quinta-feira, 3 de julho de 2014

"Mare nostrum"*

Foto via Facebook


A imagem, tirada de um helicóptero da Marinha italiana, suscita-nos emoções contraditórias. Este barco, cheio de pessoas que deixaram o seu país numa tentativa de poderem viver melhor ou, em muitos casos, só sobreviver; lembra-nos imediatamente as dramáticas notícias de naufrágios que têm provocado inúmeras mortes de homens, mulheres e crianças. Muitos nunca tinham visto o mar antes de se fazerem a ele desta maneira que, para nós, habituados à ideia de segurança em qualquer situação, nos parece absurdamente suicida. Mas a verdade é que este barco, para além do medo, está a abarrotar de esperança, de vontade de recomeçar, de vontade de começar. A Europa pode ser só um continente, aquele que a maior parte dos que cá estão assumem como o seu lugar, aquele onde, ainda hoje, se luta por territórios finitos que as fronteiras teimam em partir e repartir. Visto deste barco, pelo contrário, a Europa é um lugar infinito. E o que é a travessia de um mar para quem quer chegar ao infinito? 

* O título deste post, como é óbvio, nada tem a ver com as acepções atribuídas à expressão pelos antigos romanos (que a criaram), pelos nacionalistas italianos, ou pelos fascistas na época de Mussolini.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A rapariga ao fundo do café

A luz do dia não chega ao fundo do café que está na obscuridade. As paredes pintadas num tom escuro acentuam ainda mais essa ideia. Sentada a uma mesa, sozinha, a rapariga, com um computador portátil à frente, parece estar concentrada a olhar para o ecrã. Veste roupa escura e discreta. Escolheu a mesa mais afastada da porta e por isso quase se confunde com o ambiente. Mas, mesmo assim, é para ela que confluem os olhares de todos os que entram. Nos seus pés, desafiando todo aquele cenário, uns sapatos amarelos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

São cordas, senhor, são cordas...

Em "modo socialmente responsável"

As televisões preparavam os seus directos, frente à casa de Isaltino Morais. Ele, por essa hora, saía da prisão onde esteve um ano e uns meses. Mais magro e com o cabelo e a barba já completamente brancos. A defesa conseguiu, junto do Tribunal da Relação de Lisboa, a sua liberdade condicional. Para nosso bem esperemos que não seja o Ministério Público a ter razão... 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A medição do tempo

As imagens nocturnas na aldeia de Monsanto constituem um fundo para a voz de Luísa Cruz que diz este poema de Camilo Pessanha (1895). Cine Povero, responsável pelo vídeo, interpreta-o como sendo "representativo da fase da depressão, quando o indivíduo toma consciência de que a perda é inevitável e incontornável, e com ela se esfumam todos os sonhos e projectos, ao mesmo tempo que todas as lembranças associadas ao/à falecido/da se tornam particularmente pungentes".


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Das interrupções...

Passaram 5 anos e nem dei por isso... Da constância inicial já pouco resta. Mas o fim ainda não está à vista. Mesmo se, devido a outras concorrências e à falta de tempo da autora para estas interrupções, bem como para manter viva a troca de visitas que alimenta a vida dos blogues; este exercício seja, cada vez mais, um caderno fechado numa gaveta. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ainda a propósito da nos, ou da nós...

Depois de tanto tempo de suspense sobre o nascimento de uma nova marca o resultado apresentado para a designação e logótipo da fusão da Zon com a Optimus é propício a brincadeiras. Na altura lembrei-me que era caso para dizer: "A montanha pariu um... prato".
E agora nem na sede aquele logótipo se aguenta. Ele próprio insiste em dizer: no, no, no! Ou então, lido na perspectiva da empresa, como se tivesse acento - um grande nó!



O distrito de Sines

Depois de, na semana passada, ter assistido à apresentação, por parte de José Alberto Carvalho, de uma cena de gatinhos em pleno horário nobre, no jornal da noite da TVI; na noite que passou lá dei conta de mais uns disparates, no mesmo Jornal das 20 (a partir do min.08.40). A propósito do calor e das praias é entrevistado um  nadador salvador que diz, com alguma esperança na voz, reveladora da sua vontade de acção: "esperemos que haja então o boom das pessoas e muitas ocorrências, em princípio". Logo de seguida a jornalista faz uma ligação a outro assunto com a expressão "boas notícias"... E quando eu pensava que tinha sido um engano na inserção das palavras que diziam respeito à notícia eis que a própria jornalista também diz que "os distritos de Leiria, Lisboa, Sines, Évora e Beja estão sob aviso amarelo". Devem ser mesmo efeitos do calor... 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pensamento do dia...

Percebemos o quão por baixo está a nossa vida social quando escrevemos na nossa agenda: "fazer sopa"...

Uma música improvável por aqui...

... mas que gosto de ouvir. E o vídeo está simples e muito bom.

O disparate deste dia da libertação

Mesmo com uma ressalva para o facto de não perceber bem o papel da tal "New Direction-The Foundation for European Reform", este artigo refere (muito bem) o que pensei ao ouvir aquela história de estarmos uma boa parte do ano a trabalhar para pagar impostos. Este fait-divers, poderia ser referido mas, desta forma, repetindo-o sem que se perceba as suas implicações, não é nada mais que um grande disparate.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A conferir a 10 de Junho

"E tu, como chama?..." "E tu, como chama?..." "E tu, como chama?..."
"Vocês viram eles partirem para a corrida, viram?"

Estas frases pertencem a: 
1. um treinador de um clube de futebol das distritais 
2. uma criança de 3 anos 
3. um concorrente de um reality show em voga
4. um presidente de um país

É favor conferir aqui.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Com S. Jorge à frente?

Então em Portugal, um país com tantos santos de nomeada, não se arranja uma selecção deles para derrotar este "Kahwiri Kapam"

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Post ao gosto do PS na noite de 25 de Maio

(Imagem na net)

Ena!!!!!!!!!! Viva!!!! Viva!!!!!
Recebi uma mensagem a dizer que o "Dias Imperfeitos" está em 2.571.306º no ranking do Brasil!!!!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

As espigas não são todas iguais

Naquela altura nem percebia bem o significado da "espiga". Tal como nas suas terras de origem, muitos dos habitantes do subúrbio de Lisboa onde eu vivia iam, nesse dia, "ao monte" apanhar as espigas e as flores que por ali cresciam para fazer os seus ramos. Lembro-me sobretudo da quantidade de crianças e avós que por ali andavam logo de manhã. Hoje, nesse espaço, uma paisagem familiar para quem tinha vindo do Alentejo (e eram bastantes, naquela zona), existe uma escola e um hotel e as respectivas estradas de acesso. As crianças e os rapazes e raparigas que por ali passam provavelmente não saberão que a espiga simbolizava o pão; as flores, os metais mais ricos; as outras ervas, saúde, força e outros aspectos positivos. O ramo deixou de estar pendurado todo o ano atrás da porta. Muitos avós até já esqueceram o antigo costume.
Algumas mulheres, contudo, continuam a comprá-lo à entrada da estação, onde os vendedores ambulantes aproveitam todas as datas para fazerem negócio. Mas a verdade é que não é a mesma coisa. Os "montes" fazem falta nos subúrbios.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A propósito de um livro

