sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O fado tem cor?


O Algarve mais longe

Este Verão voltamos a ouvir na rádio o que já há algum tempo não ouvíamos. Quando se fala de trânsito ao fim de semana têm sido referidas filas no IC1 entre Alcácer do Sal e a Marateca.

Pastelaria

É através das janelas com vidros aos quadradinhos que a vejo. Na sua mão, pequenina, um bolo que come com vontade. O creme branco suja-lhe a cara. Parece estar feliz.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estava tudo a correr tão bem...

Dirão que esta parte do edifício é nova (as fachadas laterais foram aumentadas) e que os arquitectos têm que deixar a sua marca. Mas isto será mesmo preciso?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Enquanto o fim da cerimónia se aproxima...

Notas para um discurso de encerramento

Foram as mais grandiosas Olimpíadas de sempre.
Participaram todas as nações conhecidas.
Resultados muito além do que seria de esperar.
A organização excedeu-se e merece os elogios
e o aplauso. Passados quarenta dias,
é tempo de entregar o testemunho
a mais uma cidade. Prudente omitir
como ficou pior o mundo nestes quarenta dias.

in José Ricardo Nunes, Versos Olímpicos, Deriva Editores, 2009, contracapa

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Vá lá, say yes!

Uma conversa

Uma na rua, outra no interior da loja, as duas empregadas conversam. O vidro da montra separa-as. A que está cá fora dobra-se um pouco e encosta o nariz ao vidro. Da que permanece lá dentro vemos apenas a cabeça que assoma entre vários pares de sapatos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Referir-se-ão a Portugal?


Novato

Sem o treino de quem percorre os corredores do metro há muitos anos, ele avança sem fazer barulho. Quase nada o identifica a não ser uma pequena caixa onde espera que caia alguma moeda. Dá alguns passos e pára. Pede, numa voz sumida. Volta a dar mais alguns passos e pede novamente. Quase não se ouve. Mais à frente resolve sentar-se. Fica a olhar para a janela.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O pão

De volta à RTP2, o 5 noites, 5 filmes. Sem estar a par da programação é sempre uma surpresa o que vejo na televisão. Ontem passou um filme que eu não conhecia mas que, sem ser um filme extraordinário, me prendeu ao televisor. Pa negre é o título e retrata a Catalunha rural nos tempos pós guerra civil. A situação vista pelos olhos de uma criança pode não ser muito original mas, a nós portugueses, ajuda a compreender um pouco da história que se desenrolou aqui tão perto.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Há que poupar, até nas figuras geométricas...

- Mãe, pensa comigo: as caixas das pizzas são quadradas, as pizzas são círculos, as fatias das pizzas são triangulares. Não te parece que são figuras geométricas a mais?

M., 12 anos

Um mês de Agosto com uma paisagem diferente

Vivo numa zona suburbana. Em anos anteriores, por estes dias de Verão, os passeios, normalmente ocupados por carros, estavam livres e até havia lugares de estacionamento com abundância.
Este ano tenho reparado que a quantidade de carros estacionados é a mesma, ou mais ainda, pois quem usa o carro para ir trabalhar e está de férias tem o carro à porta.

terça-feira, 31 de julho de 2012

"Casa, descasa, casa, descasa"

2010 foi um ano record quanto ao número de divórcios em Portugal. Mais uma vez, a minha experiência pessoal a enquadrar-se perfeitamente nas estatísticas. E, mesmo descontando o facto de haver menos casamentos e, portanto, menos divórcios, as dificuldades económicas serão, certamente, um obstáculo a que muitas pessoas optem por pôr fim ao casamento. Já estou a imaginar a minha mãe, após ver estas notícias, a dizer-me: - Mas porque é que a crise não chegou mais cedo?

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos poéticos

Comprei-o o mês passado. Nem a propósito. Este pequeno livro, de José Ricardo Nunes, tem como título "Versos Olímpicos". Teriam sido inspirados pelos últimos jogos olímpicos, em 2008. Depois de assistir a parte da cerimónia de hoje lembrei-me logo deste poema que aqui deixo.

