quarta-feira, 5 de maio de 2010

Que coisa tão rebuscada!

Há determinadas campanhas publicitárias que até constrangem de tão sem sentido. Esta é muito ridícula.

"A desonestidade e o lápis azul"

Porque achei interessante esta situação publico aqui o que escreveu uma amiga, a propósito do que lhe aconteceu com a publicação de um texto num jornal. Eu sei que eles se reservam o direito de publicar ou não e que o espaço é escasso. Mesmo assim:

"O destacável Fugas sai ao sábado, aconchegado pelo jornal Público. Este saiu neste 1.º de Maio. Neste destacável há uma rubrica aberta aos leitores intitulada As Fugas dos Leitores. Por única condição, em rodapé, o texto não deve ultrapassar o limite de 3000 caracteres.

No rescaldo de uma viagem à China, decido participar. Redijo o texto, contabilizo os caracteres, que respeitam o limite imposto, subscrevo com pseudónimo (o nome de uma das minhas bisavós, Catarina Duarte), anexo uma fotografia da muralha da China e envio-o por mail, declarando nesse momento a minha identidade, em conformidade com o meu endereço electrónico.

O jornal Público prescinde do seu direito de não publicar o texto e publica-o mas, com o exercício de um lápis azul, censura-o. Sem poder alegar excesso de caracteres, faz desaparecer um pequeno parágrafo, entalado entre o relato da experiência de visitar dois templos, um taoista, o Templo do Céu, e o outro budista, o Templo Lama. A propósito do ritual taoista de sacrifício de animais atirados a fogueiras, escrevi e foi censurado “Contemporâneos a estas fogueiras, e também em nome do Céu, são os auto-de-fé do meu país e da minha cidade de Lisboa, que serviam para atrofiar a populaça e consolidar o poder da igreja católica apostólica romana.”.

Do modo como foi publicado, o texto não apresenta qualquer vestígio de censura: é como se o parágrafo e o tipo de relação histórica entre os autos-de-fé e a igreja católica nunca tivessem existido. Mas, apesar desta divina intervenção, a linha editorial do Público insiste na subscrição do texto por uma única autora, que já não está sozinha. Porque o Público proibiu o meu direito de liberdade de expressão e porque omitiu a sua própria acção, concluo que, afinal, os outros tempos não são outros, são mesmo estes."

O texto e o título são da autoria da protagonista desta situação.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um cachecol

Era cedo. Em Lisboa havia algum vento mas não justificava um cachecol. O homem, jovem, encostado à ombreira da porta, tinha um ar desafiador. Fumava calmamente. Quase não se mexia mas tinha um ar desafiador. Parecia indiferente aos carros que passavam em marcha lenta, por causa da fila. Mas o ar desafiador estava presente no seu rosto. Só quando me aproximei mais reparei. O cachecol era do Futebol Clube do Porto.

Em tempos de crise nascem árvores na planície!

Depois de uns dias no Alentejo, afastada do computador, regresso com uma sugestão de post feita pelo Paulo Marçal que, ainda por cima, lembra as paisagens alentejanas apesar de, neste caso, estarmos em plena Lisboa (obrigada, Paulo, pela foto e pela legenda, aqui "pedida emprestada" para o título).


sexta-feira, 30 de abril de 2010

I wish I had a river (ou o Natal é quando um homem quiser)

A força do exemplo

A carangueja e a filha

Madre Cangreja, um dia,
Dizia à filha sua:
«Que andar, meu Deus, é êsse?
Porque não vás direita?

- Oh mãe, vós como ides?
Andarei eu dif’rente
Que anda a nossa família?
Querer que ande eu direita
Quando andam todos tortos!...

Razão tinha. É geral o poderio,
Do doméstico exemplo.

                                           Filinto Elísio


in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 50

quinta-feira, 29 de abril de 2010

N(amor)o violento não é amor

Este é o lema de uma campanha que foi promovida pela Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género e que visa alertar para a violência no namoro. E foi exactamente devido a uma conversa entre um rapaz e uma rapariga, que não pude deixar de ouvir no comboio, numa das minhas curtas viagens diárias, que este assunto me suscitou maior interesse. Não vou aqui explicar o teor da conversa mas digamos que me impressionou a forma como a rapariga aceitava e parecia achar que merecia a agressividade do seu namorado.

Descobri então que, tanto a nível nacional como europeu, os números relativos a esta questão são preocupantes. Alguns estudos mostram que a violência no namoro é, para muitos jovens, entendida como uma manifestação de amor. As condutas violentas, ou o abuso sexual existem e são minimizados ou negados, considerando, muitas vezes, os rapazes, que as raparigas são inferiores. Os sinais de abuso identificados entre adolescentes e jovens namorados vão desde a humilhação, o insulto, o controlo e uso de objectos do parceiro (por exemplo, o telemóvel) até a restrições a relações de amizade, modo de vestir, de falar e comportamentos que podem chegar a impedir que o outro prossiga com os seus estudos ou projectos pessoais.

Observa-se assim que a violência doméstica é, muitas vezes, um prolongamento de uma situação já existente numa fase anterior. O que mais me faz pensar é a aparente passividade de quem é vítima e o facto de vítima e o seu agressor estarem ambos confiantes nas razões que associam ao seu comportamento.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Somewhere...

É já no início do próximo mês que Rufus Wainwright volta a Portugal para concertos no Porto e em Lisboa.
Do seu disco de homenagem a Judy Garland fica este "Somewhere over the rainbow" com a particularidade de ser acompanhado, ao piano, pela sua mãe, entretanto falecida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Uma questão de pouca fé

Não pude deixar de achar engraçada esta publicidade quando a ouvi na rádio. Se pensarmos que as estratégias das empresas têm como objectivo o lucro e mesmo partindo do princípio que as vendas de televisores e portáteis sejam tão elevadas que o risco será compensado, parece-me que esta campanha demonstra a falta de fé na nossa selecção. Mas não devemos ficar muito tristes. É que campanhas iguais estão a decorrer noutros países europeus, como a Espanha e a Inglaterra. Algo me diz que, para a Toshiba, nenhum destes países é favorito mas, como só um país poderá ser vencedor do Mundial de Futebol, o risco não será assim tão grande...

domingo, 25 de abril de 2010

O meu 25 de Abril de 2010

Agora, passados 36 anos, penso em todos os dias 25 de Abril que passaram e que nunca deixei de comemorar, mesmo que apenas interiormente. E penso neste 25 de Abril de 2010 e aquilo que mais tenho presente, tal como então, mas já não tão centrada em mim, é a sensação de preocupação face à imperfeição que é esta nossa sociedade, que foi crescendo a partir de uma revolução que nos enche de orgulho.

