já não morreria. Mas claro que a sua humanidade era plena e essa condição implica a mortalidade. De qualquer forma são poucos os que assim vivem em quantidade e qualidade. Das tantas homenagens que ouvi retenho a conversa ontem na RTP Notícias entre várias pessoas ligadas ao cinema. Notava-se a tristeza ligada à sua morte mas também a alegria por falarem de alguém que tanto deu ao cinema e com quem, mesmo não estando cá, se continuará a aprender.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Resultado das eleições de ontem na Madeira: complexificação...

... da morfologia da palavra-chave: do "jardinismo" para o "albuquerquismo".

Benfica

Não chove nem está sol. Mas o grande guarda-chuva que segura entre as mãos está aberto. Adormeceu e o seu corpo escorregou encontrando-se apoiado no banco onde o homem se sentou, formando quase um ângulo raso. Também os óculos escorregaram e estão suspensos na ponta do nariz. Na manhã de domingo muitos são os casais de velhos que passeiam pela rua num bairro onde se vêem poucos jovens. Uns vão de mãos dadas, caminhando devagar, conversando. Outros, lado a lado, em silêncio, olham as montras das lojas olhando-se por vezes, quando estas lhes devolvem o seu reflexo. Aparentemente ninguém repara no homem que dorme. Como se tivesse percebido que estava quase a cair, está agora mais sentado no banco. O grande guarda-chuva que segura entre as mãos continua aberto. Mas não chove nem está sol. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Aqui não há heróis ("positivos")

Ao procurar o trailer do filme, li alguns dos comentários que anónimos foram deixando. Mesmo não compreendendo os que utilizam o alfabeto cirílico podemos perceber que muitos russos não se revêem neste filme. Isso parece-me absolutamente normal. Esta é uma história particular. Mas o facto de se passar na Rússia actual, o retrato das relações de poder com a maioria dos indivíduos a serem completamente esmagados face a quem o detém; as referências a um passado não tão distante assim; a imagem de uma sociedade dominada pelos poderosos e pela Igreja que os protege, com uma justiça arbitrária; criou uma discussão à volta do filme, acentuada pelo facto de a sua visibilidade nos países ocidentais (com os quais as relações já foram melhores) ter sido bastante grande (candidato à Palma de Ouro em Cannes, escolhido como melhor filme estrangeiro nos Globos de Ouro e candidato ao Óscar de melhor filme estrangeiro). Responsáveis no país criticaram a falta de heróis positivos. Mas como se poderia ser positivo se o que sobressai na vida das principais personagens é a impotência  face a uma realidade demasiado marcante e inóspita? E não é só a paisagem do Norte do país, junto ao mar de Barents, que reflecte a dureza daquelas vidas. Elas podem não ser reais. Mas não podemos deixar de pensar que se fossem reais elas só poderiam ser ainda mais duras. A imagem do filme que mais nos faz lembrar um Leviatã é não o esqueleto de um animal que deu à costa e perto do qual Roma se senta, mas o cortejo de carros de topo de gama que se afasta do edifício da igreja ortodoxa.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma vez por ano

Aniversário

Soprava trezentas e sessenta
e cinco vezes
a minha idade, as duas velas
estremeciam,
recolhiam-se, mas eram uma
surpresa e voltavam
sempre a acender-se.
Não sejam cruéis comigo.

in , Pedro Mexia, Menos por Menos , D. Quixote, 2011, pág. 29

quarta-feira, 18 de março de 2015

Compras e vendas

                                       Publicado esta semana na "The New Yorker"

terça-feira, 17 de março de 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

VEM com estilo

Afinal, parece que, ao contrário do que disse Pedro Lomba, o Governo PSD/CDS-PP vai conceder um apoio exclusivo aos emigrantes, que quiserem regressar a Portugal. Trata-se de uma mala especial que quer fazer esquecer as tradicionais malas de cartão e que o ex-emigrante futuro empreendedor (ou futuro empreendedor ex-emigrante ou futuro emigrante ex-empreendedor) deverá encher com ideias empreendedoras, meios para as desenvolver e sobretudo muita esperança. Não faltam já as más línguas, no entanto, que afirmam que elas são verdes para encher de recibos com a mesma cor ou que a versão insuflada é boa para guardar os melhores incentivos do governo que não passam exactamente disso mesmo: ar.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Casamentos temáticos

