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sábado, 14 de janeiro de 2017

Da modernidade

De Zygmunt Bauman li alguns textos embora, confesso, nunca tenha lido qualquer obra por inteiro. Por estes dias, após a sua morte, no dia 9, pensei em escrever aqui alguma coisa. Conhecendo as suas teses pessimistas sobretudo no que diz respeito à forma como a omnipresença das redes sociais transforma, para pior, a forma como nos relacionamos com o mundo, talvez não seja, afinal, boa ideia falar desse facto aqui.
Do único livro que tenho do autor retiro duas citações sobre a modernidade que nos obrigam a pensar: 
..."A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torne mais ambiciosa ou aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. A marcha deve seguir adiante porque qualquer ponto de chegada não passa de uma estação temporária"...
... "Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro, mas desvalorizar o presente. Não ser o que deveria ser é o pecado original e irredimível do presente. O presente está sempre «a querer», o que o torna feio, abominável e insuportável. o presente é obsoleto. É obsoleto antes de existir. No momento em que aterra no presente, o ansiado futuro é envenenado pelos eflúvios tóxicos do passado perdido. O seu desfrute não dura mais do que um momento fugaz, depois do qual (e o depois começa no ponto de partida) a alegria adquire um toque necrofílico, a realização torna-se pecado e a imobilidade morte."...

in Zygmunt Bauman, Modernidade e Ambivalência, Lisboa, Relógio D'Água Editores, 2007, p. 22 e 23

quarta-feira, 16 de março de 2016

"O quando" da leitura

É uma autora que associo à minha maioridade. Não a que se liga à idade mas a que é reflexo de um crescimento interior. Este crescimento, feito por saltos, entre avanços e recuos, teve, no meu caso, uma fase de avanço na época em que a li. Dois dos seus livros, "Olhem para mim" e "Hotel du Lac" (comprados no mesmo dia na Feira do Livro) foram lidos entre 1989 e 1990. Há livros que não se recordam tanto pelo que são mas mais pela época em que os lemos e pelas circunstâncias vividas. Acontece isso mesmo com estes.  
Soube agora que Anita Brookner faleceu a semana passada. Em jeito de lembrança deixo uma passagem...
"... Foi então que vi o ofício de escrever como aquilo que era, e é, verdadeiramente, para mim. É a penitência que se faz pelo facto de não se ser feliz. É uma tentativa para alcançar os outros e fazer com que nos amem. É o protesto instintivo, quando se descobre que se não tem voz nos tribunais do mundo, e que ninguém falará por nós. Eu daria toda a minha produção de palavras, passada, presente e futura, em troca de um acesso mais fácil ao mundo, da permissão de dizer: «Eu magoo», «Eu odeio» ou «Eu quero». Ou «Olhem para mim», deveras. E isto nunca o desmentirei. Porque, uma vez conhecida, uma coisa não pode nunca mais ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E escrever é o inimigo do esquecimento, da irreflexão. Para o escritor não há qualquer olvido. Somente a infindável recordação."
in Anita Brookner, Olhem para mim, Editorial Teorema, 1988, pág. 95

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Vamos ler Vergílio

"Tenho de. O pequeno intervalo entre a minha disponibilidade e a pequena tarefa a realizar. É o meu futuro. Reduzido minúsculo. Não olhes mais longe. Agora o teu futuro é o pequeno passo que dês para fechar as janelas, para abrir as lojas. Agora a tua vida é o instante em que vives. Nada mais, nada mais, mas não te lamentes. Sê inteiro na dignidade de ti..."
 in Vergílio Ferreira, Para Sempre, Círculo de Leitores, Lisboa, 1985 , pág. 123

Por uma série de situações entre as quais este post do Luís Naves, uma definição de amor citada por um professor das minhas filhas e uma referência de Eduardo Lourenço (outro beirão, como ele) lida numa entrevista a Carlos Vaz Marques dei por mim a regressar ao Para Sempre. Terminei de o ler, pela primeira vez, no dia 5 de Setembro de 1986. É um livro marcante. Foi-o para mim. E certamente, naquela idade, não teria vivido o suficiente para compreender a dureza do confronto com o passado e a inevitabilidade do fim que naquele livro estão tão presentes. Tenho agora algum receio de o reler. Mas ele está aqui ao meu lado. Pacientemente espera pela minha coragem. 
Hoje passam 100 anos desde o nascimento de Vergílio Ferreira. É uma data que merece ser assinalada. A Isabel Mouzinho já o fez no DO. Alguns jornais nas suas versões on line também já lhe fizeram referência. E é a lê-lo que, mesmo que soframos, lhe prestamos a melhor homenagem.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Prémio "Um pouco de modéstia não ficava nada mal"

Se é que a TSF citou bem (foi de uma notícia da rádio que a copiei), foi assim que Cristiano Ronaldo se referiu às suas novas chuteiras: «Estas chuteiras têm tudo a ver comigo: são elegantes, bonitas e brilham (...)»

