sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

À rapariga que passa por mim quase todos os dias

Serpenteia por entre os automóveis de uma forma que só parece acessível a um artista de circo. Quer chova, quer o calor aperte. Não sei para onde vai mas sei que chega sempre primeiro. Gosto especialmente da forma como aperta o cabelo com um elástico enquanto pedala a grande velocidade.


Elogio Barroco da Bicicleta

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

Alexandre O´Neill
in Poesias Completas, Assírio & Alvim

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ciclos

E pronto! Este já acabou... É grande a sensação de alívio quando chega ao fim este dia. Sabemos então que, só para o ano, voltaremos a ter dias como estes. Cheios de frenesim consumista, das canções de sempre em inúmeras versões, do convívio mais ou menos forçado, dos ataques de gula incontrolável perante doces que ameaçam o nosso bem-estar, do choro contido perante a lembrança de alguém que já não está. No entanto, essa certeza da repetição, de alguma forma, reconforta-nos. É o mito do eterno retorno que mantém tudo no seu lugar e que nos dá uma sensação que, ao testemunharmos a renovação contínua de determinadas práticas (sejamos nós ou não religiosos), viveremos para sempre. Pelo menos mais um ano. Até ao próximo Natal.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um Natal ao contrário

Estende uma das mãos como qualquer outro pedinte. Estão muitas pessoas na rua e ele vai de um lado para o outro tentando convencer alguém a dar-lhe alguma coisa. Um homem chama-o e coloca na sua mão algo que eu não vejo mas que ele se apressa a guardar no saco. É um saco grande mas pouca coisa tem lá dentro. O fato vermelho debruado a branco, que veste, está-lhe um pouco largo e o gorro não assenta bem. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Próxima paragem: mudar a nossa vida

Não gosto de falar do que não sei. E realmente não sei bem o que se passa com os comboios da linha de Cascais. 
No Verão do ano passado chegavam as notícias da supressão temporária de comboios (por exemplo, aqui) que, tal como se esperava, passou a definitiva. Determinadas notícias davam conta de um fim previsível. 
Em Novembro também do ano passado falei aqui sobre este assunto.
Nesta última semana, depois do serviço se ter vindo a deteriorar, mais supressões têm acontecido. Comboios cheios, espera à chuva, informações inexistentes, passageiros confusos...
Entretanto a notícia da concessão a privados. Se, em princípio, essa ideia me causa estranheza, pior ainda é a sensação de que a nossa vida vai mudar, sim. Mas não posso deixar de pensar que não será para melhor...



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Bolas de sabão


Tinha já anoitecido.  Àquela hora as pessoas caminhavam depressa pelos passeios. Também eu fazia o mesmo. Subitamente um ponto de luz que se move chama-me a atenção. E depois outro. Eram pequenas bolas de sabão. Saíam de um daqueles frasquinhos cuja tampa as permite modelar, soprando. Quem se apercebia parava e acompanhava-as, com o olhar, até se desfazerem no chão. A rapariga também avançava pelo passeio. Mas um pouco mais devagar. Era ela que soprava. Tinha um sorriso nos lábios enquanto o fazia. Parecia contente consigo mesma. Como se distribuísse felicidade, consciente do poder de simples bolas de sabão. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Já lá vão 16 horas do dia

Mesmo assim, ainda estão a tempo de aproveitar as dicas .
Nesta época de dificuldades há até uma receita para os que desejam atrair dinheiro: "banho, com diversos condimentos, seguido de orações. “Sete galhinhos de salsinha, sete cravos da índia, sete pedaços de canela em pau, três folhas de louro e um pitada noz-moscada. Ferver tudo em um litro de água e jogar no corpo. Não seque. Depois reze um pai-nosso e três ave-marias”.
Mas não comecem já a tentar perceber se salsinha é o mesmo que salsa, ó almas pecadoras... É que "somente as almas de quem segue o caminho do bem estão preparadas para esta nova fase".

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Centro Comercial

A meio do dia de trabalho, chegada a hora do almoço, abrem a mesa portátil e as cadeiras e a comida é posta de forma a que todos possam comer sem que se perca muito tempo. Entre as caixas de papelão e a mercadoria exposta são indiferentes a quem passa, aos olhares curiosos de uns e aos mais tímidos de outros, incomodados por entrarem, mesmo sem querer, no quotidiano da família. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Entre o teatro e o cinema: a vida

Cosimo Rega, há 34 anos numa prisão de alta segurança perto de Roma, diz, lá para o final do filme (mas logo no início do trailer): "agora que conheço a arte, esta cela tornou-se uma prisão". Condenado a prisão perpétua por crimes graves, participou, com outros presos, nesta experiência teatral que, filmada numa perspectiva documental mas ao mesmo tempo poética, nos deixa com a sensação de termos assistido a momentos únicos pois sabemos que, para além das imagens que os realizadores escolheram para nos mostrar, estão ali as vidas reais de quem assumiu, como uma redenção, a participação naquela peça. Aquele grupo de homens, em situação de reclusão, entrega-se, por inteiro, a um texto, a uma encenação, a uma alteração do seu quotidiano que, mesmo sendo ficção, vai muito para além das celas, a que obrigatoriamente têm que se recolher quando chega a hora. Por isso aquelas imagens são poderosas. Por isso as sentimos tão intensamente. 
É ainda Cosimo que explica: "Não me bastava sobreviver à prisão. Eu queria viver. Foi por isso que fiz teatro. Porque um detido é antes de tudo um homem, com as suas emoções, os seus medos. E as suas dores. Nós somos pessoas que têm o direito e o dever de se redimir, para demonstrar, para lá daquilo que fizemos, toda a nossa humanidade. " Tradução de um extracto desta entrevista.
Já vi este filme há umas semanas mas ainda não tinha tido oportunidade de falar sobre ele. Não podia, no entanto, deixar de o fazer. Nem que fosse para registar que o cinema ainda pode ser algo de novo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um passeio pequeno de mais

Com tantos sacos de compras de lojas de marca nem se percebia como conseguia andar. Mas lá ia, com pequenos passinhos, que contrastavam com a altura dos saltos dos sapatos. E ainda tinha capacidade para atender o telemóvel, aparentemente de topo de gama. O casaco de peles, enorme, as pulseiras e os anéis dourados, que não disfarçavam o material nobre de que eram feitos, também faziam parte do conjunto. E o cabelo? Não, não imaginam o cabelo. Da mesma cor que o casaco e que não deixava esquecer as mãos experientes de cabeleireiro que o esteve a moldar para que o vento não destruísse, em segundos, tal obra. À primeira ri para mim, tal era o exagero da monocromia e a postura altamente caricaturável. Depois deixei de rir.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lar, doce lar

Esta fotografia


e sobretudo a situação fizeram-me lembrar o filme Home, de que já falei aqui



Não percebi se o casal vive ou não no local. Seja como for não deixa de ser estranho que, num país como a China, onde estão habituados a não respeitar as vontades individuais, isto aconteça.