O grupo de jovens entra no metro e todos se sentam. A conversa que vinha de fora continua: a preocupação com as fotografias que se publicam nas redes sociais em que os protagonistas não aparecem no seu melhor ângulo. Uma das raparigas queixa-se de uma sua, em especial, em que se destaca uma das unhas das mãos que não estava bem pintada. Logo de seguida informa os outros que, no dia seguinte, tem que enviar os convites do casamento. "Mas ainda faltam oito meses", diz uma das amigas, que acrescenta a pergunta: "Qual é o tema?"; ao que ela responde: "o Outono".
Foi assim que eu fiquei a saber que os casamentos, ou pelo menos alguns casamentos, agora têm tema. Aliás procurei agora no Google e logo encontrei sites que dão sugestões a esse nível (para além de ter encontrado a designação "wedding planner" para alguém que é especialista na preparação de casamentos). E se pensarmos bem os temas são inesgotáveis. Alguns há que poderiam ser bem originais... Nem vou lembrar nenhum. Deixo à vossa imaginação.

A primeira vez de Statler e de Waldorf

O aprendiz de excel

No metro, avô e neto, sentados frente a frente, discutiam a melhor forma de resolver alguns problemas num documento em excel. O mais velho, inexperiente na matéria, fazia as perguntas e o mais novo, de cerca de 10 anos, dava as respostas. O avô, cheio de dúvidas, colocava questões simples que o miúdo ia respondendo com paciência e num tom educativo. Claro que em muitas situações da vida podemos assistir a uma transmissão de saberes feita na direcção inversa ao que normalmente acontece. Mas esta achei-a particularmente interessante.
Para aquele avô há ainda muito caminho a percorrer mas a curiosidade e a vontade de aprender estão presentes. E afinal não seria esse exemplo uma bela transmissão de saberes para o neto?

quarta-feira, 11 de março de 2015

A Nova Lisboa que já não há

Desde que deixei de trabalhar na Baixa e estou para os lados do Campo Grande vou com alguma frequência, à hora de almoço, até à Av. da Igreja. É uma rua movimentada, com lojas e pessoas (e sem a quantidade enorme de turistas que tornam, por vezes, difícil a circulação nas áreas mais centrais). Nesses dias comia sempre na Confeitaria Nova Lisboa, uma daquelas pastelarias-restaurante que há na capital com pratos a preços acessíveis e fabrico próprio de fazer crescer água na boca. Percebi também, ao vê-las em qualquer altura do ano, que era a mesma empresa que fabricava aquelas amêndoas de Páscoa de que sempre gostei. Os clientes, percebia-se, eram habituais e alguns residentes na zona deixavam recados para familiares que passariam ali mais tarde. A mim, que não era propriamente cliente habitual, ofereciam sempre um pequeno bolinho com o café. Não era isso que me fazia voltar mas claro que ajudava apesar de não gostar nada do "avançado" em alumínio sobre o passeio.
Esta semana li no Corvo  que a Nova Lisboa tinha fechado. Ontem, ao passar por lá, li o recado que deixaram na porta a agradecer aos clientes os 65 anos de trabalho. Uma senhora telefonava a alguém a avisar que o almoço que tinham marcado afinal não se poderia realizar ali. "Não compreendo. Vou perguntar ao senhor do quiosque, dizia". 
Na esquina da rua, o McDonald's tinha muitos estudantes (a escola secundária é mesmo ali) e do outro lado da rua a esplanada  da "Padaria Portuguesa" estava cheia. Não sei se a abertura desta última há poucos anos terá contribuído para este desfecho. Eu que, confesso, não consigo gostar nem um bocadinho daquela cadeia de lojas, espero que não. As modas nestas coisas fazem a diferença, eu sei, mas não compreendo como muitas pessoas deixaram os seus cafés habituais para estarem imenso tempo em filas (é o que vejo, normalmente) para comprar produtos caros e com qualidade normalmente inferior ao propagandeado. Aquela coisa da "guerra dos bairros" então...
Bem, mas não é para dizer mal da Padaria Portuguesa que escrevi. É para dizer que, tal como outras lojas que vão desaparecendo, a Nova Lisboa faz falta a Lisboa.