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Os tolos e os espertos

"Será necessário, apenas, levá-lo a concluir que o dinheiro dos tolos é, por direito divino, o património dos espertos! – exclamou Blondet."

Honoré de Balzac, “A Casa Nucingen” in
A Comédia Humana, VII Volume (Cenas da Vida
da Província), Livraria Civilização, Lisboa, 1980


Citação copiada do blog experimental e que vem a propósito da situação do GES/BES, mesmo que o argumento do direito divino não tenha sido apresentado.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"Yo... lo que quiero es contar"

"...Yo lo único que he querido hacer en mi vida - y lo único que he hecho más o menos bien - es contar historias... El día que descobrí que lo único que realmente me gustaba era contar historias, me propuse hacer todo lo necesario para satisfacer ese deseo. Me dije: esto es lo mío, nada ni nadie me obligará a dedicarme a otra cosa...
...Modestamente, me considero el hombre más libre del mundo - en la medida en que no estoy atado a nada ni tengo compromisos con nadie - y eso se lo debo a haber hecho durante toda la vida única e exclusivamente lo que he querido, que es contar historias..."
"...Yo nunca me despido, porque el que se despide no vuelve..."

in , Taller de Guión de Gabriel García Márquez, La Bendita Manía de Contar , Ollero & Ramos, 2003, págs.  177, 11, 15 e 196

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Definição minimalista

"Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do que quando não tinha coisa nenhuma"

 in Millôr Fernandes, Pif-Paf, O Independente, 2004, pág. 87

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Como míscaros, os homens

Vento sul-sudoeste fraco; céu nublado. Tempo de míscaros. Matérias orgânicas que alastram nos muros e nos fossos, bolores negros, lodos, fungos, vidas persistentes, possuídas de uma animação vegetal crescendo sobre a decomposição, sobre a ruína, nos lôbregos refegos da terra, nos podres esconsos, nos charcos parados, debruados de lamas. Como míscaros, os homens parecem brotar na rua, ressumar das pedras, pardos e cor de azebre, cor de pão de rala, com as suas faces vazias, as mãos que são como raízes impregnadas de água.

in Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares - Míscaros, Guimarães Editores, 2004, pág. 15

domingo, 10 de junho de 2012

Curativo

"Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso..." 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Opiniões de génios...

A propósito de uma coisa que ouvi hoje lembrei-me de ter lido, em tempos, um excerto de uma carta onde Mozart descreve ao pai a que viria a ser sua mulher, Constanze.  Fui à procura e encontrei. Isto da internet é uma maravilha... 
"Não é feia e até chega a ser bela. Toda a sua beleza consiste em dois pequenos olhos pretos e numa bela figura. Não tem espírito, mas bom senso suficiente para ser capaz de cumprir os seus deveres de mulher e mãe. Não é dada ao luxo, longe disso - pelo contrário está habituada a andar mal vestida. (...) É verdade que ela gostaria de andar mais bonita e asseada, mas sem se distinguir. E a maior parte da roupa que uma mulher precisa ela é capaz de fazer sozinha. E também arranja o cabelo sozinha todos os dias. Sabe governar a casa, tem o melhor coração do mundo - eu amo-a e ela ama-me de todo o coração - diga-me se poderia desejar uma esposa melhor?" (Viena, 15 de Dezembro de 1781).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ainda mal começámos o ano e já estamos no dia 3

"Não há espectáculo mais belo para um homem sem antolhos que o da inteligência em contenda com uma realidade que ultrapassa o seu entendimento"

in Albert Camus, O Mito de Sísifo, Lisboa, 198..., Livros do Brasil, p. 70

domingo, 18 de dezembro de 2011

A dúvida e a dívida

Brecht terá dito que "de todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida".  Agora 44 cidadãos dizem-nos que de todas as coisas inseguras a mais insegura é a dívida. E sobre isso não têm dúvidas. 

domingo, 6 de novembro de 2011

Pergunta e resposta

Ela pergunta-lhe: «O que queres?» Ele diz: «Quero cair e que tu me apanhes na queda».