Foto aqui.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Esperança

É hora de almoço. Estão os três vestidos com os fatos de trabalho. Certamente trabalham na construção do edifício ali mesmo ao lado. Formam uma linha oblíqua no passeio, quando passo por eles. Estão parados enquanto, cada um com a sua moeda, vêem se tiveram sorte com as raspadinhas que acabaram de comprar no quiosque.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma simples palavra

-Mãe, estive a falar com a M. Ela é bastante simpática.

M., 12 anos

Saiu-lhe assim mesmo. Oh, que alegria!... E bastou uma simples palavra... Sem qualquer constrangimento, ela escolheu bastante quando poderia ter dito bué!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Socióloga à beira de um ataque de nervos

Como tantas coisas que me foram acontecendo na vida, licenciei-me em Sociologia. Fui eu que escolhi, é certo. Mas, envolta numa névoa de indecisão, preenchi o formulário de candidatura à universidade na noite do dia anterior à entrega e a cruz lá acabou por ficar naquela área de conhecimento de que só tinha tido uma cadeira na escola secundária, mas que, mercê de uma professora empenhada, me tinha despertado interesse. 
A licenciatura aconteceu, sem grande brilhantismo da minha parte, mas com um resultado que não envergonha. O entusiasmo, esse, nunca foi muito se considerarmos o que poderia ter sido.
Com o mestrado a sensação não foi muito diferente.
Ao longo do tempo que levo como socióloga tenho tido a sorte de me poder intitular assim, apesar de nem todas as tarefas que desempenhei terem sido da exclusiva alçada desta área de conhecimento.
Sempre entendi a Sociologia como uma base que me permite olhar para as situações de um determinado ponto de vista, ou, o que é mais importante, de vários pontos de vista. Os métodos e as técnicas que os profissionais da Sociologia utilizam são úteis mas sempre usados num contexto e tendo em conta as suas limitações. As estatísticas, por exemplo, cumprem o seu papel quando, através da recolha, da análise e da interpretação de dados nos permitem compreender o que sem elas se tornaria mais difícil ou até impossível.
Mas os sociólogos, tal como os profissionais das outras ciências sociais, sabem bem que a realidade dificilmente se deixa apreender por um qualquer estudo, por muito aprofundado que ele seja.
Depois de tudo isto dito confesso que, ao longo dos anos, muitas foram as vezes em que dei por mim a dizer, a propósito de determinadas situações, que "cada caso é um caso", expressão de difícil relação com uma ciência que estuda o comportamento humano em situação de grupo. Há dias em sinto que não há teorias, modelos, instrumentos de análise, capazes de tornar mais perceptível a realidade que nos cerca. Nesses dias questionar o valor e a capacidade da Sociologia para atingir esse objectivo é um exercício que não posso deixar de fazer. Tentar chegar a uma qualquer conclusão, isso sim, é coisa para me deixar à beira de um ataque de nervos.
(Pronto, está bem, exagero um bocadinho com esta ideia de estar à beira de um ataque de nervos. Mas não resisti à hipérbole).


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Eu, introvertida, me confesso (ou talvez não)

Diz a notícia de jornal que basta enviar um email até quinta-feira. Depois o próprio jornal entra em contacto e o introvertido poderá "participar numa reportagem e falar da sua experiência de vida".

Se eu deixar de ser introvertida até quinta-feira ainda lhes mando um email...


A guitarra e o violino

Este sábado, no interior da Aula Magna, recebemos um presente esperado mas, até por isso mesmo, muito, muito saboroso. Andrew Bird ofereceu-nos o seu virtuosismo e um grande concerto.  Ainda bem que eu estava lá. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Engano?

Pode ter sido um engano. Mas colocar uma notícia destas no separador de "entretenimento" nas notícias do google parece-me revelador da importância que se concede ao Património Cultural.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma espécie de pensamento do dia

Quem me dera que o meu tempo fosse medido em minutos-carris. Sabem, aqueles que, nas paragens, nos indicam quanto tempo falta para o próximo autocarro? Pois...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Estão a ver?

Poderia pensar-se que a renovação seria necessária por causa dos elementos apostos na fachada, os materiais utilizados ou ainda a forma aportuguesada da palavra que publicita o segundo tipo de artigos à venda na loja. Mas não é isso. O que está ali, de alguma forma, a mais é a referência a artigos para bebé...

Mesmo a precisar de renovação


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quem dera!

Estou sentada a uma mesa. A rapariga entra e fica ao balcão. Queixa-se à empregada que está do outro lado. Está cansada. Para ir trabalhar tem que se levantar ainda de madrugada e apanhar vários transportes para chegar até ali. É bom ter trabalho mas o ordenado é tão pequeno, diz. 
Está de chinelos. Numa das pernas, uma tatuagem: uma fada segura nas mãos uma varinha de condão.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Postal ilustrado e em movimento

No seu percurso turístico, Woody Allen passou por Roma. Visitou os monumentos mais importantes; dirigiu actores italianos, uns mais conhecidos, outros menos; deu um papel a uma espanhola que fez bem de italiana; trouxe a Itália alguns actores americanos; fez uma homenagem a alguns realizadores italianos; abordou alguns temas muito actuais de forma crítica; deu-nos a conhecer algumas árias de ópera. Isto chega para fazer um bom filme? Não, nem pensar. 
Uma encomenda que uma entidade ligada ao turismo poderia ter feito. Terá sido o município de Roma a pagar tudo?
Lisboa não será tão cedo um episódio nesta série dedicada às cidades da Europa. Não que não exista interesse. Mas é que a crise torna difícil pagar um postal ilustrado e em movimento deste género.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Resolvam lá isso!