É quase irresistível, o apelo de uma montra cheia de livros. Invariavelmente entro na livraria e frequentemente me perco nas estantes. Gosto de folhear os livros e, quando alguma página me prende a atenção, acontece muitas vezes que o impulso de o comprar se sobrepõe à contenção que a condição financeira me obriga. Mas quase sempre penso: para quê estar a comprar livros com tantos ainda por ler nas estantes de casa. 
A realidade é que depois, em certas alturas, sabe tão bem a surpresa de olhar para essas estantes, ver um livro que comprámos e arrumámos sem ler, pegar nele e descobrir que é um livro de que passamos a gostar incondicionalmente. Nessas alturas percebemos que afinal o nosso impulso estava certo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Votar / Não votar

Por razões de saúde o meu pai não pôde votar ontem. 
Para que não fosse confundida com quem está acamado; com quem, por razões de trabalho, não consegue deslocar-se; com quem prefere ir dar um passeio fora da área de residência; com quem simplesmente tem mais que fazer; ou mesmo, com quem acha que isto das eleições não lhe diz respeito; eu fui votar. Desta vez não tive grandes hesitações. Depois de alguns dias a ouvir os tempos de antena na rádio, decidi-me por um partido que esclareceu apenas questões relativas ao trabalho do Parlamento Europeu e apresentou apenas ideias para serem discutidas naquela assembleia. Não elegeu nenhum deputado mas eu procurei saber, previamente, alguma coisa sobre as propostas em cima da mesa e escolhi a que mais me agradou. Sei que cumpri a minha parte e por isso as eleições para mim correram bem. 
Uma grande percentagem dos eleitores não poderão dizer o mesmo. Se é certo que não poderemos saber correctamente qual a percentagem, de entre os cerca de 66 %, dos que o fizeram deliberadamente, tudo nos diz que ela é elevada. Até por isso não compreendo quem considera que a abstenção é a melhor forma de mostrar a falta de confiança nos partidos políticos ou nos políticos. A desactualização dos cadernos eleitorais, a existência de cada vez mais idosos para quem a deslocação a uma assembleia de voto é quase impossível e outras razões imperiosas não deviam poder ser confundidas com quem quer fazer da sua abstenção um voto de protesto. Para tal, o voto branco e o voto nulo deveriam servir na perfeição.
Sei que a abstenção é um fenómeno complexo, com inúmeras variáveis a serem analisadas. Mas, para quem gosta de democracia, mesmo com os seus defeitos, o acto de ir votar não deveria, nunca, ser posto em causa. Quando isto acontece é porque afinal é o próprio regime democrático que está a ser questionado. Sendo estas, eleições a nível europeu, significará que a atitude dos portugueses deve ter uma leitura mais alargada? Claro que sim. E os resultados europeus mostram-nos que questionar desta maneira não traz bons resultados.
Por razões de saúde o meu pai não pôde votar ontem. Mas não deixou de me chamar a atenção para a necessidade de eu ir votar. Ele sabe que poder votar é um privilégio.                                                                                                                     

terça-feira, 20 de maio de 2014

Isto é um anúncio de rádio?

A abstenção continua a figurar como uma das maiores preocupações para as eleições do próximo domingo.
Pelos dados disponíveis de eleições anteriores para o Parlamento Europeu e atendendo ao facto de muitos não compreenderem o papel deste parlamento e a sua importância nas nossas vidas (que se revelou sem qualquer peso na situação actual de tantos europeus do sul) percebe-se esse receio.
Daí se compreender a realização de campanhas como esta:



Mas se, visto o vídeo, este nos parece interessante, é completamente incompreensível a versão para a rádio (que não consegui reproduzir aqui). Nela, umas vozes de "meninas da rádio", de que até gosto, repetem algumas expressões, tornando ridículo o anúncio e, aposto que de forma involuntária, o próprio acto de votar. Não sei se só eu me sinto assim. Mas se o objectivo era o apelo ao voto este anúncio é mesmo um tiro ao lado.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Terá sido comprada a um adepto do Arouca?

A vitória de ontem, a taça conquistada, enchem-no de um poder e de um orgulho incompatível com qualquer tipo de pudor. Por isso exibe o seu equipamento completo do Benfica, com ténis a condizer. Na cabeça um boné do Benfica. Às costas uma mochila encarnada com o emblema do clube. Agarrado a ela um cachecol do Benfica. E, ao vento, a bandeira culmina todo o conjunto. É uma mancha encarnada que faz sorrir todos os que com ele se cruzam. 
Só a bicicleta, com que serpenteia por entre os carros, pintada de azul e amarelo, destoa.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

No domingo há mais

Esperemos que um pouco menos enferrujado... (E nada de fazer piadas com as palavras "portuguesas" e "tomate" já para não falar no clássico: "até os comemos").


terça-feira, 13 de maio de 2014

Corda da roupa (2)

Uma rua que já teve dias de bulício quando era por ali que se ia para o estaleiro de construção e reparação de barcos que cruzavam o Tejo. Agora não se vê qualquer movimento e os únicos sons que ouvimos, nesta tarde de primavera, são os das cigarras. Algumas casas modestas, de um piso só e muros brancos que dão para terrenos que já foram hortas e que agora poucos cultivam.
Num desses muros, presa por dois pregos, uma corda. As molas, que parecem fortes, seguram uma dúzia de peças de roupa. Vista de longe é apenas roupa que alguém deixou a secar e que apanhará logo que esteja enxuta. Quando nos aproximamos vemos que, na realidade, se trata de roupa que foi estendida há muito tempo. Está seca, suja de pó, sem cor. Parece que alguém se esqueceu dela ali ou então, sem atender a afazeres domésticos, a morte chegou sem avisar, levando a única pessoa que a poderia apanhar. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Corda da roupa (1)

