Este é um filme cheio de sons. Conseguimos ouvi-los melhor, libertos que estamos de conversas que, ali, estariam sempre a mais. É um filme em que o protagonista é a natureza e nós, inseridos que estamos nela. É um filme em que o humor está sempre presente, mesmo que seja a morte a marcar o ritmo de muitas das acções. É um filme que nos lembra, relativizando o papel do humano, que, por mais voltas que dêmos, são os ciclos da vida que nos comandam. É um filme a ver.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Reforma
Sentado na varanda lia, vagarosamente, o jornal. A camisa aos quadrados confundia-se com o tecido da espreguiçadeira.
"Fala Mansa" de Lobo
“Fala Mansa” é o nome do último álbum de Norberto Lobo, gravado no Alentejo, que foi apresentado ao vivo no Teatro da Trindade esta semana. Ao contrário deste concerto, agora não fui. Mas tenho a certeza que, se tivesse ido, teria gostado muito. O disco não deixarei de comprar.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Uma das razões/poemas porque gosto de Fiama Hasse Pais Brandão
Vento
Ouvir o vento separar o corpo
da sombra. Separar a face da face.
O silêncio do vento que empalidece
o riso. Desencontra. Fecha as pálpe-
bras sobre o olhar. Um sem os outros.
Nada sem o todo no uno. O vento
que me horroriza como um sonho. Senti-lo
a vergar o submisso e a submissão
a sufocar no ansioso a ansia inseparável.
Lisboa, 1978 - Natureza Paralela
in Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p. 269
Ouvir o vento separar o corpo
da sombra. Separar a face da face.
O silêncio do vento que empalidece
o riso. Desencontra. Fecha as pálpe-
bras sobre o olhar. Um sem os outros.
Nada sem o todo no uno. O vento
que me horroriza como um sonho. Senti-lo
a vergar o submisso e a submissão
a sufocar no ansioso a ansia inseparável.
Lisboa, 1978 - Natureza Paralela
in Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p. 269
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Uma horta no contentor
Não era bem nisto que o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles pensava quando falava em hortas urbanas. Pensando que em 2010 metade da população mundial vive nas cidades e que existem cada vez mais pessoas interessadas em produzir o que comem, têm nascido em várias cidades do mundo (a primeira terá sido em Paris) estas experiências agrícolas que usam inclusivamente a internet para partilhar técnicas agrícolas. Claro que a ideia levanta-nos logo um conjunto de questões relativas, por exemplo, à localização, à manutenção, etc. Mas não deixa de ser uma ideia interessante. Em Julho poderemos saber mais pois Lisboa vai estar u-connected .
terça-feira, 10 de maio de 2011
Recordações
Os bonecos na montra, feitos de materiais naturais, numa daquelas lojas modernas onde impera a preocupação com o ecologicamente sustentável, representavam um pastor e o seu rebanho. O cão estava lá, também. O velho que passava, parou. Esteve longamente a olhar aqueles bonecos. Poderia ter sido o aspecto de brinquedo que o deteve. A mim pareceu-me que poderia estar a recordar algo que já lhe disse muito.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Tal como na vida: sempre em digressão
Há quem o classifique algures entre a ficção e o documentário. Porque as artistas do "New Burlesque" que participam no filme, com os seus nomes artísticos e os seus números coreografados por si próprias, o seu guarda-roupa e adereços são reais e representam-se a si próprias. Porque o público e as suas reacções são também reais. Porque a figura do produtor estará, em grande parte, muito próxima da realidade. Porque o argumento foi sofrendo alterações à medida que decorriam as filmagens. Mas Mathieu Amalric, actor principal e realizador, com um notável trabalho, apresenta-nos um filme que vai muito para além da classificação que se lhe possa atribuir. Ele toca a dificuldade em concretizar um sonho; a tentativa de lidar, de uma forma equilibrada, com os filhos; a atitude perante o passado; a solidão no meio de uma vida muito preenchida.
Uma nota final para a música: vale a pena ficar a ver a ficha técnica no final e ouvir as canções escolhidas.
domingo, 8 de maio de 2011
sábado, 7 de maio de 2011
Contraste
Costuma estar rodeado de cartões e sacos de plástico e coisas que nós consideramos lixo mas que para ele são, provavelmente, importantes. Hoje, no canto formado pelo edifício e o tapume das obras, estava só ele. Deitado, encolhido sobre si mesmo, dormia. O seu corpo e as suas roupas escuras eram um contraste difícil de suportar nas pedras brancas da calçada.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Sotto le stelle di Paolo Conte
O grande auditório do CCB estava cheio. Muitos italianos, muitos portugueses para verem Paolo Conte. No palco esteve acompanhado de nove músicos extraordinários. Cada vez que largava o piano as suas mãos não sabiam o que fazer. Juntavam-se ao corpo como se tocassem um outro instrumento. A música é-lhe tão perfeitamente natural que qualquer que seja o ritmo é o seu, o de um cantor de voz rouca que sabe escrever canções, aparentemente inspiradas em coisas banais, mas que, quase sempre, são grandes canções.
Esta, que fez parte do alinhamento do concerto, é uma delas. Mas são tantas... Uma noite memorável. "It's wonderful, It's wonderful, It's wonderful"!
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Voltar atrás para se poder avançar
Foto aqui
Em todas as famílias há um. Nele há fotografias dos que já morreram há muito tempo e que já não chegámos a conhecer, dos que desapareceram mas dos quais recordamos histórias que com eles partilhámos, dos que ainda fazem parte do nosso presente, nós próprios no passado, no máximo dos máximos, um passado próximo. É com ele, com o álbum de família, que muitas vezes despertamos as nossas memórias, convocando personagens que se cruzam connosco em espaços e tempos que nem sempre correspondem ao efectivamente vivido.
Assim acontece com José Luís, a personagem principal da peça, escrita por Rui Herbon, que ganhou, em 2010 o "Grande Prémio de Teatro Português SPAutores / Teatro Aberto". Com ele ficamos a perceber, como recorda a avó, figura sempre presente que ele tem que constantemente lembrar a si próprio, nas suas próprias lembranças, que já está morta; a irmã, sonhadora, que ainda acredita na possibilidade de apanhar o comboio certo; o pai que, tolhido pelo medo de a família ser castigada caso as regras não sejam cumpridas, pouca força tem para lutar; a mãe, ferida pela vida, mas que, movida por um instinto de sobrevivência, vai seguindo em frente.
