quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 27 de novembro de 2016

You are beautiful

Quando Brel morreu eu nem sabia sequer da sua existência. Por isso não tinha qualquer noção de como as canções que escreveu iriam fazer parte da minha vida. A sua morte só me doeu mais tarde quando o conheci através dessas canções.
A Cohen conheci-o mais ou menos na mesma altura. A nossa adolescência é um período que deixa marcas e a música que ouvimos nessa fase acompanha-nos sempre. As suas canções primeiro, os seus poemas depois, cá continuam, comigo. A eles regresso como sempre se regressa aos clássicos. Cohen foi um poeta maravilhoso e soube acrescentar valor aos seus poemas com a música que, no seu caso, o elevava e nos eleva. Agora que morreu estranha-se esta dor de saber que não teremos novas canções. Consola-nos o facto de, tal como Bowie, Leonard Cohen se ter despedido de nós com a sua arte, deixando-nos a sensação de sermos uns privilegiados. Se uns dias antes da sua morte deixei aqui um poema em canção, deixo agora, como já tinha feito há uns anos, um poema sem canção.

My time

My time is running out
and still
I have not sung
the true song
the great song

I admit
that I seem
to have lost my courage

a glance at the mirror
a glimpse into my heart
makes me want
to shut up forever

so why do you lean me here
Lord of my life
lean me at this table
in the middle of the night
wondering
how to be beautiful

in Leonard Cohen, Livro do Desejo, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2008, p. 178

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Lágrimas

Não é fácil confortar uma filha que, aos 16 anos de idade, acorda e percebe qual foi o resultado das eleições presidenciais nos EUA. Neste mundo que nos faz estar tão perto de um país do outro lado do oceano, ela tinha, desde o início do processo eleitoral, sentido uma grande simpatia por Bernie Sanders e não percebia como não tinha sido ele o escolhido para se candidatar pelo partido democrata. Mas disto é que ela não estava mesmo à espera. As suas lágrimas são semelhantes às de muitos que, no mundo inteiro, dificilmente acreditam que Trump será mesmo presidente. Mas a verdade é que foi isso mesmo que ficou hoje decidido. 
As surpresas em eleições são cada vez maiores e se as sondagens deixam de conseguir fazer previsões acertadas devem-no muito à aceleração que se vive, incluindo a da mudança de opinião, o que faz com que, factores ou casos singulares, muitos deles manipulados por instituições e órgãos de comunicação social, façam a diferença de um dia para o outro. No caso destas eleições não foi só isso que aconteceu. Ao longo do dia muitos jornalistas e figuras públicas, a começar pelos que mais apoiavam Hillary Clinton, fizeram um mea culpa por não terem conseguido passar a mensagem e por terem subestimado Trump, assumindo que a vitória democrata seria incontestável. Mas afinal foi Trump quem viu a sua estratégia de non sense político levar a melhor. Foi ele que percebeu que os jornalistas, os actores, os cantores, os artistas e intelectuais no geral, são só uma pequena parte dos eleitores. E, na verdade, fazendo uma analogia com a televisão, por muito que se apresentem programas com elevado interesse e que muitos se pronunciem sobre o seu valor, as audiências serão sempre mais favoráveis aos programas inconsequentes e absolutamente desprovidos de aspectos positivos que apelam ao mais primário dos telespectadores. Pode parecer uma visão elitista mas os resultados das eleições, por grupos de votantes, aproxima as características de cada um, no que, por exemplo, ao nível de escolaridade diz respeito; de um ou outro candidato. Já para não falar na abstenção que prejudica, muitas vezes, o candidato que se pensa ter, à partida, a eleição garantida. 
Foi isto, por alto, que disse à minha filha. Mas as explicações não serviram de muito! E o que é facto é que as brincadeiras dos últimos meses à volta de Donald Trump, hoje, não pareciam ter mais piada. Depois de Obama os americanos escolheram Trump. Pode ser que daqui a algum tempo estejamos a analisar a actuação do futuro presidente e se chegue à conclusão que as nossas perspectivas eram demasiado pessimistas. Mas hoje, perante esta realidade, só mesmo as lágrimas fazem sentido.

domingo, 6 de novembro de 2016

Ininteligível

A sua voz pouco se fazia ouvir na estação de metro cheia de gente. Pedia para a alimentação e para a higiene. Eu estava sentada a ler. Quando passou por mim baixou-se e disse-me que tinha escrito 35 livros que nunca ninguém publicou. De seguida disse ainda qualquer coisa que não entendi sobre o Campo de Santa Clara. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