O país mudou muito e as pessoas que nele vivem viram as suas vidas alteradas quase todas para melhor, mesmo aquelas que dizem o contrário.

Mas a verdade é que quando pensamos nas questões económicas, quando vemos a situação de pobreza ou pré-pobreza em que se encontram tantas famílias, tantos velhos, quando pensamos na educação, que não parece estar a cumprir a sua função, quando os exemplos que nos dão quem tem responsabilidades na administração da justiça nos fazem duvidar dela, quando os cientistas sociais nos apresentam as suas análises, quando vemos, ouvimos e lemos o descontentamento em tanta gente conhecida e anónima não podemos deixar de reflectir sobre o que fizemos mal, sobre o que não fomos capazes de fazer. E digo nós porque a liberdade que (re)conquistámos em Abril de 74 trouxe com ela a responsabilidade de, a partir daquele momento, todos termos um papel a desempenhar na forma como o país evolui. E, na realidade, parece-me que chegamos cada vez mais à conclusão que não o desempenhámos bem.

Estamos mesmo a precisar de encontrar a semente que alguém esqueceu num canto de jardim. Talvez dentro de nós. Terá sido aí que falhámos?

O meu 25 de Abril de 1974



É desse dia uma das minhas primeiras memórias. Memórias nítidas, pelo menos, sem interferências exteriores de alguém que me conta o que eu fiz e como fiz. Um dia normal que deixou de o ser quando, chegada à escola, nos disseram que, naquele dia, tínhamos que voltar para casa. Foi o que fiz. Não para a minha casa, mas para a dos meus padrinhos que estavam lá sempre quando eu precisava.

E é do resto do dia que mais recordo a ansiedade com que os meus 7 anos traduziam os comunicados ouvidos na rádio. As horas que passei sentada num banco à mesa da cozinha enquanto o locutor aconselhava as pessoas a ficarem nas suas casas. A minha preocupação estava com o meu pai, militar na altura, que tinha ficado “de prevenção” e com a minha mãe que, logo pela manhã, tinha ido para Lisboa, visitar um irmão que estava no hospital. Tinha medo de que algo lhes pudesse acontecer. A morte do meu avô alguns dias antes e a sensação de perda estavam ainda muito presentes. Nessa altura não me apercebi. Soube só depois que ele gostaria de ter passado por aquele dia. Falhou-o por pouco.

Para mim nada fazia muito sentido. Percebia apenas a gravidade do que estava a acontecer. Só mais tarde soube que, ao contrário do que era aconselhado, muitos saíram à rua e fizeram desse dia um dia de festa. E só mais tarde ainda percebi porquê. Para mim foi um dia imperfeito. Para todos nós foi um dia quase perfeito.

(imagem da Postalfree)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

An lhéngua mirandesa

"L património cultural de l Nordeste Trasmuntano custitui un eilemiento mui amportante de la sue eidentidade i al mesmo tiempo ua rezon de zambolbimiento. Miranda ye ua region  raiana cun Castielha i Lhion, regiones que quemúngan dua cultura mui armana ne l que ten a ber cula música / eitnografie - la cultura feliçmente nun ten raias.
La lhéngua própria, l mirandés, la música i ls sous strumientos, las manifestaçones festibas, la gastronomie, toda la bibença ne l campo i muitas outras rezones dan-le a Miranda i al Nordeste Trasmutanos an giral, ua cultura i eidentidade que merece ser acarinada, guardada i bibida.
Galandun Galandaina ye cumpuosto por quatro pessonas: Paulo Preto, Paulo Meirinhos, Alexandre Meirinhos i Manuel Meirinhos. Dedícan parte de la sue bida a arrecolher, studar i dibulgar nas mais defrentes formas la música tradecional de la pequeinha region de l Nordeste Trasmuntano. Fázen por le dar un aire de modernidade als soustrabalhos, nun cçuidando ls ritmos i timbres tradecionales de ls strumientos i bozes. Fázen l mais de ls sous strumientos, modefícan i strefórman outros que úsan. Deste modo cunsíguen sonoridades i afinaçones que le dan un stilo mui própio."

(Na introdução ao álbum Senhor Galandum, de 2009, uma óptima surpresa, cheio de temas muito interessantes)

Ora vejam então como amostra este Fraile cornudo: "la crítica feita al clero ye un manantial de músicas i quadras na tradiçon mirandesa."


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Deixem o meu carro em paz!

Não percebo a insistência em deixar, no pára-brisas do meu carro, folhas A5 com os contactos de alguém que, segundo diz, compra carros velhos/usados. Por vezes, como aconteceu hoje, chega a estar escrito que compram mesmo que seja para abate. Mas que grande lata!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mark Twain

Não, não fui eu que me lembrei que passavam, agora, 100 anos sobre a morte de Mark Twain. A verdade é que ao ler este post lembrei-me do que eu gostava de ler este autor há tantos anos atrás.
Em jeito de homenagem deixo aqui a primeira entrada do diário de Adão, "traduzido do manuscrito original" por este autor.

Segunda-feira

Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. [...] Está enevoado hoje, vento de Este; acho que nós ainda vamos ter chuva. [...] NÓS? Onde apanhei esta palavra? - o novo ser usa-a amiúde.

in Mark Twain, Excertos dos diários de Adão e Eva, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2004, p. 9

Solidariedade para com Carlos Carvalhal

Não tenho nada contra (ou a favor) dos actual e futuro treinadores do SCP. Mas ainda Carlos Carvalhal tem jogos pela frente, até ao final desta época, e já anda Paulo Sérgio a definir os objectivos para a próxima. Os sócios e simpatizantes que o digam mas se normalmente é "rei morto, rei posto", parece-me de muito mau gosto querer que um treinador cumpra o seu trabalho até ao fim quando o que o irá substituir já se comporta como se aquele não existisse.   