Diz o próprio autor: "O álbum de família" dramatiza a viagem iniciática empreendida pelo seu jovem protagonista rumo à idade adulta. Toda a família tentará apanhar um comboio ao qual, no fim, só subirá o adolescente José Luís, momento em que o pai lhe entrega o álbum de família. O jovem projecta o seu olhar por esse álbum e, enquanto observa as fotografias, tenta reconstruir-se a si mesmo, tenta voltar atrás para saber para onde vai. Para isso indaga nas suas origens, nos seus sentimentos, medos, sonhos e frustrações que se escondem por detrás das fotografias." (Na brochura criada a propósito do espectáculo).
Gostei bastante do cenário (Rui Francisco) e da música (Pedro Jóia). Das interpretações destacam-se, quanto a mim, Jorge Corrula (José Luís) e Fernanda Neves (a mãe). Até ao final de Maio podem ir ver se concordam comigo.
terça-feira, 3 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
1 e mais 2 = 3 Fotógrafos
A exposição terminou este sábado. Ainda consegui vê-la com as suas muitas fotografias de mulheres.
Das de Jorge Martins confesso que não gostei muito. Talvez tivesse sentido a coloração como uma contaminação da pintura nas fotografias, que não me agradou.
De Julião Sarmento surpreendeu-me a variedade dos registos, desde os mais espontâneos, captados numa rua de Lisboa, aos mais encenados, sobretudo em interiores onde, ora os jogos da luz e da sombra nos desviam a atenção dos corpos ou de partes deles; ora a sua presença enche todo o espaço da fotografia.
Quanto a Man Ray... bem, era o que se esperava. Uma lição do que é fotografar. A mulher retratada aqui (entre 1941 e 1955), de uma beleza nada óbvia, é sempre a mesma: Juliet Browner, que foi sua mulher. Mas ser só uma não impede que nos apareça como muitas, nas suas poses de diva do cinema ou menina traquina. Das 50 destaco uma, de 1948, em que Juliet, fotografada num bosque, nua entre os outros elementos da natureza, se confunde com eles, como que a demonstrar o grau zero da beleza simultaneamente cheio de conotações poéticas.
domingo, 1 de maio de 2011
A propósito do casamento da década... do ano... do mês...
Dois pontos prévios:
- sou absolutamente contra a ideia de se resolverem os problemas através da violência;
- vi pouca coisa das reportagens das televisões que acompanharam, em directo, o casamento do neto da rainha inglesa.
Mesmo assim, e posto isto, eis do que me lembrei perante algumas afirmações e comentários dos jornalistas que falaram, no local e no estúdio, sobre a cerimónia.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Arte por arte
Tinha pensado escrever hoje alguma coisa sobre uma exposição que vi recentemente. Mas não me sai da cabeça o fantástico golo do Cardozo. Sim, já sei que o resultado não foi grande coisa mas são momentos como este que nos fazem lembrar que o futebol também é uma arte.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Uma questão de ritmo
A torre que encima o edifício, construído há umas décadas num dos locais mais cruzados do concelho, está com um aspecto degradado. As letras que, no início, estavam iluminadas dizem ainda "Oeiras marca o Ritmo". Por baixo o grande relógio, que guiaria quem por ali passasse, está, há muito tempo, parado.
Um mestre
Nunca fui sua aluna. Quando passei pela faculdade já ele não dava aulas. Mas a sua sombra, uma sombra sábia, pairava sobre o Departamento de Sociologia. Nos programas, na bibliografia que era impreterível ler, nas palavras dos professores que bebiam nele a sua inspiração.
Depois de, no final do Ensino Secundário, ter estudado a "Escola dos Annales", ler os escritos de Vitorino Magalhães Godinho era uma forma de pôr em prática aquilo que na altura parecia ser a forma mais correcta de abordar a História.
Hoje quando soube da sua morte pensei que, até pela forma como se empenhou na vida política, ele era um verdadeiro mestre.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Não me peçam brincadeiras à volta desta fotografia... do género...
Cartaz escolhido pelos membros da "troika" (FMI, BCE e CE) para colocar em todas as entradas do território português...
Bem, já está...
terça-feira, 26 de abril de 2011
No jardim da residência oficial do PM
A tarde estava quente. Depois de algum tempo na fila para poder entrar, o sítio mais cobiçado eram as espreguiçadeiras colocadas à beira da piscina. Esta encontrava-se cheia. Mas a água estava turva. Turva e cheia de impurezas.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
A última ceia... sem cangurus.
Já sei que já é sexta-feira santa para os que crêem na crucificação e morte de Jesus que precede a ressurreição. Mesmo assim, e apesar de algumas dúvidas de calendário, não resisto a partilhar este fabuloso momento dos Monty Python à volta da pintura de Miguel Ângelo: "A última ceia".
quinta-feira, 21 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
"Nada tem mais valor que a nossa casa"
Mesmo que essa casa não tenha sequer cozinha, mesmo que tenhamos como vizinhos mais próximos os mortos, mesmo que tenhamos que nos fechar no quarto quando os familiares de algum deles, que está enterrado na nossa sala, visita o seu túmulo.
Esta é a realidade da vida das famílias que habitam alguns cemitérios do Cairo e que ficamos a conhecer um pouco no surpreendente documentário de Sérgio Tréfaut. É uma visão de quem está de fora, como a da criança e do seu avô, na cena inicial. Mas que tem o cuidado de nos apresentar a perspectiva de quem reside naquele espaço tão especial, onde as circunstâncias históricas forçaram um convívio nem sempre vivido de forma positiva, mas sempre pacífico. Afinal, como se dizia, são os vivos que devemos recear e não os mortos.
E como dizia um outro morador: "temos que aprender a tirar sabedoria do sítio onde vivemos".
terça-feira, 19 de abril de 2011
Na saúde e na doença... no casamento e no divórcio...
A pergunta do questionário era qual o número de pessoas que viviam na casa e qual o grau de parentesco entre elas.
A resposta: ela e o ex-marido. Acrescentou ainda:
- Ele não tem para onde ir e isto do casamento é para sempre, não é verdade?
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Finalmente!
Quando, no início dos anos 90 do século passado, trabalhei no realojamento das famílias residentes em barracas que existiam ao longo da velha Estrada da Circunvalação, no concelho de Oeiras, estava longe de imaginar que seriam precisos cerca de 18 anos para que a justificação para a sua saída apressada daquele local, a construção da CRIL, se concretizasse por completo. Hoje lembrei-me das caras de alguns desses moradores e imaginei que alguns deles já nem existem. Outros já pouco se lembrarão do tempo em que viviam naqueles terrenos. Há coisas que demoram mesmo muito tempo...
domingo, 17 de abril de 2011
sábado, 16 de abril de 2011
Greve a nós mesmos
Marinho Pinto tem-nos habituado a ouvir da sua boca afirmações polémicas. Algumas farão mais sentido do que outras. Concordo que mesmo os titulares de cargos com alguma importância, como é o de Bastonário da Ordem dos Advogados, devem poder expressar as suas opiniões. E esta, pelos vistos, é a sua opinião .
