domingo, 8 de novembro de 2009

Uma (e mais uma) das razões/poemas porque gosto de Mia Couto

A propósito do último comentário do Manuel Gouveia lembrei-me deste poema:

Desleitos

Recuso o leito.
Quero dormir
onde não tenha cabimento.

O problema da cama
é que, tal como no caixão,
ganhamos o tamanho da tábua.

Para sonhar,
prefiro o inteiro chão.

Tenho a sede
do embondeiro:
ao invés de beber,
eu engulo o chão inteiro.

E, já agora, acrescento outra razão, esta suscitada por recentes polémicas:

Avesso Bíblico

No início,
já havia tudo.

Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.

Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.

Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.

E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.

Estava criado o Homem.


in Mia Couto, idades cidades divindades, Caminho, 2007

2 comentários:

  1. Gostei muito do Avesso Bíblico e curiosamente vem muito na linha do que escreve Saramago a respeito de Deus.

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