terça-feira, 10 de março de 2015

As liberdades semânticas

                                Foto Aqui

Esta é uma fotografia do Hotel Porto Bay Liberdade, projecto do Arq. Frederico Valsassina. Em vários locais que referem a abertura deste hotel diz-se que foi preservada a fachada original do início do século XX ou, de forma mais abrangente, que preserva a fachada dos palacetes de Lisboa do início do século XX.
Ora, se é verdade que, relativamente a esta obra, tal como a outras, a liberdade de se gostar ou não é plena, a verdade é que dizer-se que se mantém a fachada original é o mesmo que dizer que a nossa receita de Bacalhau à Brás leva beterraba e inhame. É um facto que o bacalhau está lá. Mas chamar ao prato Bacalhau à Brás...


domingo, 8 de março de 2015

sexta-feira, 6 de março de 2015

Pais e filhos

Comecei a escrever este post num tom generalista que abandonei por me parecer que esta minha experiência não tem necessariamente que ser comum a mais ninguém (embora certamente seja).
Não seria difícil imaginar que a fase da adolescência das minhas filhas (e porque elas não são diferentes de todas as outras adolescentes) não iria ser fácil. Não é, realmente. E ultimamente tenho-me dado conta que esta será, provavelmente, aquela fase das nossas vidas em que o desequilíbrio em termos de personalidade entre mim e elas se encontra mais acentuado e em que a forma como olhamos a realidade se encontra no ponto mais alto de afastamento. Se, por um lado, as minhas filhas estão absolutamente cheias de certezas e não há argumentos que as demovam das suas convicções, eu estou naquela fase da vida em que percebo que as poucas certezas que ficaram da minha própria adolescência, afinal, são bem pouco resistentes à passagem dos anos. No meu caso esta situação é agravada pela circunstância de, até naquela altura, as certezas não abundarem para o meu lado. E se admiro a sua capacidade de defenderem, até com teimosia, os seus pontos de vista, sinto-me impotente por não conseguir explicar-lhes o quanto as suas ideias já foram testadas e ultrapassadas, o quão idealistas e impossíveis de concretizar são alguns dos seus objectivos. Depois ponho-me a pensar que é por ser assim, com esta consciência da imperfeição do passado sempre em mente, que me sinto tão velha e, decididamente, não quero que elas se sintam velhas antes de tempo. Se isso acontecer que seja depois das escolhas que fizeram e dos erros que cometeram. E falar-lhes dos meus erros pode ser importante mas não é determinante para que elas evitem os seus próprios. Mesmo entre pais e filhos as diferenças de personalidade e a perspectiva que advém do lugar em que cada um está podem ser demasiado grandes para que a forma de encarar as situações passadas sirva de aprendizagem. Lembro-me, então, da frase atribuída a Kierkegaard: "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente". E, face à dificuldade de conciliar no tempo as duas perspectivas, pois não podemos praticar as duas acções ao mesmo tempo, o que contará mais: compreender ou viver a vida?
Para esta pergunta é claro que não há resposta. Elas continuarão muito diferentes de mim. Os nossos tempos, no que à sabedoria diz respeito, nunca se cruzarão. Sabê-lo será, porventura, uma das maiores angústias dos pais. Estes, além do mais, têm a sua própria vida para viver. Mesmo que, olhando para trás, tenham dificuldade em compreendê-la.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Blogger... mas pouco