Mas confesso que me parece que estas afirmações são proferidas de ânimo leve, sem pensar cuidadosamente. Greve à democracia em dia de eleições?
Podemos estar todos cansados dos políticos que temos. Mas são eles que se propõem avançar numa altura em que é tão mais fácil falar do que agir. São eles que, dentro do que é o nosso sistema democrático, com todos os defeitos que possa ter, estão em posição de lidar com uma situação que, quer interna, quer exteriormente, é de uma exigência tal que a simples apetência pelo poder não justifica a vontade de o alcançar. Não são os melhores políticos do mundo. Pois não. Mas são os que, neste momento tão difícil, se chegam à frente. A todos nós, cidadãos, se exige que estejamos atentos. Claro que sim. A cidadania não se exerce só em dias de eleições.
Marinho Pinto diz que somos pouco exigentes com os políticos. Sim, porque sempre fomos pouco exigentes com nós mesmos. E nem falo no nosso pouco empenhamento nas causas públicas. Cada um de nós, no seu dia a dia, no trabalho, nas nossas relações com os outros desempenhamos tão mal o nosso papel, que se não começarmos por aí nunca teremos capacidade para exigir dos nossos representantes a correcta aplicação dos princípios que interpretamos como certos.
Falar em "refundação da república" é falar não de uma alteração na forma de entender o papel dos políticos, quer os que se encontram no poder, quer os que aspiram a lá chegar, mas de uma alteração da nossa forma de nos posicionarmos face à política, assumindo uma postura séria e virada para o bem comum mais do que para nós próprios. Só nessa altura saberemos exactamente o que exigir de quem nos representa. Mas para isso há que fazer primeiro greve a nós mesmos.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
É uma injustiça, pois é! Abusam porque sou pequenino...
É importante que alguém chame a atenção para esta realidade. Mas não podemos cair na Síndrome de Calimero. Como sempre o difícil é encontrar o ponto de equilíbrio. E vamos ter que o fazer. O país e todos nós individualmente.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Janela com árvore
A parede preta está visível apenas do lado em que o reflexo do sol a atinge. A janela com o gradeamento também preto, observada do interior, distingue-se no azul claro do céu totalmente limpo.
No canto inferior esquerdo a parte mais alta da copa da árvore, de um verde dourado, é a única nota de movimento.
terça-feira, 12 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Um engano de sintonia
Procurava a rádio que ouço normalmente. Pela proximidade da frequência julguei que estava na que pretendia e como a música era boa deixei estar. Entretanto um novo programa começa. Duas mulheres falam dos Censos. Foi aí que percebi o engano. Estranhei a falta de preparação, a ligeireza com que se abordavam as questões, os exemplos sem substância. Mesmo nos casos em que a questão levantada podia fazer sentido, a forma como era tratada deitava tudo a perder. Gostaria de poder colocar aqui alguma ligação para se poder ouvir o programa mas não consegui. Eu sei que com tantos comentadores a falar de tantos assuntos nem todos podem ser bons. Mas também não exageremos.
O coração e a cabeça
A mim não me preocupa se o coração de Fernando Nobre bate à direita ou à esquerda. Afinal um médico sabe bem onde se encontra o coração. Eu gostava era de saber onde tem ele a cabeça. É que para quem tanto pugnava contra os políticos profissionais convenhamos que presidente da AR é um cargo bastante irónico.
domingo, 10 de abril de 2011
O meu avô
O meu avô era sapateiro. Punha meias solas, arranjava as almas partidas (isto é tão bonito de se dizer), engraxava, puxava o lustro. Mas ele também fazia sapatos. Das lojas do Poço do Borratém trazia os couros, as linhas, as solas. E cortava, montava, cosia, dando a todas essas coisas um aspecto de sapato. As encomendas lá vinham chegando. A Casa do Gaiato era cliente habitual. Provavelmente o único.
O meu avô trabalhava em casa. Parte da cozinha era a sua oficina. As ferramentas como o martelo, a sovela, o alicate; os materiais, os cheiros faziam parte da minha infância. Ainda hoje o cheiro da cola e da graxa me fazem regressar ao passado. Quando estava em casa sentava-me perto dele e via-o trabalhar. O rádio ligado não impedia que fosse conversando comigo. Falava-me das notícias que ouvia e lia nos jornais. Todas as manhãs o ardina passava e atirava o jornal para a varanda do primeiro andar onde morávamos. Tinha que estar sempre informado e sabia sempre tantas coisas. Poucos anos depois da chegada do Homem à Lua defendia ainda, junto da minha mãe, sua filha, que apesar de muito mais nova estava muito céptica, todas as coisas boas que as novas descobertas trariam à humanidade.
O meu avô morreu no mês de Abril de 1974, dias antes do dia 25. Ele teria gostado de o viver mas o seu coração não deixou.
O que aprendi com ele não sei explicar. Mas sei que, sem ele, não seria eu. Tinha 7 anos e nunca ninguém mais me ensinou tanto.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
A autorização
Os nove meses estavam no fim. No dia anterior o médico aconselhara-lhe:
- Vá amanhã ao hospital ver o que lhe dizem.
Por isso naquela manhã de sábado, dia 8 de Abril, ela foi. Quando a observou, o médico de serviço disse-lhe:
- Pode ir para casa mas, se quiser ficar, com a dilatação que tem, ela nasce hoje.
Os receios da sua mãe cumpriam-se. Quando soubera que ela estava grávida e que a criança nasceria nos primeiros dias de Abril partilhou consigo o receio que tinha:
- Deus queira que ela não nasça a 8 de Abril.
Fazia, nesse ano, nesse dia, 26 anos que o seu pai, avô da sua filha, e bisavô da M. tinha morrido. Era portanto um dia triste e o nascimento da sua neta não devia acontecer num dia triste.
A., que compreendia a importância destas coisas para a sua mãe, antes de dizer ao médico se ficava ou não, fez um telefonema.
- Mãe, o médico diz que ela pode nascer hoje. O que achas? Fico já cá?
- Ó filha, claro que sim, respondeu sem hesitação.
Ela ficou. M. nasceu nesse dia às 22 horas.
A morte e o nascimento lembrados num só dia que nunca mais foi apenas um dia triste.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O Coliseu atirado aos leões
Há uns meses atrás quando ouvi a notícia relativa ao restauro do Coliseu de Roma, financiado por uma empresa que detém a marca de sapatos Tod's, não se falava em qualquer contrapartida a não ser a publicidade à empresa que nem sequer a faria directamente no monumento. Apesar de ter sentido alguma estranheza fui ingénua o suficiente para achar que as coisas eram mesmo assim.