Sou benfiquista. Desde que me lembro. E desde sempre que a rivalidade com o Sporting é algo inerente à condição de benfiquista. Os jogos entre as duas equipas sempre foram momentos com alguma magia. Tal como acontece noutras cidades, em Lisboa, amigos, vizinhos da mesma rua, casais, namorados, em tudo o mais unidos, em dia de jogo, torcem cada um pelo seu clube. Nos dias a seguir aos jogos, nos cafés, os temas de conversa vão sempre aí parar e as discussões são, muitas vezes, bem acaloradas. Mas, ultimamente, isso já não acontece. Vemos, sim, os adeptos de outros clubes a consolarem os sportinguistas pelos maus resultados e pela situação complicada em que se encontra o clube. E assim não tem graça nenhuma. Por isso, vá lá, caros dirigentes do Sporting, a bem do equilíbrio da cidade e dos seus habitantes, esta benfiquista pede-vos: resolvam lá isso!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Olhares que não se cruzam

Gosto do Largo do Regedor, em Lisboa. Tem uma dimensão muito simpática, os edifícios são interessantes, o espaço público está bem cuidado.  Em relação aos frequentadores é heterogéneo o suficiente para ter uma amostra de vários elementos de diferentes camadas da sociedade. Ocupando os degraus das traseiras do Teatro Nacional encontramos os sem-abrigo que ali vão dormindo, comendo, estando. Em fila, que começa do outro lado do teatro, os taxistas esperam os clientes. À espera, também, estão os motoristas de carros novos, grandes e luzidios ali estacionados e que ocupam grande parte do largo, sob o olhar protector do agente da polícia, de serviço ali na esquadra. Esperam que saiam, pela porta mais discreta, aqueles que, depois de um almoço cujo preço eu só posso imaginar (que o Gambrinus não é de fazer menus económicos) se sentarão naqueles estofos limpos e a cheirar a novo.
Interessante é notar que, se no caso dos sem-abrigo tem havido um aumento do seu número, já a quantidade de carros para onde entram os que acabam de sair do restaurante não parece diminuir, antes pelo contrário. E se o olhar dos primeiros segue estes últimos, quem sai de barriga cheia não olha à sua volta.

sábado, 20 de outubro de 2012

Os poetas também morrem

Os poetas também morrem. Essa é a sua principal falha: não terem aprendido a trocar as voltas à morte. Tudo o resto eles sabem fazer.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Como míscaros, os homens

Vento sul-sudoeste fraco; céu nublado. Tempo de míscaros. Matérias orgânicas que alastram nos muros e nos fossos, bolores negros, lodos, fungos, vidas persistentes, possuídas de uma animação vegetal crescendo sobre a decomposição, sobre a ruína, nos lôbregos refegos da terra, nos podres esconsos, nos charcos parados, debruados de lamas. Como míscaros, os homens parecem brotar na rua, ressumar das pedras, pardos e cor de azebre, cor de pão de rala, com as suas faces vazias, as mãos que são como raízes impregnadas de água.

in Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares - Míscaros, Guimarães Editores, 2004, pág. 15

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O partido, os automóveis e o agradecimento que se impõe

Fantástica a forma como uma conhecida marca automóvel francesa aproveita a boleia que lhe é dada por um partido político português! No meio disto tudo ficam a ganhar algumas empresas construtoras de automóveis (umas directamente, outra através da publicidade grátis). Parece que nós também ganhamos alguma coisa porque esta solução é mais económica que a que existia e por isso sai-nos mais barata a democracia. Conclusão: temos todos que estar agradecidos ao tal partido. A verdade é que, com este assunto, pelo menos temos estado menos concentrados no que se prevê que venha a ser o OE para o próximo ano. Da minha parte obrigadinha...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Crianças que brincam

O arco pendurado entre dois edifícios é um resquício das festas do Verão na cidade. O nome do bairro e fado são duas palavras que sobressaem. Por baixo dele duas meninas brincam. Correm de um lado para o outro. Escondem-se numa porta, saltitam no passeio... Falam uma língua que não reconheço e vão compondo os seus véus que esvoaçam.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um adeus duplo ao feriado

A última vez que se comemora o 5 de Outubro num feriado (pelo menos nos próximos anos) e eu tenho que ir trabalhar...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O dinheiro dos outros

A última pessoa que ali esteve não o levou e o talão cai, perto da caixa multibanco. A mulher pega-lhe e fica a olhar para ele. Está sentada no chão. E ali ficará. Até que a sua barriga de grávida comova pessoas suficientes e as moedas deixadas  no copo compensem as cãibras que sente.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Borboletas


Poupar nas placas

Edifícios novos, com fogos à venda, é algo banal actualmente. Tão banal que, ultimamente, em vez das placas das imobiliárias que dizem "vende-se" estas parecem ter optado por colocar apenas as placas de "vendido". Sempre é menos poluição visual. 

Seguindo os carris

O eléctrico acabou de passar. O homem, indiferente a outros carros que ali circulam, baixa-se e retira, da calha do carril, as beatas que consegue. Depois junta-as e guarda-as no bolso. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Pela manhã

As duas crianças dirigem-se, aparentemente, para a escola. É cedo e levam as mochilas às costas. Vão a conversar e riem. Ao passarem pelo monte de cartão, ao canto do prédio, abrandam o passo. Deixam de rir e seguem em silêncio. No monte de cartão nada se mexe. Mas dois olhos que acabaram de abrir seguem os seus passos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Maria Sousa

do dia em que saíste sobrou a insónia

do dia em que saíste sobrou a insónia
método mais que imperfeito para medir as noites

os lábios quando já desistiram de ordenar palavras
insistem no passado

apago as luzes

não quero que a ausência seja bonita
mas o esquecimento não te faz transparente

in Maria Sousa, caderno de textos 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Na taberna

É muito cedo. A porta da taberna está aberta. Lá dentro o homem está sentado numa das mesas junto à entrada. Está virado para fora. Observa os carros que passam em fila e as pessoas que, dentro deles, provavelmente a caminho do trabalho, assobiam as músicas do rádio. O copo em cima da mesa está esquecido.  

O amor e uma cabana... versão alvenaria


De realçar a impossibilidade de entrar na "cabana".