Vendedor de flores

Chovia lá fora. No interior do mercado pouca gente. Alguns casais, já de avançada idade, faziam as compras em conjunto. A necessidade de comprar flores levara-me ali. Na primeira banca não havia o que eu procurava. – Mas ali o meu colega tem. E lá estava ele. A idade marcada num rosto cansado. A camisa de flanela aos quadrados. O frio que parecia sentir. E a tristeza. Tinha poucas flores. Mas em relação a todas fez questão de me dizer o preço, como que a lamentar-se por não existirem razões para ninguém lhe comprar nada. No final, a oferta de um cravo vermelho. – Eu sei que ainda é um pouco cedo, mas é por ser mês de Abril, disse. Não pude deixar de pensar que, para ele, Abril já é muito tarde…

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Se um vulcão incomoda muita gente...

dois vulcões (sobretudo se um deles for o Katla) incomodam muito mais.

Finalmente!

Finalmente, sim... Já não se aguentava mais o tempo que a Comunicação social dedicou ao casal presidencial nestes últimos dias. Quantos quilómetros percorriam de carro, o que comiam, o que liam, quem encontravam, quem iam recolhendo pelo caminho...

domingo, 18 de abril de 2010

À deriva

Egon Schiele é um dos meus pintores favoritos. Discípulo de Klimt, fez, no entanto, uma utilização muito mais comedida da cor que o seu mestre e aproximou muito mais da realidade, e menos do nosso lado onírico, aquilo que pintou.


Deste quadro retenho os cabelos espalhados em ondas, os lençóis revoltos, o movimento, a aparente tempestade de sentimentos que nos faz pensar num par de amantes à deriva num mar.

Die Umarmung (Liebespaar II), Egon Schiele, 1917
Imagem aqui.

sábado, 17 de abril de 2010

Being a pet

A notícia já tem algum tempo. Mas só agora a li. A perplexidade que me assaltou é grande. Não discuto a atitude do condutor do autocarro que impediu a entrada do casal e cuja justificação, apesar de fazer algum sentido, me parece que não deixa de ser discriminatória.

Mas, o que realmente me impressiona é a postura destes dois jovens. A liberdade individual é muito importante. E se alguém, como a Tasha, quer utilizá-la para ser um animal de estimação estará certamente no seu direito. Mas, mesmo que seja só para dar nas vistas, e não sabendo se são caso único, ou não, não posso deixar de pensar no que levará uma mulher a gostar de "ser levada à rua" agarrada por uma trela. Será que o facto de não cozinhar e não fazer limpezas e eventualmente ser presenteada com umas festas de vez em quando compensa a submissão a um dono? E esse dono, será que se sente bem sabendo da dependência de alguém que, sendo uma pessoa, com os mesmos direitos e deveres que ele próprio tem, se anula ao ponto de não ir a lado nenhum sem ele?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ainda há baladeiros (e dos bons)

Dele disse Caetano Veloso que "...o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele."

António Zambujo tem dado nas vistas por aí. Esteve na quarta-feira no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e vai estar, no domingo, na Casa da Música, no Porto. Mesmo quem não é apreciador de fado lhe reconhece qualidades. Vejam/ouçam só esta versão de "Nem às paredes confesso".
 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Acolhimento ao turista

A cara de espanto do casal de turistas (não percebi qual a língua que falavam entre eles) quando o senhor que vende “carteirinhas para o passe a 1 euro” se lhes dirigiu em inglês. Eles, depois de responderem que não queriam, ficaram a rir e a comentar a situação. Certamente inesperada, esta capacidade linguística causou muitos sorrisos entre os passageiros da carruagem que pareciam pensar que este vendedor de ”carteirinhas para o passe” contribuía, significativamente, para uma apreciação positiva por parte daqueles visitantes em relação ao nosso jeito de acolher.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A propósito de duas coisas

Depois de ter andado a acompanhar as leituras de um livro de Diderot, no blog experimental e dadas as recentes e constantes notícias na comunicação social, sobre a forma como a igreja, em alguns casos, tem tratado aqueles que, por vontade ou por imposição, passam parte da vida a ela ligados; lembrei-me do único livro de Diderot que li até agora. Trata-se de "A Religiosa", livro publicado postumamente em 1796, que nos permite acompanhar a vida no interior de um convento, através dos olhos de alguém que não desejou lá entrar.

Desse livro retiro um excerto:

(…) Deus, que criou o homem social, aprovará que o encarcerem? Deus, que o criou tão inconstante, tão frágil, poderá consentir na temeridade dos seus votos? Esses votos, contrários à inclinação geral da natureza, poderão ser alguma vez bem observados a não ser por criaturas mal organizadas, em quem os germes das paixões fossem nulos e que de direito devessem figurar entre os monstros se os nossos conhecimentos nos permitissem medir a estrutura interior do homem como medimos a sua forma exterior? Porventura as funções animais serão suspensas com todas essas cerimónias lúgubres que presidem ao acto de professar quando se consagra um homem ou uma mulher à vida monástica e à desventura? Ou, pelo contrário, não despertarão elas, no silêncio, no constrangimento e na ociosidade, com uma violência que a gente do século desconhece, entretida nas suas distracções? Onde é que se vêem cérebros obcecados pelos espectros impuros que os perseguem e os agitam? Onde se encontra esse tédio profundo, essa palidez, essa magreza, todos esses sintomas de uma natureza que elanguesce e se consome? Onde é que as noites são perturbadas pelos gemidos, os dias repassados de lágrimas vertidas sem causa e precedidas de uma melancolia que se não sabe a que atribuir? Onde é que a natureza, revoltada contra uma opressão para que não foi feita, quebra os obstáculos que se lhe opõem, ganha fúria, lança a economia animal numa desordem para que não há remédio? Onde é que o humor e a mágoa aniquilaram todas as qualidades sociais? Onde é que não há pai, nem mãe, nem irmão, nem irmã, nem parentes, nem amigos? Onde é que o homem, certo de que vive um instante e passa, trata as relações mais ternas deste mundo como o viandante os objectos que encontra no caminho, sem se prender a nenhum? Onde vive o ódio, o desgosto e o histerismo? Onde é a mansão do servilismo e do despotismo? Onde os ódios que não cansam? Onde as paixões germinadas no silêncio? Onde a morada da crueldade e da curiosidade? «Desconhece-se a história destes asilos», dizia o senhor Manouri no seu depoimento. E acrescentava noutro passo: «Quem faz voto de pobreza compromete-se, sob juramento, a ser preguiçoso e ladrão; fazer voto de castidade é prometer a Deus a infracção constante da mais sábia e mais importante das suas leis; fazer voto de obediência, renunciar à prerrogativa inalienável do homem, a liberdade. Quem observa estes votos é criminoso; quem os não observa, perjúrio. A vida claustral só convém aos fanáticos e aos hipócritas».” (…)

in Diderot, A Religiosa, Lisboa, Editora Arcádia, 1975, p. 109-110

sábado, 10 de abril de 2010

"She's not there..."