Eu gostava tanto de ter tempo... Tempo para escrever todos os posts que estão aqui iniciados na caixa dos rascunhos do blogue (neste momento são já 103 a contar com este). Vou deixando lá os assuntos que me suscitam interesse e sobre os quais queria escrever alguma coisa. Constato, no entanto, que, na maior parte dos casos, a oportunidade já passou. Notícias das quais já ninguém se lembra, filmes que já podemos agora ver nos videoclubes, exposições que já encerraram, ideias que não foram desenvolvidas e cujo raciocínio se perdeu. E agora, que nas estatísticas das visitas os endereços ligados ao spam são maioritários, percebo que este blogue está moribundo. Talvez possa ainda criar uma etiqueta com a designação "fora de tempo" mas, mesmo assim, não sei quando conseguirei ter tempo para este fora de tempo...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um documentário

A minha filha M. ficou acordada até mais tarde porque queria ver o documentário que a RTP1 iria passar sobre imagens feitas pelos aliados aquando da libertação dos campos de concentração nazis. Por ter passado tarde, acabou por não o ver. Eu vi e fiquei com dúvidas sobre se ela o deverá ver ou não. Bem sei que um documento histórico, como os que serviram de base a este documentário, é sempre importante para melhor compreender uma realidade. Mas este, que levantou questões interessantes sobre a divulgação, ao tempo, dos filmes então realizados; e que a RTP passou sem bolinha vermelha ao canto do ecrã, é demasiado definitivo. Uma mãe não deveria nunca ter que ajudar um filho a lidar com os sentimentos que aquelas imagens, por certo, suscitarão. Porque elas são demasiado reais e irreais e reais novamente, numa espiral de incompreensão que, por mais voltas que se dê, nunca terão qualquer paralelo com nada do que o nosso pensamento possa alcançar. Eu não lhe vou conseguir dizer grande coisa quando ela me questionar. Ninguém conseguirá certamente. Tantos anos de civilização e o ser humano ainda nos é tão desconhecido. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uma opinião original

Estação de metro da Alameda. O senhor que, segundo dizia, tinha acabado de sair do local de culto nas imediações está sentado num dos bancos e, enquanto espera, vai falando sozinho, mas em voz alta, talvez à espera que alguém lhe responda, o que não acontece. O seu discurso anda à volta dos acontecimentos internacionais das últimas semanas ligados aos atentados terroristas. Percebe-se que o preocupa o fanatismo religioso. Finalmente remata: - Eu vou lá (à IURD), mas eles também são uns "fanatistas"!

O nevão

"- Estamos aqui isolados, olhe!"
Quem o diz é uma habitante da aldeia de Sendim em Trás-os-Montes. Não lhe parece estranho estar a dizer isto enquanto está a ser entrevistada por uma jornalista que prepara uma peça que passará no telejornal das 8 da RTP. O desabafo não dirá respeito, certamente, à situação provocada pelo forte nevão. Serão outras coisas. Mais antigas, mais profundas. Estão isolados quase sempre. Hoje, por causa do forte nevão, não.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O concílio do A330

                                                 
                                              Foto aqui

Não é bem um concílio... Mas também se abordam questões pastorais, de doutrina, de fé e de costumes. E está a tornar-se um hábito. Será que assim o Papa Francisco se sente mais inspirado por supostamente estar mais perto de Deus?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Presa no subúrbio