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Manifestações

Nestes últimos dias, amigos, colegas e conhecidos têm repetido, à exaustão a pergunta "então, foste à manifestação"? Perante a resposta muitos me olham de uma forma estranha. Pois é! Não, não fui à manifestação. E até podia. Um preciosismo de linguagem, dirão! Mas eu não poderia ir a uma manifestação que tinha como lema “Que se lixe a Troika! Queremos as nossas vidas!".
Sei que todos nós (uns mais que outros, é certo) temos razões para nos manifestarmos. Mesmo não percebendo grande coisa de economia, não se podem ignorar todas as críticas e os argumentos apresentados por quem assegura que as recentes medidas apresentadas por Passos Coelho não terão os efeitos desejados, bem pelo contrário. Não votei em nenhum dos partidos que compõem este governo. Analisando a história recente do país e por razões ideológicas. Mas tenho quase a certeza que, se estivesse no poder aquele em que eu votei, a manifestação teria acontecido na mesma. Aliás, é ver em todos os debates ou intervenções. Todos sabem que a situação é muito negativa mas ninguém apresenta medidas razoáveis ou exequíveis. Na actual situação todos os partidos que já estiveram no poder têm culpas. Os que nunca lá estiveram nunca puderam testar as suas teorias e este momento não será a melhor altura para o fazer.
Quanto à manifestação, gostei de ver que, quando querem, os portugueses se mobilizam e não tenho qualquer atitude paternalista em relação a isso. Manifestar que estamos descontentes ou, em certas situações, desesperados, é, não só um direito, mas até um dever. Quem está no poder, muitas vezes, não conhece suficientemente bem a realidade no sentido em que, não a sentindo na pele, é algo longínquo, e nada como uma imagem a substituir 1000 palavras.
Quem me dera a mim acreditar nas palavras de ordem que se ouviram. Mas, por mais que se queira, as nossas vidas há muito que deixaram de ser nossas. Em termos económicos somos absolutamente dependentes e para deixarmos de o ser muitas coisas teriam que mudar e a mudança é, como todos sabemos, de uma complexidade enorme.
Voltando às palavras: "que se lixe a troika" é algo que me parece inconsequente. Não acho que exista especial entusiasmo da sua parte quanto à estabilização económica de um país que sempre gastou muito e produziu pouco. Mas a alternativa qual é? Nós sozinhos a resolvermos o mega problema em que estamos metidos? Bem, se calhar, mas para isso seria necessário uns governantes geniais que não temos nem sei se existem. 
Dito isto, manifesto-me aqui contra as propostas de aumento da TSU; contra um governo que, pelos vistos, não estudou bem a lição antes de fazer a proposta; contra todos os que têm culpas no cartório; contra mim porque sou mais uma que não soube gerir a minha vida, por forma a não ter que me preocupar tanto com estas questões e contra os meus preciosismos de linguagem.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Milagres

Milagres como este não acontecem todos os dias... Ele imolou-se primeiro e entrou no Governo Civil depois? 
Pois é, eu sei que o assunto é demasiado sério para querer discorrer sobre a boa ou má utilização da nossa língua numa notícia como esta. Mas a verdade é que, quando a ouvi  ou li, pensei mesmo que os protestos tinham feito a primeira vítima. Felizmente não, apesar da gravidade da situação. Vá lá que hoje a maior parte dos órgãos de comunicação social já só falava em tentativa. É que entre a morte e a vida ainda há alguma diferença mesmo que, para alguns jornalistas, seja tudo igual...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A atravessar a praça

Fá-lo com um passo altivo. O seu traje, aparentemente de seda, é absolutamente branco. A forma como o tecido, sem costuras, se molda ao seu corpo é de uma enorme graciosidade.
O sol, alto naquela hora do dia, cria áreas de sombra e forma contrastes entre o claro e o escuro. Tudo no seu vestido... Não admira, portanto, o orgulho com que se cruza connosco. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Dois miúdos

Estão os dois sentados lado a lado, entre a arca frigorífica com os gelados e o quiosque dos jornais. A mulher que os acompanhava acaba de subir a rampa com um lençol que serve de cesto, cheio de roupa que quer vender "a 5 euros, tudo a 5". Um dos miúdos chora, com a boca muito aberta, como que a querer que o choro seja ouvido lá em cima, sobrepondo-se aos pregões. O outro limita-se a olhar quem passa por ali.

3 é mais barato

Há uns tempos atrás, quando víamos, na rua, aulas de condução de motas, víamos o aluno, na mota, a seguir o carro onde estava o instrutor. Hoje, vi, para um carro, ou seja um instrutor, três motas, ou seja três instruendos, que o seguiam.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Nuno Dempster


A Nogueira

No calor deste outono
a copa da nogueira brilha
como em Agosto. 
É sorte que o verão persista.

O inverno que aí vem de chuva e gelo
há muito que nos pesa.

Bastava o que se sente na cidade.

Porém ainda nada se perdeu.
Se a nogueira resiste,
podemos descansar um pouco.


in Nuno Dempster, Elegias de Cronos, Artefacto, 2012, pág. 35

Definições


domingo, 2 de setembro de 2012

É nisto que estou a pensar...

Os gestores dessa magnífica obra prima da humanidade que é o facebook, certamente para me agradarem para lá do imaginável, depois de me terem convidado a tomar eu a iniciativa,  resolveram publicar a minha cronologia pondo em ordem, sequencialmente, portanto, os acontecimentos históricos relevantes da minha existência partilhável. Ora tendo eu, desde muito cedo, a consciência de que me interessava registar o que me ia acontecendo ao longo do tempo (os diários e as agendas acompanharam-me durante um longo período) é com grande desconsolo que constato que, entre o meu nascimento e a actualidade poucas coisas constam, percebo que os eventos da vida estão em branco, e que não tenho capa.
Claro que tudo isso poderia ser preenchido se o tempo ou a capacidade de ultrapassar a minha enorme preguiça não me faltassem, ou se eu achasse que isso interessaria a alguém incluindo a mim própria. E claro que a questão que se coloca a seguir é: então para quê ter uma conta? Pois, eu pergunto o mesmo, pois  ainda não criei, com o facebook, qualquer relação interessante.
Mas sair da rede significa deixar de ter acesso a parte das vidas dos outros, o que gostam de ver, de ouvir, de ler, o que não gostam, onde estão, onde querem ir, se estão mais melancólicos ou se estão felizes, por razões que vamos percebendo através  do que escrevem em rectângulos, mesmo que tudo isso não corresponda ao que são quando saem da frente do computador. Então e estar meramente no papel de observador, dando muito pouco em troca, não é, de alguma forma, injusto? Pois...
Bem, vou acrescentar qualquer coisinha ao meu perfil. É assim que se diz? 

sábado, 1 de setembro de 2012

Para quem não esteve lá (2)

Um resumo e mais um vídeo, agora um clássico dos White Stripes:




Para quem não esteve lá! (1)

A coisa começou bem com o som forte dos The Poppers.




E se nos tivéssemos conhecido aos 14?

Contam-nos o final logo no princípio do filme. Mas a verdade é que não faz mal. Na realidade, na maior parte das vezes, sabemos como vão acabar certas histórias. É o que está no meio que faz a diferença.
Aqui a diferença está num livro que se finge ter lido, mesmo que marque o corpo, lembrando a sua ausência; num romance que se começa por transcrever mas que se acaba escrevendo e cuja ficção está, não na história em si, mas no acto de escrever; no medo do fracasso na literatura e na vida; na leitura de histórias antes de adormecer, para tentar tornar permanente o que sabemos que desaparecerá; na venda de livros, para comprar e cuidar de um bonsai, numa tentativa de manter algo que já não existe.