Já foi um armazém organizado. Agora aquele conjunto de paredes, que já foram brancas e que estão cheias de inscrições, não passa de um testemunho de um passado em que algumas fábricas ocupavam aquela zona da cidade mas que, fruto de requalificações do território e da crise que as foi atingindo, foram encerrando.
Sem portas nem janelas, adivinham-se correntes de ar, chuva que não encontra resistência sempre que quer entrar, o frio que se instala à vontade.
Contra todas as probabilidades, quem passa na estrada vê, num dos compartimentos esventrados, uma corda que vai de um lado ao outro das paredes ainda de pé. Nela, a roupa a secar balança ao ritmo do vento.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Três cidades na cidade

                                Imagem retirada daqui

Ainda continuo a pensar como aqui escrevi. Também sei que, em termos económicos, esta faceta de Lisboa como porto de passagem dos navios de cruzeiro é de grande importância para a APL, para muitos comerciantes, etc. A presença constante de um grande número de turistas em Lisboa, vindos em cruzeiros ou não, tem sido uma realidade que, em certos locais, altera até a forma como olhamos para a cidade. Lisboa é uma cidade cosmopolita e por isso haverá sempre lugar para os que, sendo de fora, a querem visitar. 
O grande perigo de tudo isto é começar-se a olhar para Lisboa como sendo uma cidade dirigida para os visitantes e não para os seus residentes e para os que nela têm o seu trabalho. E, de há uns tempos para cá, há algumas questões que me parece que deveriam ser melhor equacionadas. A proliferação de hotéis, hostels e outros é uma delas. A multiplicação dos veículos poluidores de duas, três ou quatro rodas que fazem visitas guiadas e que deixam pelas ruas gases e sons estridentes, é outra. Mas há mais. Os preços praticados em certos estabelecimentos, por exemplo.
Não queria que se esquecesse que Lisboa não é só nossa. Mas também é nossa.

sábado, 3 de maio de 2014

Ayrton

Dia 1 foi um dia cheio de reportagens e homenagens feitas a Ayrton Senna. Desde as mais sentidas às mais ridículas (no Algarve, um responsável por um resort de luxo onde o piloto tinha uma casa fez, quando entrevistado, publicidade descarada ao local) muitos relembraram a terrível data. Mas foi uma imagem no facebook que me fez escrever alguma coisa sobre o assunto. Nela se lia: "hoje faz 20 anos que a Fórmula 1 morreu". Claro que isso é um exagero de linguagem. 
No entanto dei por mim a pensar que, de facto, para mim, a morte de Ayrton marcou o fim do encantamento com a Fórmula 1. Durante anos, na época dos grandes prémios, aos domingos, durante ou a seguir ao almoço, era um programa que não perdia. Eu e o meu pai víamos as transmissões em directo, ouvíamos os comentários de Adriano Cerqueira ou de Domingos Piedade, comentávamos as estratégias de cada piloto. O duelo entre Senna e Prost alimentava muitas corridas e a preferência que tínhamos pelo primeiro levava-nos a vibrar intensamente.
Depois da sua morte nada voltou a ser igual. É verdade que a minha vida pessoal sofreu mudanças por volta dessa altura. Mas tenho a certeza que não foi só por isso. Muitas pessoas que conheço têm também a mesma sensação. A Fórmula 1 continua a ser um desporto que desperta muitas paixões. Mas não há dúvida nenhuma que com ele era diferente.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Comemorar é o verbo de hoje

A especial importância atribuída aos números redondos, normalmente terminados em zero, tem destas coisas.
1974 foi há 40 anos. E também por isso as comemorações deste 25 de Abril se multiplicam de uma forma impressionante. As iniciativas dos partidos e sindicatos e as mais institucionais são reforçadas. Os meios de comunicação social inventam novas formas de lembrar a data. Não há entidade pública, câmara municipal, junta de freguesia, museu, etc, que não tenha a sua programação. As Associações culturais e cívicas, mesmo com localizações muito próximas, rivalizam entre si nestes últimos dias pela divulgação dos seus programas. E, se não tinha nada preparado especificamente para a data, nada como adaptar as actividades normais e transformá-las em comemorações. Encontramos, assim, a par das tradicionais exposições, concertos, pinturas murais, lançamentos de livros, conferências, inaugurações, espectáculos de teatro, ou ciclos de cinema, etc.; as tais aulas de Yoga e até de Zumba...
Não me recordo de nos 20 ou nos 30 anos da Revolução, ter havido este afã de querer recordar aquele dia.
E dei por mim a pensar que alguma desta ânsia de comemoração terá a ver com o facto de sentirmos que na próxima data redonda (os 50 anos) muitos dos protagonistas já cá não estarão e mesmo os que têm recordações nítidas desse dia estarão mais velhos, com dificuldades em reconstituírem, como hoje ainda conseguem fazer, os acontecimentos.
É para que a memória continue bem viva que se multiplicam os documentários, a gravação de testemunhos, a recolha de opiniões. O esforço para deixar os melhores registos ajudará a fazer a história daquela época quando, já hoje, para muitos dos mais novos, que não viveram esse Abril, esta é uma data tão significativa quanto qualquer uma das outras que aprendem na disciplina de História. Sabem que o que aconteceu nesse dia  teve uma influência importante no país e no quotidiano mas muitos deles confundem até datas e acontecimentos diferentes.
E nós, enquanto responsáveis pela sua socialização, sentimos alguma angústia perante a possibilidade de ela não ter sido suficientemente eficaz para que daqui a algumas décadas o dia 25 de Abril não seja comemorado como apenas mais um dia feriado, sem qualquer sentido, mas tenha o sabor que tem ainda hoje.
Por isso estes dois sentimentos em simultâneo. O que me faz pensar que todo este ambiente de comemoração é exagerado e até forçado e aquele que me diz ser importante a avalanche de iniciativas que nos lembram que Abril, mesmo que de forma apenas sonhada, é para todos. 
E depois, a partir de amanhã, regressamos ao pós 25 de Abril, à nossa realidade, à que não nos dá muitos motivos para comemorar.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um olhar




A foto foi tirada há cerca de um mês sob o Arco da Rua Augusta. Aí, a Câmara Municipal de Lisboa, a propósito do lançamento deste livro colocou uma tela com uma das mais famosas fotografias tiradas por Alfredo Cunha naquele dia de Abril, que mais uma vez comemoramos. Tirei duas fotografias. Esta, a que me parece melhor, está invertida (foi tirada da rua e não do Terreiro do Paço). Salgueiro Maia está, portanto, a olhar-nos numa outra direcção, que não a mesma da fotografia original.
Sabemos, pelo próprio fotógrafo, que foi interrompendo a revolução e numa atitude de pose, que o capitão decidiu ser fotografado. Não sei se em alguma situação ele chegou a dizer o que estava a pensar naquela altura.
As consequências de certos actos só muito mais tarde são conhecidas. Mas a verdade é que, numa pose estudada ou por verdadeira convicção, Salgueiro Maia sempre nos pareceu, nesta imagem, transmitir uma ideia de segurança, de quem está a fazer o que tem que ser feito.
A mim, impressionam-me os olhos cansados que podem indicar apenas a noite mal dormida ou revelar mais do que isso, um cansaço partilhado por muitos mais que ele. Impressiona-me a calma do seu rosto, uma boca fechada, mas sem rasgo de ira  ou de entusiasmo, quando tudo à volta se desfazia e fazia de novo. 
Mas impressiona-me, sobretudo, o seu olhar onde vejo alguma tristeza interrogativa, longe de adivinhar o rumo que outros dariam a uma revolução que estava a acontecer ali, naquele momento e que poderia ter acontecido de outra forma se não fosse ele naquela fotografia. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A ressaca do dia seguinte

