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quarta-feira, 8 de março de 2017

Os telespectadores

Todas as noites, após o jantar que se comia cedo, a mesa era desviada e as cadeiras eram encostadas à parede. Os bancos corridos ocupavam o centro da sala. As cervejas e os refrigerantes, que podiam apetecer, estavam no frigorífico. As pessoas, maioritariamente homens, iam chegando e ocupando os lugares. Não ficavam muito tempo porque no dia seguinte havia sempre que fazer no campo e porque a emissão não era longa. Mas naquelas poucas horas era todo um mundo que lhes entrava pelos olhos adentro. As notícias, as imagens de um país que não conheciam, de outros países que só imaginavam, os programas que mesmo feitos sem grandes recursos eram seguidos do princípio ao fim; enchiam de surpresa todos os presentes. Olhavam para o aparelho com uma atenção e uma reverência que o próprio padre na missa gostaria de ter para si. 
Era assim que terminavam, então, quase todos os dias das minhas férias de Verão naquela aldeia do interior da Beira Alta. Nesses anos 70 do século XX os televisores ainda eram ali um luxo que só as famílias com mais posses podiam comprar. Os meus avós, que tinham "um comércio" e que vendiam as tais bebidas, consideraram-no um investimento e, à falta de um café que só anos mais tarde passou a haver na aldeia, abriam a sua casa para que, quem quisesse, pudesse assistir às imagens a preto e branco que a RTP transmitia. 
Muitas conversas, muitas gargalhadas, muitos "oh's" de espanto ali aconteceram. E mesmo quando, numa noite, a programação não era do agrado de todos era certo e sabido que, na noite seguinte, a sala em casa da D. Tina estaria cheia.

(lembrado no dia em que a RTP fez 60 anos)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma referência sentida

... a alguém que conseguia provocar gargalhadas, quanto mais não fosse um sorriso e que, durante alguns anos, nos fez companhia enquanto acompanhávamos as peripécias passadas em Nouvion, no Café do René. Grandes personagens representadas por grandes actores, entre eles Gorden Kaye que partiu esta semana. 
Quem guardará agora o quadro da "fallen Madonna with the big boobies de Van Klomp"?

                                                                         Imagem aqui

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Numa semana de vitórias

Quando era criança, passava muito tempo em casa dele. Nas horas em que os meus pais não estavam era lá que eu ficava. Mesmo aos fins de semana era frequente irmos dar um passeio. O carro, um carocha, que permaneceu o carro da família até ao fim da sua vida, levava-nos, muitas vezes, ao Estádio Nacional. Às vezes íamos só passear por ali, apanhar ar, como ele dizia. Outras, aos passarinhos, prática censurável agora mas que, na altura, era relativamente comum. Ele gostava de atletismo e as provas no campo principal ou os treinos nos outros campos eram uma boa maneira de passar o tempo. Foi nessas tardes que percebi que também eu, como ele, seria do Benfica. Até hoje. Mesmo que o meu padrinho tenha desaparecido das nossas vidas já há 18 anos. Esta semana, mais uma vez, ele teria ficado muito contente. Não há uma única vitória do nosso clube que não me traga à memória aqueles momentos.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Um registo de há 40 anos

A data era 2 de Junho de 1975. Ali estava eu, de dedo na boca, na fotografia da primeira página de um jornal diário de grande tiragem. No dia anterior, ainda Primavera, mas já perto daquele Verão que haveria de ficar conhecido como quente, a festa tinha acontecido no Parque de Jogos 1.º de Maio. Os meus pais, sempre avessos a grandes ajuntamentos, não sei bem porquê, tinham decidido que me levariam até lá para comemorar o dia mundial da criança. Nunca eu tinha estado num sítio assim, com tanta gente e com tanta animação. Tinha um vestido branco com joaninhas vermelhas e uma fita na cabeça. As outras crianças que por ali andavam misturavam-se com os muitos pais, adultos que aproveitavam mais uma ocasião para sair à rua e festejar um tempo novo a que não sabiam ainda o que chamar. Na fila de miúdos que estava à frente não deixava de estar também um militar que impunha alguma ordem mesmo que sem grande convicção. Como se só houvesse aquela canção, a voz de Ermelinda Duarte e a sua gaivota que voava, voava, lembrava-nos que éramos finalmente livres. Livres para voar, para crescer, para dizer. Eu não sabia bem o que queria dizer liberdade mas não havia música melhor para aquele dia. O título da notícia era "Dia mundial da criança na força da liberdade".