Alguns pormenores deste filme de que gostei: as t-shirts dos Ramones, a seta que indica a personagem principal numa cena numa rua movimentada, a leitura de um manual de instruções em inglês, a conversa sobre o latim, a cena da imobilização no passeio, o silêncio absoluto durante a viagem de táxi.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

SafetyNet não tem a ver com navegação electrónica

O design é isto mesmo. Desenvolver soluções que ajudem a resolver um problema. Não sei se é produto para se aguentar nas condições duras em que as redes de pesca são utilizadas e guardadas; ou se o sucesso comercial acontecerá. Mas lá que esta parece uma boa ideia não há dúvida.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma questão de números?

Todos os dias pela manhã os via. Ele, as mulheres e a criança. Eu entrava para tomar um café e eles já lá estavam a tomar o pequeno almoço. Uma das mulheres, a mãe da criança, era mais nova. A outra já mais velha. Era no colo desta última que o rapazinho, dos seus 2 anos, mais gostava de estar. Dirigiam-se ao balcão, traziam para a mesa os pratos e chávenas e conversavam sobre as coisas do dia a dia. No bairro sabia-se que ele era casado com a mulher de mais idade mas que viviam os quatro juntos. Aparentemente eram felizes.

Lembrei-me desta situação a propósito desta notícia.

Entre o inferno e as estrelas



No dia em que passam 97 anos sobre o nascimento e 30 sobre a morte de Ingrid Bergman.

Regresso com poesia

e fotografia e música...



Obrigada a CinePovero que me enviou o vídeo

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O fado tem cor?


O Algarve mais longe

Este Verão voltamos a ouvir na rádio o que já há algum tempo não ouvíamos. Quando se fala de trânsito ao fim de semana têm sido referidas filas no IC1 entre Alcácer do Sal e a Marateca.

Pastelaria

É através das janelas com vidros aos quadradinhos que a vejo. Na sua mão, pequenina, um bolo que come com vontade. O creme branco suja-lhe a cara. Parece estar feliz.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estava tudo a correr tão bem...

Dirão que esta parte do edifício é nova (as fachadas laterais foram aumentadas) e que os arquitectos têm que deixar a sua marca. Mas isto será mesmo preciso?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Enquanto o fim da cerimónia se aproxima...

Notas para um discurso de encerramento

Foram as mais grandiosas Olimpíadas de sempre.
Participaram todas as nações conhecidas.
Resultados muito além do que seria de esperar.
A organização excedeu-se e merece os elogios
e o aplauso. Passados quarenta dias,
é tempo de entregar o testemunho
a mais uma cidade. Prudente omitir
como ficou pior o mundo nestes quarenta dias.

in José Ricardo Nunes, Versos Olímpicos, Deriva Editores, 2009, contracapa

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Vá lá, say yes!

Uma conversa

Uma na rua, outra no interior da loja, as duas empregadas conversam. O vidro da montra separa-as. A que está cá fora dobra-se um pouco e encosta o nariz ao vidro. Da que permanece lá dentro vemos apenas a cabeça que assoma entre vários pares de sapatos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Referir-se-ão a Portugal?


Novato

Sem o treino de quem percorre os corredores do metro há muitos anos, ele avança sem fazer barulho. Quase nada o identifica a não ser uma pequena caixa onde espera que caia alguma moeda. Dá alguns passos e pára. Pede, numa voz sumida. Volta a dar mais alguns passos e pede novamente. Quase não se ouve. Mais à frente resolve sentar-se. Fica a olhar para a janela.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O pão

De volta à RTP2, o 5 noites, 5 filmes. Sem estar a par da programação é sempre uma surpresa o que vejo na televisão. Ontem passou um filme que eu não conhecia mas que, sem ser um filme extraordinário, me prendeu ao televisor. Pa negre é o título e retrata a Catalunha rural nos tempos pós guerra civil. A situação vista pelos olhos de uma criança pode não ser muito original mas, a nós portugueses, ajuda a compreender um pouco da história que se desenrolou aqui tão perto.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Há que poupar, até nas figuras geométricas...

- Mãe, pensa comigo: as caixas das pizzas são quadradas, as pizzas são círculos, as fatias das pizzas são triangulares. Não te parece que são figuras geométricas a mais?

M., 12 anos

Um mês de Agosto com uma paisagem diferente

Vivo numa zona suburbana. Em anos anteriores, por estes dias de Verão, os passeios, normalmente ocupados por carros, estavam livres e até havia lugares de estacionamento com abundância.
Este ano tenho reparado que a quantidade de carros estacionados é a mesma, ou mais ainda, pois quem usa o carro para ir trabalhar e está de férias tem o carro à porta.

terça-feira, 31 de julho de 2012

"Casa, descasa, casa, descasa"

2010 foi um ano record quanto ao número de divórcios em Portugal. Mais uma vez, a minha experiência pessoal a enquadrar-se perfeitamente nas estatísticas. E, mesmo descontando o facto de haver menos casamentos e, portanto, menos divórcios, as dificuldades económicas serão, certamente, um obstáculo a que muitas pessoas optem por pôr fim ao casamento. Já estou a imaginar a minha mãe, após ver estas notícias, a dizer-me: - Mas porque é que a crise não chegou mais cedo?

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos poéticos

Comprei-o o mês passado. Nem a propósito. Este pequeno livro, de José Ricardo Nunes, tem como título "Versos Olímpicos". Teriam sido inspirados pelos últimos jogos olímpicos, em 2008. Depois de assistir a parte da cerimónia de hoje lembrei-me logo deste poema que aqui deixo.

Cerimónia de Abertura


Entram no estádio e desfilam
as delegações: uma bandeira
por país, um capitão
a comandar os implicados
no crescimento do comércio global.
Os desportistas sorriem, acenam,
cumprem à risca o seu papel de figurantes.
Digo-lhe que não sei parar as imagens.

Reina a paz e a concórdia.
Mesmo os que vieram apenas para competir,
perder, sonham com o milagre
que lhes turva os olhos de glória. E eu,
sentado neste sofá suburbano
que treme à passagem do comboio,
acredito no que lhe digo.