Cerimónia de Abertura


Entram no estádio e desfilam
as delegações: uma bandeira
por país, um capitão
a comandar os implicados
no crescimento do comércio global.
Os desportistas sorriem, acenam,
cumprem à risca o seu papel de figurantes.
Digo-lhe que não sei parar as imagens.

Reina a paz e a concórdia.
Mesmo os que vieram apenas para competir,
perder, sonham com o milagre
que lhes turva os olhos de glória. E eu,
sentado neste sofá suburbano
que treme à passagem do comboio,
acredito no que lhe digo.

Lembra o comentador, algo comovido
pelas últimas notícias, que na Grécia
faziam tréguas durante os Jogos.
Alguém é dono da verdade? Resta-nos
o poder de mudar livremente de canal
ao sabor dos nossos humores tão variáveis.
Estou sempre a dizer isto à Jacinta.


in José Ricardo Nunes, Versos Olímpicos, Deriva Editores, 2009, p. 5

quinta-feira, 26 de julho de 2012

E, no entanto, estudar valerá sempre a pena!


No dia em que comuniquei aos meus pais que me iria candidatar ao curso de Sociologia na universidade, eles torceram um pouco o nariz. Achavam que era uma ciência "exótica" e, mais que isso, temiam a forma como se faria a minha inserção no mercado profissional. Direito, por exemplo, seria, para eles, uma escolha mais segura. Mas sabiam que tudo o que dissessem não me faria mudar de opinião, eu que tanto tinha hesitado (mas sempre à volta de áreas como a Filosofia e a História). E por isso não me disseram muito. A vontade de que a sua única filha tirasse um curso superior era tão grande que, desde sempre, outra alternativa não se colocou. Neste caso foi o juntar de duas vontades pois a situação de estudante era a única que eu via para mim na altura. Após o curso tudo correu bem. Vivia-se em tempo de vacas gordas, com os fundos europeus a disponibilizarem verbas para formações pós licenciaturas e com o mercado de trabalho a absorver com facilidade quem saía das universidades. Tive várias oportunidades de emprego. A minha veia mais sonhadora e menos economicista levou-me a optar, não pelas que me dariam mais dinheiro mas pela que, achava eu, me permitiria trabalhar no desenvolvimento de projectos em que acreditava.
Ao longo do tempo, muitas dúvidas me assaltaram e muitas vezes questionei as minhas escolhas.
Actualmente, na equação a ter em conta na altura da tomada de decisões acerca do futuro, as incógnitas são tantas que a resolução é muito mais difícil. E penso nos pais que durante tanto tempo defenderam os estudos superiores como forma de os filhos terem uma vida profissional mais estável e financeiramente mais compensadora.
Continuo a achar que não devem ser as retribuições financeiras esperadas a presidir às escolhas de futuro. Mas para quem não tem a mesma opinião ou que, mesmo tendo, entende que a retribuição deverá ser proporcional ao esforço, que confusão a situação que notícias como esta retratam. Claro que não é só de agora que os bons profissionais se fazem pagar bem, seja em que área for. E ainda bem que assim é. Sabemos também que as leis do mercado obrigam a uma valorização do trabalho que tem mais procura por parte dos empregadores e, ao contrário, desvalorizam aquele que se encontra em excesso. E também é óbvio que se trata de anúncios no portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional, não permitindo qualquer generalização. Mas só o facto de terem sido publicados é mais um indicador de uma realidade que quem planeia e tem responsabilidades nas áreas da educação e do emprego não poderá deixar de ter em conta. E, já agora, todos nós. 
Mas tudo isto não poderá pôr em causa a importância do estudo e servir de argumento para os que consideram que a educação está do lado da despesa e que, portanto, os investimentos aí feitos poderão ser mais leves. É que os efeitos perversos destas ideias poderão tornar-se muito perigosos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Aprender a ler no corpo