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A flexibilidade e a polivalência no início do séc. XX

- Quando eu era nova (há 60-70 anos) havia no bairro uma mulher que fazia tudo: era parteira, organizava casamentos, tratava dos velórios, vestia os mortos…

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Quatro mães

Ontem, depois do jantar, a minha mãe resolveu ir buscar duas fotografias que, em grande formato, se encontravam na parede da sala da casa dos seus pais antes de ser vendida; e das quais eu me lembro muito bem quando lá ia nas férias. Numa delas a mãe do meu avô materno, com o seu cabelo apanhado e o seu ar distinto olha-nos com uma beleza serena do início do século XX. A outra é a única fotografia que conhecemos da minha avó materna que morreu quando a minha mãe tinha 9 anos. 73 anos já passaram entretanto. Mas a minha mãe continua a recordá-la com a mesma emoção que sempre lhe observei quando fala dela. Esse momento em que as minhas próprias filhas testemunharam o carinho com que a avó guarda essas imagens foi o mais significativo deste dia da mãe.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Born Eleanora Fagan

Fui à procura dela e não a encontrei: a minha cassete com músicas de Billie Holiday. Uma amiga, adolescente como eu, emprestou-me alguns discos que eu gravei na aparelhagem. O som era mau (já o original devia ter muitas imperfeições). Mas até aparecerem os CD's foi essa cassete que eu ouvi e voltei a ouvir vezes sem conta. Músicas curtas mas que não precisavam ser maiores para nos encherem as medidas. Lembro-me que ficávamos contentes quando dizíamos "me, myself and I" ou outros versos mais conhecidos e alguém à nossa volta reconhecia a canção. Ainda hoje é uma expressão que utilizo.


Billie Holiday nasceu há 100 anos. Explorar o site oficial é uma boa forma de comemorar a data.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Um conceito moderno de televisão

É verdade que, naquela altura, a nossa escolha era muito limitada. A televisão oferecia e para nós era "pegar ou largar". Mas ninguém nos obrigava a ver o TV Rural. E, mesmo nas cidades, eram muitos os que não perdiam um. Certamente não era por acaso. E não foi por acaso, também, que aquele foi o programa com maior longevidade na televisão portuguesa (esteve no ar de 1959 a 1990). E o elemento chave era, sem dúvida, o seu apresentador, o Engenheiro Sousa Veloso que percorria o país a falar de um tema que manifestamente o apaixonava. Todos recordam o respeito que demonstrava pelos agricultores que entrevistava mas também pela própria natureza. A forma como ela era transformada pela agricultura era apresentada de forma didáctica mas também emocionante, até. Era um conceito muito moderno, mesmo se os meios técnicos não eram muito evoluídos. 
Esta noite, a RTP Memória passou um programa, de 2005, em que era ele o convidado. Percebi que o final do TV Rural não o preocupou tanto quanto a sensação que tinha do abandono da agricultura, enquanto actividade produtiva. E gostei de o ouvir dizer que ficava irritado quando ouvia, mesmo da boca de jornalistas, que estava um tempo muito bom quando, em tempo de chuva, ela teimava em não cair; porque se lembrava daqueles para quem a chuva era um bem precioso.
Talvez pelas minhas raízes rurais, durante alguns dos anos da minha infância e adolescência, nunca perdia um programa ao domingo. Provam-no os registos do meu diário. Depois fui crescendo e a minha atenção não acompanhou o TV Rural. Hoje, com a morte do Engenheiro Sousa Veloso, não podia deixar de o recordar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O marco do correio

Já tinha escurecido. Aproximei-me da passadeira e vi um homem, com cerca de 80 anos, a afastar-se do centro do passeio e a aproximar-de da berma. Travei e parei pensando que ele iria atravessar. Em vez disso dirigiu-se ao marco do correio que, apesar de ali passar todos os dias, eu nunca tinha reparado que ali estava e depositou nele uma carta. Fiquei surpreendida. Percebi, então, que há já muito tempo não via alguém a utilizar um marco do correio. Lembrei-me de mim própria quando era criança. Deve ter sido um dos primeiros recados que fiz. O marco do correio ficava no cruzamento. Quando dizíamos cruzamento já sabíamos que era daquele cruzamento que falávamos. Era preciso andar um bocadinho mas não tinha que atravessar ruas. E lá deixava as cartas que seguiriam depois para a aldeia no Norte ou para Moçambique e para o Brasil. Nessa altura achava extraordinário como é que, algum tempo depois, o envelope com aquela folha de papel iria estar na mão de outra pessoa que estava num sítio tão longe. Ao pensar nisso sorri sozinha. Depois avancei. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