O encarnado a sobressair nas capas dos jornais.
O café onde costumo ir de manhã, deserto.
A autoestrada, normalmente com um trânsito enorme, sem filas.
A Praça Marquês de Pombal cheia de lixo.
O homem a pedir na mesma esquina de todos os dias.
Factos que podem não ter directamente a ver com a vitória do Benfica na Primeira Liga de Futebol. Há, no entanto, nuns mais que noutros, alguma probabilidade de ligação. O.K. Talvez mais fraca no caso do último.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"Yo... lo que quiero es contar"

"...Yo lo único que he querido hacer en mi vida - y lo único que he hecho más o menos bien - es contar historias... El día que descobrí que lo único que realmente me gustaba era contar historias, me propuse hacer todo lo necesario para satisfacer ese deseo. Me dije: esto es lo mío, nada ni nadie me obligará a dedicarme a otra cosa...
...Modestamente, me considero el hombre más libre del mundo - en la medida en que no estoy atado a nada ni tengo compromisos con nadie - y eso se lo debo a haber hecho durante toda la vida única e exclusivamente lo que he querido, que es contar historias..."
"...Yo nunca me despido, porque el que se despide no vuelve..."

in , Taller de Guión de Gabriel García Márquez, La Bendita Manía de Contar , Ollero & Ramos, 2003, págs.  177, 11, 15 e 196

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Aqui o 84 já não é Chop Suey de Lulas

De há alguns anos para cá tem-se assistido ao movimento de transformação dos restaurantes de comida chinesa em restaurantes de comida japonesa.
Hoje deparei-me com outra realidade: o restaurante chinês por onde passo todos os dias é agora uma agência imobiliária muito especializada.




terça-feira, 15 de abril de 2014

O Terreiro do Paço é que é lindo.

Primeiro foi o Arco de Luz para comemorar a conclusão da reabilitação do Arco da Rua Augusta. Depois foi o Circo de Luz, que animou as fachadas no Natal passado.
Agora o motivo é a Primavera e, no dia 24, a Revolução dos Cravos. Os autores são os mesmos em todos os espectáculos.
Não é que não ache interessante este tipo de trabalhos. É certo que gostei do primeiro espectáculo, gostei menos do segundo e este não faço questão de ver. Na verdade penso que não é bom repetir uma ideia até ela se esgotar, como parece que pode ser o resultado deste afã em criar espectáculos multimédia para projectar nos edifícios do Terreiro do Paço. Ele vive bem sem eles. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Toma lá, para não te armares em snob...

O que fazer quando uma filha nossa nos diz que quer ir ver o filme "Sei lá!"? Talvez não sermos tão duros connosco próprios e pensarmos que a educação que lhes demos não foi assim tão má como este episódio parece fazer crer.

Pela manhã, uma partilha musical...

Os outros passageiros nem queriam acreditar. Normalmente são outras pessoas que correspondem ao estereótipo de quem ouve música alta, sem headphones, nos transportes. Desta vez, uma senhora, com mais de 40 anos, de traços orientais, partilhava, com todos, música também oriental, talvez da China. Não foi fácil concentrar-me no meu livro. Mas não pude deixar de sorrir de cada vez que, numa nova estação, alguém entrava e procurava, com estranheza, a fonte daquele som.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Acreditar ou não

Irrita-me este dia das mentiras. Não consigo ler ou ouvir as notícias sem me questionar: será que isto aconteceu mesmo? 
Por outro lado,  há algumas notícias que lemos e pensamos: isto não pode ser verdade! E descansamos. No dia seguinte saberemos que foram inventadas... O problema é que algumas são mesmo reais.
Pensando bem, este dia das mentiras não é muito diferente dos outros dias. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Os livros, os tamanhos, as capas ou como cada um os veste como quer

Esta coisa das modas é mesmo assim... Durante muito tempo era frequente encontrar, nos transportes públicos, mulheres que costumavam trazer consigo livros que eram transportados junto ao peito, com as capas viradas para fora, mostrando a todos que tinham um enorme orgulho em ler o último de José Rodrigues dos Santos ou outro best seller que, invariavelmente, tinha muitas páginas. Para mim, que já carrego sempre muito peso, uma das condições para escolher os livros que diariamente trago comigo é exactamente, ao contrário, a sua pequena dimensão. Nem sempre é possível mas com tantos livros para ler lá vou conseguindo.
De há algum tempo para cá, essas mulheres passaram a envolver os tais livros com umas capas de tecido. Mas não são uns padrões quaisquer. As flores, as cornucópias, as pequenas bolas, tudo em tons muito suaves, são os eleitos. Percebi, entretanto, que até as livrarias vendem essas capas feitas, sobretudo (lá está!), para os livros grandes. É como se certos livros pudessem tornar-se melhores ao apresentarem-se vestidos.
O meu livro, quando o tiro de dentro da mala, embrulhado num saco de plástico, na sua nudez, como quando o trouxe da livraria, não é tão vistoso, é verdade. Ainda hoje, uma senhora que agarrava um belo exemplar, envolto numa capa de pequenas riscas verde clarinhas, o olhou como se olha um maltrapilho do alto de um fatinho Chanel. Mas, depois de eu perceber que livro era, a diferença que pudesse existir entre os dois era largamente favorável ao meu. Pode não andar vestido, é certo. Mas é tão mais bonito!

sexta-feira, 28 de março de 2014

quinta-feira, 27 de março de 2014

E não são só eles!

A ideia não é nova por cá.
De uma coisa podem estar certos: a minha mãe, de 80 anos, e o meu pai, de 79, não gostam de andar na montanha russa.

sábado, 22 de março de 2014

A actualidade de Bordalo

Comemoraram-se neste 21 de Março os 168 anos do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro. 
Aqui fica um desenho seu publicado a 12 de Março de 1902, no n.º 113 de "A Paródia": 

Imagem retirada daqui. Clicar para ler melhor.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Complementaridade?