Lembra o comentador, algo comovido
pelas últimas notícias, que na Grécia
faziam tréguas durante os Jogos.
Alguém é dono da verdade? Resta-nos
o poder de mudar livremente de canal
ao sabor dos nossos humores tão variáveis.
Estou sempre a dizer isto à Jacinta.


in José Ricardo Nunes, Versos Olímpicos, Deriva Editores, 2009, p. 5

quinta-feira, 26 de julho de 2012

E, no entanto, estudar valerá sempre a pena!


No dia em que comuniquei aos meus pais que me iria candidatar ao curso de Sociologia na universidade, eles torceram um pouco o nariz. Achavam que era uma ciência "exótica" e, mais que isso, temiam a forma como se faria a minha inserção no mercado profissional. Direito, por exemplo, seria, para eles, uma escolha mais segura. Mas sabiam que tudo o que dissessem não me faria mudar de opinião, eu que tanto tinha hesitado (mas sempre à volta de áreas como a Filosofia e a História). E por isso não me disseram muito. A vontade de que a sua única filha tirasse um curso superior era tão grande que, desde sempre, outra alternativa não se colocou. Neste caso foi o juntar de duas vontades pois a situação de estudante era a única que eu via para mim na altura. Após o curso tudo correu bem. Vivia-se em tempo de vacas gordas, com os fundos europeus a disponibilizarem verbas para formações pós licenciaturas e com o mercado de trabalho a absorver com facilidade quem saía das universidades. Tive várias oportunidades de emprego. A minha veia mais sonhadora e menos economicista levou-me a optar, não pelas que me dariam mais dinheiro mas pela que, achava eu, me permitiria trabalhar no desenvolvimento de projectos em que acreditava.
Ao longo do tempo, muitas dúvidas me assaltaram e muitas vezes questionei as minhas escolhas.
Actualmente, na equação a ter em conta na altura da tomada de decisões acerca do futuro, as incógnitas são tantas que a resolução é muito mais difícil. E penso nos pais que durante tanto tempo defenderam os estudos superiores como forma de os filhos terem uma vida profissional mais estável e financeiramente mais compensadora.
Continuo a achar que não devem ser as retribuições financeiras esperadas a presidir às escolhas de futuro. Mas para quem não tem a mesma opinião ou que, mesmo tendo, entende que a retribuição deverá ser proporcional ao esforço, que confusão a situação que notícias como esta retratam. Claro que não é só de agora que os bons profissionais se fazem pagar bem, seja em que área for. E ainda bem que assim é. Sabemos também que as leis do mercado obrigam a uma valorização do trabalho que tem mais procura por parte dos empregadores e, ao contrário, desvalorizam aquele que se encontra em excesso. E também é óbvio que se trata de anúncios no portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional, não permitindo qualquer generalização. Mas só o facto de terem sido publicados é mais um indicador de uma realidade que quem planeia e tem responsabilidades nas áreas da educação e do emprego não poderá deixar de ter em conta. E, já agora, todos nós. 
Mas tudo isto não poderá pôr em causa a importância do estudo e servir de argumento para os que consideram que a educação está do lado da despesa e que, portanto, os investimentos aí feitos poderão ser mais leves. É que os efeitos perversos destas ideias poderão tornar-se muito perigosos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Aprender a ler no corpo

A morte de Helena Cidade Moura e a importância que o seu trabalho na área da alfabetização teve faz-nos pensar que, apesar dos esforços de muitos e das melhorias alcançadas, muito ficou por fazer. É uma tragédia que ainda hoje existam adultos que não sabem ler nem escrever mas é ainda pior que existam crianças e adolescentes que, mesmo com a escolaridade obrigatória implantada há tantos anos, estão longe de conseguir articular uma ideia ou interpretar um texto...
Mas o que me levou a escrever sobre esta questão foi o facto de ter conhecido algumas pessoas que se dedicaram a esta nobre tarefa que, apesar de constituir uma preocupação já antes de Abril de 74, foi depois desenvolvida com outros pressupostos. Estas campanhas de alfabetização mudaram a vida a muita gente. Lembro-me de uma amiga me contar que o trabalho ia muito para lá do ensino das letras. Um dos objectivos passava por um mínimo de auto-conhecimento, inclusive físico. Não esqueci o que me disse relativamente a muitas mulheres que não tinham apenas vergonha de mostrar o seu corpo a outras pessoas, mesmo que se tratasse do próprio marido. Elas nunca se tinham visto inteiramente nuas num espelho e esse era um trabalho para casa, simples mas complexo e cheio de significado. A alfabetização era a mudança e Helena Cidade Moura e tantos outros sabiam-no.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A minha amiga Sofia

Esta situação da licenciatura do Ministro Miguel Relvas (ou deverei dizer, depois do comentário do Professor Marcelo, com direito a avanço de nomes alternativos, ex-ministro) que, necessariamente, envergonhará o próprio, os que lhe estão próximos, a Universidade que, de forma tão displicente, lhe atribuiu um diploma, e que constrange todos nós; faz-me pensar na minha amiga Sofia. Há já alguns anos, a Sofia, seguidora dos meandros da política que por cá se faz, dizia que ela seria das poucas pessoas capazes de concorrer a um cargo político com o curriculum limpo de falcatruas, de fuga a impostos, de cunhas, e outras coisas que são nódoas difíceis de tirar, mesmo que só os próprios as identifiquem. Como eu a conheço sei que ela tem razão.
Um homem da política que aproveita o facto da entrada em vigor, havia pouco tempo, de uma legislação que ainda poucos dominavam, para obter uma licenciatura já antes tentada, sem pensar que, no futuro, essa situação lhe poderia ser fatalmente prejudicial, não deveria nunca ter sido licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais. Se houvesse no curriculum do curso uma cadeira de "ingenuidade política", aí sim, poderia ter um 20. E os doutos professores da Universidade Lusófona que analisaram os seus pergaminhos deveriam ter também percebido isso. Se não foram capazes de ver para lá de contas de créditos e equivalências é porque eles próprios conhecem muito pouco sobre a teoria política e ainda menos sobre a realidade política o que os deixa, no mínimo, deslocados nos cargos que ocupavam. Claro que, nesta análise, não entro em linha de conta com outros factores que, menos claros, poderiam estar em jogo.
É por estas e por outras que quando penso em políticos em quem se pode confiar, me lembro da minha amiga Sofia. E talvez seja por ser como é, sem telhados de vidro, que ela não está na política.

Nota:

Esta semana estarei de férias. Qualquer assunto vai mesmo ter que esperar. O computador vai ficar em casa.

domingo, 15 de julho de 2012

Cartoons e mais cartoons

Até final do mês no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, podem visitar o World Press Cartoon 2012. Vão com tempo pois há muito para ver.