P. O. Box 269, Old Chelsea Station

A notícia já tem uns dias mas foi hoje, através desta crónica de Miguel Esteves Cardoso, que soube. É verdade que, mesmo antes da morte de Tommy Ramone, os Ramones já não existiam como banda. O tempo, o desaparecimento dos outros elementos bem como algumas vicissitudes ligadas à própria evolução de qualquer grupo de músicos tinham-nos colocado numa área já não actualizável da história do rock. Mas os Ramones, segundo Tommy, eram também "uma ideia". E essa ideia está ainda presente não só na cabeça dos que gostavam de os ouvir mas até dos que não conhecem a sua história. O logo estampado em t-shirts de muitos miúdos adolescentes (que várias marcas continuam a produzir) não corresponde muitas vezes a um interesse genuíno sobre o grupo mas a uma imagem que associam a uma rebeldia que sentem que lhes assenta bem.
A mim, os Ramones marcaram-me mesmo que as suas canções dissessem respeito a uma realidade muito longe da minha: uma miúda de uma escola secundária da periferia de Lisboa, um pouco ingénua e "bem-comportada". Eu era assim quando comprei o álbum "Rocket to Russia", lançado em 1977. A fotografia da capa que todos reconhecem, os desenhos de John Holmstrom, as letras decoradas e na ponta da língua até hoje, fazem parte dos discos que ainda estão ali na estante. As músicas eram curtas e repetitivas na sua fórmula mas eu não me cansava de as ouvir. Na verdade nunca estive perto da realidade de que falavam Johnny, Joey, Dee Dee e Tommy. Mas isso não me impede de partilhar o sentimento de M.E.C.



O título do post corresponde à morada do clube de fãs dos Ramones, na altura.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

As espigas não são todas iguais

Naquela altura nem percebia bem o significado da "espiga". Tal como nas suas terras de origem, muitos dos habitantes do subúrbio de Lisboa onde eu vivia iam, nesse dia, "ao monte" apanhar as espigas e as flores que por ali cresciam para fazer os seus ramos. Lembro-me sobretudo da quantidade de crianças e avós que por ali andavam logo de manhã. Hoje, nesse espaço, uma paisagem familiar para quem tinha vindo do Alentejo (e eram bastantes, naquela zona), existe uma escola e um hotel e as respectivas estradas de acesso. As crianças e os rapazes e raparigas que por ali passam provavelmente não saberão que a espiga simbolizava o pão; as flores, os metais mais ricos; as outras ervas, saúde, força e outros aspectos positivos. O ramo deixou de estar pendurado todo o ano atrás da porta. Muitos avós até já esqueceram o antigo costume.
Algumas mulheres, contudo, continuam a comprá-lo à entrada da estação, onde os vendedores ambulantes aproveitam todas as datas para fazerem negócio. Mas a verdade é que não é a mesma coisa. Os "montes" fazem falta nos subúrbios.

sábado, 3 de maio de 2014

Ayrton

Dia 1 foi um dia cheio de reportagens e homenagens feitas a Ayrton Senna. Desde as mais sentidas às mais ridículas (no Algarve, um responsável por um resort de luxo onde o piloto tinha uma casa fez, quando entrevistado, publicidade descarada ao local) muitos relembraram a terrível data. Mas foi uma imagem no facebook que me fez escrever alguma coisa sobre o assunto. Nela se lia: "hoje faz 20 anos que a Fórmula 1 morreu". Claro que isso é um exagero de linguagem. 
No entanto dei por mim a pensar que, de facto, para mim, a morte de Ayrton marcou o fim do encantamento com a Fórmula 1. Durante anos, na época dos grandes prémios, aos domingos, durante ou a seguir ao almoço, era um programa que não perdia. Eu e o meu pai víamos as transmissões em directo, ouvíamos os comentários de Adriano Cerqueira ou de Domingos Piedade, comentávamos as estratégias de cada piloto. O duelo entre Senna e Prost alimentava muitas corridas e a preferência que tínhamos pelo primeiro levava-nos a vibrar intensamente.
Depois da sua morte nada voltou a ser igual. É verdade que a minha vida pessoal sofreu mudanças por volta dessa altura. Mas tenho a certeza que não foi só por isso. Muitas pessoas que conheço têm também a mesma sensação. A Fórmula 1 continua a ser um desporto que desperta muitas paixões. Mas não há dúvida nenhuma que com ele era diferente.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sophia no Panteão