Agora as notícias são um pouco diferentes. Não me parece propriamente uma privatização mas o acordo celebrado entre a empresa e o governo de Berlusconi dá demasiado poder a um privado sobre um bem que não é só de Itália mas do mundo inteiro.
Lembrei-me logo da canção do "meu" Vinicio, "Al Colosseo", aqui acompanhada de imagens do local:
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Na poesia cabe tudo...
um rio e uma ponte que o atravessa, uma maça que se observa mas que é melhor ainda comida, a descoberta de que se está doente, o confronto com alguém que apenas se julgava que se conhecia, um caderno que se enche de palavras ou de chuva, a dor de sentir as dores dos outros como as nossas, a tentativa de fazer o que está certo antes de se partir, a dificuldade de se escrever um poema.
sábado, 2 de abril de 2011
Crónica de uma ruína anunciada
O nome de Aristides Sousa Mendes desperta sempre em nós algum orgulho. Após uma carreira diplomática bastante rica, foi colocado em Bordéus, como cônsul, por Salazar. O seu papel, contra as ordens do Presidente do Conselho, na concessão de vistos a refugiados, nomeadamente a judeus, permitiu que muitas vidas fossem salvas de uma morte certa. Salazar não lhe perdoou a desobediência e puniu o seu comportamento. Não foram , por isso, fáceis os seus últimos anos de vida.
Ao longo dos últimos tempos várias homenagens lhe têm sido prestadas. Mas uma coisa ainda não se conseguiu, apesar dos esforços da Fundação que tem o seu nome: criar um museu na sua antiga casa, a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal.
A 3 de Março deste ano esta casa, onde A. Sousa Mendes viveu, foi considerada pelo governo, como apresentando um "excepcional interesse nacional", tendo sido, por isso, classificada como Monumento Nacional.
Quis o acaso que, três dias depois, eu passasse em Cabanas de Viriato e, apesar da dificuldade em fotografar a casa sem apanhar os carros alegóricos (era domingo de Carnaval e a tradição é forte, naquela terra, por essa altura), lá consegui algumas imagens:
A história tem sido longa e os episódios sucedem-se, como se pode ler, à laia de exemplo, aqui e aqui. A dimensão do edifício e as verbas necessárias para a sua recuperação dificultam a resolução do problema.
O título do post não pretende ser derrotista. Mas a verdade é que, caso nada for feito a muito curto prazo, é mais um monumento nacional a ser lembrado em memórias e fotografias e não como um testemunho vivo de alguém que se cruzou, de uma forma humanamente tão correcta, com milhares de vidas e de uma época da nossa História que, mesmo que, por vezes, se prefira esquecer, convém ser, para sempre, lembrada.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Prémio: não me digam! Eu estava mesmo convencido que era licenciado!
O administrador dos CTT, Marcos Batista diz que "sempre esteve convencido que o percurso académico com oito anos de frequência universitária e elevado número de cadeiras concluídas, em mais do que um plano de estudos curriculares, corresponde a um curso superior à luz das equivalências automáticas do processo de Bolonha" (citado deste artigo).
Ora, eu estive a fazer as contas e à luz de Bolonha e atendendo ao meu percurso académico, o meu doutoramento já está assegurado. A partir de agora tratem-me por Doutora, se fazem favor!
quinta-feira, 31 de março de 2011
Estação de metro da Baixa-Chiado
Um rio corria nas fotografias expostas nas paredes (era a exposição "Douro natural"). No pavimento outro rio, formado pela água que caía dos tectos daquele corredor.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Exercício de imaginação
Na montra da sex shop um manequim masculino exibia uns "boxers" brancos, de tecido transparente. Um homem, já de idade avançada, parado frente à loja, muito atento, parecia tentar imaginar quais as ocasiões em que aquela peça poderia ser vestida. Entretanto sorriu.
domingo, 27 de março de 2011
Desenhar o espaço onde se vive
Dei-me agora conta que não ouvi hoje o programa da TSF, “Encontros com o Património” que hoje era sobre "O Património Moderno e o arquitecto Nuno Teotónio Pereira". Tinha intenção de ouvir pois, mesmo não tendo os conhecimentos necessários para apreciar, na plenitude, as obras arquitectónicas que desenhou, há muito tempo que o admiro, quer como arquitecto, quer como cidadão que sempre defendeu os seus ideais de liberdade.
Quis o acaso que, no ano em que comecei a trabalhar, tenha estado num grupo de trabalho que acompanhou o pré e o pós realojamento de famílias, até ali residentes em bairros degradados, num conjunto habitacional projectado pelos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho. Para além das reuniões com os técnicos, para as quais estavam sempre disponíveis, recordo sobretudo o prazer com que, em assembleias muito participadas, com centenas de pessoas, nos barracões do refeitório da obra, sobretudo o primeiro, explicava aos futuros moradores porque tinha desenhado o bairro e as casas assim e não de outra maneira, porque tinha escolhido aqueles materiais e não outros. Mas era sobretudo a atenção com que ouvia os futuros utilizadores daquelas casas, dos espaços que tinha criado, que me fascinava. Aquelas pessoas que lhe colocavam as questões mais óbvias ou as mais estranhas mereciam-lhe sempre uma reflexão e uma resposta clara.
Provavelmente os que participavam nessas reuniões não se apercebiam do privilégio de ter alguém como o Arqto. Teotónio Pereira ali à mão, pronto a responder-lhes a todas as questões, com a humildade de quem só sabe mais algumas coisas sobre o assunto.
Foi a ele que ouvi uma frase que ainda hoje por vezes cito e que dizia, mais ou menos assim: o principal problema dos arquitectos são as pessoas. Significa ela que ao projectarem determinado edifício, mesmo que se trate de uma encomenda para alguém em particular, a obra pode ficar perfeita, mas deixará de o ser quando for habitada, quando o uso deturpar a harmonia inicial do conjunto, introduzindo imperfeições mais ou menos relevantes. E no entanto é a vivência de um espaço que lhe confere o valor maior, mais significativo, que lhe atribui a sua alma. Nuno Teotónio Pereira sabe disso. Por isso o respeito. Por isso o devemos respeitar.
sábado, 26 de março de 2011
O sol, o vento, a água...
Andava eu a pôr algumas leituras em dia quando me deparei com um texto no diário de David Byrne que me deixou com um sorriso (de satisfação, sim.) É certo que os dados citados no artigo do NYTimes, referido no texto, nos parecem demasiado bons para serem verdade. Mas não deixa de ser uma variante, nestes dias, um natural do Reino Unido salientar um aspecto positivo associado ao nosso país.