A viagem de metro durou aproximadamente 20 minutos. O rapaz e a rapariga estavam sentados à minha frente. Durante esse tempo as suas mãos não se largaram. De vez em quando davam um beijo. Ininterrupto foi o som das palavras. O dia todo contado, os pormenores do que foi feito, os comentários da chefe e dos colegas, as opções em cima da mesa para resolver alguns problemas, as implicações de todos os actos, o que na agenda constava para os próximos dias... Tudo isso, quase sem nenhum intervalo entre as frases.
Enquanto isso ele manteve-se sempre em silêncio.

quarta-feira, 12 de março de 2014

De olhos bem abertos!

Eu bem que já me tinha apercebido que a culpa de haver menos carreiras de autocarros era daquele tipo que espera que o condutor se distraia para entrar pela porta de trás. Sim, eu bem o vejo, às vezes.
Também já tinha pensado que se não fosse aquele outro que salta por cima das cancelas na estação de metro, o número de comboios seria certamente maior.
E o que dizer do tempo de espera? Hum... Os miúdos que ainda andam pendurados nos eléctricos, são do piorio.
Já para não falar da degradação do serviço: os pedintes que validam uma vez e andam toda a manhã no metro são certamente os responsáveis.
Por isso a partir de agora, como sugerem os senhores da Carris e do Metro, vou abrir muito os olhos. Vou fazer sentir a todos esses fora da lei que a culpa de tudo isso é deles. 
E de seguida faço o quê? Grito bem alto? Rasteiro-os? Para saber a forma exacta como devo actuar, aguardo novo cartaz com instruções precisas...


P.S. Não ponho em causa a legitimidade das empresas ao quererem combater as fraudes na utilização dos transportes públicos. Mas sugerirem que é esse "o" motivo pelo qual a situação está como está e sobretudo que devemos ser todos nós a "colaborar" na denúncia dos casos já me parece demasiado...

segunda-feira, 10 de março de 2014

Na sombra

Ela tinha uma casa. Já era da sua mãe mas ela queria-a também para si. Tinha vivido ali toda a sua vida e, apesar de ser um pequeno apartamento no subúrbio da cidade, sempre a tinha sentido como o lugar onde queria regressar ao final de cada dia, cansada de tantas horas em pé no cabeleireiro daquele centro comercial onde nunca via a luz do dia.
Talvez por isso, do que mais gostava era do sol que lhe entrava todas as manhãs pelo quarto e que à tarde tornava a sala acolhedora.
Depois veio a construção do viaduto onde tão poucos carros passam. Levam dentro pessoas que não sabem que a sala perdeu aquele brilho dourado ao fim do dia, aquela luz suave que dava diferentes cores à parede branca.
A seguir, do outro lado, resolveram construir uma torre de escritórios. Uma torre de uma altura tal que nem se percebe, olhando para ela, quantos andares tem. Passados alguns anos essa torre continua praticamente vazia. Os poucos interessados que visitam o apartamento-modelo, com uma vista magnífica, segundo o vendedor, nem sequer olham para o prédio, que agora parece ainda mais pequeno; nem fazem a mínima ideia de tudo o que ela perdeu. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Hoje os polícias não fizeram a vontade aos jornalistas...

Pois é... Esta coisa de se fazerem manifestações com o intuito de os momentos-chave coincidirem com os horários dos telejornais já é um princípio que leva a alguns exageros. 
Mas hoje foi demasiado. Na rádio, mas sobretudo nos canais de televisão que vi era o mesmo: longas reportagens feitas a partir do exterior da Assembleia da  República com imagens que só em algumas alturas justificariam o directo. Assistimos aos comentários de jornalistas a quem, certamente, deram ordens para ali estar e que, à falta de assunto, se limitavam a repetir, repetir e repetir as mesmas palavras. Era até aflitivo ouvir as suas vozes darem relevo a factos sem qualquer interesse mas, mais que isso, sentia-se o desejo imenso que a situação evoluísse para uma invasão das escadarias pois, só assim, toda a histeria se justificaria. Aliás, chegou-se ao cúmulo, não sei se na RTP, se na TVI, de se dar a entender qual a melhor forma para o fazer. Mas não aconteceu o que teria sido o ponto alto da reportagem. Até as pessoas assistidas pelo INEM não aparentavam problemas de maior. A certa altura os manifestantes gritaram que "Só não subimos porque não queremos". Não foi, portanto, por falta de vontade dos repórteres (aliás, das repórteres) cujas vozes se foram acalmando, ganhando um tom de decepção, para o fim da reportagem. 
O direito à manifestação e as causas dos polícias mereciam uma postura diferente...

terça-feira, 4 de março de 2014

Os italianos chamavam-lhes nórdicos


O preço dos bilhetes não é baixo. Mas, comparado com gastos que não nos trazem nem uma pequena parte do prazer que podemos experimentar ao ver esta exposição, vale a pena ir até ao Museu Nacional de Arte Antiga. Por isso, neste dia de Carnaval, para quem prefere ver outros cortejos, esta é uma bela forma de ficar a conhecer melhor estas obras e o seu contexto. 


Demasiado calor para a verdade

A influência da paisagem e dos elementos da natureza no comportamento das personagens é um clássico nas narrativas que encontramos em livros, peças de teatro, filmes... Neste "August: Osage County" essa paisagem e o calor asfixiante está omnipresente, mesmo que seja no interior da casa de família que as principais acções se desenrolam. Essa casa, que está normalmente fechada, às escuras, como que a guardar determinados factos que só alguns conhecem. Mas a reunião dos membros da família obriga a afastar as cortinas e a abrir as portadas ao mesmo tempo que conduz à revelação dos segredos que, inevitavelmente, ferem, magoam. Revelados ou não, esses segredos são a história da vida dos membros da família e é perante eles que tem que se continuar. Ou não. Porque é tão difícil continuar quando se sabe a verdade...
É muito boa a forma como as actrizes dão vida às personagens femininas. Mesmo nos papéis menos exuberantes, como o de Julianne Nicholson. Dos actores destaca-se, sem dúvida, Chris Cooper.
Pode não ser um filme inesquecível mas coloca-nos perante algumas questões que nos podem fazer reflectir e, só por isso, já vale a pena vê-lo.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma boa compra

Os sapatos e botas pendurados à porta lembram-nos formas de exposição dos produtos que há muito foram substituídas pelas aprendidas em cursos de formação na área do vitrinismo. 
Lá dentro, a confusão de caixas em prateleiras e no chão fazem-nos imaginar que aquilo que pretendemos não irá ser encontrado. No entanto, surpreendentemente, a dona do estabelecimento que é, simultaneamente, empregada vai direita a uma caixa e dela tira o modelo e número das botas que, depois de experimentadas, se constata serem "mesmo aquelas".
Enquanto me atende, o seu marido, também na casa dos setenta e que com ela partilha a espera dos clientes, naquele espaço onde o cheiro do couro prevalece, permanece sentado a ouvir o rádio que já estava ligado quando entrei. Entre dois dedos de conversa, fico a saber que vieram, há muitos anos, da zona da Lousã para Lisboa e que, quando deixarem de trabalhar, ninguém dará continuidade ao negócio. 
E não se trata de defender algo que está condenado e não tem qualquer razão de existir nestes tempos de grandes grupos económicos cujas lojas, embora com diferentes nomes, vendem os mesmos produtos, fabricados em lugares distantes. Não! No dia anterior tinha tentado comprar umas botas daquele tipo noutro local e, além de serem muito mais caras, não tinham metade da qualidade que estas que agora levo, num saco sem qualquer logótipo, têm.