Parece que sempre se vai concretizar a trasladação do corpo de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Panteão Nacional. Se pensarmos que esse é um acto que pretende homenagear figuras marcantes para o nosso país, a decisão faz sentido. A família também concordou com a ideia de reforçar o reconhecimento da importância desta mulher que diz muito aos portugueses amantes de poesia. 
Mas não posso deixar de pensar que aquele local, com toda a sua imponência de mármore gelado, é demasiado frio. O céu parece longínquo, com o enorme zimbório lá no alto. Algumas salas apresentam-se nuas, com os cenotáfios que pretendem lembrar figuras que os turistas (a maioria esmagadora dos visitantes) não perdem tempo a saber quem são. 
É certo que a trasladação do corpo de Amália Rodrigues alterou um pouco essa situação. Desde essa altura que vemos, junto ao seu túmulo, o colorido das flores e que os seus fados ecoam por todo o edifício, causando até alguma estranheza. E daqui a algum tempo teremos também os cachecóis encarnados, quando Eusébio estiver também neste lugar.
Não sei se dentro de alguns meses ouviremos poemas de Sophia declamados naquele ambiente barroco que, nem sei bem porquê, não consigo associar à autora, que vejo mais em dias de sol junto ao mar; mas parece-me que todo este movimento fará com que mais portugueses visitem este espaço, imponente, como  certamente se espera de um panteão, tornando-o mais humano, mais perto da terra, mais perto de nós.    

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Das muitas horas que passei com os jogos da Majora

Era um dos presentes que mais gostava de receber na minha infância. Cada vez que, mesmo sem desembrulhar, percebia que era uma caixa de um jogo ficava muito feliz. Tive vários e muitos eram da Majora. O Jogo da Glória, o Sabichão, o Mikado e outros faziam-me ficar horas sentada no chão a brincar. Mesmo sem companhia podíamos jogá-los. Ainda tenho alguns guardados e as minhas filhas também brincaram com eles. 
Há pouco li esta notícia. Admito que seja difícil concorrer com os jogos que os computadores e outros meios põem à disposição dos miúdos hoje em dia. Mas fico com pena que muitos não conheçam a magia de aprender com a ajuda de um sábio magnético que, com uma vara de arame, nos apontava respostas que a partir de certa altura já sabíamos de cor. Mas repetíamos e repetíamos e ele nunca se enganava. Era bom que ele voltasse agora e nos respondesse a algumas dúvidas...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

E, no entanto, estudar valerá sempre a pena!


No dia em que comuniquei aos meus pais que me iria candidatar ao curso de Sociologia na universidade, eles torceram um pouco o nariz. Achavam que era uma ciência "exótica" e, mais que isso, temiam a forma como se faria a minha inserção no mercado profissional. Direito, por exemplo, seria, para eles, uma escolha mais segura. Mas sabiam que tudo o que dissessem não me faria mudar de opinião, eu que tanto tinha hesitado (mas sempre à volta de áreas como a Filosofia e a História). E por isso não me disseram muito. A vontade de que a sua única filha tirasse um curso superior era tão grande que, desde sempre, outra alternativa não se colocou. Neste caso foi o juntar de duas vontades pois a situação de estudante era a única que eu via para mim na altura. Após o curso tudo correu bem. Vivia-se em tempo de vacas gordas, com os fundos europeus a disponibilizarem verbas para formações pós licenciaturas e com o mercado de trabalho a absorver com facilidade quem saía das universidades. Tive várias oportunidades de emprego. A minha veia mais sonhadora e menos economicista levou-me a optar, não pelas que me dariam mais dinheiro mas pela que, achava eu, me permitiria trabalhar no desenvolvimento de projectos em que acreditava.
Ao longo do tempo, muitas dúvidas me assaltaram e muitas vezes questionei as minhas escolhas.
Actualmente, na equação a ter em conta na altura da tomada de decisões acerca do futuro, as incógnitas são tantas que a resolução é muito mais difícil. E penso nos pais que durante tanto tempo defenderam os estudos superiores como forma de os filhos terem uma vida profissional mais estável e financeiramente mais compensadora.
Continuo a achar que não devem ser as retribuições financeiras esperadas a presidir às escolhas de futuro. Mas para quem não tem a mesma opinião ou que, mesmo tendo, entende que a retribuição deverá ser proporcional ao esforço, que confusão a situação que notícias como esta retratam. Claro que não é só de agora que os bons profissionais se fazem pagar bem, seja em que área for. E ainda bem que assim é. Sabemos também que as leis do mercado obrigam a uma valorização do trabalho que tem mais procura por parte dos empregadores e, ao contrário, desvalorizam aquele que se encontra em excesso. E também é óbvio que se trata de anúncios no portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional, não permitindo qualquer generalização. Mas só o facto de terem sido publicados é mais um indicador de uma realidade que quem planeia e tem responsabilidades nas áreas da educação e do emprego não poderá deixar de ter em conta. E, já agora, todos nós. 
Mas tudo isto não poderá pôr em causa a importância do estudo e servir de argumento para os que consideram que a educação está do lado da despesa e que, portanto, os investimentos aí feitos poderão ser mais leves. É que os efeitos perversos destas ideias poderão tornar-se muito perigosos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O meu primeiro livro