Está a chegar a Páscoa...
e na Páscoa comem-se muitos chocolates.
Em Junho, pelos Santos Populares, parece que vão lançar a Sagres sardinha assada!
sexta-feira, 25 de março de 2011
O que fazer perante argumentos destes?
- Hoje é o casaco?, perguntei eu, depois de ontem M. ter ido ao cesto da roupa por passar a ferro e ter vestido umas calças que era suposto terem sido passadas antes.
- Oh mãe, tu sabes que eu sou ecológica!
quinta-feira, 24 de março de 2011
A dias
Todos os dias me cruzo com ela. De manhã, na estação de comboios de onde sai e onde eu entro; à tarde, mais raramente, ambas em sentido contrário. O seu ar é sempre o mesmo. Sofrido. Transporta o corpo, enorme, para onde o seu trabalho é esperado, longe da sua casa, onde às horas que chega já não terá tempo para fazer o mesmo que fez o dia inteiro na casa de outros.
"Eeeeuuuu é que sou o Presidente deste país"
E assim se pratica a magistratura activa:
"Bora lá despachar antes que ele chegue a S. Bento!.."
ou
" a minha página oficial é mais rápida que a tua comunicação ao país"
"Bora lá despachar antes que ele chegue a S. Bento!.."
ou
" a minha página oficial é mais rápida que a tua comunicação ao país"
terça-feira, 22 de março de 2011
Num dia que já não é o da poesia...
um poema em forma de filme...
domingo, 20 de março de 2011
"Lua cheia, a tudo clareia."
Ser convencida é uma característica que eu não tenho. De todo. Mas neste sábado não pude deixar de pensar que um bocadinho destes 30 % a mais de brilho foi para mim.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Um crescendo de tristeza
Começa na Primavera, este ano. Um ano a mais, diferente do anterior e portanto igual, nessa diferença, aos precedentes. Na casa de Tom e Gerri a harmonia prolonga-se ao longo das quatro estações. Mesmo quando, no Inverno, a morte se manifesta. É nessa casa que os seus amigos e familiares, buscam um porto de abrigo, esperando ansiosamente um toque daquela felicidade que parece ser colhida juntamente com os produtos da horta.
Mas aquilo que vão aprender ao longo dessas quatro estações é que não são os outros, mesmo que felizes, que nos salvam da nossa condição de velhos, gordos, sós. Isso só nós próprios conseguiremos fazer. Porém, que pena que isso seja tão difícil. E esta é uma das razões porque este filme é triste. Porque sabemos da nossa incapacidade, da nossa impotência, ou pelo menos das nossas dificuldades para sermos diferentes. Mesmo que num outro ano.
(Aplauso, entre outras razões, para a interpretação de Lesley Manville, como Mary).
Boa companhia
A plataforma da estação de metro estava cheia. A rapariga do cartaz exibia um conjunto de lingerie. Os quadradinhos do tecido, azuis claros, davam-lhe um ar ingénuo mas, ao mesmo tempo, o olhar conferia-lhe um outro ar, mais matreiro. Ao seu lado, encostado ao mupi, o rapaz, certamente orgulhoso de tal companhia, sorria com satisfação cada vez que alguém se aproximava.
terça-feira, 15 de março de 2011
A alegoria de um país doente
Os médicos
Certo médico chamado,
D'alcunha, o Tanto-melhor,
Foi visitar um doente,
Do qual o Tanto-pior
Era médico assistente.
O último, sempre funesto,
Que o doente morreria
Altamente sustentava,
E o Tanto-melhor dizia
Que o pobre enfêrmo escapava.
Houve sôbre o curativo
Mui grande contestação;
Um aplicava calmantes,
O outro armava uma questão
Em favor dos irritantes.
No fim de tantos debates
O enfêrmo a vida perdeu,
E o Tanto-pior clamou:
«Vejam qual de nós venceu!
Se o meu cálculo falhou.»
Tornou-lhe o Tanto-melhor,
Mostrando um vivo pezar
«Pois eu, sempre afirmarei
Que morreu por não tomar
Os remédios que indiquei.»
Enquanto a mim, se os tomasse
Morrer havia igualmente;
Mas é desgraça maior
Cair um pobre doente
Nas mãos dum Tanto-pior.
Curvo Semedo
in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 105
Certo médico chamado,
D'alcunha, o Tanto-melhor,
Foi visitar um doente,
Do qual o Tanto-pior
Era médico assistente.
O último, sempre funesto,
Que o doente morreria
Altamente sustentava,
E o Tanto-melhor dizia
Que o pobre enfêrmo escapava.
Houve sôbre o curativo
Mui grande contestação;
Um aplicava calmantes,
O outro armava uma questão
Em favor dos irritantes.
No fim de tantos debates
O enfêrmo a vida perdeu,
E o Tanto-pior clamou:
«Vejam qual de nós venceu!
Se o meu cálculo falhou.»
Tornou-lhe o Tanto-melhor,
Mostrando um vivo pezar
«Pois eu, sempre afirmarei
Que morreu por não tomar
Os remédios que indiquei.»
Enquanto a mim, se os tomasse
Morrer havia igualmente;
Mas é desgraça maior
Cair um pobre doente
Nas mãos dum Tanto-pior.
Curvo Semedo
in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 105
segunda-feira, 14 de março de 2011
Viver... em poucos versos
Com unhas e dentes
Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.
Luís Filipe Parrado, in criatura n.º 5, Outubro 2010.
E foi aqui, graças ao Manuel, que li este poema pela primeira vez.
Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.
Luís Filipe Parrado, in criatura n.º 5, Outubro 2010.
E foi aqui, graças ao Manuel, que li este poema pela primeira vez.
Nesta noite com tanta chuva...
apetece mesmo ouvir...
sábado, 12 de março de 2011
Censos
Talvez seja por questões ligadas à minha profissão e à necessidade de recorrer a estatísticas tenho muita dificuldade em entender as pessoas que não compreendem a importância dos censos. Mais ainda quando essa atitude vem de grupos mais jovens. Os argumentos vão desde a preocupação com as verbas despendidas numa operação deste tipo, numa altura em que todo o dinheiro que se poupe nas despesas do Estado é pouco; até aos mais comezinhos da chatice que é interromper o jantar para ir à porta atender um tipo que quer saber coisas sobre as nossas vidas.
