Traziam flores nas mãos quando esta manhã entraram no autocarro. Sentia-se uma alegria extra na forma como caminhavam pelo corredor, rindo e gracejando com um presente que provavelmente não esperariam.
Nos outros dias, quando vou para o trabalho, elas, terminado o turno da limpeza naqueles escritórios, enchendo o autocarro com as suas conversas, tagarelam de lugar para lugar. Falam do trabalho. De como a encarregada as tratou por terem demorado mais na casa de banho, de como o patrão se atrasou com o pagamento do salário, de como têm que correr quando saírem do autocarro para apanharem o comboio e entrar no turno seguinte, noutro escritório a quilómetros de distância. Falam das famílias. Das preocupações com a saúde da mãe que está em Cabo Verde, do filho emigrante em Londres que não sabe bem como será daqui para a frente, do mau comportamento do mais novo na escola. Falam das tarefas domésticas que estão por cumprir. Da roupa que está acumulada à espera de um dia de folga, das compras que lhes custa carregar ao final da jornada.
São mulheres todos os dias. Hoje foram mulheres com flores.