Do fundeadouro romano aos nossos dias não foi assim tanto tempo...

A maior parte desta notícia relativa à inauguração do parque de estacionamento subterrâneo na Praça D. Luís I, em Lisboa, dá conta da intervenção arqueológica e dos importantes vestígios que foram encontrados durante a sua construção. Felizmente, neste caso (tal não aconteceu noutros), foi possível retirar grande parte dos achados, estudá-los e até tornar visíveis alguns deles para quem venha a utilizar o espaço. É este o principal destaque da notícia.
Não deixa de ser significativo, no entanto, que o responsável da empresa que irá ter a seu cargo a gestão do parque, fale em "algumas vicissitudes, decorrentes dos achados arqueológicos"; e que Manuel Salgado, Vereador da Câmara Municipal, tenha identificado os trabalhos arqueológicos como uma das "dificuldades desta obra".
É claro que se não tivesse havido essa intervenção por parte dos arqueólogos talvez determinadas fases da obra tivessem avançado com mais rapidez. Mas não faz qualquer sentido continuar a estabelecer uma ligação entre os atrasos nas obras e os problemas que essa situação acarreta para as populações; e o trabalho necessário e fundamental para o conhecimento do património que, mesmo não estando à superfície, é de todos nós. Mesmo que a lei não obrigasse a tal (e obriga) esse trabalho deveria ser considerado como uma verdadeira oportunidade e não como uma adversidade.   
Por isso me parece que as entidades que têm responsabilidades na transformação da cidade têm também obrigação de, até na linguagem utilizada, não parecerem que estão a ser apenas condescendentes perante uma situação que, se pudessem, evitariam.
A defesa do património não pode ser algo a que muitos se referem como um chavão teórico que depois, na prática, é identificada como um obstáculo. 
Certamente, neste caso concreto, até a Empark ganhará pois, depois de ler a notícia, há-de haver quem irá deixar o carro neste parque só para ver expostos os materiais que a arqueologia permitiu trazer até nós. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O regresso do "homem-lapso"

Foi assim que Ricardo Araújo Pereira se referiu a ele no Verão de 2012. Nessa altura ainda Miguel Relvas era ministro. Ontem, ainda nem um ano depois da sua demissão, Pedro Passos Coelho apresentou o seu nome como cabeça de lista do Conselho Nacional do PSD.
Um partido é um partido e o PSD, apesar de estar no Governo, é apenas isso. E já sabemos que um partido tem regras e formas de se reproduzir muito próprias. 
Mesmo assim, se a escolha do líder do partido não pode ser considerada uma simples teimosia e tem razões que os próprios militantes parecem desconhecer; e muito menos concordar, é a posição de Miguel Relvas que me causa mais estranheza. As "condições anímicas" que, na altura, não tinha para continuar no governo não serão necessárias para este cargo muito mais leve e, além disso, a "vontade própria" que tem de estar num lugar de destaque deve ser, pelo menos, tão forte quanto a que o levou, então, a sair. Mas, mesmo assim, é preciso algum descaramento... Não sei o que, em menos de um ano, o agora regressado terá aprendido mas, a verdade é que a sua resistência não dá mostras de ter diminuído. 
Para Passos Coelho poderá não ser um lapso. Para nós é só mais uma prova de que os partidos políticos também têm, tal como as pessoas, "lapsus memoriae".

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sentido prático

- Eu, ao menos, não vou ter que me preocupar com isso!

M., 13 anos, depois de me ouvir dizer que não sabia o que oferecer aos meus pais pelas suas bodas de ouro. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sophia no Panteão

Parece que sempre se vai concretizar a trasladação do corpo de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Panteão Nacional. Se pensarmos que esse é um acto que pretende homenagear figuras marcantes para o nosso país, a decisão faz sentido. A família também concordou com a ideia de reforçar o reconhecimento da importância desta mulher que diz muito aos portugueses amantes de poesia. 
Mas não posso deixar de pensar que aquele local, com toda a sua imponência de mármore gelado, é demasiado frio. O céu parece longínquo, com o enorme zimbório lá no alto. Algumas salas apresentam-se nuas, com os cenotáfios que pretendem lembrar figuras que os turistas (a maioria esmagadora dos visitantes) não perdem tempo a saber quem são. 
É certo que a trasladação do corpo de Amália Rodrigues alterou um pouco essa situação. Desde essa altura que vemos, junto ao seu túmulo, o colorido das flores e que os seus fados ecoam por todo o edifício, causando até alguma estranheza. E daqui a algum tempo teremos também os cachecóis encarnados, quando Eusébio estiver também neste lugar.
Não sei se dentro de alguns meses ouviremos poemas de Sophia declamados naquele ambiente barroco que, nem sei bem porquê, não consigo associar à autora, que vejo mais em dias de sol junto ao mar; mas parece-me que todo este movimento fará com que mais portugueses visitem este espaço, imponente, como  certamente se espera de um panteão, tornando-o mais humano, mais perto da terra, mais perto de nós.    

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

As dificuldades de investigar a vida das figuras históricas

Na rádio, a entrevistada, historiadora, respondia, entusiasmada, às perguntas. Como se o Marquês de Fronteira ainda estivesse vivo, fez notar M. Disse-lhe que isso é normal pois quando algum historiador pesquisa e investiga muito sobre uma figura nota-se uma forte ligação e é como se essa pessoa estivesse presente. M., assumindo-se como historiadora dos One Direction, diz então que a sua pesquisa é muito mais difícil pois eles continuam vivos e acompanhá-los todos os dias é muito exigente.