A realidade é que a realização de censos é uma obrigação de qualquer governo e permite obter dados vitais para fundamentar as opções a tomar em todas as áreas da governação e a todos os níveis, desde o nacional até ao local, dando bases de trabalho que serão úteis quer às entidades públicas quer aos próprios agentes económicos, a escalas macro ou micro. A área do planeamento não seria a mesma se os censos não existissem, apesar da relevância de muitas outras estatísticas que periodicamente são elaboradas no INE. A comparação com dados de anteriores recenseamentos permite ainda analisar as transformações da sociedade portuguesa em termos demográficos e socioeconómicos que tão importante é para se estudarem tendências e conhecerem evoluções.
Claro que se poderá sempre dizer que as falhas inviabilizam que se faça um retrato rigoroso da situação (todos nós conhecemos famílias que não foram contactadas em anteriores recenseamentos) e que, com as mudanças rápidas a que assistimos, a rapidez com que os dados se desactualizam é cada vez maior.
É verdade que haverá imperfeições e que, quer na elaboração dos questionários, na recolha dos dados, na sua análise e na sua disponibilização posterior, mais poderia ser feito. Mas tais imperfeições não poderão pôr em causa o que é inegavelmente um momento chave da nossa cidadania.
sexta-feira, 11 de março de 2011
quarta-feira, 9 de março de 2011
Este dólmen é nosso
Fornos de Algodres é um pequeno concelho na Beira Interior que apresenta os problemas comuns aos concelhos situados naquela região. É numa das suas freguesias que se encontra o Dólmen de Cortiçô, cuja construção (de acordo com o que consta na Wikipédia) remontará a 2900 - 2640 a.C.. O esforço feito, pelas entidades locais, para tornar perceptível a todos as características originais deste monumento só se pode elogiar.
Recentemente, porém, alguém cometeu um atentado descrito aqui.
A Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro, estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural sendo o capítulo 2 dedicado ao Património Arqueológico. Nela se prevê que "aos crimes praticados contra bens culturais aplicam-se as disposições previstas no Código Penal" (Artigo 100.º), e ainda, no Artigo 103.º, "quem, por inobservância de disposições legais ou regulamentares ou providências limitativas decretadas em conformidade com a presente lei, destruir vestígios, bens ou outros indícios arqueológicos é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa até 360 dias".
Pode parecer pouco quando vemos, nas fotografias, o estado em que ficou o monumento. A ignorância acerca do seu valor patrimonial, por parte de quem assim o deixou, é provável. Mas sem dúvida que deveria ser levada a cabo uma investigação profunda para se tentar chegar aos autores de tal acto que nos deve tocar a todos, donos que somos daquele bocado do nosso passado e, portanto, de nós próprios.
terça-feira, 8 de março de 2011
Carnaval ao som do gypsy punk
Depois de a greve geral em Novembro ter obrigado a um adiamento, os Gogol Bordello estiveram hoje em Lisboa. A véspera de Carnaval foi uma data bem escolhida.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Uma das razões/poemas porque gosto de Jacques Prévert
J’en ai vu plusieurs…
J’en ai vu un qui s’était assis sur le chapeau d’un autre
il était pâle
il tremblait
il attendait quelque chose… n’importe quoi…
la guerre… la fin du monde…
il lui était absolument impossible de faire un geste ou de parler
et l’autre
l’autre qui cherchait «son» chapeau était plus pâle encore
et lui aussi tremblait
et se répétait sans cesse
mon chapeau… mon chapeau…
et il avait envie de pleurer.
J’en ai vu un qui lisait les journaux
j’en ai vu un qui saluait le drapeau
j’en ai vu un qui était habillé de noir
il avait une montre
une chaîne de montre
un porte monnaie
la légion d’honneur
et un pince-nez.
J’en ai vu un qui tirait son enfant par la main et qui criait…
j’en ai vu un avec un chien
j’en ai vu un avec une canne à épée
j’en ai vu un qui pleurait
j’en ai vu un qui entrait dans une église
j’en ai vu un autre qui en sortait…
in Jacques Prévert, Paroles, folio, 2010, p. 39
J’en ai vu un qui s’était assis sur le chapeau d’un autre
il était pâle
il tremblait
il attendait quelque chose… n’importe quoi…
la guerre… la fin du monde…
il lui était absolument impossible de faire un geste ou de parler
et l’autre
l’autre qui cherchait «son» chapeau était plus pâle encore
et lui aussi tremblait
et se répétait sans cesse
mon chapeau… mon chapeau…
et il avait envie de pleurer.
J’en ai vu un qui lisait les journaux
j’en ai vu un qui saluait le drapeau
j’en ai vu un qui était habillé de noir
il avait une montre
une chaîne de montre
un porte monnaie
la légion d’honneur
et un pince-nez.
J’en ai vu un qui tirait son enfant par la main et qui criait…
j’en ai vu un avec un chien
j’en ai vu un avec une canne à épée
j’en ai vu un qui pleurait
j’en ai vu un qui entrait dans une église
j’en ai vu un autre qui en sortait…
in Jacques Prévert, Paroles, folio, 2010, p. 39
quarta-feira, 2 de março de 2011
Lost Somewhere
Deste sim, gostei muito.
E porque a Ana Paula o diz tão bem convido-vos a ler o que ela escreveu. Eu limito-me a concordar em absoluto.
terça-feira, 1 de março de 2011
A linguagem técnica é para utilizar. Sempre.
Obrigada, António, por me relembrares.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
As nossas ruas
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,...
Há tal soturnidade, há tal melancolia,...
Penso muitas vezes nestes versos do início de "O Sentimento dum Ocidental" quando, ao entardecer, ando nas ruas da localidade onde moro. Numa altura do dia em que tanta gente regressa a casa é estranho ver as ruas vazias. As pessoas estão lá, mas dentro dos automóveis, fechadas naquele que é o maior consumidor de espaço pessoal e público que o homem jamais inventou. Ele devora os espaços que poderiam servir para contactos e encontros. Não só as pessoas já não têm vontade de andar a pé como aquelas que efectivamente o desejam, ou não arranjam facilmente sítio onde o fazer, por os espaços estarem ocupados com carros estacionados; ou porque as ruas desertas as desencorajam.
Quando andamos a pé aprendemos a conhecer-nos entre nós quanto mais não seja de vista. O automóvel tem o efeito contrário sobre as relações humanas pois afasta os seus ocupantes do mundo exterior. Além disso esbate também a sensação do movimento no espaço, confundindo os pormenores do ambiente circundante imediato, pela velocidade. O automóvel, portanto, isola o homem do seu ambiente, bem como o afasta de contactos sociais. Permite apenas os tipos de relações mais elementares que põem muitas vezes em jogo a competição, a agressividade e os instintos de destruição.