A morte de Helena Cidade Moura e a importância que o seu trabalho na área da alfabetização teve faz-nos pensar que, apesar dos esforços de muitos e das melhorias alcançadas, muito ficou por fazer. É uma tragédia que ainda hoje existam adultos que não sabem ler nem escrever mas é ainda pior que existam crianças e adolescentes que, mesmo com a escolaridade obrigatória implantada há tantos anos, estão longe de conseguir articular uma ideia ou interpretar um texto...
Mas o que me levou a escrever sobre esta questão foi o facto de ter conhecido algumas pessoas que se dedicaram a esta nobre tarefa que, apesar de constituir uma preocupação já antes de Abril de 74, foi depois desenvolvida com outros pressupostos. Estas campanhas de alfabetização mudaram a vida a muita gente. Lembro-me de uma amiga me contar que o trabalho ia muito para lá do ensino das letras. Um dos objectivos passava por um mínimo de auto-conhecimento, inclusive físico. Não esqueci o que me disse relativamente a muitas mulheres que não tinham apenas vergonha de mostrar o seu corpo a outras pessoas, mesmo que se tratasse do próprio marido. Elas nunca se tinham visto inteiramente nuas num espelho e esse era um trabalho para casa, simples mas complexo e cheio de significado. A alfabetização era a mudança e Helena Cidade Moura e tantos outros sabiam-no.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A minha amiga Sofia

Esta situação da licenciatura do Ministro Miguel Relvas (ou deverei dizer, depois do comentário do Professor Marcelo, com direito a avanço de nomes alternativos, ex-ministro) que, necessariamente, envergonhará o próprio, os que lhe estão próximos, a Universidade que, de forma tão displicente, lhe atribuiu um diploma, e que constrange todos nós; faz-me pensar na minha amiga Sofia. Há já alguns anos, a Sofia, seguidora dos meandros da política que por cá se faz, dizia que ela seria das poucas pessoas capazes de concorrer a um cargo político com o curriculum limpo de falcatruas, de fuga a impostos, de cunhas, e outras coisas que são nódoas difíceis de tirar, mesmo que só os próprios as identifiquem. Como eu a conheço sei que ela tem razão.
Um homem da política que aproveita o facto da entrada em vigor, havia pouco tempo, de uma legislação que ainda poucos dominavam, para obter uma licenciatura já antes tentada, sem pensar que, no futuro, essa situação lhe poderia ser fatalmente prejudicial, não deveria nunca ter sido licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais. Se houvesse no curriculum do curso uma cadeira de "ingenuidade política", aí sim, poderia ter um 20. E os doutos professores da Universidade Lusófona que analisaram os seus pergaminhos deveriam ter também percebido isso. Se não foram capazes de ver para lá de contas de créditos e equivalências é porque eles próprios conhecem muito pouco sobre a teoria política e ainda menos sobre a realidade política o que os deixa, no mínimo, deslocados nos cargos que ocupavam. Claro que, nesta análise, não entro em linha de conta com outros factores que, menos claros, poderiam estar em jogo.
É por estas e por outras que quando penso em políticos em quem se pode confiar, me lembro da minha amiga Sofia. E talvez seja por ser como é, sem telhados de vidro, que ela não está na política.

Nota:

Esta semana estarei de férias. Qualquer assunto vai mesmo ter que esperar. O computador vai ficar em casa.

domingo, 15 de julho de 2012

Cartoons e mais cartoons

Até final do mês no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, podem visitar o World Press Cartoon 2012. Vão com tempo pois há muito para ver.

Imagem, de Rafael Carrasco, aqui

sábado, 14 de julho de 2012

Reutilizar

Ainda esta semana falava com uns colegas sobre as cabines telefónicas que quase já não são utilizadas. Esta parece ser uma hipótese interessante.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Nuno Costa Santos

Perdoa-me

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.



in Nuno Costa Santos, às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, Companhia das ilhas, 2012, p. 32

Até Cavaco Silva o disse...

embora por outras palavras.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Partir ou ficar