No dia 1 de Novembro

As flores estavam frescas e as pedras de mármore brancas estavam limpas. O dia quente e cheio de sol levou muitos a aproveitarem para "visitar os seus mortos". O que alguns consideram um ritual um pouco macabro e sem qualquer préstimo só cumprido por quem, sendo católico, vai ao local rezar pelas almas dos que partiram, é, na realidade, uma situação absolutamente natural que faz parte do mundo dos vivos. O culto dos mortos, aliás, diz-nos muito deste mundo.
Enquanto nos outros dias as visitas ao cemitério se fazem de forma mais discreta, num contexto mais pessoal, neste dia (que apesar de não ser “Dia de Finados” é comummente o da romagem aos cemitérios) a azáfama é grande. É preciso assegurar que tudo fica limpo e bonito, mais para ser visto pelos amigos e conhecidos do que pelos que já não podem observar o resultado final. Mas é a partilha comum de sentimentos que unem os humanos nas suas experiências de perda que parece mais significativa neste dia. Todos e cada um dos que ali estão recordam uma ou mais pessoas, os seus rostos, as suas vozes, as experiências vividas em conjunto. Simultaneamente para os outros essas pessoas são apenas nomes gravados na pedra. 
E se uns são mais discretos, outros, como os membros das famílias ciganas, fazem deste um momento de convívio ruidoso e de união. Com os jazigos abertos, sentados em bancos dispostos à sua volta, estão as mulheres. Os homens, em pé, conversam. As crianças brincam e andam "ao pão por Deus". E ali passam algumas horas.
Eu, que há já alguns anos não ia ao cemitério neste dia e que tenho a maior parte dos "meus mortos" longe, senti-me bem. Relembrei situações e pessoas: os meus padrinhos, José Bernardo e Maria Inês; a D. Alice, o Sr. Silvério, a Clarinha e o Sr. António. Chorei e sorri junto a eles. Vivi mais um pouco da minha vida. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

"I don't need a reason For what I became"

Quando se tem 82 anos e se é cantor é difícil fazer com que a voz corresponda àquilo que as canções merecem. 
Mas quando se tem 82 anos e se é poeta, um grande poeta, parece fácil moldar a forma como os poemas correspondem à nossa vida.

I'm leaving the table
I'm out of the game
I don't know the people
In your picture frame
If I ever loved you
It's a crying shame
If I ever loved you
If I knew your name

You don't need a lawyer
I'm not making a claim
You can put down your weapon
I'm not taking aim
I don't need a lover
The wretched beast is tame
I don't need a lover
So blow out the flame

There's nobody missing
There is no reward
Little by little
We're cutting the cord
We're spending the treasure
That love cannot afford
I know you can feel it
The sweetness restored

I don't need a reason
For what I became
I've got these excuses
They're tired and lame
I don't need a pardon
There's no one left to blame
I'm leaving the table
I'm out of the game

Leonard Cohen - Leaving The Table Lyrics




sábado, 29 de outubro de 2016

. . . _ _ _ . . .

Na TVI 24, à hora dos telejornais, temos agora um novo programa de televisão. SOS 24 dá notícias relacionadas com as actividades das polícias e é uma versão televisiva de qualquer coisa tipo "Jornal O Crime". Já por duas ou três vezes vi uns bocados. Como não podia deixar de ser os casos mais mediáticos dos últimos dias estão em destaque. Para além da apresentação dos supostos factos, têm também comentadores em estúdio. Estes, com um ar muito compenetrado e profissional, dizem umas banalidades e dão umas opiniões facilmente suplantadas, em termos de coerência e fundamentação, pelo empregado do café da esquina da minha rua. O problema é que parecem levar-se mesmo a sério. Por isso é ainda mais constrangedor ouvi-los...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Uma ilha