Vários estudos demonstram que, actualmente, uma grande parte dos jovens não sabe andar a pé nas cidades. Pura e simplesmente porque não o fizeram desde pequenos. Em crianças era o carro dos pais que os transportava, mais tarde o seu. E entretanto ganharam medo pois falta-lhes a segurança de quem descobre alguns caminhos por si próprio. Os trajectos são muito mais reduzidos. São feitos de sentidos obrigatórios. E só esses são os conhecidos. As crianças, em grupos, já não vão da escola para casa, da casa para a escola. São as carrinhas dos "ATL's" ou os carros dos pais que as vão buscar, adensando o círculo vicioso que liga passeios quase desertos ao medo de andar a pé.
A harmonização da escala humana e da escala do automóvel coloca um problema a ter em conta pelos que intervêm na cidade mas o usufruto dos espaços públicos por todos nós não deve ser restringido apenas aos que estão definidos como áreas de lazer pois as ruas também fazem parte da cidade e circular nelas deve ser um prazer.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Descoberta tardia
No meio dos lamentos, sempre ouvidos em silêncio, de uma mãe que perdeu o seu filho, uma frase que nos deixou comovidos: "eu nem sabia que o meu filho era tão inteligente!" O número de pessoas presentes no funeral e a estima que lhe tinham pessoas tão "importantes" levava-a a essa constatação que, ao mesmo tempo que a enchia de orgulho, era acompanhada de uma grande tristeza por nunca lhe ter podido mostrar esse sentimento que agora a preenchia.
Filmar o real
Os bairros sociais são realidades para muitos desconhecidas e sobre os quais há muitos discursos cheios de ideias feitas.
Há um ano atrás iniciava-se um projecto que me parece muito interessante e que, pelo que sei, constituiu uma experiência muito enriquecedora tanto para os realizadores/formadores como para os moradores nesses bairros que participaram. Esta sexta-feira, no Centro Cultural Malaposta, pode ver-se o documentário.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O sapateiro e o poeta
O júri do Prémio Literário Casino da Póvoa escolheu, como vencedor,"O livro do sapateiro" de Pedro Tamen. (Atenção ao segundo parágrafo deste texto porque nem tudo o que parece é).
A propósito do prémio vi hoje o autor na televisão explicar que tal como o sapateiro faz sapatos sem saber quem os calçará também o poeta escreve poemas sem saber quem os lerá. Mas, digo eu, se os sapatos mais cedo ou mais tarde são postos de parte já os poemas, pelo menos poemas como estes, duram para sempre.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
A garra dos irmãos Coen
Belíssimas interpretações (à excepção de Matt Damon que não me convenceu, de todo). Bela fotografia. Uma história bem articulada. Mas melhor filme do ano?
Já agora o mesmo filme há umas décadas atrás:
Actores muito bons. O filme nem por isso.
Quando terminou, na sala onde o vi, irromperam aplausos. Suponho que eram para as interpretações.
3 crianças à janela
Seriam irmãos. Os cabelos muito louros naquela rua de Lisboa levava a pensar que não eram portugueses. As suas cabeças saíam de fora da janela de guilhotina, aberta até onde podia. Seis braços estendidos sobressaíam e as mãos tentavam agarrar a chuva que caía lá fora.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Ir à loja para aprender
Isto de fazer publicidade a lojas não é muito comigo. Mas esta merece. Então para quem tem filhos, ou sobrinhos, ou netos, ou amigos (em várias idades) vale mesmo a pena a visita.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
E agora já com as flores
Chovia. Chovia muito. Com as flores na mão, já fora do supermercado, aguardavam debaixo do telheiro. Olhavam uns para os outros. A escolha não era muito original. Rosas, quase todos. Alguns tinham ramos maiores, outros só uma flor. Seja como for, com aquela chuva, as flores não ficariam, decerto, em bom estado. Pareciam pensar: porque é que S. Valentim não conversou ontem com S. Pedro? Ou então: mas porque é que deixei o chapéu de chuva no carro? Ou ainda: o que será pior, chegar atrasado ou com o ramo de flores desfeito?
À espera das flores
Logo à entrada do supermercado a fila de homens era já bastante grande. Uns, com alguma calma, esperavam a sua vez. Outros, impacientes, tornavam visível a sua preocupação pelo atraso para algum encontro marcado. Seriam umas 20 horas. Junto ao balcão, rodeada de vasos, a florista não tinha mãos a medir.
Coração cor de laranja
Caminhava à minha frente logo pela manhã. As flores de papel que adornavam a sua mochila tinham muitas cores. Cosido ao blusão, na parte de trás, exibia, orgulhosamente, um coração feito de cartolina cor de laranja e mais flores de papel.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
As cidades de todos?
imagem aqui
A propósito de sem-abrigo lembrei-me de uma conversa com um formando de um curso em que fui formadora que defendia que estas pessoas deveriam ser retiradas dos centros das cidades onde incomodam os que aí circulam. Os argumentos dos que entendem a segregação espacial como solução para determinados aspectos da vida nas cidades têm-se vindo a espalhar à medida que aumenta o medo do outro, do que é diferente de nós.
E se a segregação sempre fez parte da forma como se gere a cidade - D. Afonso Henriques, por exemplo, expulsa os mouros para a pior zona da Lisboa de então, a encosta norte da colina do Castelo, obrigando-os a um recolher obrigatório e ao uso de roupas específicas - por motivos políticos ou outros, ela já não é hoje uma medida que faça parte do "cardápio" dos poderes públicos. No entanto, quer se faça voluntariamente (a criação de condomínios fechados, impulsionada pelo medo da violência e pela busca de segurança; os grupos étnicos que muitas vezes escolhem habitar em áreas racialmente homogéneas), quer involuntariamente, num processo em que os grupos acabam por se distribuir espacialmente e desigualmente por rendimento ou nível de instrução, acentuando desigualdades nas condições de habitação e de acesso bens e serviços; ela é um dado a ter em conta.
Os próprios poderes públicos podem reforçar a segregação dando prioridade a investimentos nas áreas ocupadas pela população de mais altos rendimentos, negligenciando ou simplesmente ignorando as áreas ocupadas pelos mais pobres. E, ao contrário, podem promover a qualificação das áreas mais carentes, através de investimentos em habitação e infraestruturas, transportes, segurança, educação, saúde, lazer e cultura atenuando a segregação espacial.
O tratamento espacial da marginalidade, entendendo-a como o estado de grupos sociais, numericamente e culturalmente minoritários, cujo comportamento se afasta das normas dominantes, provocando a "invisibilização" do fenómeno através da segregação, só de forma aparente poderá dar uma sensação de maior segurança.
E na realidade os sem-abrigo ou outros grupos "marginais" fazem parte da cidade, constituem aquilo que faz dela o que é. E se o nosso desejo de melhorar a nossa relação com ela faz todo o sentido não o podemos fazer à custa da expulsão de quem, sendo diferente, vive a cidade de uma forma que pode ser errada aos nossos olhos mas que é mais uma, contribuindo para a multiplicidade das vivências, típica do meio urbano.