Na pastelaria

A pastelaria tem já muitos anos. Pela manhã, os clientes mais apressados tomam um café ao balcão. Outros, já reformados e, por isso, com mais tempo distribuem-se pelas mesas, enquanto tomam o pequeno-almoço. A uma dessas mesas está sentada uma senhora, já com algumas dificuldades para executar os movimentos mais simples. É então que um empregado se aproxima. Quase como alguém da família é ele que lhe deita o chá na chávena e lhe parte o bolo. Mas a senhora não parece satisfeita e reclama com qualquer coisa. O empregado afasta-se enquanto encolhe os ombros. Tal como faria alguém da família.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tea time (para acalmar)

Confesso que não sei qual escolher.
Se este:


Se este:


E acreditem que, esta noite, preferia não utilizar a ironia.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Brel

Às três horas da manhã do dia 8 de Abril nasce, em Bruxelas, na Avenida Diamont, 138, Jacques Romain Georges Brel, segundo filho de uma família francófona de origem flamenga.

A força dos textos das canções, quer o tema fosse o amor, em todas as suas formas, os locais que o marcavam, os excessos das touradas ou determinadas figuras como os burgueses, ou estas beatas, está sempre presente. A tristeza, a nostalgia, mas também a ironia, a mordacidade continuam a impressionar, a impressionar-me.

E a forma como as interpretava no palco, como um actor, que também era, não nos deixam indiferentes. Quanto a mim não é só no meu "perfil do blogger" que ele está. Regresso a ele tantas, mas tantas vezes...


As nossas linhas

Todos os políticos, com um papel importante nas decisões que são tomadas, estiveram lá. Mas duvido que tivessem parado, escutado e olhado.


Trailer Cinema "Pare, Escute, Olhe" from Pare, Escute, Olhe on Vimeo.

Em 1988/1989

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quente, morno, frio... GELADO!



Na sua loja de Cascais o Sr. Attilio Santini costumava dizer-me, quando me via comer uma taça de gelado, que ele deveria ser saboreado lentamente e que não era preciso tanta quantidade para ficar satisfeita. Mas eu, que andava vários quilómetros de carro para ir propositadamente comer o melhor gelado do mundo, queria aproveitar ao máximo aquele sabor que, talvez sem razão, me parece agora menos bom. Mas, de vez em quando, continuo a fazer os tais quilómetros para o ir comer.
Ora, agora, o que vou eu fazer com uma loja tão perto do meu local de trabalho? Não sei se vou conseguir resistir. E será que quero mesmo resistir?

domingo, 4 de abril de 2010

Ovos da Páscoa...

com recheio. Não se pode dizer que quem recheou os ovos não estava imbuído do espírito da época.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma tisana de Ana Hatherly

[69]

. a história é infinita. podemos interceptá-la em qualquer ponto. era uma vez uma cidade onde os habitantes sabiam tanto do sofrimento humano que quando acordavam deitavam-se logo.

in ana hatherly, 463 tisanas, Quimera, 2006, p. 51

Um piano e uma escada

Lisboa, Outubro 2009

Mais uma prova

Ontem à noite no Lux e depois de Bloodshot Bill e antes dos Heavy Trash, Paulo Furtado, na sua versão de Legendary Tigerman, voltou a provar que, mesmo a solo, é um músico de mão cheia. A mim convenceu-me. Está bem, confesso: já estava convencida antes.

terça-feira, 30 de março de 2010

(At the edge of the world)

Charlie Haden e o seu contrabaixo precisam de poucas apresentações. Já gravaram com músicos importantíssimos. Lembro só que um deles foi Carlos Paredes (em 1990).  Por curiosidade foi também preso em Portugal, em 1971, por ter dedicado uma canção aos partidários da independência das colónias portuguesas de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Do magnífico "Nocturne" deixo aqui:

segunda-feira, 29 de março de 2010

Luz azul

Lisboa, Março 2010

As calças de ganga

- Eu, menina, nunca usei calças de ganga.
A conversa tinha começado com o dono do café. Para além dele éramos as únicas pessoas presentes. A senhora, muito bem cuidada, deixando a um canto as minhas calças de ganga e o blusão já com alguns borbotos, continuou:
- E olhe que já tenho 81 anos! Não me leve a mal, a si ficam-lhe bem as calças mas eu experimentei-as uma vez e percebi logo que não era roupa para mim. E olhe que eu, quando era nova, era de fazer parar o trânsito.
Depois de me perguntar a idade e, na sequência da resposta, me ter passado a tratar por senhora, acrescentou:
- Em 1958, quando cheguei a Lourenço Marques, fiquei doente durante 6 meses, o tempo que lá estive. Não conseguia perceber como é que pessoas normais conseguiam vestir aquilo. Aqui, em Portugal, só os varredores das ruas as usavam. Luanda não, Luanda era como Lisboa. Nenhuma diferença! Mas em Moçambique, tão próximo da África do Sul, era de mais.
Para lá da soberba contida na explicação, achei engraçada a forma como defendia o seu ponto de vista.
Depois de algumas palavras trocadas, saí do café. Não sem antes a senhora me desejar muitas felicidades para o futuro e o dono do café me dizer:
- Esperemos que a menina chegue àquela idade assim.
E eu, pensando na idade desta mulher e na forma como se percebia estar bem consigo própria, dei-lhe razão.

sábado, 27 de março de 2010

O que eu quero dizer daqui a umas horas

Se eu podia viver sem uma vitória do Benfica no jogo desta noite? Podia, mas não era a mesma coisa.

Ta-da!!!


Foto encontrada aqui.

Não foram os circos que inspiraram Capossela na criação deste espectáculo, mas sim as feiras de prodígios. “A cabra com cinco patas”, “o porco com duas cabeças”… que estavam ali apenas para serem exibidas, não porque tivessem algum talento.

O espectáculo de ontem foi uma festa. Da sonoridade associada ao circo até aos temas mais intimistas, Vinicio foi o maestro de uma orquestra composta por músicos que sabiam tocar muito bem os seus instrumentos (o theremin, controlado por Vincenzo Vasi, é sempre um sucesso), mas foram sempre para além disso. O mágico, presente ao longo de todo o tempo, com os seus números, ora bem conseguidos, ora apenas para nos entreter, foi uma peça que ajudou a manter a ideia de que estávamos num local de magia, conscientemente enganados. O público, composto por muitos italianos e portugueses rendidos, fez do auditório da Culturgest um recinto de baile.