Sim eu sei que "o tráfego automóvel continua a ser a principal causa da degradação da qualidade do ar na cidade de Lisboa, dado que constitui a principal origem de poluentes atmosféricos prejudiciais à saúde humana" e que há que cumprir o "Plano e Programa de Melhoria da Qualidade do Ar (Região LVT)". Também sei que quem toma as decisões não tem a culpa que eu não resida no centro da cidade ou que não tenha tido capacidade para, ao longo dos meus anos de trabalho, amealhar dinheiro suficiente para trocar o meu carro matriculado no ano de 1993.  
Mas com esta e outras medidas ninguém me tira esta sensação de falta de liberdade. E não é a liberdade para levar o carro para o trabalho, o que nunca fiz desde 1995, quando comecei a trabalhar em Lisboa. É a liberdade para, por exemplo, quando as minhas filhas estão doentes, poder levá-las ao médico que fica numa área da cidade onde, mesmo que só raramente, o meu carro não pode emitir partículas (PM10) e dióxido de azoto (NO2). A liberdade para poder chegar a um jantar num restaurante da capital antes das 21.30, sem ter que utilizar os transportes públicos que a partir de certa hora deixam de ser uma boa alternativa.  
A Avenida de Ceuta, o Eixo Norte/Sul, a Avenida das Forças Armadas, a Avenida dos Estados Unidos da América, a Avenida Marechal António de Spínola, a Avenida Santo Condestável e a Avenida Infante D. Henrique,  no período compreendido entre as 7 horas e as 21 horas passam, a partir de hoje, a ser os meus limites. Fico presa do lado de fora. Ainda por cima eu tenho esta mania parva de cumprir as regras...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Foram eles... Ou como os ovnis afinal são ovis

Tanto livro publicado, tanta série de televisão, tanto filme sobre o tema. Tantas vidas dedicadas a uma procura incessante de vestígios da passagem por aqui de seres de fora deste nosso planeta. Afinal havia uma explicação. A mais óbvia, a de que quase todos desconfiavam. A de que os criadores do nome da coisa foram os criadores da própria coisa. Para muitos, é um mito que se desmorona. Para outros, uma contribuição para a certeza de que não existem objectos voadores não identificados. Só objectos voadores identificados... Mas entre uns e outros há os que aguardam por novas notícias e que se questionam sobre se terão sido mesmo os U2 os responsáveis por todas as situações. Pelo sim pelo não é melhor não rever já a ortografia do acrónimo. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

A terceira e a sétima

Integrar a pintura no cinema é algo que nem todos conseguiriam fazer da forma como Mike Leigh fez. Mr. Turner, artista reconhecido e ao mesmo tempo incompreendido na Inglaterra do seu tempo, precursor nas técnicas, capaz de absorver, quer a natureza mais selvagem, quer as mais recentes inovações da era industrial; é-nos apresentado como alguém excêntrico mas absolutamente humano, capaz de actos tão elevados quanto censuráveis.
Mas o filme, se se centra na figura do pintor, leva-nos a conhecer melhor a sua obra e vai muito para lá de uma simples história de vida (dos seus últimos anos e que não nos é contada, apenas sugerida). Compreendemos as suas fontes de inspiração, percebemos as relações com os pintores seus contemporâneos, com os críticos, com os compradores das obras, com o público ou os públicos e a forma como estes olhavam o seu trabalho. E com esta abordagem entendemos melhor a sociedade inglesa da época com tantos pormenores que nos vão sendo dados a ver. 
Timothy Spall, no papel principal, está de facto fantástico e Dorothy Atkinson é também excelente como a mulher que mesmo tratada com crueldade nunca deixa de amar o seu patrão.
A fotografia do filme, fundamental e sob os holofotes com um tema como este, está à altura e cenas há que nos deixam com um sorriso de satisfação. Numa das cenas, uma das que mais gostei, um comboio, maravilha da tecnologia da época, surge real, para se transformar no tema de uma das pinturas que vemos imediatamente a seguir. O filme vale por si e por aquilo que nos sugere. As duas artes estão bem representadas, portanto.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Poesia para começar ou só recomeçar

NOVO ANO

Sempre que recomeço
eu descuro o tempo
tentando seguir o próprio passo

pelo trilho do ano
que acabou
desenredando os nós

do seu baraço

E aquilo que é futuro
à minha frente
tanto pode ser

rosa como aço

Mas ao querer entender
um outro tempo
eu entreteço

sonho, poesia, liberdade
um ano de luz
no seu começo

Maria Teresa Horta, 31 de Dezembro de 2014 
(publicado no Facebook)