E se a segregação sempre fez parte da forma como se gere a cidade - D. Afonso Henriques, por exemplo, expulsa os mouros para a pior zona da Lisboa de então, a encosta norte da colina do Castelo, obrigando-os a um recolher obrigatório e ao uso de roupas específicas - por motivos políticos ou outros, ela já não é hoje uma medida que faça parte do "cardápio" dos poderes públicos. No entanto, quer se faça voluntariamente (a criação de condomínios fechados, impulsionada pelo medo da violência e pela busca de segurança; os grupos étnicos que muitas vezes escolhem habitar em áreas racialmente homogéneas), quer involuntariamente, num processo em que os grupos acabam por se distribuir espacialmente e desigualmente por rendimento ou nível de instrução, acentuando desigualdades nas condições de habitação e de acesso bens e serviços; ela é um dado a ter em conta.
Os próprios poderes públicos podem reforçar a segregação dando prioridade a investimentos nas áreas ocupadas pela população de mais altos rendimentos, negligenciando ou simplesmente ignorando as áreas ocupadas pelos mais pobres. E, ao contrário, podem promover a qualificação das áreas mais carentes, através de investimentos em habitação e infraestruturas, transportes, segurança, educação, saúde, lazer e cultura atenuando a segregação espacial.
O tratamento espacial da marginalidade, entendendo-a como o estado de grupos sociais, numericamente e culturalmente minoritários, cujo comportamento se afasta das normas dominantes, provocando a "invisibilização" do fenómeno através da segregação, só de forma aparente poderá dar uma sensação de maior segurança.
E na realidade os sem-abrigo ou outros grupos "marginais" fazem parte da cidade, constituem aquilo que faz dela o que é. E se o nosso desejo de melhorar a nossa relação com ela faz todo o sentido não o podemos fazer à custa da expulsão de quem, sendo diferente, vive a cidade de uma forma que pode ser errada aos nossos olhos mas que é mais uma, contribuindo para a multiplicidade das vivências, típica do meio urbano.
Roubar e comer
As caixas da fruta estão perto da porta, do lado de fora. Junto a elas, como se a fome não lhe desse tempo para se afastar, um sem-abrigo descasca uma laranja que acabou de tirar. As cascas caem no chão. Dentro da loja o dono assiste. Não diz nada. Aquela laranja só faz diferença para o homem que a come.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Resistir. Mudar.
Parece tratar-se da ilustração de um livro, publicado no séc. XIX, de Júlio Verne, por exemplo. É a pintura de João Fonte Santa. O monstro parece grande de mais para que valha a pena lutar contra ele. Mas há um machado empunhado por um homem que parece não querer desistir que nos lembra que, por mais que a realidade se imponha como algo inelutável, a impossibilidade de a vencer só existe se não se acreditar que a mudança pode acontecer.
Mesmo sabendo que o caminho é longo os egípcios começaram a percorrê-lo.
Imagem aqui
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Parva, eu?
Que me perdoem os fãs do tema "Parva que sou", dos Deolinda. Mas confesso que, ultimamente, à excepção das músicas da publicidade ao "Pingo Doce", poucas canções me têm irritado tanto.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Canteiro despido
Aquando do início da intervenção no Jardim França Borges, localizado no Príncipe Real em Lisboa, a minha opinião era que se deveria dar o benefício da dúvida à autarquia pois havia situações a melhorar que precisavam ser analisadas. Uma vez que as obras estão aparentemente concluídas (a reabertura foi em Maio do ano passado) há aspectos que me parecem que necessitam ser revistos, agora que os dias mais quentes começam a trazer ao local muita gente. Um deles é o piso que, da imensa poeira no Verão, se transforma, misturado com a chuva, numa pasta nada agradável para caminhar. Outro é, sem dúvida, alguns canteiros que, ou por falta de manutenção, ou por eventual desadequação das plantas escolhidas ao solo, se encontram no estado que a fotografia documenta. O sistema de rega está lá mas para regar o quê?
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Uma das razões/poemas porque gosto de Maria Teresa Horta
Desato
Às vezes invento
outras vezes desgraço
Desbravo os sentidos
castigo ou desato
Deponho o que sei
acrescento o que faço
Às vezes construo
outras vezes desfaço
in Maria Teresa Horta, Inquietude, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2006, p. 24
Às vezes invento
outras vezes desgraço
Desbravo os sentidos
castigo ou desato
Deponho o que sei
acrescento o que faço
Às vezes construo
outras vezes desfaço
in Maria Teresa Horta, Inquietude, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2006, p. 24
Uma livraria de poesia
A rua Cecílio de Sousa é uma daquelas ruas de Lisboa onde apetece passear. Descendo desde a R. da Escola Politécnica encontramos, no número 11, a Livraria Poesia Incompleta, aberta desde 2008 e onde já comprei alguns livros. O espaço não é grande mas muitas são as obras que por lá encontramos e grande o saber do seu proprietário, sempre pronto a ajudar.
Algum tempo atrás chegou-me a notícia que as dificuldades em permanecer aberta estavam a aumentar. Nada melhor portanto que passar por lá, conhecer o espaço e os livros e comprar algum deles. Talvez este contexto de crise em que vivemos não seja muito propício a fazer gastos supérfluos. Mas, caramba, a poesia é um bem de primeira necessidade!
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Nunca é tarde para começar
Chamou-me a atenção por ter já mais de 70 anos.
- Ultimamente tem-me acontecido cada coisa, disse. E acrescentou:
- Acho que vou começar a escrever um diário.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Meninos rabinos
No dia em que a Google chama a atenção para os 25 anos do Vitinho veio-me à memória a animação de Artur Correia que, na minha infância, lembrava que tinha chegado a hora de nos irmos deitar. A corneta era muito irritante. E reparo agora que nos conselhos, tornando o filme bastante datado, se incluía "rezar a Jesus". Lembram-se? (Ainda tenho o meu primeiro jogo de dominó em que as peças tinham estes bonecos).
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Máximo contraste
A última vez que estive no Cabaret Maxime (já lá vão alguns anos) foi para assistir a um concerto desta senhora. Canções eternas numa voz magnífica.
Depois tivemos direito ainda a assistir ao show de um artista, cujo nome não recordo, mas que, pelo contraste, foi uma situação inesquecível. E, para ajudar, a presença de Manuel João Vieira, sempre mordaz. Era esta mistura de registos e o inusitado das situações que fazia do Maxime um lugar único. No sábado foi a última noite.
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