Um filme ou, neste caso, um documentário, pouca diferença faz.
Lampedusa, a ilha, torna-se cenário, não por escolha de um realizador, mas por ser ali que se desenrola uma das mais penosas realidades dos nossos dias. De todos os que tentam chegar à Europa muitos são os que nunca chegam a embarcar na direcção desta ilha. Uns ficam no deserto numa travessia que, com poucos meios, frequentemente é fatal. Outros não conseguem ultrapassar a Líbia, as suas prisões e os maus-tratos. Para os que conseguem juntar o dinheiro necessário para pagar a quem organiza as viagens para o desconhecido, entrar naqueles barcos é uma etapa chave. Fugir de uma vida indescritível na sua dureza e onde a morte parece querer levar sempre a melhor leva a considerar possível aguentar as condições da viagem. Mas a verdade é que, para muitos, sobretudo para os mais pobres que só têm dinheiro suficiente para ocupar os fundos daqueles barcos (mais uma vez o dinheiro como factor determinante), é exactamente a morte que encontram neste caminho entre dois continentes, um que não os quis e outro que não os quer.
Lampedusa não tem importância nenhuma para os mortos que ficam pelo caminho. Mas também pouca diferença faz para os milhares de pessoas que, depois de inúmeras provações, ali chegam em condições deploráveis e que são registados e enviados para outro sítio, que o espaço ali é limitado. Os barcos que os recolhem, as camionetes que os transportam, os centros de acolhimento que os recebem, estão ali como podiam estar em qualquer outro lugar que ficasse a meio de um caminho de fuga e esperança.
Mas para as pessoas que vivem na ilha, Lampedusa é a sua casa, lugar das suas memórias. Os campos açoitados pelo vento, o mar, fonte de riqueza que sempre fez parte da sua história, os locais de brincadeira, a estação de rádio local com uma relação de proximidade feita de muitos programas de discos pedidos. Aqui a vida corre como sempre, sem grandes sobressaltos. As recordações negativas que o mar traz são associadas ao duro trabalho da faina da pesca ocupação que, para os mais pobres, se traduz numa vida de sacrifícios e de receios acerca do futuro. A vinda de migrantes que ali chegam à Europa já não é novidade. Mas só nestes últimos anos, a dimensão desse fenómeno se tornou avassaladora.
No documentário só o médico de Samuele, rapaz da ilha a quem acompanhamos do princípio ao fim, parece tocado pela realidade da chegada destes homens, mulheres e crianças a quem pouco interessa o nome do local. No seu caso, porque lida directamente com a situação, é ferido intensamente por ela e apercebemo-nos que as marcas que deixa serão impossíveis de ultrapassar. Mesmo assim, na sua actividade de médico local, nada deixa transparecer. Parece querer proteger dele todos os que não testemunham o horror vivido ali tão perto. 
Mesmo assim, quer os que vivem na ilha quer os que, como nós, só vêem as imagens pela televisão não podem ficar indiferentes. Mas nunca temos a verdadeira noção do que realmente se passa. E este documentário aprofunda essa noção. Mesmo que não fosse por mais nada já valia a pena vê-lo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

História... com sol e palmeiras

Li esta semana, pela primeira vez, o conto "O Pierrot que nunca ninguém soube que houve" de Almada Negreiros.
Fiquei a pensar que teria gostado que alguém mo tivesse lido enquanto eu tinha idade para acreditar em princesas, pierrots e arlequins...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Go, go, confessor go!

Uma súbita vontade de se confessar? Agora já não precisa procurar uma igreja e consultar os horários das confissões. Vamos ver como se compatibiliza a noção de tempo que, na religião, é da ordem do metafísico e do divino com a procura e escolha "em tempo real" de um confessor...O "exame de consciência de última hora" parece ser, também, um "must"... 

domingo, 16 de outubro de 2016

A dor de Julieta

Quando vemos um filme como Julieta percebemos porque é que o cinema é uma arte maior e Almodóvar um grande realizador.
Uma mulher com uma enorme vontade de amar que não se traduz na capacidade real de amar. A dificuldade em lidar com as consequências dessa incapacidade traduzida em culpa e remorso. A complexidade dos sentimentos, num filme simples, sem artifícios, uma história absolutamente credível e próxima de cada um de nós. Os actores estão também à altura das personagens que interpretam e nos seus olhos podemos ver aquilo que não precisam dizer.
Por estas razões, que para alguns não serão válidas, mas sobretudo porque nos sentimos aquela mulher, sabemos que este será um dos filmes da nossa vida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Explicações impossíveis

Ontem, M. telefonou-me num estado de grande agitação. Estava com um grupo de colegas e não sabiam o que pensar. O que se pode dizer a uma filha que acabou de ler uma notícia como esta? Lembrar-lhe que os títulos dos jornais apelam sempre para o lado sensacionalista das notícias? Que a construção de abrigos é uma prática antiga e muitas vezes é uma afirmação de segurança para o interior e exterior do país? Que, desde a segunda guerra mundial, já aconteceram crises bastante complexas, nesta "paz mundial" que tem deixado de fora dos conflitos mais sérios os países mais poderosos? Que a situação na Síria se há-de resolver, sem que se alastre mais a tragédia diária que ali se vive? Que a divulgação de poderio militar e movimentações de tropas são demonstrações de força que visam criar uma ideia de superioridade de um país? Que os "avisos" difundidos por meios diversos são muitas vezes para consumo interno? Que os governantes dos países em causa estão conscientes dos perigos e trabalharão para que as soluções pacíficas prevaleçam?  Que existem organismos internacionais que foram criados com o objectivo de impedir que volte a acontecer uma nova guerra mundial? Que tudo o que o ser humano aprendeu até hoje não poderá ser esquecido? 
Poderia dizer-lhe tudo isto. Mas, à noite, quando me voltou a falar no assunto, tive medo de não parecer convincente e utilizei o humor, salvação nestas alturas em que quase tudo o resto falha. 
Na verdade espero (no sentido do desejo e da esperança) nunca ter que falar desta questão, sem que consiga, pelo menos de forma natural, utilizar este mecanismo de desconstrução de uma realidade que parece cada vez mais difícil de explicar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"You’ve got to have a wristband"

No dia em que a Academia Sueca comunica a sua decisão de atribuir o Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan (facto acerca do qual, depois de ter lido tanta coisa, não tenho nada a dizer) fica aqui uma canção com um belo poema de um senhor que fez hoje 75 anos: