terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma combinação bela e inesperada

Um semáforo que demorou demasiado tempo a abrir; a lavagem, do outro lado da estrada, feita por dois funcionários, de um grande mupi de onde escorriam grossos fios de água num fundo de árvores frondosas e sol forte; a música de Gershwin na rádio, no aniversário do seu nascimento. 

domingo, 25 de setembro de 2011

Um programa para este dia

As iniciativas são mais que muitas. O património, de forma geral tão maltratado, está em destaque este fim de semana. Vá... ainda têm este domingo. 

sábado, 24 de setembro de 2011

"Mesmo morto hei-de passar"


Foto aqui

Naquele tempo, dizem-me, eu colocava a cabeça entre as grades da varanda e cantava lá para fora as canções de que gostava. Muitas eram de José Niza. Como esta (o poema é de António Gedeão), lembram-se?

Regresso à infância...

para os que chegaram a sair dela. É o que acontece nesta loja (Na R. da Madalena):

Foto da Página do Facebook

Bonecos da Playmobil, uma bóia da Heidi, figuras em PVC do Bana e Flapi, ferramentas de brincar, bonecas anteriores ao império das Barbies... tantos brinquedos que nos trazem à memória tantas, tantas brincadeiras. A visitar!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Coisas importantes que aprendemos nestes últimos dias

- Nem sempre se torna necessário podar as anoneiras. Mas num Jardim há sempre podas fundamentais a fazer. 
- As vacas sorriem perante a visão de um pasto verdejante. O mesmo não se passa connosco perante a visão de um Jardim esburacado.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

É assim em muitas aldeias

A porta está fechada. Nas janelas não há folhas coladas com fita cola com desenhos das crianças. Mas as folhas das árvores, que já ninguém varre, espalham-se pelo antigo recreio. Aqui, de onde os sons das  brincadeiras se espalhavam para as ruas mais próximas, impera agora o silêncio. Os velhos sentem-lhes a falta.

domingo, 11 de setembro de 2011

Lembrança de um mundo que já não existe

Lembrança do Mundo Antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

in Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade

(Um dos poemas lido numa das cerimónias de homenagem às vítimas do 11/9 realizadas hoje nos EUA)

Por que razão continuamos nós a ir por outro caminho?

Será isto envelhecer?

É suposto iniciativas destas criarem uma maior dinâmica no comércio, contribuindo para um aumento dos lucros dos comerciantes; é suposto olharmos os manequins, em carne e osso das lojas como figuras apetecíveis, desejáveis; é suposto invejarmos os rostos maquilhados, os vestidos glamourosos, os saltos vertiginosos; é suposto ficarmos ofuscados com os corpos jovens e bem trabalhados dos que sobem e descem a rua, esperando que uma das câmaras de filmar os apanhe.
Em vez disso, senti que se gasta demasiado dinheiro nestas iniciativas sem que o retorno compense; que as manequins fazem tristes figuras, com os seus movimentos tolhidos pelas paredes das montras; que as pessoas bonitas são, afinal, adolescentes que se limitam a copiar uma imagem vista numa revista ou na televisão, desconhecendo completamente o que de dentro querem mostrar; que a sede de aparecer, ficar bem na fotografia está a ocupar demasiado tempo a quem deveria estar a crescer por dentro; que, em época de crise, aquele fogo de vista é até obsceno.
Ou será tudo isto a prova de que estou a ficar velha?

(ideias suscitadas numa passagem pelo Chiado, na última noite de quinta-feira)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

António Chiado não morou aqui


Sem nunca terem percebido que a estação da Baixa-Chiado tinha essa designação por servir a Baixa e o Chiado, muitas pessoas dizem que vão para a estação da Baixa do Chiado. Neste momento temos mais um elemento a contribuir para a sua confusão. Será a sede da PT aqui? Mas não era nas Picoas? 
E as paredes todas ocupadas com imensa informação, luzes a brilhar por todo o lado, música a sair de gigantescas colunas... Help... Isto não são corredores do Metro. São câmaras de tortura! 

Dá vontade de me tornar feminista

As medidas sucedem-se a uma velocidade estonteante. Estava eu ainda a pensar quão ridícula era esta quando, pela manhã, ouvi as notícias que falavam nos cortes nas comparticipações de pílulas anticoncepcionais e algumas vacinas. Mesmo sem saber os detalhes da coisa fico triste. Muito triste.  
Pensando na pílula, a liberdade que as mulheres têm de controlar os seus ciclos férteis não será, certamente, posta em causa. É uma questão de prioridades e esta estará à frente de outras, mesmo sendo mais um sacrifício financeiro a fazer. 
Mas, em termos do que tudo isto significa, a minha tristeza tem a ver com o sentimento face à diminuição que estas alterações provocam na, já de si reduzida, liberdade de interferir nos processos naturais que conduzem à gravidez. Podia-se mexer em outras áreas mas esta não deixa de ser um murro no estômago das mulheres em geral. Não sei se será um recuo civilizacional. Mas lá terá que se proceder a outros recuos, dignos de outros tempos...
E, duma forma mais ligeira, apetece defender uma discriminação positiva a favor das famílias que têm filhas. De facto, as despesas com rapazes não incluem, nem pílulas anticoncepcionais, nem as vacinas contra o cancro do colo do útero...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um nome trágico

Li algures que é um grupo argentino de revisão não reaccionária do tango. Por curiosidade fui procurar. Achei interessante.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Todos. Mesmo todos.

O ano passado não fui. Mas em 2009 o ambiente estava fantástico. Foi nesse dia que fiz os Instantes Nocturnos - Mouraria. Este ano o programa promete. O bairro da Mouraria está ainda por descobrir... digo-vos eu que tenho intenção de o conhecer melhor.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Decididamente um homem à frente do seu tempo...


Não havia necessidade

Eu sei que sou um pouco ingénua e que não domino as regras da competitividade entre empresas (se é que as há). Também sei que os responsáveis pelas campanhas publicitárias não têm qualquer obrigação, nem dever, nem sequer vocação, para respeitar princípios que não são universais. Mas cada vez que ouço um determinado spot na rádio - que conta a história de dois homens que, perante um leão, na selva, têm reacções diferentes. Um corre, o outro calça uns ténis. Perante a pergunta do primeiro: "pensas que vais correr mais que o leão?" o segundo responde: "não, mas vou correr mais do que tu". E o spot termina com a moral da história: o mercado está uma selva e por isso há que calçar ténis, havendo uma empresa que ensina a fazê-lo - penso que, neste contexto, a história é de mau gosto. Os valores da solidariedade e da entreajuda provavelmente nunca serão seguidos, neste mundo das actividades comerciais, mas apelar, de forma tão primária, ao seu oposto...

Uma explicação plausível?

- Sabes, mãe, eu quando dou erros é porque estou demasiado concentrada... a escrever.

M.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

1000 posts

"Um blogue é a voz particular de alguém. Um blogue é o estilo do seu autor, os seus pontos de vista, as suas preferências, as suas manias e os seus gostos. Um blogue é a projecção de uma pessoa na rede, é uma identidade que se vai construindo e expressando a pedaços (links, textos, vídeos, imagens). Os blogues são pessoas que nos propõem uma conversa."
José Luís Orihuela

"Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas. A força do blogue está no facto de não haver mediações; do salto ser puro; da combustão ser total."
Miguel Esteves Cardoso

"É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas a sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego..."
Gilles Lipovetsky

"Actualmente, o mundo divide-se entre os que procuram razões para entrar na blogosfera e os que procuram razões para não sair"
José Luís Orihuela

"Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros."
Eugène Ionesco

"Os blogs não vão acabar... nunca. Quem difundiu a ideia dos blogs como uma moda foram os meios de comunicação tradicionais, quando se aperceberam de que deixaram de ter a administração exclusiva do espaço público de comunicação e da agenda."
José Luís Orihuela

"A blogosfera substitui o "speakers corner" de Hyde Park, a porta e paredes das casas de banho, aquele monte no qual, e a coberto do breu da noite, nas aldeias, se berrava em plenos pulmões os segredos de vícios privados que eram do conhecimento de todos. Nesse sentido é um contexto verdadeiramente terapêutico com a vantagem de não provocar intoxicação química, nem excessivos gastos em psiquiatras e psicólogos. É o maior espelho de Narciso conhecido."
Catarina Campos e José Manuel Fonseca

Todas estas citações vêm publicadas em várias páginas do livro de Paula Oliveira Silva, Blogo, Logo Existo, Editora Media XXI, 2009 que analisa, de um ponto de vista sociológico, o "fenómeno" dos blogues.
De diferentes autores elas levantam algumas questões interessantes e em que todos pensamos quando surge este tema. 

Vêm estas citações a propósito do facto do presente post ser o milésimo a ser publicado neste blogue. (Deixei passar os dois anos do blogue sem uma referência mas agora, o blogger e as suas estatísticas chamaram-me a atenção). 
E pronto... Cá se vai enchendo este meu "diário de bordo", aberto para que qualquer um possa ler, ou apenas ver. Não sou eu que aqui estou. É apenas uma parte de mim, aquela que eu quero ou não me importo de mostrar. Daí que às vezes fique com a sensação que estes blogues são, acima de tudo, uma ficção, uma construção do seu autor que, não raras vezes, pretende ser melhor do que é. 
Continuam válidas as premissas iniciais. Enquanto a vida de todos os dias, mesmo que pouco excitante, me dê motivos para ir reflectindo cá irei arriscando as minhas interrupções no silêncio. Obrigada a todos os que vão lendo; aos que comentam; aos que passam por aqui, desde os mais antigos aos mais recentes; e aos amigos que fiz entretanto. Convosco os dias são menos imperfeitos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um sorriso

Não foi o som da guitarra que me chamou a atenção. Nem o facto de assim tocar, sem público, naquele túnel onde ninguém àquela hora passava. Foi o seu sorriso. Sorria de prazer ao tocar. Sorria para os seus dedos que faziam soar as cordas. O som era ampliado por todo o espaço mas era dentro de si que ele o sentia. Era para si que tocava, indiferente ao que o rodeava.
O sorriso prolongou-se quando me viu a sorrir também. As moedas que lhe dei premiaram esse sorriso que, de tão genuíno, me recordou que, mesmo sozinhos, onde ninguém nos vê, vale a pena sorrir. 

Está bem que fica no Continente mas...

Com uma boa localização, condições climatéricas amenas, boas condições para o desenvolvimento da actividade agrícola, uma boa relação com as autoridades locais para o apoio e desenvolvimento de projectos imobiliários... bem que o Governo Regional da Madeira podia comprá-la para local de estágio do próximo presidente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Na procissão

A procissão, como tantas outras, avança com os membros do clero à frente. Segue-se o andor, levado por paroquianos mais acostumados a estas coisas de transportar aos ombros a santidade. Depois a banda que toca, a um ritmo lento, músicas que os que vêm atrás entoam, uns com mais, outros com menos devoção. É no meio destes, anónimos, alguns turistas, que um, em particular, se destaca. À medida que prossegue, no ritmo cadenciado dos demais, a garrafa de cerveja é levada à boca também com uma devoção que se adivinha forte.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Saartjie

Quando fui ver o filme desconhecia este facto: o realizador é o mesmo de "O Segredo de um Cuscuz", de que eu tanto gostei. Mesmo depois de o ver acho que não chegaria a perceber que tinham sido ambos realizados pela mesma pessoa. Esta "Vénus Negra", ao contrário das personagens do "Segredo...", não tem uma vida comum. Mesmo depois da sua morte, em 1815, o seu corpo não teve descanso pois logo foi feito um molde em gesso e conjuntamente com partes dele, conservadas em formol, estiveram em exibição, até 1974, num museu em Paris. Mais recentemente, em 2002, o governo francês  devolveu os restos mortais ao seu país de origem, a África do Sul, mais por motivos políticos que por uma convicção de justiça humana. 
Uma vida, como a de Saartjie, é motivo mais que suficiente para um argumento de um filme. Mas, parece-me, o realizador alongou-se demais, prolongando cenas que se tornam penosas para nós, dada também a violência nelas presente. Mas não será isso que se pretende? 
Mostrar-nos a violência presente em todas as exibições forçadas, quer em feiras de curiosidades; quer em festas privadas para satisfazer os caprichos de nobres com posses; quer junto de cientistas sedentos de confirmações para teorias que nos lembram que a ciência deve ser sempre historicamente lida. 
E é aqui que o filme cumpre a sua função mais "pedagógica" pois se esta história pessoal já é, de si, suficiente para com ela aprendermos muito é a sua relação com o meio histórico em que aconteceu que a torna tão interessante. E a exploração de um ser humano pelas suas características físicas bem como a tentativa de as tornar na base de sistemas de poder estão ainda hoje demasiado presentes. 
Talvez se pudesse fazê-lo mais curto. É um facto. Mas as interpretações são muito boas e as ambições  do filme muito meritórias. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Luís Filipe Castro Mendes

À Tarde, Em Casa


Entardecer entre animais pequeninos,
pássaros que debicam a relva do jardim,
esquilos que sobem e descem das árvores,
eu próprio, no meio dos jornais.

Nenhum deus se lembrou de aparecer esta tarde:
e foi melhor assim.

in Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2011, p. 85

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Final de dia feriado

Logo à entrada do túnel a luz que vem do exterior ilumina e faz brilhar o plástico e o metal dos brinquedos espalhados na manta. Ninguém parado a comprar ou sequer a ver. Ele não parece esperar que ninguém o faça. Está de cabeça baixa, agarrado aos joelhos nus. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Olhares

Era o seu olhar que surpreendia quando a fitei. Sentada num banco era impossível não a notar enquanto eu subia a escada rolante naquele centro comercial. E era tristeza que se via naquele olhar. O local parecia ter sido escolhido para poder contemplar a aparente felicidade dos outros que, sorridentes, entravam e saíam de lojas. Quanto a ela pouco se parecia interessar pela impressão que causava. Já no final da subida os nossos olhares cruzaram-se. Desviei o meu rapidamente. Não queria ser apanhada a olhar assim, entrando na sua intimidade, testemunhando algo que eu não podia adivinhar mas que me magoava também. E tive medo. Como se a possibilidade daquela tristeza se pegar existisse verdadeiramente. 

4 anos depois...

Em Setembro sai o "Biophilia". Até lá...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Elementar, meu caro...

Estava parado há tempo de mais no corredor. Fazia frio, bastante frio. Olhava fixamente, muito de perto, talvez procurando exactamente o que pretendia. Indeciso, pensei. À sua volta outros chegavam, olhavam e tiravam da prateleira o que queriam. Finalmente um movimento. A mão dirigiu-se ao bolso e de lá retirou um objecto. Era uma lupa, potente, a avaliar pelo aspecto. Finalmente podia escolher os iogurtes e passar a outro corredor onde a temperatura era mais amena.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Agradecimento público...

ao programa Master Chef (neste caso a versão australiana) por ser o causador de uma onda de vontade de cozinhar que atingiu as minhas filhas e que fez com que eu, que só cozinho porque a isso sou obrigada, não tenha ainda preparado uma única refeição esta semana.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A nova temporada em análise ou os nossos infundados preconceitos

Cada uma das senhoras tinha mais de 70 anos. Sentadas numa das mesas da esplanada, procuravam a sombra do grande chapéu de sol que ajudava a suportar o calor que se fazia sentir. De frente uma para a outra pouco conversavam. Uma delas parecia um pouco entediada. Do local onde eu estava podia ver que a outra lia uma revista. Imaginei a primeira pouco dada a notícias cor-de-rosa ou, pelo contrário, em pulgas para poder ler as últimas sobre os namoros de alguém com o nome acabado em inha. Quando me levantei para sair dei uma espreitadela à capa da revista. Era a Mística, a revista oficial do Benfica, com tudo sobre a nova época.

A lupa de Sherlock Holmes já não chega

Por termos chegado perto da hora de fecho da exposição não foi possível trabalhar nos 8 laboratórios e por isso ficou por descobrir o autor do crime. Lá terei eu que voltar... Mas vale a pena. A "exposição" está muito bem conseguida.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Porque o útil é uma mentira"

Foi no Uma casa em Beirute que primeiro o li. É brasileiro e chama-se Solivan Brugnara.  Depois encontrei mais poemas aqui. Foi de onde retirei este:

Uma descompostura em Diógenes

Útil, a arte não deve ser útil,
são os utensílios que deveriam ter inutilidades.
Que se faça em tudo que é útil,
belas inutilidades.
Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe
e talheres com lente de aumento para examinarmos
com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite
sobre a salada.
Que façam
estradas com aquelas descidas que causam inércia
e dão um friozinho na barriga
que as crianças gostam tanto .
E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,
ou contêineres em legos gigantes.
Tirem das prisões,
o minimalista reto e objetivo das grades,
que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,
grades cinzeladas, folheadas a ouro,
reproduzindo querubins com safiras nos olhos, grades que elevem.
Porque o útil é uma mentira.
É uma mentira.
A utilidade das fábricas, é uma mentira,
e do aço da máquinas,
das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,
é uma mentira a utilidade da automação.
Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.
Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool
é uma inutilidade prazerosa.
São inúteis as grandes fábricas de tecidos,
o que move a indústria de roupas não é a utilidade, mas a criativa moda.
E a utilidade das colheitadeiras,
também é uma mentira.
A utilidade das plantações, dos rebanhos,
a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.
Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,
são todos uma gostosa inutilidade.
É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.
Mas com que coragem
enfrentam com suas insignificantes armas,
seus avanços postergadores, com suas máquinas
ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,
o inevitável.
Como é bonito
ver um corpo em uma oferenda inversa
e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,
tentando retirar o homem da morte.
É uma mentira a medicina,
mas como são destemidas,
como são renitentes e sábias
suas utópicas e caras tentativas heróicas de vencer o inevitável
sem nunca ter conseguido, uma só vitória.
É uma mentira a utilidade
das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,
todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.
Sim, Sim.
É a inutilidade que move os trens, os caminhões, os aviões,os navios
que abre novas rodovias,
e nos trazem e levam ao lixo,
os magníficos eletrodomésticos descartáveis, os lindos sapatos fúteis,
os supermercados cheios de alimentos tão saborosos
com seus indispensáveis
e atávicos sais e calorias,
os computadores
com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,
sexo virtual e música,
As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos, panis et circus virtuais,
notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.
E o concreto,
o concreto
que constrói as casas,os edifícios, os shoppings
todos valorizados se excessivos e luxuosos
e desvalorizados se essencial.
É Verdade, é verdade existe o útil
Mas o útil é sempre primitivo e rude,
existe ou existiu,
é seu pé e sua mão, seus instintos,
a fruta colhida,
a carne crua.
Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada
com as lanças.
nasceu junto com a inteligência ,
com a inteligência,
que é a única inutilidade da natureza
e evoluíram juntos
descobriram metais, impérios , calendários
e foram à lua.
Sim, foram à lua, a mais obscena loucura, a mais linda loucura da humanidade,
que magnífico excesso
bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.
E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,
com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.
Oh! A inútil fé, obrigado ,muito obrigado
por decoraram cavernas e fazerem monólitos,
por construírem as ociosas pirâmides
e catedrais com vitrais.
Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,
Todos os avanços,
dói, mas é
preciso desmascará-lo
quando pedante e pretensioso,
quando finge-se necessário,
e engana os crentes há tantos milênios.
e se auto-engana há tantos milênios,
que acredita-se imprescindível
e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças
é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,
de ritos de poder
mostra-se arrogante
com a leveza delicada da arte,
que é puramente desnecessária,
quando é áspera com o sorriso, com as férias e os jogos eletrônicos.
Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,
é mais indispensável que o útil.
Sim. Sim. Mais imprescindível que o útil.
Diógenes!
Diógenes!
Diógenes!
Como estava enganado Diógenes!
Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil
e se voltou para o tão primitivo necessário.
Devia ter acumulado inutilidades,
devia ter feito muitas inutilidades,
estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.
Acharia com mais facilidades os
verdadeiros homens que com sua ineficaz lanterna.
Porque estátuas,
porque poemas,
são mais eficazes armas que lanternas.
Há em frente aos quadros, em frente aos livros
mais homens bons, que na frente dos cofres e agências bancárias.

sábado, 30 de julho de 2011

Há comparações que nunca deveriam ser feitas

Eu gosto do "rapaz" (o.k., ainda mais dos The Smiths). E até posso perceber a sua intenção ao ter posto as coisas desta forma. Mas este tipo de fundamentalismos e comparações odiosas não me parece que sejam dignas de alguém com algum protagonismo. E não, isto não é normal. Mesmo que "there is no such thing in life as normal".

terça-feira, 26 de julho de 2011

Guitarra e voz

Uma versão linda da canção dos The Cure...



 E para verem o que ela é capaz de fazer com a guitarra:

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Há mudanças muito difíceis de fazer...

Num anúncio a um banco, que ouço na rádio, uma mulher tenta aceder ao site da entidade mas só com a ajuda do marido lá consegue chegar. Isto porque as palavras utilizadas na pesquisa não são as correctas, complicando o que, à partida, é muito simples.
Mais outra pérola, lida num texto do "Público", sobre um novo modelo automóvel da Lancia:
"Mas há coisas que não mudam: o novo Ypsilon continua a ser um modelo ultrafeminino com detalhes pensados, assegura a marca, especificamente para elas, ao acrescentar o Smart Fuel System, que facilita o reabastecimento ao substituir o vulgar tampão por um dispositivo automático que não permite enganos... ou à inclusão do Magic Parking com o qual o carro encontra o lugar que mais lhe convém e estaciona (quase) sozinho."

domingo, 24 de julho de 2011

Podia ter sido escrito hoje

"Riqueza e velocidade é tudo o que o mundo admira e a que todos aspiram. Caminhos de ferro, correios rápidos, barcos a vapor e todas as facilidades possíveis da comunicação, é para isso que tende o mundo civilizado, para se ultra-civilizar e assim persistir na mediocridade."


GOETHE, W. (1749-1832)  - «Carta a Zelter», cit. in W. Benjamin- Hommes Allemands, Paris, Payot, p.21-22

quinta-feira, 21 de julho de 2011

E o vento continua...

Ouço-o lá fora. Tenho-o ouvido todas as noites. Lembrei-me de um poema do Ruy Belo. Fui procurá-lo e aqui está ele:

O Valor do Vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

in Ruy Belo, Orla Marítima e outros poemas, Assírio & Alvim, 2008, p. 25

domingo, 17 de julho de 2011

"In that dream"...

Só ontem ouvi falar neles. Mas tinha razão quem disse que devíamos estar atentos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Começar e acabar a meio

A certa altura uma das personagens diz: "Nós não estamos perdidos. Só andamos à procura do nosso caminho."
Neste filme não sabemos exactamente como começou a viagem. Nem saberemos, no final, como acabará. Mas percebemos que isso não nos faz falta. As coordenadas espaço e tempo passam para segundo plano ao acompanharmos a evolução daquele grupo, no sentido de uma alteração das relações de poder, que está inicialmente do lado clássico, do mais forte; para estar, no final, do lado daquele que, noutras condições, seria certamente ignorado.
Talvez por a realização ser de uma mulher, a perspectiva feminina é predominante. A câmara está normalmente junto a elas e ouvimos muitas vezes os diálogos dos homens a uma certa distância. E é o comportamento de uma mulher que, apesar do medo face ao desconhecido, irá fazer mudar alguma coisa. 
O filme é também uma homenagem aos espaços agrestes e à natureza, que ali decide tanto quanto os humanos. 
Falta acrescentar que a música, tal como o silêncio, acentuam a tensão presente em certas cenas de uma forma muito bem conseguida.
Ah! E eu gosto tanto da Michelle Williams!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Pequenos crimes conjugais"

Há uns anos atrás vi, no Teatro Nacional D. Maria II, a peça "Pequenos crimes conjugais", da autoria de Eric-Emmanuel Schmitt. A encenação era de José Fonseca e Costa e as interpretações principais de Paulo Pires e Margarida Marinho. O texto, muito inteligente, é um misto de desencanto, tragédia e ironia. Porque o encontrei à venda, comprei-o pouco tempo depois. Hoje reli algumas páginas das quais vos deixo aqui umas linhas: 

Lisa. O destino do amor é a decadência… No início eu era a preferida mas será que continuo a sê-lo? Tu pretendes que me amas mas será que te continuo a agradar? Como eu estou aqui, a questão desapareceu e o desejo também. Tu já não desejas viver comigo porque tu vives comigo. Eu já não sou a tua fuga para a liberdade, eu sou a tua prisão, tu prendes-te a mim, tu estás resignado a suportar-me. 
Gilles. Mas eu quero continuar. Ou melhor, queria… 
Lisa. Continuar porquê? Também em relação a esse aspecto eu li o que escreveste. Homens e mulheres só permanecem juntos pelo que têm de mais sórdido, de mais vil, de mais feio neles: o interesse, a angústia que está presente na mudança, o medo de envelhecer, o medo da solidão. Eles ficam num estado de dormência, apoucam-se, abandonam a ideia de que podem fazer alguma coisa das suas vidas, apenas dão as mãos para não avançarem sozinhos para o cemitério. Tu só ficaste comigo pelas piores razões. 
Gilles. Enquanto que tu, naturalmente, só tinhas boas razões. 
Lisa. Sim. 
Gilles. Quais? 
Lisa. Tu. 
Embora emocionado pela violência com que ela admite a sua dedicação, Gilles não pode impedir a ironia: 
Gilles. Tu amas-me e por isso matas-me? 
Lisa, de cabeça baixa e os olhos no chão, murmura mais para ela que para ele: 
Lisa. Eu amo-te e isso mata-me. 
Gilles compreende que ela está a ser sincera. 

in Eric-Emmanuel Schmitt, Petits crimes conjugaux, Paris, Éditions Albin Michel, 2003, p. 96-98

(A tradução é minha) 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"I know all there is to know about the crying game"

Um pouco a propósito da temática... uma cena de um filme de que gosto muito. E uma bela canção.

Será que ainda há esperança?

A leitura da primeira epístola aos Coríntios 6, 10, atribuída ao apóstolo Paulo pode fazer parte, segundo o bispo de Alcalá de Henares, de um conjunto de leituras a consultar por "hombres y mujeres que experimentan una atracción sexual hacia personas del mismo sexo". Segundo diz, "es posible la esperanza". Será? Será mesmo que considerar esta questão como um mal à espera de cura nos dá alguma esperança de que, no futuro, a igreja católica a aborde de uma forma diferente?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Luzes

As paredes dos velhos armazéns ameaçam ruir. Mas as placas de aviso não os afectam. Na escuridão da noite eles ali estão, no silêncio, à espera. Na cabeça um boné com uma pequena lâmpada que se acende quando precisam de mudar o isco. O rio está salpicado de luzes verdes a boiar, pequenos flutuadores assinalando o local onde caiu o anzol. Do outro lado do rio, as luzes de Lisboa.

domingo, 3 de julho de 2011

Afinal não sou da classe média

A autora deste blogue vai de férias alguns dias. Não promete, por isso, que o ritmo de publicação de posts e comentários seja o habitual. 
Seguindo os conselhos de José António Saraiva vai de férias cá dentro, beberá água, cerveja e outras bebidas de marcas nacionais e quanto ao hotel a opção é claro que será de menos de cinco estrelas. Não viajará num Audi 6, guardará os pacotes de açúcar que não usar e, se comer em restaurantes, levará os restos de comida consigo (se ela for boa). Não vestirá roupa Armani nem usará sapatos de luxo e, mostrando a sua beleza natural, os produtos de beleza ficarão em casa. O cabeleireiro ficará talvez para a altura do Natal... Já a depilação... Bem, estamos no Verão.
Vendo bem... o que é que será diferente para mim nestas férias? Ah! Talvez o facto de sair de casa sabendo que, em Portugal, há directores de jornais que não sabem em que país vivem...

Uma das razões/poemas porque gosto de Pedro Mexia

Os Domingos de Lisboa


«Os domingos de Lisboa são domingos
terríveis de passar», mais terrível
este verso ter quarenta anos.

Tenho menos de quarenta, prazo
de alegrias, mas ao domingo
é plos domingos que tenho tristeza.

Os domingos em que não soube
e se soubesse não seria diferente,
os domingos de pó e naftalina.

Os domingos sem pão e sem
correio, dia do Senhor
que morreu à sexta-feira.

Os domingos de arrumações,
de matutinos do mês passado,
da sesta hipocondríaca na cama maior.