E, no entanto, a alegria não nos fez esquecer que estávamos num “Solo Show”. É que, tal como diz o próprio Vinicio Capossela, “chama-se Solo Show porque vamos ter que lidar com ele sozinhos, aguentando firmes, no palco e na plateia. E também porque, afinal de contas, é só um espectáculo - entretenimento, como dar uma volta numa montanha russa suspendendo a incredulidade. Suspendendo o esforço constante para domar o tempo. Umas tréguas com a vida, para que permitamos ser atacados por dentro, por nós próprios, no momento em que fechamos os olhos”.


quarta-feira, 24 de março de 2010

De Viva Voz e Uma das razões/poemas porque gosto de Miguel-Manso

"De Viva Voz". Era esta a expressão que nos convidava a entrar na sala onde os poetas, sentados por entre o público, ouviam outros poetas ler… poemas, como não podia deixar de ser. E, quando chegava a sua vez, lá se levantavam para, também eles, lerem alguns dos seus.
Foi assim que ouvi Pedro Tamen, Nuno Júdice, Armando Silva Carvalho, Teresa Rita Lopes e Tolentino Mendonça. Mas nem só os consagrados tinham voz. Também alguns poetas mais novos nos mostraram que a poesia, em Portugal, está bem e recomenda-se.
Quando o apresentador, André e. Teodósio, chamou Miguel-Manso lembrou-nos que, fisicamente, havia uma semelhança com Herman Melville. E de facto… Mas o que realmente interessa é a sua poesia e essa vale a pena descobrir. Este foi um dos poemas por si escolhido para ler nessa tarde:

O PREC em 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: “esta
revolução não dá um passo!”

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

[in Quando escreve descalça-se, Trama, 2008]

Fui "buscar" o poema aqui.

Uma viagem de comboio

Via a webrails.tv chegou-me a notícia de um programa engraçado para quem gosta de viajar de comboio (mesmo para os que aguardam impacientes a chegada do TGV). Neste caso a paisagem merece uma atenção que só neste meio de transporte, mais lento, se consegue apreciar. A consultar aqui.

terça-feira, 23 de março de 2010

Luz verde

Lisboa, Março 2010

Precaução

O leão doente

   Um leão vendo-se enfêrmo,
Passa aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo,
   E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão e honrá-los.
   Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e que o procura;
   Porêm na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
   Eis uma esperta raposa
Pára e diz, sem que entre lá:
«Xou! que eu observo uma cousa!
   Pègadas mil aqui há;
Mas para lá tôdas vão,
E nenhuma para cá;
   Saúde, senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão;
   Porque jurei jàmais ir
A qualquer casa ou logar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair.»

Foi reflexão mui subida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer cousa
Sem ver se temos saída.

                                         Curvo Semedo

in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 13

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sean Riley & The Slowriders

Ou como em Portugal se escreve e canta tão bem em inglês:

This woman is crazy
Comes around now and then
And shouts some words at me.

I can't remember where we met
Up north near the border
Or down south by the sea.

She's wrong most of the times
But it's the times when she's right
She really gets to me.

So I pray not to see her again
Everytime she comes around

But I know it's not gonna be easy

I don't know where she is
I don't know where she is now.

She always finds a way to find me
I can't run away, there's no way out
No way I'm gonna stay another day.



Notícias recentes aqui.

sábado, 20 de março de 2010

Durmam bem!

Este dia que passou foi dia mundial do sono. Entre outras iniciativas a Associação Mundial da Medicina do Sono previa a exibição de "vídeos históricos". Sempre gostava de saber que vídeos seriam esses... E será que quem os quis ver lhe conseguiu resistir (ao sono)? Quanto a mim, acho que deveria ter aproveitado para me deitar ontem. É que hoje já não é dia do sono e ele não quer mesmo aparecer...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Pedro Tamen

26.

Suspendo a mão entre o A e o B,
entre a minha vida e a vida que andará
dentro da minha vida.
E o mundo refloresce
com memórias de rios e montanhas
inundando estes mares de sal e carne
onde me afogo
para respirar.

in Pedro Tamen, o livro do sapateiro, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2010, p. 34

Um mundo à beira da estrada

As lojas, junto à estrada, vendem ainda artigos em cerâmica pintados com flores de muitas cores. Mas agora já não se vêem os carros parados à porta. Ou só um ou dois, talvez. Para além dessas lojas só os restaurantes, alguns com dormidas, em construções de rés-do-chão e primeiro andar, pintadas com cores garridas e com azulejos com padrões variados, ainda se mantêm abertos. É num deles que estou agora. Os únicos clientes são alguns motoristas que, por ser hora de almoço, aqui vêm fazer a sua refeição. E é de colher na mão que lhe vão piscando o olho. Ela, a dona do estabelecimento, sorri-lhes. É só para servir à mesa que utiliza o batom que comprou da última vez que esteve na cidade. Enquanto está na cozinha não vale a pena, pensa ela. Desde que regressou de França está para ali metida, sem conversar com ninguém. Com tanto que fazer que o seu homem tem e a sua filha a maior parte do dia na escola, até se esquece que é tão nova e que sempre gostou tanto de brincar, de conversar e passear com as suas amigas. É como se aquele restaurante fosse o seu mundo. E ela sente que é um mundo pequeno demais. E, no entanto, a estrada está mesmo ali, a alguns passos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Poesia (dia mundial)

A poesia está em todos os meus dias imperfeitos. Mas no domingo, dia mundial da poesia, podem até passar a Ponte 25 de Abril a pé, que não deixa de ser uma experiência um pouco poética, quando nos sentimos oscilar por sobre o Tejo; mas lembrem-se que há muitos programas interessantes, como este do CCB para, nesse dia, nos encherem os sentidos de palavras.

Quem parte e reparte...

O cartaz publicitário apresentava uma composição de várias fotografias que formavam uma rapariga bonita vestida com diferentes roupas. Os rapazes passaram e ficaram a olhar o cartaz. Percebi então que eles eram tantos quantos os pedaços em que estava dividido o corpo da rapariga.

"É aquilo ali..."

Já não estamos no dia 17, dia em que Elis Regina comemoraria um aniversário. Mas não faz mal! As efemérides incomodam-me um pouco... e todos os dias são bons para relembrá-la.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Luís Quintais

D.

No dia da tua morte
o que nos restou cobriu-se
de uma intensidade sem justificação.

Um homem desceu uma encosta,
um jornal dobrado em frente do rosto
protegia-o do fulgor da manhã.

Os semáforos fizeram cair
vermelhos amarelos e verdes
com um diabolismo que lhes não conhecia.

Um homem continuou a descer a encosta,
e a sua indiferença era um acontecimento
maior na história do universo.

As crianças regressavam à escola,
excesso de peso nas mochilas,
foi a notícia do dia.

in Luís Quintais, Canto Onde, Lisboa, Edições Cotovia, 2006, p. 32

segunda-feira, 15 de março de 2010

Extraordinário...

este novo disco de Peter Gabriel.

Diz ele que "... Rather than make a traditional covers record, I thought it would be much more fun to create a new type of project in which artists communicated with each other and swapped a song for a song, i.e. you do one of mine and I'll do one of yours, hence the title - Sractch My Back - and I'll scratch yours."

O resultado é de ficarmos sem respiração. Gosto especialmente de "The boy in the bubble", de "The power of the heart" e deste "My body is a cage". Mas todos os temas nos deixam verdadeiramente emocionados.



Para ouvirmos o que tem o próprio Peter Gabriel a dizer sobre as várias canções podemos ouvi-lo aqui e aqui.

domingo, 14 de março de 2010

Pormenores, muito, muito pequenos...

Ao olhar para a empena lateral desta construção parece-me que a etiqueta "arquitectura" não se adequa muito à situação.


Reparem agora no pormenor da janela, ou seteira. É muito pequena, sim. Talvez a intenção fosse deixar entrar algum ar ou um pouco de luz. Mas então para quê pôr uma caixa de estore, também minúscula, a ocupar quase todo o vão? Enfim mistérios...

Cúmplices

Estávamos no ano de 1980. Eu frequentava o 9.º ano numa escola secundária dos subúrbios de Lisboa. Muitos anos depois do início da construção, e com as obras paradas por longo tempo, a escola tinha sido inaugurada no ano anterior. Lembro-me perfeitamente de uma inscrição que durante alguns anos esteve num dos muros e que dizia: “a escola é tua; destrói a tua parte”.

Como praticamente todos os anos acontecia eu estava numa das piores turmas da escola, no que dizia respeito ao comportamento. Era o que dizia a directora de turma aos pais nas reuniões. Eu não dava por isso. O nosso comportamento não parecia muito diferente do das outras turmas. Lembro-me bem dos meus colegas. Havia os que estudavam muito, os que estudavam pouco, os que se comportavam bem, os que só queriam brincar, os mais exuberantes e aqueles que não queriam dar nas vistas. O Rui e o Nuno eram os que mais dores de cabeça davam e os que, simultaneamente, eram os mais populares.

Dos professores recordo alguns. A única que conseguia manter a turma em silêncio e a trabalhar era a de Físico-Química. Todos os outros passavam metade do tempo a mandar calar.

Nesse ano a opção da nossa turma era Saúde. A professora de Saúde era pequena, magra, frágil. Estava ainda a estudar medicina e era o primeiro ano que dava aulas. Percebia-se a sua inexperiência e a dificuldade em lidar com um grupo de miúdos que nem sempre sabia qual o seu lugar. Recordo-a muitas vezes em cima do estrado, com um ar assustado, sem saber qual a atitude a tomar perante as faltas de educação constantes. Um dia, perante mais um disparate qualquer, a professora disse ao Nuno para sair, com falta por mau comportamento. Ele, depois de ter estado durante algum tempo a argumentar e a dizer que não saía, desafiando a autoridade da professora, lá resolveu que sim, sairia, mas pela janela. A nossa sala habitual era num rés-do-chão e foi mesmo por lá que ele acabou por sair. Durante o tempo que esta situação durou a turma esteve entre o incrédulo e o divertido. Acho que todos acabámos por rir muito. De outra vez foi o Rui que, após uma pergunta da professora, dirigida a todos, pôs o dedo no ar e, perante a incredulidade de todos nós, perguntou-lhe se podia ir ao quadro desenhar um avião. Os vários nãos que ouviu não foram suficientes para o demover e ele acabou por se levantar e ir ao quadro desenhar um avião, perante a impotência da professora que o olhava sem saber o que fazer. Mais uma vez nós nos rimos bastante.

No terceiro período a professora de Saúde já não foi à escola. Soubemos que tinha tido uma depressão. Nunca mais esqueci esta professora e nunca mais esqueci o nosso riso, de alguma forma cúmplice, que sei que se repete de sala para sala, de escola para escola, de 1980 para 2010.

Memórias dos 80's

Os que recordam com nostalgia a música dos anos 80 do século passado têm, este mês, duas razões para estarem contentes. Hoje os Spandau Ballet vão estar no Pavilhão Atlântico.  



No dia 26 são os Alphaville (lembram-se, deste Forever Young?) que estarão no Campo Pequeno.


sexta-feira, 12 de março de 2010

Obrigada

- Ao Carlos Barbosa de Oliveira, do Crónicas do Rochedo por incluir o Dias Imperfeitos na sua escolha de blogs no feminino;
- e mais uma vez ao Pedro Correia, do Delito de Opinião que ali incluiu uma sugestão de leitura de um texto deste blogue.

Sean Penn e "os ditadores democraticamente eleitos"

É conhecida a péssima relação de Sean Penn com os jornalistas. Ele poderá ter as suas razões. Desta vez resolveu passar ao ataque, responsabilizando-os pela má imagem de Hugo Chávez nos EUA.

A propósito desta notícia gostei muito de ouvir os "Sinais" de Fernando Alves, hoje, na TSF.

Os filmes não são nossos…

mas sim dos seus autores. E no entanto quantas vezes já nos apeteceu alterar o final de uma história que é contada num livro ou num filme! Foi o que me aconteceu hoje com o filme “A Single Man”, do realizador estreante Tom Ford, com muitos pergaminhos no mundo da moda, sendo o argumento uma adaptação de um livro de Christopher Isherwood.

Ford filma uma história cujo presente acontece no ano em que ele próprio nasceu, 1962. Numa época em que o sonho americano está em plena expansão, acompanhamos um dia na vida de um professor de literatura marcado pela solidão, após a perda do seu amor de muitos anos. As cores fortes e vibrantes de algumas cenas, que convêm ao aparente bem-estar da sociedade, contrastam com os tons escuros e tristes que sabemos caírem que nem uma luva às emoções por que passa aquele homem.