James Ellroy referindo-se, numa entrevista, a um diálogo entre personagens do seu livro Sangue Vadio.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Um processo natural

"Envelhecer é, em si mesmo, um processo natural e um homem de 65 ou 75 anos, desde que não queira ser mais jovem, será tão saudável e normal como um de 30 ou de 50. Infelizmente nem sempre estamos de bem com a nossa idade, no nosso íntimo é frequente andarmos adiantados, mas ainda mais frequente é sermos apanhados e ultrapassados - a consciência e a disposição íntima estão menos amadurecidas do que o próprio corpo, reagem contra as suas manifestações naturais, exigem dele algo que este já não consegue cumprir."

in Hermann Hesse, Elogio da Velhice, Algés, Difel, 2003, p. 51

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

1000 posts

"Um blogue é a voz particular de alguém. Um blogue é o estilo do seu autor, os seus pontos de vista, as suas preferências, as suas manias e os seus gostos. Um blogue é a projecção de uma pessoa na rede, é uma identidade que se vai construindo e expressando a pedaços (links, textos, vídeos, imagens). Os blogues são pessoas que nos propõem uma conversa."
José Luís Orihuela

"Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas. A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total."
Miguel Esteves Cardoso

"É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas a sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego..."
Gilles Lipovetsky

"Actualmente, o mundo divide-se entre os que procuram razões para entrar na blogosfera e os que procuram razões para não sair"
José Luís Orihuela

"Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros."
Eugène Ionesco

"Os blogs não vão acabar... nunca. Quem difundiu a ideia dos blogs como uma moda foram os meios de comunicação tradicionais, quando se aperceberam de que deixaram de ter a administração exclusiva do espaço público de comunicação e da agenda."
José Luís Orihuela

"A blogosfera substitui o "speakers corner" de Hyde Park, a porta e paredes das casas de banho, aquele monte no qual, e a coberto do breu da noite, nas aldeias, se berrava em plenos pulmões os segredos de vícios privados que eram do conhecimento de todos. Nesse sentido é um contexto verdadeiramente terapêutico com a vantagem de não provocar intoxicação química, nem excessivos gastos em psiquiatras e psicólogos. É o maior espelho de Narciso conhecido."
Catarina Campos e José Manuel Fonseca

Todas estas citações vêm publicadas em várias páginas do livro de Paula Oliveira Silva, Blogo, Logo Existo, Editora Media XXI, 2009 que analisa, de um ponto de vista sociológico, o "fenómeno" dos blogues.
De diferentes autores elas levantam algumas questões interessantes e em que todos pensamos quando surge este tema. 

Vêm estas citações a propósito do facto do presente post ser o milésimo a ser publicado neste blogue. (Deixei passar os dois anos do blogue sem uma referência mas agora, o blogger e as suas estatísticas chamaram-me a atenção). 
E pronto... Cá se vai enchendo este meu "diário de bordo", aberto para que qualquer um possa ler, ou apenas ver. Não sou eu que aqui estou. É apenas uma parte de mim, aquela que eu quero ou não me importo de mostrar. Daí que às vezes fique com a sensação que estes blogues são, acima de tudo, uma ficção, uma construção do seu autor que, não raras vezes, pretende ser melhor do que é. 
Continuam válidas as premissas iniciais. Enquanto a vida de todos os dias, mesmo que pouco excitante, me dê motivos para ir reflectindo cá irei arriscando as minhas interrupções no silêncio. Obrigada a todos os que vão lendo; aos que comentam; aos que passam por aqui, desde os mais antigos aos mais recentes; e aos amigos que fiz entretanto. Convosco os dias são menos imperfeitos.

domingo, 24 de julho de 2011

Podia ter sido escrito hoje

"Riqueza e velocidade é tudo o que o mundo admira e a que todos aspiram. Caminhos de ferro, correios rápidos, barcos a vapor e todas as facilidades possíveis da comunicação, é para isso que tende o mundo civilizado, para se ultra-civilizar e assim persistir na mediocridade."


GOETHE, W. (1749-1832)  - «Carta a Zelter», cit. in W. Benjamin- Hommes Allemands, Paris, Payot, p.21-22

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perfeição

No aniversário do nascimento de Pessoa:

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito."

in Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, p. 288

domingo, 5 de junho de 2011

Participar

"As sociedades democráticas podem existir com diferentes níveis de participação, embora seja evidente que deles decorrem consequências diversas. Os que acreditam ser a democracia melhor servida por um elevado nível de participação apontam para o fato de que um Estado democrático, ao invés da oligarquia tradicionalista, deve depender do consentimento da sua cidadania. E um estado em que uma grande parte da população seja apática, desinteressada e inconsciente é um daqueles em que o consentimento não poderá ser nunca tomado como coisa certa e em que, na realidade, o consenso pode ser bastante fraco... A falta de participação e representação também reflete a ausência de uma cidadania efectiva e a consequente falta de lealdade para com o sistema como um todo."

in Seymour Martin Lipset, O Homem Político, Rio de Janeiro, Zahar Editores, p. 227


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Razão da escrita

"Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre a causa e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese."

in Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: livro de horas I, Assírio & Alvim, Lisboa,  p. 44

sábado, 19 de junho de 2010

Chegou a grande sombra

“…. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?”

in José Saramago, As pequenas memórias, Lisboa, Caminho, 2006, p. 130