Os domingos decrescentes,
dia em que se envelhece, missa
para os que são de missa,

futebol para os da bola,
e para as famílias almoços
em melancólicos restaurantes,

parques e lojas onde também
estou, passeando com os olhos
os filhos, saudáveis, dos outros.

in Pedro Mexia, Menos por Menos, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2011, p. 83

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Iniciação

A loja dá corpo a um antigo negócio de família. Já o seu pai, antes dele, fora o responsável. Hoje, frente à montra, tirou o filho, ainda bebé, do seu carrinho e, enquanto com um dos braços o segurava, apontava com o outro os artigos expostos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Mistérios da vida quotidiana tranquila"

A propósito do aniversário da minha filha C., esta semana, ofereci-lhe um belíssimo livro:


São 15 pequenas histórias de Shaun Tan com ilustrações magníficas. E é um repetente por aqui, no mesmo mês.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Uma rua para os próximos dias...

Antes de entrar num café tenha alguns cuidados

Por exemplo: não beba álcool, nem consuma Valium ou soníferos. E, digo eu, simpatizar com algumas figuras da História Mundial também não ajuda muito. Argumentar que não se lembra de nada poderá ser um sinal que a medicação que toma não está a resultar bem. Mas não me parece que possa servir de desculpa para um acto inqualificável como este, de alguém que era suposto ditar tendências. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Solidão

Tinha perto de 80 anos. Da sua terra, no Minho, já só recordava que a tinha deixado há muito tempo. Estava em Lisboa há 60 anos. Tinha vindo servir. E tanto tinha servido que não tinha sobrado tempo para aprender a ler, a escrever, a ser. A família com que ainda sonhara não chegou a acontecer. Era aos filhos dos outros que lavava a roupa, que a passava. Era para eles que cozinhava. Mais tarde, quando o corpo deixou de colaborar neste jogo do faz de conta, a reforma. E ao rendimento miserável vinha agora juntar-se a enorme constatação de que estava só. No edifício onde vivia era a única moradora. Os outros tinham já morrido. Para chegar à sua casa, no último andar, passava por várias portas fechadas que nunca se abriam. Foi no Centro de Dia que encontrou alguma animação para os seus dias sempre iguais. Era lá que as tarde eram passadas. Com outros homens e mulheres, muitos igualmente sós, partilhava a dificuldade, cada vez maior, em manter a nitidez das suas lembranças. Um dia não foi. Ao segundo estranharam a sua ausência. Quando foram verificar encontraram-na. Tinha morrido na sua casa, depois de ter subido os degraus carcomidos uma última vez. A sua casa continua na mesma. Os sobrinhos, que não a viam há anos a mais, nada quiseram dos seus pertences. Coisas que a eles nada diziam. Nem as fotografias antigas onde a tia, em dias distantes de felicidade, sorria.

À memória da D. Aurora

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quadras ao (des)gosto popular

Mesmo com algumas hesitações na gramática... e ao nível da entidade a quem se dirige a prece (Santo Antoninho ou FMI) o apelo vai no mesmo sentido.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Santo no top

Comerciantes e moradores em bairros históricos de Lisboa, quando questionados por um jornalista da rádio, afirmaram que, em termos de público, este foi o melhor "Santo António" dos últimos anos. Para o ano como será?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perfeição

No aniversário do nascimento de Pessoa:

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito."

in Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, p. 288

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O escriturário, a criança, o mendigo, o palestrante, o homem/mulher e o revoltado

Quando, aos 14 anos, ouviu falar dele, Carlos Paulo procurou-o no "Martinho da Arcada". Foi um empregado que lhe explicou que ele tinha já morrido há muitos anos. Mas se a ele já não o encontrou, a procura nos alfarrabistas permitiu-lhe tomar contacto com alguns poetas que afinal eram um só homem de carne e osso. Naquela altura, na escola, só se falava da "Mensagem" mas uma professora tinha-o despertado para outros poetas, como Álvaro de Campos ou Ricardo Reis. E a partir do momento em que tomou contacto com Bernardo Soares nunca mais o seu livro, o do desassossego, deixou de fazer parte da sua vida.
Quando eu fiz o ensino secundário, Pessoa era já um autor que fazia parte do programa. Cada vez que líamos um novo poema dos seus heterónimos ficávamos com uma sensação de quem tinha acabado de crescer mais um bocadinho. E eu acho que era isso mesmo que acontecia. O "Livro do Desassossego" veio mais tarde. A dificuldade em ler um livro que não é um livro só aguça mais a nossa vontade de o ler mais e mais.
E agora quando, como sempre, o desassossego toma conta das nossas vidas, veio a peça de teatro. Estreada em 2001, e depois de muito percorrer o país, está novamente na Comuna, onde finalmente a vi. Carlos Paulo é intensamente cada uma das personagens. Ou serão elas que ali estão tal a cumplicidade que conseguimos sentir.
Mesmo sendo dois actores em palco ele está sozinho, como Bernardo Soares está sozinho ou como Fernando Pessoa está sozinho. E é sós que estão também as personagens interpretadas.
E nós, como ficamos nós no final da peça? Desassossegados será um lugar comum. Será. Mas é o próprio actor que o diz: "A minha esperança é que, no final de cada noite, alguém saia daqui diferente do que quando entrou; alguém saia daqui desassossegado para sempre..." E a verdade é que é através das reflexões daquelas personagens que percebemos que ainda não parámos de crescer, aos bocadinhos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Leva-me ao cinema...