Imagem, de Rafael Carrasco, aqui

sábado, 14 de julho de 2012

Reutilizar

Ainda esta semana falava com uns colegas sobre as cabines telefónicas que quase já não são utilizadas. Esta parece ser uma hipótese interessante.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Nuno Costa Santos

Perdoa-me

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.



in Nuno Costa Santos, às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, Companhia das ilhas, 2012, p. 32

Até Cavaco Silva o disse...

embora por outras palavras.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Partir ou ficar


Provavelmente muitos de nós gostaríamos de o ter feito. Meter numa mala o que nos parecia essencial e fugir de casa com o nosso amor de adolescente. Não pensando nas consequências, como se nada mais interessasse. Lutar contra tudo e contra todos acreditando que todos os obstáculos são ultrapassáveis quando, ao nosso lado, está alguém que também deixou tudo para trás para nos dar a mão e saltar por cima deles.
Foi isso que fizeram Sam e Suzy. Mas fizeram mais. Provaram com o seu acto, aparentemente irreflectido, a sua maturidade face a um grupo de adultos que, cada um à sua maneira, ficou preso numa condição de passividade, perante uma vida que há muito os engoliu e da qual não conseguem sair. A natureza, tal como a vida, é dura e as tempestades hão-de sempre acontecer. A verdade é que nem todos lhes conseguem sobreviver. Poder dar a mão a alguém ajuda. E ter uns binóculos para ver as coisas mais perto, também.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

No primeiro dia do SBSR

Conversa animada

A mesa, à porta da "velha Tendinha" está mesmo junto ao Arco do Bandeira. Ao passar entrevemos a entrada do Animatógrafo. A mesa está ocupada. São sete as freiras que conversam animadamente. Em pé, uma mulher sem hábito tira-lhes uma fotografia.

terça-feira, 3 de julho de 2012

"meet me at the back of the blue bus"

41 anos passaram sobre a morte de Morrison

Já?

As águas do Tejo certamente subirão com as lágrimas que serão vertidas pelos scalabitanos depois de saberem isto.
Depois da ironia, um desabafo: como residente em Oeiras e depois de Isaltino continuarei mesmo a chorar.

sábado, 30 de junho de 2012

Uma retroescavadora no quarto

Da janela aberta para a rua conseguimos vê-la. Nas suas manobras executa uma dança que vai deixando algumas paredes e os tectos destruídos. O estuque vai caindo. As madeiras vão aparecendo. Estranha-se uma máquina destas numa casa que faz parte dum edifício de mais de 5 andares no centro da cidade. Estranha-se a decoração dos tectos a ser arrasada. Estranha-se. Não é por acaso que, cá fora, tanta gente se põe em bicos de pés para ver para dentro daquele rés do chão alto.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Depois do Jogo

O silêncio nas casas.
O regresso do trânsito às ruas.

Durante o jogo

As ruas sem trânsito. 
Os sons desfasados de rádios e TV's que saem das janelas abertas.
Os gritos de incentivo de todos os que não estavam no estádio mas estavam no estádio.
Os ooooh... quando alguma jogada não tinha o desfecho que todos esperavam.
As unhas roídas nos momentos cruciais finais.

Antes do jogo

A excitação de quem vai no comboio e tem que preparar os petiscos.
O parque do supermercado quase vazio e o letreiro na porta que diz "encerramos às 19".
O sinal de trânsito vertical que indica local exacto de passagem para peões onde alguém amarrou o pau de uma bandeira portuguesa.
As pessoas a entrarem nas suas casas com as mãos cheias de latas, garrafas, grades de cerveja.
Os donos dos cães que aproveitam para os passear.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Agradar a portugueses e espanhóis


Enquanto Portugal se enche de cachecóis e bandeiras verde-rubras à janela, os quiosques da baixa de Lisboa equilibram-se nos símbolos e as cores espanholas rivalizam com as portuguesas. É um facto que as bandeiras espanholas parecem ter sido desempacotadas há pouco tempo, uma vez que estão ainda com as marcas de terem estado dobradas dentro das caixas. Mas isso não incomoda ninguém. E os euros dos turistas espanhóis não se podem desperdiçar.

Identificação de um país

Dois homens, brasileiros, vão por uma rua de Lisboa a conversar. Um deles, referindo-se a uma localidade que não sei qual seja, diz para o outro:
- Lá ainda é bem Portugal!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

À beira da estrada

Cerejas, melão, melancia... O cartaz anuncia estas e outras frutas. O toldo improvisado resguarda do sol várias caixas. Uma balança e uma cadeira ao centro. A mulher está sentada enquanto espera que os carros parem e as pessoas comprem o que tem a vender. É domingo e, apesar do calor, sabe que é o melhor dia  por isso não pode sair dali. Limita-se a observar o seu filho pequenino, que dorme numa cadeirinha, indiferente à música do rádio e ao barulho dos automóveis que passam.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pesquisas...

De vez em quando vou consultar as estatísticas aqui do blogue. Na "secção" "Pesquisar palavras-chave", que parece indicar as palavras que foram usadas para fazer a pesquisa que trouxe alguém até aqui, aparecem, por vezes, as coisas mais extraordinárias. Como não registei expressões anteriores que me fizeram sorrir, não as recordo. Mas ainda ontem tinha uma entrada vinda de uma pesquisa com a seguinte expressão chichi na boca porno. Não pude deixar de pensar a que post teria ido parar esta visita...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

No mês dos santos populares...

... hoje é dia de S. Rui, S. Bruno, S. Fábio, S. João, S. Pepe, S. Miguel, S. Raul, S. Cristiano, S. Hélder, S. Nani, S. Varela, entre outros...


terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Inês Dias

Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor
de pontes, conheci apenas as iniciais,
gravadas na pedra com que tomara
o último dos elementos. Mas a sul
do passado, o meu avô repetia-lhe
ainda os gestos, ensinando-me a travar
as marés com pequenos diques improvisados -
paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel.

Nunca mais o futuro voltou a ter pé
como nessa Praia do Amanhã, tão literal,
tão só para mim. Aprendi a bordar
iniciais, às vezes na própria pele,
a construir diques cada vez mais frágeis
de palavras, pontes entre o meu corpo
e a margem dos outros.