Provavelmente muitos de nós gostaríamos de o ter feito. Meter numa mala o que nos parecia essencial e fugir de casa com o nosso amor de adolescente. Não pensando nas consequências, como se nada mais interessasse. Lutar contra tudo e contra todos acreditando que todos os obstáculos são ultrapassáveis quando, ao nosso lado, está alguém que também deixou tudo para trás para nos dar a mão e saltar por cima deles.
Foi isso que fizeram Sam e Suzy. Mas fizeram mais. Provaram com o seu acto, aparentemente irreflectido, a sua maturidade face a um grupo de adultos que, cada um à sua maneira, ficou preso numa condição de passividade, perante uma vida que há muito os engoliu e da qual não conseguem sair. A natureza, tal como a vida, é dura e as tempestades hão-de sempre acontecer. A verdade é que nem todos lhes conseguem sobreviver. Poder dar a mão a alguém ajuda. E ter uns binóculos para ver as coisas mais perto, também.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

No primeiro dia do SBSR

Conversa animada

A mesa, à porta da "velha Tendinha" está mesmo junto ao Arco do Bandeira. Ao passar entrevemos a entrada do Animatógrafo. A mesa está ocupada. São sete as freiras que conversam animadamente. Em pé, uma mulher sem hábito tira-lhes uma fotografia.

terça-feira, 3 de julho de 2012

"meet me at the back of the blue bus"

41 anos passaram sobre a morte de Morrison

Já?

As águas do Tejo certamente subirão com as lágrimas que serão vertidas pelos scalabitanos depois de saberem isto.
Depois da ironia, um desabafo: como residente em Oeiras e depois de Isaltino continuarei mesmo a chorar.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

Uma retroescavadora no quarto

Da janela aberta para a rua conseguimos vê-la. Nas suas manobras executa uma dança que vai deixando algumas paredes e os tectos destruídos. O estuque vai caindo. As madeiras vão aparecendo. Estranha-se uma máquina destas numa casa que faz parte dum edifício de mais de 5 andares no centro da cidade. Estranha-se a decoração dos tectos a ser arrasada. Estranha-se. Não é por acaso que, cá fora, tanta gente se põe em bicos de pés para ver para dentro daquele rés do chão alto.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Depois do Jogo

O silêncio nas casas.
O regresso do trânsito às ruas.

Durante o jogo

As ruas sem trânsito. 
Os sons desfasados de rádios e TV's que saem das janelas abertas.
Os gritos de incentivo de todos os que não estavam no estádio mas estavam no estádio.
Os ooooh... quando alguma jogada não tinha o desfecho que todos esperavam.
As unhas roídas nos momentos cruciais finais.

Antes do jogo

A excitação de quem vai no comboio e tem que preparar os petiscos.
O parque do supermercado quase vazio e o letreiro na porta que diz "encerramos às 19".
O sinal de trânsito vertical que indica local exacto de passagem para peões onde alguém amarrou o pau de uma bandeira portuguesa.
As pessoas a entrarem nas suas casas com as mãos cheias de latas, garrafas, grades de cerveja.
Os donos dos cães que aproveitam para os passear.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Agradar a portugueses e espanhóis


Enquanto Portugal se enche de cachecóis e bandeiras verde-rubras à janela, os quiosques da baixa de Lisboa equilibram-se nos símbolos e as cores espanholas rivalizam com as portuguesas. É um facto que as bandeiras espanholas parecem ter sido desempacotadas há pouco tempo, uma vez que estão ainda com as marcas de terem estado dobradas dentro das caixas. Mas isso não incomoda ninguém. E os euros dos turistas espanhóis não se podem desperdiçar.

Identificação de um país

Dois homens, brasileiros, vão por uma rua de Lisboa a conversar. Um deles, referindo-se a uma localidade que não sei qual seja, diz para o outro:
- Lá ainda é bem Portugal!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

À beira da estrada

Cerejas, melão, melancia... O cartaz anuncia estas e outras frutas. O toldo improvisado resguarda do sol várias caixas. Uma balança e uma cadeira ao centro. A mulher está sentada enquanto espera que os carros parem e as pessoas comprem o que tem a vender. É domingo e, apesar do calor, sabe que é o melhor dia  por isso não pode sair dali. Limita-se a observar o seu filho pequenino, que dorme numa cadeirinha, indiferente à música do rádio e ao barulho dos automóveis que passam.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pesquisas...