Não sei se a tradução adoptada, “Um homem singular” será muito feliz. Parece-me que “Um homem só” faria mais sentido.

O trabalho dos actores é fantástico. Colin Firth é extraordinário na sua interpretação (mesmo nas cenas mais inverosímeis da tentativa de suicídio). A forma como nos mostra a contenção das emoções, ao mesmo tempo que elas estão estampadas no seu rosto, demonstra um grande talento.

A aprendizagem da vida depois da perda de alguém querido, a sobrevivência depois de estar submerso no meio do silêncio, deveria ter um outro desfecho. Mas isso é o que achamos nós que, graças ao trabalho dos autores do filme, criámos empatia com o Professor Falconer. E depois são eles prórios a tirarem-nos o prazer de pensar que “a vida continua”. Mas a verdade é que ela, às vezes, não o faz.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Até já, Professor!

O seu "Portugal Hoje - O medo de existir" chamou a atenção de muitos para os filósofos portugueses actuais. Ontem, a sala foi pequena de mais para todos os que quiseram assistir à sua "última aula". Felizmente, um professor pode reformar-se mas um pensador não.
(Ler entrevista no Público aqui)

Em liquidação total

Toalhetes, frascos pequenos, frascos médios, frascos grandes. Já nem assim se vêem livres dos excedentes!


quarta-feira, 10 de março de 2010

Lisbon by night

A visão de um grupo de crianças, entre os 6 e os 11 anos, da cidade, à noite, vista da Serra de Monsanto.

Uma das razões/poemas porque gosto de Maria do Rosário Pedreira

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

                                                  (Os Nomes Inúteis)

in Maria do Rosário Pedreira, Nenhum Nome Depois, Lisboa, Gótica, 2005, p. 13

terça-feira, 9 de março de 2010

Revistas na parede

Paredes forradas de livros já todos vimos. Mas esta está mesmo forrada de revistas (e um jornal).


Lisboa, Fevereiro 2009

Ilusões

Coisas que iludem...

Certa gente ao ver distante
Qualquer sombra sobre o mar,
Julga-a um navio gigante...

Mas depois o seu olhar
De mais perto vê a mancha,
O que a faz rectificar:

Não é navio, mas lancha...
Enfim, vendo-a mesmo à beira,
Vê que é uma banal prancha,

Um bocado de madeira!

Muita coisa inspira culto
Ao ser de longe mirada;
Parece coisa de vulto
E ao perto não vale nada!

                                     Matias Lima

in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 86

segunda-feira, 8 de março de 2010

Identificação

Diálogo matinal:

- Mãe, hoje não é o dia da mulher?, pergunta M. (9 anos)
- Sim, é!
- Boa, então é o meu dia!

Dias internacionais

"... Shakespeare tinha uma irmã… Morreu nova – infelizmente nunca escreveu uma palavra… Penso que esta poetisa, que nunca escreveu uma palavra e está enterrada numa encruzilhada, continua a viver. Vive dentro de vós e dentro de mim e em muitas outras mulheres que não estão aqui presentes esta noite, pois estão a lavar a loiça e a deitar os filhos."

Extracto de um texto lido em Cambridge, em Outubro de 1928, por Virginia Woolf.

in ,Virginia Woolf, Um quarto que seja seu, Lisboa, Vega, 1996, p. 131

Alice e Eduardo

Depois de ter visto hoje "Alice no País das Maravilhas" tenho a dizer que, apesar da actualização da história da Alice, situando-a, já não criança, num país muito mais escuro que aquele que conhecíamos; e apesar do magnífico trabalho de caracterização, com realce para o chapeleiro com os seus olhos desiguais e a sua loucura tão humana, sem dúvida a personagem principal; o meu filme preferido de Tim Burton continua a ser, de longe, "Eduardo mãos de tesoura".

Fotos retiradas daqui e daqui.

sábado, 6 de março de 2010

Les femmes c'est du chinois...

Sempre achei interessante esta canção de Serge Gainsbourg. Logo ele que teve tantas mulheres... E a animação que encontrei há algum tempo, na net, também é muito engraçada. 

Noite encantada

Esta não é uma noite de Lua cheia mas hoje a noite foi de Lobo. Norberto Lobo tocou, na Culturgest, a sua guitarra acústica e a sua tambura (que é o seu principal instrumento quando toca nos Tigrala) acompanhado de Guilherme Canhão, na guitarra e Ian Carlo Mendoza, na percussão.
Foi fácil apercebermo-nos da cumplicidade entre estes músicos mas extraordinário é apercebermo-nos, também, da cumplicidade entre os próprios instrumentos, que parecem ter vida própria.
Quanto a Norberto, a sua aparente timidez não parece coadunar-se com a quantidade de músicos importantes com quem já tocou, em Portugal e no estrangeiro (fez, por exemplo, a primeira parte de um concerto de Lhasa de Sela).
Não nos cansamos de admirar as suas mãos quando toca. Esquecemo-nos que é um auto-didacta. Como pode alguém tirar aqueles sons da guitarra sem ter passado por uma escola? Mas a sua relação com ela deve ter crescido ao mesmo tempo que ele próprio crescia. Só assim se compreende o respeito que o músico tem por aquele instrumento que, de forma quase humana, lhe responde, dando-lhe tanto. Que bom ter testemunhado hoje essa relação.

quinta-feira, 4 de março de 2010

"It's raining cats and dogs"

Chovia muito. Dois cães, aparentemente sem dono, abrigavam-se da chuva sob a varanda de um prédio, que tinha uma loja no piso térreo. Estavam deitados, virados para a estrada. A loja, de artigos para animais, exibia bonitas casotas de tecido, brinquedos feitos em diversos materiais, rações próprias para as várias espécies. Na montra, dois grandes autocolantes reproduziam dois gatos com ar de estarem muito bem cuidados. Os cães, cá fora, estavam, acintosamente, de costas voltadas para todo aquele cenário.

Uma opção que pode fazer diferença

É em São Paulo, no Brasil, onde o problema das crianças que vivem na rua é premente. Mas pode ser noutro local qualquer, por qualquer outra causa igualmente importante.



Encontrado aqui

quarta-feira, 3 de março de 2010

Já só se aceitam notas (e sem garantia de reembolso)!