M., 13 anos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Um exemplo

Nunca concretizei a ideia que tive há anos atrás de fazer uma análise sociológica do conteúdo das letras de canções às quais, a partir de um êxito de Emanuel, se convencionou chamar "pimba". Muitas delas continham em si referências muito importantes para determinados grupos e eu, confesso, ainda hoje me lembro de bastantes. Quando alguém à minha volta fala deste tipo de canções há uma que dou sempre como exemplo: "Vem devagar emigrante", de Graciano Saga. Este era ainda autor de outros temas bastante representativos deste género.
Hoje soube que Graciano Saga se chamava afinal Alfredo Braga e que faleceu num dos últimos dias. A chamada música pimba nunca mais será a mesma.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Pauta com pessoas

No meio de tanta coisa sem interesse que nos aparece via internet, às vezes encontramos umas pérolas.
É o caso desta fotografia, ou melhor, destas fotografias, tiradas em 1952 e cujo título é Boardwalk Sheet Music Montage. O autor é Harold Feinstein e a sua obra pode ser vista aqui



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A importância de uma guitarra

Dois rapazes conversam no metro. A um deles, que transporta consigo uma guitarra, o outro pergunta: 
- É pá, não é bué mau andar com isso? É que ainda é pesada.O outro responde:
- Não! Além disso as miúdas gostam bué! Então quando toco aquela seca do "Anda comigo ver os aviões"...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Esta vida não é para blogues

Abro a página e vejo que ele ainda aqui está. O meu "caderno de apontamentos electrónico". Mesmo votado ao abandono ele mantém-se tão acessível e disponível como no primeiro dia que resolvi dar-lhe vida.
Já vamos com um mês e meio deste ano, que ainda há bem pouco tempo era novo, e tantas coisas aconteceram entretanto. Tantos foram os assuntos que eu registei e que enchem o separador dos rascunhos... Alguns foram comentados por muitos. Outros ligam-se a aspectos mais particulares. Ficaram lá todos e ao olhar para eles agora percebo que, muitos, neste momento, dada a sua falta de actualidade, pouco sentido fazem.
Nestes meus dias imperfeitos a necessidade de fazer não me tem deixado tempo para reflectir. E o tempo do ócio é uma condição para essa reflexão e, sobretudo, para o seu registo. A questão principal é esta dificuldade em arranjar o tempo para estes "dias" e isso levou-me a pensar em desistir. 
Mas eu sinto-lhe a falta. E sinto a falta dos outros blogues que visitava e de que aprendi a gostar. 
Por tudo isto, mesmo tendo a sensação que esta vida que tenho não é para blogues, a minha vontade de recomeçar é grande. Será que vou conseguir?

sábado, 21 de dezembro de 2013

Uma das razões/poemas por que gosto de Arnaldo Antunes

Mesmo

eu em mim mesmo
esmo em marasmo
asma em miasma
eu em eu mesmo

eu em mim lesma
em mi mesmado
desorganismo
desabitado

in , Arnaldo Antunes, Álbum Nome, 1993

À atenção do Sr. Putin


A composição sobre o Natal

- Mãe, na semana passada, na escola, a professora de Português quis que fizéssemos uma composição sobre o Natal e sobre o consumismo e materialismo desta época. Todos disseram que o importante era a família e estarmos todos juntos. Mas na verdade estamos todos a pensar é nos presentes. Além de consumistas ainda somos mentirosos... E logo no Natal...

M., 13 anos

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Às seis da tarde

Caminho por uma rua onde poucos caminham. Àquela hora os candeeiros estão já ligados e a sua luz bate no pavimento. Mas só parte dela. O resto é escondido pelas folhas das árvores que balouçam com o vento. Talvez por isso, porque o vento agita as folhas e a luz que entre elas passa, o chão que vou pisando agita-se também. Caminho, por isso, por esse caminho instável sem saber se o que piso é luz ou é penumbra. E, de repente, percebo que estou feliz.

Picus viridis


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Em resposta a uma pergunta de um jornalista

"Eu não tenho muito tempo para olhar para a janela"

Manoel de Oliveira no dia em que fez 105 anos de idade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Morreste-nos

Hesitei em escrever aqui alguma coisa sobre a morte de Mandela. Porque é esmagadora esta avalanche de tantas palavras, tantos testemunhos, tantas referências. Eu não saberia o que dizer. Mas, de repente, lembrei-me da palavra que dá título à obra de José Luís Peixoto (Morreste-me) e achei que poderia resumir o que fui lendo e ouvindo desde que ontem se conheceu a notícia.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Coisas inversamente proporcionais

O que aumenta: a idade, as rugas, a flacidez, a necessidade de usar cremes cada vez mais caros.
O que diminui: o dinheiro para os comprar.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Já está a fazer falta


Quando daqui a alguns anos passarmos por aquela rua vamos poder dizer: aqui havia um cinema.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Uma convivência difícil

Um passageiro, ao sair do comboio, depois de uma senhora que ia a ler se ter mostrado incomodada por ele falar muito alto durante a viagem, diz para a sua mulher e para quem quisesse ouvir: filha da puta! Vem para aqui com o livro! Ela que vá mas é ler para a biblioteca!

sábado, 23 de novembro de 2013

O exemplo da "Casa Pereira"

Atendendo à realidade que conhecemos, e que nem sequer é exclusiva de nenhuma cidade em particular, percebemos que as zonas nobres das cidades sejam alvo de transformações que, no que ao comércio diz respeito, se traduz, muitas vezes, na substituição de lojas tradicionais por outras de cadeias internacionais que, obviamente, têm um poder económico incomensuravelmente maior. 
Em Lisboa, soube agora, as lojas que têm a renda média mais elevada ficam na rua Garrett, rua que, por ficar perto do meu local de trabalho, frequento bastante. É de facto uma rua especial. E talvez continue a sê-lo mesmo estando cheia de lojas de pronto-a-vestir iguais às encontradas nas outras ruas ou nos centros comerciais. 
Eu, no entanto, prefiro que não fechem estabelecimentos como o do número 38. Sinto sempre orgulho quando vejo turistas a saírem contentes com as suas compras ou apenas parados a tirar fotografias à montra; e gosto que nele não entrem só os turistas mas os clientes de há muito ou pouco tempo. 
Compreendo que resistir à pressão dos que querem comprar ou arrendar estes espaços únicos não deve ser fácil. Daí admirar essa capacidade de quem nem quer "ouvir o valor da proposta". Não serão muitas e não sabemos quanto tempo mais vão resistir mas Lisboa é mais rica com pessoas como o Sr. António Lemos.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Almada

Gostava muito de poder estar aqui. Infelizmente não posso.
Mas já hoje ouvi as palavras do poeta (neste caso) na interpretação única de Mário Viegas. Umas e outra não deixam ninguém indiferente.  