De vez em quando vou consultar as estatísticas aqui do blogue. Na "secção" "Pesquisar palavras-chave", que parece indicar as palavras que foram usadas para fazer a pesquisa que trouxe alguém até aqui, aparecem, por vezes, as coisas mais extraordinárias. Como não registei expressões anteriores que me fizeram sorrir, não as recordo. Mas ainda ontem tinha uma entrada vinda de uma pesquisa com a seguinte expressão chichi na boca porno. Não pude deixar de pensar a que post teria ido parar esta visita...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

No mês dos santos populares...

... hoje é dia de S. Rui, S. Bruno, S. Fábio, S. João, S. Pepe, S. Miguel, S. Raul, S. Cristiano, S. Hélder, S. Nani, S. Varela, entre outros...


terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Inês Dias

Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor
de pontes, conheci apenas as iniciais,
gravadas na pedra com que tomara
o último dos elementos. Mas a sul
do passado, o meu avô repetia-lhe
ainda os gestos, ensinando-me a travar
as marés com pequenos diques improvisados -
paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel.

Nunca mais o futuro voltou a ter pé
como nessa Praia do Amanhã, tão literal,
tão só para mim. Aprendi a bordar
iniciais, às vezes na própria pele,
a construir diques cada vez mais frágeis
de palavras, pontes entre o meu corpo
e a margem dos outros.

De pouco vale: geração em geração,
ano a ano, vamos perdendo a luta
contra o avanço das águas.

in Inês Dias, In Situ, Língua Morta, 2012, p. 14

segunda-feira, 18 de junho de 2012

domingo, 10 de junho de 2012

Trocadilho extraterrestre

Curativo

"Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso..." 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

terça-feira, 5 de junho de 2012

Uma refeição

O homem e a mulher terminaram a sua refeição e levantaram-se, deixando os tabuleiros com os restos da comida nos pratos. Na esplanada mais algumas pessoas almoçavam. Ele estava de fora, atento. Mas não era as pessoas que ele observava. Mal o casal saiu, aproximou-se. Rapidamente retirou do prato os restos que, por não serem muitos, couberam numa mão. Não ficou ali. Afastou-se. Mas provavelmente voltaria. O que tirou não era suficiente para matar a fome.   

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce para alguns

Estava para aqui sentada e via na televisão o Bruce Springsteen, no Rock in Rio. Não pude deixar de pensar em quantos operários, trabalhadores precários, desempregados e outros, de quem tanto fala nas suas canções,  estariam presentes.

sábado, 2 de junho de 2012

Radix

Com a minha filha mais velha no Rock in Rio, a mais nova via a emissão da SIC Radical que transmitia, em directo, os concertos. Na altura em que passei frente à televisão, as repórteres no local, pois só mulheres eu vi nessas funções, falavam do último concerto. Entre frases sem nexo e brincadeiras inócuas mas verdadeiramente aparvalhadas, passavam o microfone e as imagens de umas para as outras sem que nada realmente acontecesse. Sim, já sei, só estive um minuto a ver. E também já sei que começo a ficar velha. Mas, caramba, será que não havia nada, mesmo nada, interessante para dizer? Entretanto percebi que esta foi uma estratégia delineada pelo director de programação do canal. "O problema é que não há ali gente com coisas interessantes para dizer", diz. E pensa, certamente, que do lado de cá, só há gente que aprecia ouvir baboseiras. Bem, pode-se sempre mudar de canal. Exactamente. Isso sim é ser radical! 