De pouco vale: geração em geração,
ano a ano, vamos perdendo a luta
contra o avanço das águas.

in Inês Dias, In Situ, Língua Morta, 2012, p. 14

domingo, 10 de junho de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Uma refeição

O homem e a mulher terminaram a sua refeição e levantaram-se, deixando os tabuleiros com os restos da comida nos pratos. Na esplanada mais algumas pessoas almoçavam. Ele estava de fora, atento. Mas não era as pessoas que ele observava. Mal o casal saiu, aproximou-se. Rapidamente retirou do prato os restos que, por não serem muitos, couberam numa mão. Não ficou ali. Afastou-se. Mas provavelmente voltaria. O que tirou não era suficiente para matar a fome.   

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce para alguns

Estava para aqui sentada e via na televisão o Bruce Springsteen, no Rock in Rio. Não pude deixar de pensar em quantos operários, trabalhadores precários, desempregados e outros, de quem tanto fala nas suas canções,  estariam presentes.

sábado, 2 de junho de 2012

Radix

Com a minha filha mais velha no Rock in Rio, a mais nova via a emissão da SIC Radical que transmitia, em directo, os concertos. Na altura em que passei frente à televisão, as repórteres no local, pois só mulheres eu vi nessas funções, falavam do último concerto. Entre frases sem nexo e brincadeiras inócuas mas verdadeiramente aparvalhadas, passavam o microfone e as imagens de umas para as outras sem que nada realmente acontecesse. Sim, já sei, só estive um minuto a ver. E também já sei que começo a ficar velha. Mas, caramba, será que não havia nada, mesmo nada, interessante para dizer? Entretanto percebi que esta foi uma estratégia delineada pelo director de programação do canal. "O problema é que não há ali gente com coisas interessantes para dizer", diz. E pensa, certamente, que do lado de cá, só há gente que aprecia ouvir baboseiras. Bem, pode-se sempre mudar de canal. Exactamente. Isso sim é ser radical! 

Post-it!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Through the glass

Um pouco a medo espreitava lá para dentro. Colocava as mãos junto ao vidro para poder ver melhor. As roupas muito sujas, os cabelos em desalinho, o cheiro que dele emanava, faziam afastarem-se os que  se cruzavam com ele . Lá dentro ninguém lhe ligava. Os cabeleireiros continuavam atentos aos cabelos das clientes. Elas continuavam a olhar para as fotografias das revistas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Assim se sentem muitos


Um xeque mate anunciado

Num anúncio de rádio, uma voz feminina, verificando uma lista de requisitos para entrar numa escola superior privada, vai dizendo:
- Mais de 23 anos... check; ensino secundário incompleto... check...; 
Depois da escolha da licenciatura a voz finaliza com um... xeque mate. 
Tratando-se de uma licenciatura e logo em Gestão imobiliária, sector bastante afectado pela situação económica desfavorável, tudo isto soa a cruel ironia. Os criativos tinham mesmo que fazer isto assim?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os sapatos castanhos

As pessoas circulam com a pressa de quem quer chegar rapidamente a casa. O dia está quente. Mesmo se a esta hora, já longe do pico do sol, não se esperasse tanto calor. Sentado na borda do passeio, na rua movimentada, o homem descansa. O fato cinzento está um pouco amarrotado. Da gravata só um pequeno ponto azul espreita de um dos bolsos do casaco. Pousados a seu lado, os sapatos castanhos, de atacadores, estão ao alcance da sua mão. Mas, por enquanto, repousam também até que o homem pegue neles para os calçar e seguir, então, o seu caminho.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Controlar ou ser controlado

- Mãe, às vezes penso que nós estamos dentro de um jogo de computador que alguém joga. Mas também podemos ser nós a controlar os jogadores.
E depois de uma gargalhada num tom malévolo:
- Bem, acabei de assustar duas pessoas que estavam a jogar... 

M., 12 anos

sábado, 19 de maio de 2012

Comunicado (2)

Dadas as pressões entretanto sofridas pelos membros do Conselho de Redacção e da Direcção deste Blogue, que incluíram ameaças mais ou menos explícitas, as quais foram levadas muito a sério, consideram estes que, afinal, uma pressão ou outra, de vez em quando, até faz bem.

Comunicado (1)

Depois de algumas notícias recentes o Conselho de Redacção e a Direcção deste Blogue resolveram divulgar publicamente que não serão toleradas quaisquer pressões em relação aos conteúdos nele publicados. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

I used to know... somebody

Ouvi-a na televisão associada a um vídeo que parodiava a relação entre Merkel e Sarkozy. Prendeu-me a atenção. Ouvi-a melhor depois e percebi que já anda pelos tops. Não é por isso que deixa de ser uma boa canção. 



E este belga-australiano parece ter muito mais para descobrir. Como o facto de ser um interessante multi instrumentista.

À espera de passageiros

O caixote do lixo está sujo. Mas tem exactamente a altura ideal para servir de mesa para quem está em pé. Como os quatro homens que, cada um de seu lado, seguram as cartas. O jogo não sei qual é. Mas a concentração dos jogadores é perturbada pelas pessoas que passam. É que qualquer uma delas pode entrar num dos táxis, dos quatro parados sem motoristas no interior.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sábado à noite com J. P. Simões

É, nas suas palavras, "um tipo que se inspira na música brasileira para fazer música portuguesa". Fá-lo bem, na minha muito modesta opinião. Já aqui falei dele várias vezes.
No passado sábado fui vê-lo a Cascais. Um outro concerto nessa noite na vila ou um outro qualquer motivo fez com que fôssemos cerca de uma dezena, os espectadores. Mas o concerto valeu muito a pena. Apenas com uma guitarra, J.P. Simões cantou antigas canções e apresentou-nos outras que escreveu recentemente. Esta é uma delas:

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Mimos no Facebook

As minhas filhas, como quase todos os adolescentes, usam e abusam do Facebook. Aldrabam a idade e lá ficam prontos para entrar nesse mundo virtual onde os amigos se ganham às dezenas por dia. Além da partilha de vídeos e fotos e da escrita de comentários mais ou menos desinteressantes não há muito para dizer das actividades. Mas uma coisa salta à vista: a facilidade com que, a propósito de tudo e de nada, declaram a colegas e amigos que os amam. Uma foto em que estão juntos, um vídeo de que gostam em comum são pretextos para trocas de mimos, à medida da inocência que ainda têm. E nem sempre se escudam no inglês. Não, é mesmo em português. Mais ou menos sentidas, essas declarações são enternecedoras. Provavelmente elas não serão repetidas ao vivo. Mas, só o facto de serem escritas essas palavras, utilizadas essas expressões, tantas vezes apelidadas de ridículas até entre os mais velhos, pode ser um treino que se revele precioso mais tarde. Assim seja...