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"O gosto" do King

Vou pouco ao cinema, como vou pouco ao teatro ou a outros espectáculos ou, relativizando, acabo por ir menos do que gostaria. Mas, quando consigo, a maior parte das vezes vou ao King. Este cinema faz parte da minha história pessoal (mesmo muito pessoal) e foi ali que vi alguns dos mais belos filmes que recordo (alguns deles comentados neste blogue). Sem grande cultura cinéfila, procuro, no entanto, conhecer obras diferentes com as quais aprenderei sempre coisas que não sei. E naquele lugar posso encontrá-las.
Neste fim de semana, se tudo correr como previsto, irei até lá rever um dos filmes mito da história do cinema, "O Gosto do Saké". Talvez por ser este filme, o número de espectadores possa ser um pouco maior do que é costume. De facto, pelo menos às sessões a que vou, raramente o número total ultrapassa os 10. Compreendo, por isso, que as receitas não sejam grande ajuda face às despesas. 
A situação, comum a tantos outros cinemas, é perfeitamente compreensível de um ponto de vista económico. Mas, qualquer dia, as nossas opções restringir-se-ão ao sofá lá de casa e aos sofás dos cinemas onde os espectadores se comportam como se estivessem em casa. Nessa altura eu irei ainda menos ao cinema. Mais uma vez, as questões económicas, vão matar mais um pouco das nossas vidas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bons exemplos

Tinha curiosidade. Fui a uma livraria e peguei num volume. Abri ao acaso. Página 1571. Capítulo: advérbio e sintagma adverbial. Exemplo apresentado para o advérbio de quantidade: O Cristiano Ronaldo joga muito bem. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mera antecipação ou escassez extrema?

Depois de uma aplicação da Google ter revelado que Jesus e Maria andariam algures por sobre a Suiça, sabemos agora que estariam a caminho da festa de aniversário que o Presidente da Venezuela vai dar ainda em Novembro. Sabendo das dificuldades em assegurar a presença de tão famoso aniversariante na data a que se convencionou associar o nascimento de Cristo, Nicolás Maduro, numa decisão inédita, decretou a antecipação do Natal. Resta saber o que pensam os venezuelanos da questão. Não saberá o Presidente Maduro que comemorar o aniversário antecipadamente dá azar? Ou terá ele medo que os bens essenciais, que tanta falta têm feito no país, não cheguem a Dezembro?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Já começou

Primeiro foram as montras de algumas lojas, logo seguidas por muitas outras, sedentas de darem aos seus clientes motivos para comprarem. Agora são os veículos pesados que bloqueiam as ruas para descarregarem as estruturas que suportam as iluminações. Os locais públicos fechados enchem-se de árvores de natal, cadeirões, cercas com animais de peluche articulados, crianças que querem brincar e pais das crianças que as levam a brincar e que ficam ali a olhá-las, como já não fazem nos verdadeiros parques infantis que agora estão vazios.
Parece que é isto a magia do Natal. E mesmo que canse toda esta excitação, que parece começar cada vez mais cedo, lá teremos que passar por, pelo menos, dois meses de época natalícia...

As notícias que já não o são e as que nunca o foram

Na sua ânsia por fazerem comentários demolidores ou espirituosos, os utilizadores do facebook (e outros meios semelhantes) raramente se dão ao trabalho de verificar se alguma coisa que lêem é efectivamente notícia ou apenas algo que alguém se lembrou de inventar e pôr a circular como sendo notícia (situações destas acontecem, por exemplo, quando se assume como uma notícia verdadeira algo publicado noutros países em jornais como o "nosso" "Inimigo Público"). Outra modalidade é comentar notícias requentadas (adjectivo completamente desajustado para este substantivo) como se elas fossem de hoje. É assim que os boatos modernos são lançados e que situações que aconteceram no passado ganham um novo fôlego. Ainda há uma ou duas semanas circulava uma notícia que dava conta de um aumento das remunerações de gestores de empresas públicas que motivava uma série de reparos feitos com uma violência verbal acentuada. O clássico "isto é uma vergonha" era o mais suave. 
Estas questões são normais, eu sei. Na fúria de consumir informação e de querer deixar uma marca pessoal nessa informação não se questiona sequer a probabilidade de o que se lê não corresponder à verdade. Mais: deseja-se que as coisas mais inverosímeis sejam reais para que se possa mostrar aos amigos que nada ficará por partilhar, por criticar.
Mas o que mais me incomoda é que a aceitação de notícias absolutamente improváveis significa que já nada surpreende. Por mais indecorosa que seja a situação estamos predispostos a aceitar que ela possa mesmo ter existido, que aquilo que não passa de invenção, ou de algo que aconteceu no passado e que nunca se poderia repetir no presente, constituiu um facto. A sensação da possibilidade de realmente acontecerem as coisas mais absurdas está muito presente. E isso sim é revelador dos dias em que vivemos.  

Às armas!


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O estado da reforma do guião, a reforma do estado do guião, o estado do guião da reforma e outras combinações

A utilização de certos termos para designar documentos que são produzidos pelos governos deveria ser repensada pelos seus autores.
Nesta questão do "guião da reforma do estado", se pensarmos que antes de um guião terá que existir um argumento, começamos logo a perceber que, neste caso, a palavra não está a ser correctamente utilizada. Na realidade, onde está o argumento? 
Depois, tendo em conta que o guião deverá obedecer a uma estrutura lógica, constituindo-se como um documento de trabalho imprescindível que se transformará depois num filme, parece-me que os guionistas que elaboraram este vão ter muitas dificuldades em explicar aos técnicos e aos actores envolvidos o que pretendem realmente que venha a ser realizado. A sequência das cenas e a forma como serão postas em prática é imperceptível. E por falar em realização, quem poderia ser o escolhido? É que em Portugal não é fácil encontrar realizadores na área do cinema fantástico.


Das muitas horas que passei com os jogos da Majora

Era um dos presentes que mais gostava de receber na minha infância. Cada vez que, mesmo sem desembrulhar, percebia que era uma caixa de um jogo ficava muito feliz. Tive vários e muitos eram da Majora. O Jogo da Glória, o Sabichão, o Mikado e outros faziam-me ficar horas sentada no chão a brincar. Mesmo sem companhia podíamos jogá-los. Ainda tenho alguns guardados e as minhas filhas também brincaram com eles. 
Há pouco li esta notícia. Admito que seja difícil concorrer com os jogos que os computadores e outros meios põem à disposição dos miúdos hoje em dia. Mas fico com pena que muitos não conheçam a magia de aprender com a ajuda de um sábio magnético que, com uma vara de arame, nos apontava respostas que a partir de certa altura já sabíamos de cor. Mas repetíamos e repetíamos e ele nunca se enganava. Era bom que ele voltasse agora e nos respondesse a algumas dúvidas...