Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas com quem nos cruzamos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas com quem nos cruzamos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia de flores

Traziam flores nas mãos quando esta manhã entraram no autocarro. Sentia-se uma alegria extra na forma como caminhavam pelo corredor, rindo e gracejando com um presente que provavelmente não esperariam.
Nos outros dias, quando vou para o trabalho, elas, terminado o turno da limpeza naqueles escritórios, enchendo o autocarro com as suas conversas, tagarelam de lugar para lugar. Falam do trabalho. De como a encarregada as tratou por terem demorado mais na casa de banho, de como o patrão se atrasou com o pagamento do salário, de como têm que correr quando saírem do autocarro para apanharem o comboio e entrar no turno seguinte, noutro escritório a quilómetros de distância. Falam das famílias. Das preocupações com a saúde da mãe que está em Cabo Verde, do filho emigrante em Londres que não sabe bem como será daqui para a frente, do mau comportamento do mais novo na escola. Falam das tarefas domésticas que estão por cumprir. Da roupa que está acumulada à espera de um dia de folga, das compras que lhes custa carregar ao final da jornada.
São mulheres todos os dias. Hoje foram mulheres com flores.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"Nas nossas ruas, ao anoitecer"

A cama está sempre impecavelmente feita. Agora, com o frio, o saco cama não chega e a manta aos quadrados cobre-o, tornando a noite mais suportável. 
O cão, depois de ter ido dar uma volta, está enroscado junto à cabeceira. Está bem tapado. Também ele tem uma manta às riscas. 
Estamos em pleno Marquês de Pombal e a maior parte das pessoas regressa às suas casas. O homem deita-se cedo. Parece indiferente ao bulício da hora de ponta na cidade. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

E porque teria que ser diferente?

Mal o sinal fecha ela avança para os automóveis parados. O seu "bom dia" chama a atenção e é ouvido por todos os que passam, automobilistas e peões. Tem sempre um largo sorriso enquanto distribui o jornal gratuito. Esta semana, ao bom dia, tem acrescentado as Boas Festas. Olho sempre para ela a tentar descortinar se a boa disposição é genuína. Até agora sempre me pareceu que sim. 

domingo, 6 de novembro de 2016

Ininteligível

A sua voz pouco se fazia ouvir na estação de metro cheia de gente. Pedia para a alimentação e para a higiene. Eu estava sentada a ler. Quando passou por mim baixou-se e disse-me que tinha escrito 35 livros que nunca ninguém publicou. De seguida disse ainda qualquer coisa que não entendi sobre o Campo de Santa Clara. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fiat Lux

Sentou-se no banco e imediatamente fez a chamada. Quando do outro lado atenderam, e depois dos cumprimentos, num tom de felicidade que se manifestou na voz e que parecia querer partilhar com toda a carruagem, informou: 
- Já tenho dinheiro! Hoje vou pagar a luz!

sexta-feira, 13 de março de 2015

O aprendiz de excel

No metro, avô e neto, sentados frente a frente, discutiam a melhor forma de resolver alguns problemas num documento em excel. O mais velho, inexperiente na matéria, fazia as perguntas e o mais novo, de cerca de 10 anos, dava as respostas. O avô, cheio de dúvidas, colocava questões simples que o miúdo ia respondendo com paciência e num tom educativo. Claro que em muitas situações da vida podemos assistir a uma transmissão de saberes feita na direcção inversa ao que normalmente acontece. Mas esta achei-a particularmente interessante.
Para aquele avô há ainda muito caminho a percorrer mas a curiosidade e a vontade de aprender estão presentes. E afinal não seria esse exemplo uma bela transmissão de saberes para o neto?

domingo, 30 de novembro de 2014

Numa noite fria, no Alentejo

Na sala do lado, a do restaurante, as vozes, só de homens, misturavam-se naquele burburinho normal das refeições em conjunto. De repente, silêncio. E então, de forma que me pareceu espontânea, eles começaram a cantar. Eu estava de saída do bar daquele hotel. Aquelas vozes, naquele lugar de paredes brancas, fizeram-me sentir arrepios e ficar. Permaneci à escuta. Não havia na sala mais ninguém para lá daqueles homens. Eles cantavam para si, uns para os outros, numa comunhão de emoções que partilhavam por puro prazer. Talvez pela situação inusitada senti aquele como um momento mágico e não mais o esqueci.

(Este episódio passou-se há poucos anos, num hotel em Portel.) 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Popper ao final do dia

Tinha acabado de saber que se comemorava o Dia Internacional da Filosofia. De regresso a casa, no metro, a rapariga sentada no banco à minha frente comia uma maçã e olhava para fora, pela janela, embora, provavelmente, porque o que se vê é reflexo, o que via fosse o interior da carruagem.Terminada a maça tirou um livro da mala. Como é costume, espreitei para ver o título. Era Busca Inacabada, de Karl Popper. Não podia ser mais adequado, pensei. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A rapariga

Habituei-me a vê-la na rua. Sempre de chinelos de enfiar no dedo, de Verão e de Inverno. Aproveitava as portas entreabertas e esgueirava-se para o interior dos prédios, muitas vezes só para dormir nalgum canto mais escuro. O seu ar era sempre de alguém a quem o cansaço nunca deixava. Desta vez vi-a no centro comercial. Era um dia de semana à noite e pouca gente andava por ali. Provavelmente ninguém reparou nela. Dormia num sofá no meio do corredor, o corpo dobrado, a cabeça pendente para um dos lados. Estava descalça mas, numa das mãos, segurava um par de sapatos. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O marco do correio

Já tinha escurecido. Aproximei-me da passadeira e vi um homem, com cerca de 80 anos, a afastar-se do centro do passeio e a aproximar-de da berma. Travei e parei pensando que ele iria atravessar. Em vez disso dirigiu-se ao marco do correio que, apesar de ali passar todos os dias, eu nunca tinha reparado que ali estava e depositou nele uma carta. Fiquei surpreendida. Percebi, então, que há já muito tempo não via alguém a utilizar um marco do correio. Lembrei-me de mim própria quando era criança. Deve ter sido um dos primeiros recados que fiz. O marco do correio ficava no cruzamento. Quando dizíamos cruzamento já sabíamos que era daquele cruzamento que falávamos. Era preciso andar um bocadinho mas não tinha que atravessar ruas. E lá deixava as cartas que seguiriam depois para a aldeia no Norte ou para Moçambique e para o Brasil. Nessa altura achava extraordinário como é que, algum tempo depois, o envelope com aquela folha de papel iria estar na mão de outra pessoa que estava num sítio tão longe. Ao pensar nisso sorri sozinha. Depois avancei. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Enquanto o autocarro percorria as ruas

Foi o sorriso da rapariga que primeiro me chamou a atenção. Ela olhava em frente. Sentados nos bancos, que eu também via, estavam dois rapazes. Eram gémeos e, aos nossos olhos, só as roupas eram diferentes. Ambos tinham auriculares nos ouvidos. Não sabemos se estariam a ouvir a mesma música. Estavam de olhos fechados e as suas cabeças balouçavam nas mesmas direcções em simultâneo e com o mesmo ritmo. Durante longos minutos foi assim. Quem os olhava não podia, de facto, deixar de sorrir.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A t-shirt

Era ainda cedo mas, pelo passo apertado, já deveria estar atrasada. A inclinação da rua, acentuada, não ajudava e as crianças, agarradas a ela em fila indiana, meio arrastadas, trotavam no passeio estreito até ao cimo, onde ficava a escola. A sua expressão fechada e de preocupação acentuava-se quando se virava para trás e dizia: - Vá lá! Despachem-se, que eu ainda tenho que ir trabalhar! Deixá-las-ia junto ao portão e desceria, novamente apressada, para ir em direcção à estação dos comboios, provavelmente, rezando para que o patrão não lhe descontasse a primeira hora que já não faria por completo. Na t-shirt que vestia estava escrito" La vie est Belle".

domingo, 31 de agosto de 2014

Na feira

À sua volta as luzes fortes e a música estridente das diversões enchem os olhos e os ouvidos de todos os que passam e que parecem não se incomodar. Também ele parece indiferente à algazarra. Olha as filas que se formam junto aos carrocéis que são novidade este ano. Ali, à frente da sua barraquinha, não está ninguém. Os cromados brilhantes, os nomes em inglês e os apelos gritados pelos altifalantes atraem o público, mesmo que aquilo que se paga por uma "viagem" que dura poucos minutos afaste algumas pessoas com bolsos menos recheados. A sua atitude contrasta com a dos outros feirantes. Vestido com fato e gravata, calado, limita-se a estar perto da espécie de teatro de fantoches onde três bonecos nos olham. Numa mesa, três bolas de pano esperam que alguém pague para as atirar contra os bonecos. Apenas isso. São quase iguais aos bonecos e bolas que se encontravam nas feiras na sua infância. De repente, o homem anima-se. Um pai aproxima-se com uma criança. No entanto o objectivo não é atirar as bolas mas utilizar a mesa para a criança se sentar enquanto o pai lhe ata os atacadores dos ténis. A criança nem olha para os bonecos. O homem olha para a criança. Está triste. Penso se para o ano ainda cá virá...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

No jardim do Campo Grande

Calças demasiado curtas para as pernas. Fato demasiado quente para um dia de Verão. Mãos que junta atrás das costas, demasiado vazias para trazer alguma coisa consigo. Passos demasiado lentos para ir ao encontro de alguém.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Terá sido comprada a um adepto do Arouca?

A vitória de ontem, a taça conquistada, enchem-no de um poder e de um orgulho incompatível com qualquer tipo de pudor. Por isso exibe o seu equipamento completo do Benfica, com ténis a condizer. Na cabeça um boné do Benfica. Às costas uma mochila encarnada com o emblema do clube. Agarrado a ela um cachecol do Benfica. E, ao vento, a bandeira culmina todo o conjunto. É uma mancha encarnada que faz sorrir todos os que com ele se cruzam. 
Só a bicicleta, com que serpenteia por entre os carros, pintada de azul e amarelo, destoa.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pela manhã, uma partilha musical...

Os outros passageiros nem queriam acreditar. Normalmente são outras pessoas que correspondem ao estereótipo de quem ouve música alta, sem headphones, nos transportes. Desta vez, uma senhora, com mais de 40 anos, de traços orientais, partilhava, com todos, música também oriental, talvez da China. Não foi fácil concentrar-me no meu livro. Mas não pude deixar de sorrir de cada vez que, numa nova estação, alguém entrava e procurava, com estranheza, a fonte daquele som.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Complementaridade?

A viagem de metro durou aproximadamente 20 minutos. O rapaz e a rapariga estavam sentados à minha frente. Durante esse tempo as suas mãos não se largaram. De vez em quando davam um beijo. Ininterrupto foi o som das palavras. O dia todo contado, os pormenores do que foi feito, os comentários da chefe e dos colegas, as opções em cima da mesa para resolver alguns problemas, as implicações de todos os actos, o que na agenda constava para os próximos dias... Tudo isso, quase sem nenhum intervalo entre as frases.
Enquanto isso ele manteve-se sempre em silêncio.

sábado, 13 de julho de 2013

Solista

Mais acima um artista de circo apresenta o seu número com fogo. Muitas pessoas, à sua volta, vão apreciando o espectáculo. Antes disso, ainda, um grupo de músicos andinos tenta impressionar os turistas sentados na esplanada.
Ele, vestindo um fato de cerimónia, continua sentado não muito longe da entrada da igreja, serenamente, a tocar o violoncelo. O burburinho causado pelos que passam não parece afectá-lo. Ninguém se detém. Mas também isso não o perturba. Toca para si. No entanto uma moeda é sempre bem-vinda.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A urgência (2)

Não estava mais ninguém na estação àquela hora. A quantidade de cartões verdes que tinha comigo não ajudava a ser rápida na compra do bilhete de comboio que me levaria a Lisboa nesse princípio de noite. De repente um homem, cujo andar demonstrava o que já tinha bebido, aproximou-se e disse-me que queria apanhar o comboio. Ao princípio não o percebi. Mas depois entendi que o dinheiro que tinha não lhe chegava para o bilhete e queria passar atrás de mim, quando a cancela se abrisse. Disse-lhe que sim.
Perante a minha demora em atinar com o cartão e os trocos ele atirou:
- Vá lá, depressa, que eu quero ir para casa!