Post-it!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Through the glass

Um pouco a medo espreitava lá para dentro. Colocava as mãos junto ao vidro para poder ver melhor. As roupas muito sujas, os cabelos em desalinho, o cheiro que dele emanava, faziam afastarem-se os que  se cruzavam com ele . Lá dentro ninguém lhe ligava. Os cabeleireiros continuavam atentos aos cabelos das clientes. Elas continuavam a olhar para as fotografias das revistas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Assim se sentem muitos


Um xeque mate anunciado

Num anúncio de rádio, uma voz feminina, verificando uma lista de requisitos para entrar numa escola superior privada, vai dizendo:
- Mais de 23 anos... check; ensino secundário incompleto... check...; 
Depois da escolha da licenciatura a voz finaliza com um... xeque mate. 
Tratando-se de uma licenciatura e logo em Gestão imobiliária, sector bastante afectado pela situação económica desfavorável, tudo isto soa a cruel ironia. Os criativos tinham mesmo que fazer isto assim?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os sapatos castanhos

As pessoas circulam com a pressa de quem quer chegar rapidamente a casa. O dia está quente. Mesmo se a esta hora, já longe do pico do sol, não se esperasse tanto calor. Sentado na borda do passeio, na rua movimentada, o homem descansa. O fato cinzento está um pouco amarrotado. Da gravata só um pequeno ponto azul espreita de um dos bolsos do casaco. Pousados a seu lado, os sapatos castanhos, de atacadores, estão ao alcance da sua mão. Mas, por enquanto, repousam também até que o homem pegue neles para os calçar e seguir, então, o seu caminho.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Controlar ou ser controlado

- Mãe, às vezes penso que nós estamos dentro de um jogo de computador que alguém joga. Mas também podemos ser nós a controlar os jogadores.
E depois de uma gargalhada num tom malévolo:
- Bem, acabei de assustar duas pessoas que estavam a jogar... 

M., 12 anos

sábado, 19 de maio de 2012

Comunicado (2)

Dadas as pressões entretanto sofridas pelos membros do Conselho de Redacção e da Direcção deste Blogue, que incluíram ameaças mais ou menos explícitas, as quais foram levadas muito a sério, consideram estes que, afinal, uma pressão ou outra, de vez em quando, até faz bem.

Comunicado (1)

Depois de algumas notícias recentes o Conselho de Redacção e a Direcção deste Blogue resolveram divulgar publicamente que não serão toleradas quaisquer pressões em relação aos conteúdos nele publicados. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

I used to know... somebody

Ouvi-a na televisão associada a um vídeo que parodiava a relação entre Merkel e Sarkozy. Prendeu-me a atenção. Ouvi-a melhor depois e percebi que já anda pelos tops. Não é por isso que deixa de ser uma boa canção. 



E este belga-australiano parece ter muito mais para descobrir. Como o facto de ser um interessante multi instrumentista.

À espera de passageiros

O caixote do lixo está sujo. Mas tem exactamente a altura ideal para servir de mesa para quem está em pé. Como os quatro homens que, cada um de seu lado, seguram as cartas. O jogo não sei qual é. Mas a concentração dos jogadores é perturbada pelas pessoas que passam. É que qualquer uma delas pode entrar num dos táxis, dos quatro parados sem motoristas no interior.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sábado à noite com J. P. Simões

É, nas suas palavras, "um tipo que se inspira na música brasileira para fazer música portuguesa". Fá-lo bem, na minha muito modesta opinião. Já aqui falei dele várias vezes.
No passado sábado fui vê-lo a Cascais. Um outro concerto nessa noite na vila ou um outro qualquer motivo fez com que fôssemos cerca de uma dezena, os espectadores. Mas o concerto valeu muito a pena. Apenas com uma guitarra, J.P. Simões cantou antigas canções e apresentou-nos outras que escreveu recentemente. Esta é uma delas:

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Mimos no Facebook

As minhas filhas, como quase todos os adolescentes, usam e abusam do Facebook. Aldrabam a idade e lá ficam prontos para entrar nesse mundo virtual onde os amigos se ganham às dezenas por dia. Além da partilha de vídeos e fotos e da escrita de comentários mais ou menos desinteressantes não há muito para dizer das actividades. Mas uma coisa salta à vista: a facilidade com que, a propósito de tudo e de nada, declaram a colegas e amigos que os amam. Uma foto em que estão juntos, um vídeo de que gostam em comum são pretextos para trocas de mimos, à medida da inocência que ainda têm. E nem sempre se escudam no inglês. Não, é mesmo em português. Mais ou menos sentidas, essas declarações são enternecedoras. Provavelmente elas não serão repetidas ao vivo. Mas, só o facto de serem escritas essas palavras, utilizadas essas expressões, tantas vezes apelidadas de ridículas até entre os mais velhos, pode ser um treino que se revele precioso mais tarde. Assim seja... 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A vida mesmo ao seu lado