Foi o meu primeiro livro. Uma edição de "O Capuchinho Vermelho", com desenhos que, ao abrir as páginas, se projectavam para fora das folhas. Liam-mo o meu avô, o meu pai, a minha mãe. Eu aprendi-o de cor. De tal forma que, com requintes de seriedade, o recitava enquanto os olhos seguiam as frases e as páginas eram viradas no momento certo, deixando boquiabertos os que viam tal proeza numa criança tão pequena. Eu não sabia ler. Mas tinha orgulho nessa exibição que, quando desmascarada, arrancava sempre uns sorrisos. 
Outros se seguiram e quando deixei de precisar de ajuda para descobrir as histórias que os livros continham, eles tornaram-se os meus melhores amigos. 
Não sei onde anda esse livro cuja lombada não resistiu e foi desaparecendo, deixando à vista os desenhos dobrados no interior. Gosto de pensar que não está perdido e que um dia o encontrarei e que, tal  como nessa altura, o conseguirei ler de olhos fechados.  

quarta-feira, 14 de março de 2012

Plastificar para consumir

Nesta pausa forçada de alguns dias sobrou-me o tempo para, de comando na mão, percorrer canais e mais canais de televisão que, de outra forma, nem conheceria, apesar de já ter ouvido falar deles. Pois: eu sou daquelas pessoas a quem os canais também sobram. Apesar dos disponíveis serem em número considerável (sempre o mínimo dos pacotes das ofertas das empresas) raras são as vezes em que passo para lá dos primeiros 5 ou 6. As tentativas para me convencerem a pagar mais canais provocam-me sempre um sorriso complacente...
Nos canais norte-americanos a quantidade de séries que exploram a temática do crime, do dia a dia de polícias é imensa. Há para todos os gostos. Ou melhor: quase para todos os gostos. Porque, herdeiros dos protagonistas de "Modelo e Detective" (série que não perdíamos na década de 80 do século passado), também os personagens destas séries são todos muito jovens, bonitos, atléticos, inteligentes, bem vestidos. Ufa! Que enjoo! Certamente não vi tudo. Mas não encontrei nada do género "Hill Street Blues"(também dos anos 80 do séc. XX) onde, a par de algum  brilho do capitão Furillo e da defensora pública Joyce Davenport, sentíamos alguma empatia com polícias de carne e osso que nem sempre tinham o uniforme limpo ou os sapatos a combinar com a roupa. Mas também já nem uma "Roll-call" eu vi. Deve ser tudo por tele-conferência.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma livraria com o nome de um país

Não raras vezes na faculdade era ali que encontrava o livro que já tinha procurado, sem êxito, nas outras livrarias de Lisboa. Sei também que determinados temas só ali estavam representados com alguma profundidade. Nem sempre a arrumação era a ideal. Mas na Livraria Portugal estávamos como na casa de alguém que, sem previamente contar com isso, nos tinha convidado para uma visita. 
Soubemos esta segunda-feira que, devido à quebra nas vendas, irá encerrar. A inevitabilidade da situação, comum a tantas outras actividades, começa a deixar-nos indiferentes. Mas a Portugal vai fazer falta naquela esquina.