O que eles aprendem sobre nós

Mesmo que seja só por curiosidade, enquanto esperamos num qualquer consultório, não conseguimos resistir às revistas mensais femininas que, espalhadas pelas mesas, apresentam capas apelativas com chamadas de atenção para artigos que, depois de lidos, se percebe serem todos iguais. E não há revista, dirigida preferencialmente às mulheres, que não tenha artigos do género “o que eles pensam de…” ou “o que eles querem quando…” e que, repetindo os conselhos de revista para revista e de número para número, nos dão dicas acerca da personalidade masculina e dos comportamentos que nós, mulheres, devemos adoptar se lhes queremos agradar.

Pois hoje, tentando dar alguma ordem ao caos que é esta secretária onde escrevo, dei com uma revista, de Janeiro do ano passado, que, recordo agora, me foi entregue aquando da inscrição na prova da mini maratona de Lisboa. É a Men’s Health, dirigida ao público masculino, com uma capa clássica, na qual vemos um homem, modelo certamente, mostrando a sua boa (óptima, diria eu,) forma física e com artigos que, afinal, não são tão diferentes dos que já falei no anterior parágrafo. Assim entre artigos como “abdominais definidos sem ir ao ginásio”, “8 regras para fechar bons negócios” ou ”melhore o seu look este ano” temos também: “mais e melhor sexo - melhore a sua nota na cama” e “fantasias sexuais que elas nunca contam”. Nada do que estava escrito me pareceu novo se bem que este último artigo estava subdividido em vários capítulos dedicado, cada um, a faixas etárias específicas: 18’s-adolescentes; 20’s-as loucuras; 30’s-as trintonas; 40’s- a experiência; 50’s-e depois do adeus; o que não deixa de ser relevante.

Mas o que mais me chamou a atenção foi um artigo cujo título era “Mulheres: dar para depois receber!” e o subtítulo: “demonstre a estas quatro pessoas (e a mais um animal…) que sabe cuidar da princesa que os sogros tanto protegem.” Este sim achei muito interessante por me parecer muito elucidativo de certa forma de pensar. Então as quatro pessoas a quem se deve tentar agradar para que uma relação a dois resulte, segundo este artigo, que não está assinado, são: a melhor amiga, cuja amizade se deve tentar conquistar, revelando interesse pelos seus problemas, demonstrando que se está sempre lá. “As mulheres adoram sentir que somos um ombro amigo e que as protegemos”; o ex-namorado simpático a propósito de quem se deve agir com normalidade e segurança, para não correr o risco de mostrar à namorada um lado inseguro; a sogra que, pelos vistos, é “a primeira pessoa que tem que gostar de si” passando a estratégia a adoptar por incluí-la em muitos dos planos a definir; e o sogro a quem não se deve massacrar com elogios à filha, para não parecer ridículo, mas a quem se deve pedir conselhos sobre assuntos financeiros, profissionais, etc., fazendo-o ver que “considera importante a opinião dele na tomada de decisões da sua própria vida”. Finalmente um animal: o gato pois, mesmo que o deteste, vai ter que “demonstrar afecto pelo bicho”, deixando que o cheire, fazendo festinhas ou dando-lhe comida. Enfim, diz-se no artigo, “ o que um homem tem de fazer para levar uma mulher para a cama!”

Edificante, não acham? Felizmente quem lê estas revistas sabe fazer uma leitura com humor e salvaguardar as distâncias em relação à vida real… não é verdade?

terça-feira, 2 de março de 2010

Postais grátis

Não é fácil, à partida, identificar o "produto" que está a ser publicitado nesta imagem.

Trata-se de um postal da Postalfree que realiza campanhas com bastante criatividade e cujos postais eu gosto de coleccionar (sem grande intenção de ser exaustiva pois normalmente só retiro dos expositores aqueles que mais me despertam a atenção). O produto, serviço ou  iniciativa só é revelado no verso obrigando-nos, por isso, a retirá-lo e a virá-lo para podermos então matar a nossa curiosidade.

Quanto a este em particular, que, na minha opinião, não é dos mais bem conseguidos, dá logo uma pista quando o viramos e que é a frase: "é ainda melhor na versão original", que brinca com o significado, para os falantes do inglês, de "french kiss". Pois então o que é publicitado é a Alliance Française, uma entidade especializada no ensino do francês. Pode não ser uma grande campanha mas sempre é melhor que a do Wall Street Institute e as suas frases de Zezé Camarinha.

Uma das razões/poemas porque gosto de Fernando Pinto do Amaral

Eclipses V

Ama de novo a sombra, essa verdade
resistente às palavras.

Ama outra vez as labaredas
à espera de um segredo, da cratera
onde  possam arder
já fora do teu peito, muito longe
desse abrigo deserto a que chamavas
coração.

Ama de novo a lama, todo esse
lodo que lava o mundo e que redime
os nossos passos,
o suor tão mal gasto, a primavera
das vozes iludidas, sempre em busca
do primeiro colapso. Cada corpo
justifica outro corpo e alimenta
o sono da cidade, tantas ruas
iguais a cicatrizes que anoitecem
sobre a espuma dos rostos.

Ama ainda essa porta
por onde nunca entraste, o precipício
que alguém escolheu prá tua alma,
e saboreia a queda.

Ama de novo a sombra quando a noite
romper as tuas veias.

in Fernando Pinto do Amaral, A Luz da Madrugada, Dom Quixote, Lisboa, 2007, p. 73

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mobiliário urbano em desuso

Paixão por Vinicio

Em Novembro de 2007, quando assisti ao concerto, em Lisboa, de Vinicio Capossela tinha-o descoberto havia pouco tempo. Já tinha, no entanto, todos os discos publicados em Portugal e sabia que a minha admiração por este autor era imensa e ultrapassava muito um simples gosto do momento. O concerto foi memorável. Em palco, este músico magnífico, que tão à vontade está com instrumentos vários, mostrou-nos que não é só a escrever textos e a compor que o seu génio se manifesta. Até as minhas filhas, das poucas crianças presentes, se renderam.

Agora, neste mês de Março, Vinicio Capossela vem novamente à Culturgest (desta vez em dois dias). Já tenho bilhete há algum tempo. Ainda não consegui comprar o disco mais recente, "Da Solo". Já o gravei, no entanto, enquanto não o compro (obrigada Joana). A música de que gostamos por vezes é contagiante. Por isso e depois de já o ter trazido aqui, e porque sei que este músico italiano, que alguns definem como próximo de Paolo Conte e Tom Waits, não é muito conhecido por cá, deixo aqui um exemplo, do terceiro disco, de 1994, "Camera a Sud", do que é capaz de fazer. Talvez consiga contagiar alguém.