O homem vinha numa das carruagens, há longos minutos, num tom de voz bastante alto, a contar anedotas intercaladas com frases em que pedia "a mais pequena moeda" que cada um tivesse na carteira. Que não roubava, só pedia.
A mulher vinha sentada à minha frente e, numa longa conversa de telemóvel, tratava de questões profissionais com alguém que conhecia bem. À passagem do homem, sem o olhar, pediu desculpa ao seu interlocutor pelo barulho: "é um mendigo que está aqui aos gritos". Antes de se despedir, recomendou a essa pessoa a leitura de um livro de Pepetela que não identificou. Eu pensei que podia ser um romance, ou um conto que contenha uma personagem como a que a mulher não viu mas que estava ali, mesmo ao seu lado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A esta hora há 38 anos atrás...

Por vezes no Facebook surgem ideias muito interessantes. Esta do Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra é, sem dúvida, de louvar.

Miguel Portas

O pai foi meu professor quando passei pelo ISCTE. A mãe é minha colega de blogue, no Delito de Opinião. Miguel Portas já não assistirá a este 25 de Abril. Mas a ele e a tantos como ele devemos este dia. Por isso as homenagens e as palavras tão consensuais, acerca das suas qualidades, não serão de mais. Mas nada como os amigos para transformarem esta perda num momento de esperança.  

terça-feira, 24 de abril de 2012

O meu primeiro livro

Foi o meu primeiro livro. Uma edição de "O Capuchinho Vermelho", com desenhos que, ao abrir as páginas, se projectavam para fora das folhas. Liam-mo o meu avô, o meu pai, a minha mãe. Eu aprendi-o de cor. De tal forma que, com requintes de seriedade, o recitava enquanto os olhos seguiam as frases e as páginas eram viradas no momento certo, deixando boquiabertos os que viam tal proeza numa criança tão pequena. Eu não sabia ler. Mas tinha orgulho nessa exibição que, quando desmascarada, arrancava sempre uns sorrisos. 
Outros se seguiram e quando deixei de precisar de ajuda para descobrir as histórias que os livros continham, eles tornaram-se os meus melhores amigos. 
Não sei onde anda esse livro cuja lombada não resistiu e foi desaparecendo, deixando à vista os desenhos dobrados no interior. Gosto de pensar que não está perdido e que um dia o encontrarei e que, tal  como nessa altura, o conseguirei ler de olhos fechados.  

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A D. Ilda

A sala é grande, grande de mais para ela que, talvez numa tentativa de se aconchegar, escolheu um canto afastado das janelas, para colocar a cama estreita e pouco confortável. Tapa-se com as mantas, num Abril que trouxe o frio que Março já tinha feito esquecer. Deitada sobre ela, a gata partilha o calor que mal lhe chega. Por todo o lado, na casa, objectos variados mostram-nos que ali funcionou um cabeleireiro. Numa das paredes, num cartaz já meio desbotado, uma modelo sorri. A D. Ilda, cega, não a vê. Nem o móvel com espelho, colocado mesmo ao meio, tem agora qualquer função. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pegar e tocar

Olhar o rio

Olha o rio que está estranhamente agitado numa manhã tão calma.  Algumas caixas vazias pelo chão molhado mostram que o peixe já por lá passou. Mas agora a lota está deserta. Só ele permanece à porta, no lado que a sombra torna mais fresco, sentado numa cadeira de plástico. Está imóvel e os seus olhos estão fixados no rio. Parece esperar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

É preciso ver...