A lavagem do vidro

Eram dois trabalhadores. Lavavam o vidro do mupi na paragem do autocarro com uma diligência extrema. Aquele, certamente, ficou bem limpo. Na fotografia, a rapariga, vestida com um pequeno bikini, sorria-lhes.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

mai acceso, mai acceso, mai acceso...

Eu não consigo mesmo gostar de Berlusconi.
Mas nem todas as mulheres pensam assim. E estas, afinadas ou não, há uns anos atrás, lá mostravam os dotes ao seu querido Silvio. Mas as crianças, as crianças, tinham mesmo que fazer isto às crianças?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Votar foi fácil. Votar é que foi difícil.

Junto à mesa onde eu deveria votar ninguém aguardava. O papelinho da Junta de Freguesia com um número assegurava que tudo correria sem problemas. Que diferença em relação às anteriores eleições! Talvez por isso demorei um pouco mais na cabina. Li duas vezes os nomes dos partidos. Estudei os símbolos. Tentei recordar-me do que ouvi em relação às propostas de cada um. Mesmo assim não me consegui decidir. Dobrei a folha de papel sem que lá dentro nada indicasse um sentido. Saí dali com meia sensação do dever cumprido...

domingo, 5 de junho de 2011

Participar

"As sociedades democráticas podem existir com diferentes níveis de participação, embora seja evidente que deles decorrem consequências diversas. Os que acreditam ser a democracia melhor servida por um elevado nível de participação apontam para o fato de que um Estado democrático, ao invés da oligarquia tradicionalista, deve depender do consentimento da sua cidadania. E um estado em que uma grande parte da população seja apática, desinteressada e inconsciente é um daqueles em que o consentimento não poderá ser nunca tomado como coisa certa e em que, na realidade, o consenso pode ser bastante fraco... A falta de participação e representação também reflete a ausência de uma cidadania efectiva e a consequente falta de lealdade para com o sistema como um todo."

in Seymour Martin Lipset, O Homem Político, Rio de Janeiro, Zahar Editores, p. 227


sábado, 4 de junho de 2011

Mal a gente vem ao mundo...

Desta vez não consegui escrever nada sobre as eleições do próximo domingo.
Mas tenho-me lembrado desta canção...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Leonard Cohen

Basket

You should go
from place to place
recovering the poems
that have been written for you,
to which you can affix your signature.
Don't discuss these matters
with anyone.
Retrieve. Retrieve.
When the basket is full
someone will appear
to whom you can present it.
She will spread her wide skirt
and sit down
on a black stone
and your basket will bounce
like a speck in sunlight
on the immense landscape
of her lap.

in Leonard Cohen, Livro do Desejo, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2008, p. 51

Também a propósito deste prémio. 

100 anos a educar


A citação é de António Sérgio e podemos lê-la na Exposição Educar - Ensino para todos. Ensino na I República, em Lisboa, no Palácio Valadares, até 30 de Junho.
Calhou ter sido no Dia Mundial da Criança que a fui ver. O Largo do Carmo estava lindo com os seus jacarandás em flor. Cá fora um grupo de crianças cantava no que parecia ser uma actividade que comemorava o dia. 
A exposição, integrada nas comemorações do centenário da República, é bastante interessante e dá conta da importância dada à Educação pelos governos republicanos. O investimento em infraestruturas, em material e em recursos humanos foi extraordinário pois entendia-se que os cidadãos só seriam capazes de construir um futuro em liberdade se tivessem os instrumentos necessários para compreenderem o mundo à sua volta. Nessa altura o acesso à escola era mais dificultado do que agora. No entanto custa perceber que, 100 anos depois, estamos longe de cumprir os objectivos iniciais.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A realidade e o sonho

Numa mão o chapéu de chuva que servia de bengala. Na outra o saco de plástico. Os artigos que trazia hoje para vender eram "carteirinhas para o passe". Ali ninguém lhe comprou nada. Arrastando os pés, passou então à carruagem seguinte.
As pantufas que trazia calçadas, que causam estranheza nestes dias quentes, (ou noutros, se pensarmos que não é suposto serem trazidas para a rua) estavam cheias de um pó branco por cima. Imaginei-as, de noite, junto a uma parede, onde a caliça vai caindo, numa casa em que o abandono a que é votada é semelhante ao que é votado o seu ocupante.
E imaginei-o a ele. A sonhar. Um sonho em que lhe bastava uma carruagem para vender tudo o que trazia. E a sair com um sorriso, na direcção de uma sapataria.