Há alguns anos que as minhas filhas têm óculos para quando vêem televisão ou estão no computador.  Foi um oftalmologista que os receitou. Mesmo assim, esquecem-se muitas vezes de os usar. Ao longo das suas vidas escolares fizeram alguns rastreios, do género que é falado nesta notícia, mas sempre com autorização expressa dos pais. O que vai para lá disso não deixa de ser mais um caso de abuso por parte de empresas que transformam o marketing mais aguerrido em futuros possíveis problemas de saúde. Tal não sucedeu connosco. Mas não deixo de partilhar alguns desejos de feliz aniversário que recebemos alguns anos, por parte das ópticas onde os óculos foram comprados. 
Dizia um: "na manhã sorridente do dia do seu aniversário, estamos consigo para partilhar a felicidade de ter ganho à vida mais um ano de esperança"; e outro, "no dia do seu aniversário sugerimos-lhe que peça à memória que lhe traga apenas a lembrança dos dias felizes da sua vida passada". Ora, para além do piroso da coisa, o discurso não parece nada adequado a destinatários de 10 e 9 anos, respectivamente. É até um pouco assustador. Acho que não volto a comprar lá óculos.

domingo, 8 de abril de 2012

A infância de Brel



No dia em que também ele faria anos.

Para a M.

A infância está a ficar para trás. A adolescência ganha terreno. É exactamente nesta altura que percebes o quanto cresceste. Que começas a perceber que, como dizias ontem, o tempo passa muito depressa. Que aquilo que todos vivemos é irrepetível. Chegar mais perto de ser adulto é querer olhar para o que já passou e perceber que aquela da fotografia eras tu mas entretanto já és outra. É saber que se aproximam tantas primeiras vezes. Umas que acontecerão e outras que talvez venham a acontecer. Mas é a possibilidade que, por enquanto, enche os sonhos. E os sonhos também contam. Mesmo que só mais tarde o venhas a saber.

Óbvio

- Oh, mãe: estou quase a fazer 12 anos e ainda não viajei para o Canadá!
- Canadá? E porquê o Canadá?
- Ora, para ver os alces! 

M., 11 anos

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sim, às vezes...

- Mãe, às vezes não te apetece ir para a janela e ficar ali a ver a vida?

M., 11 anos

"Porque se disse Como não disse?"

Depois das notícias desta quinta-feira terem agravado ainda mais o nosso estado de preocupação face ao que se avizinha fica-se com mais vontade de aguçar a nossa veia contestatária. 
Nada melhor, então, do que ouvir este Projecto Alvará que nos lembra os anos mais aguerridos de Sérgio Godinho. Ora atentem lá às letras do disco "Não é tarde, Nem é certo".

E para ilustrar aí vai um tema bastante a propósito de algumas coisas que se dizem e desdizem.. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Opiniões de génios...

A propósito de uma coisa que ouvi hoje lembrei-me de ter lido, em tempos, um excerto de uma carta onde Mozart descreve ao pai a que viria a ser sua mulher, Constanze.  Fui à procura e encontrei. Isto da internet é uma maravilha... 
"Não é feia e até chega a ser bela. Toda a sua beleza consiste em dois pequenos olhos pretos e numa bela figura. Não tem espírito, mas bom senso suficiente para ser capaz de cumprir os seus deveres de mulher e mãe. Não é dada ao luxo, longe disso - pelo contrário está habituada a andar mal vestida. (...) É verdade que ela gostaria de andar mais bonita e asseada, mas sem se distinguir. E a maior parte da roupa que uma mulher precisa ela é capaz de fazer sozinha. E também arranja o cabelo sozinha todos os dias. Sabe governar a casa, tem o melhor coração do mundo - eu amo-a e ela ama-me de todo o coração - diga-me se poderia desejar uma esposa melhor?" (Viena, 15 de Dezembro de 1781).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Parece tão simples...

E é. Não é preciso complicar para fazer uma grande canção.



Podem ouvir-se todas as músicas do novo álbum aqui

Uma das razões/poemas porque gosto de Albano Martins

Como se fosses o mar

Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.

in Albano Martins, Escrito a Vermelho, Porto, Campo das Letras, 1999, p. 79