quarta-feira, 2 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
A esta hora há 38 anos atrás...
Por vezes no Facebook surgem ideias muito interessantes. Esta do Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra é, sem dúvida, de louvar.
Miguel Portas
O pai foi meu professor quando passei pelo ISCTE. A mãe é minha colega de blogue, no Delito de Opinião. Miguel Portas já não assistirá a este 25 de Abril. Mas a ele e a tantos como ele devemos este dia. Por isso as homenagens e as palavras tão consensuais, acerca das suas qualidades, não serão de mais. Mas nada como os amigos para transformarem esta perda num momento de esperança.
terça-feira, 24 de abril de 2012
O meu primeiro livro
Foi o meu primeiro livro. Uma edição de "O Capuchinho Vermelho", com desenhos que, ao abrir as páginas, se projectavam para fora das folhas. Liam-mo o meu avô, o meu pai, a minha mãe. Eu aprendi-o de cor. De tal forma que, com requintes de seriedade, o recitava enquanto os olhos seguiam as frases e as páginas eram viradas no momento certo, deixando boquiabertos os que viam tal proeza numa criança tão pequena. Eu não sabia ler. Mas tinha orgulho nessa exibição que, quando desmascarada, arrancava sempre uns sorrisos.
Outros se seguiram e quando deixei de precisar de ajuda para descobrir as histórias que os livros continham, eles tornaram-se os meus melhores amigos.
Não sei onde anda esse livro cuja lombada não resistiu e foi desaparecendo, deixando à vista os desenhos dobrados no interior. Gosto de pensar que não está perdido e que um dia o encontrarei e que, tal como nessa altura, o conseguirei ler de olhos fechados.
domingo, 22 de abril de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
A D. Ilda
A sala é grande, grande de mais para ela que, talvez numa tentativa de se aconchegar, escolheu um canto afastado das janelas, para colocar a cama estreita e pouco confortável. Tapa-se com as mantas, num Abril que trouxe o frio que Março já tinha feito esquecer. Deitada sobre ela, a gata partilha o calor que mal lhe chega. Por todo o lado, na casa, objectos variados mostram-nos que ali funcionou um cabeleireiro. Numa das paredes, num cartaz já meio desbotado, uma modelo sorri. A D. Ilda, cega, não a vê. Nem o móvel com espelho, colocado mesmo ao meio, tem agora qualquer função.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Olhar o rio
Olha o rio que está estranhamente agitado numa manhã tão calma. Algumas caixas vazias pelo chão molhado mostram que o peixe já por lá passou. Mas agora a lota está deserta. Só ele permanece à porta, no lado que a sombra torna mais fresco, sentado numa cadeira de plástico. Está imóvel e os seus olhos estão fixados no rio. Parece esperar.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
É preciso ver...
Há alguns anos que as minhas filhas têm óculos para quando vêem televisão ou estão no computador. Foi um oftalmologista que os receitou. Mesmo assim, esquecem-se muitas vezes de os usar. Ao longo das suas vidas escolares fizeram alguns rastreios, do género que é falado nesta notícia, mas sempre com autorização expressa dos pais. O que vai para lá disso não deixa de ser mais um caso de abuso por parte de empresas que transformam o marketing mais aguerrido em futuros possíveis problemas de saúde. Tal não sucedeu connosco. Mas não deixo de partilhar alguns desejos de feliz aniversário que recebemos alguns anos, por parte das ópticas onde os óculos foram comprados.
Dizia um: "na manhã sorridente do dia do seu aniversário, estamos consigo para partilhar a felicidade de ter ganho à vida mais um ano de esperança"; e outro, "no dia do seu aniversário sugerimos-lhe que peça à memória que lhe traga apenas a lembrança dos dias felizes da sua vida passada". Ora, para além do piroso da coisa, o discurso não parece nada adequado a destinatários de 10 e 9 anos, respectivamente. É até um pouco assustador. Acho que não volto a comprar lá óculos.
domingo, 8 de abril de 2012
A infância de Brel
No dia em que também ele faria anos.
Para a M.
A infância está a ficar para trás. A adolescência ganha terreno. É exactamente nesta altura que percebes o quanto cresceste. Que começas a perceber que, como dizias ontem, o tempo passa muito depressa. Que aquilo que todos vivemos é irrepetível. Chegar mais perto de ser adulto é querer olhar para o que já passou e perceber que aquela da fotografia eras tu mas entretanto já és outra. É saber que se aproximam tantas primeiras vezes. Umas que acontecerão e outras que talvez venham a acontecer. Mas é a possibilidade que, por enquanto, enche os sonhos. E os sonhos também contam. Mesmo que só mais tarde o venhas a saber.
Óbvio
- Oh, mãe: estou quase a fazer 12 anos e ainda não viajei para o Canadá!
- Canadá? E porquê o Canadá?
- Ora, para ver os alces!
sábado, 7 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Sim, às vezes...
- Mãe, às vezes não te apetece ir para a janela e ficar ali a ver a vida?
M., 11 anos
M., 11 anos
"Porque se disse Como não disse?"
Depois das notícias desta quinta-feira terem agravado ainda mais o nosso estado de preocupação face ao que se avizinha fica-se com mais vontade de aguçar a nossa veia contestatária.
Nada melhor, então, do que ouvir este Projecto Alvará que nos lembra os anos mais aguerridos de Sérgio Godinho. Ora atentem lá às letras do disco "Não é tarde, Nem é certo".
E para ilustrar aí vai um tema bastante a propósito de algumas coisas que se dizem e desdizem..
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Opiniões de génios...
A propósito de uma coisa que ouvi hoje lembrei-me de ter lido, em tempos, um excerto de uma carta onde Mozart descreve ao pai a que viria a ser sua mulher, Constanze. Fui à procura e encontrei. Isto da internet é uma maravilha...
"Não é feia e até chega a ser bela. Toda a sua beleza consiste em dois pequenos olhos pretos e numa bela figura. Não tem espírito, mas bom senso suficiente para ser capaz de cumprir os seus deveres de mulher e mãe. Não é dada ao luxo, longe disso - pelo contrário está habituada a andar mal vestida. (...) É verdade que ela gostaria de andar mais bonita e asseada, mas sem se distinguir. E a maior parte da roupa que uma mulher precisa ela é capaz de fazer sozinha. E também arranja o cabelo sozinha todos os dias. Sabe governar a casa, tem o melhor coração do mundo - eu amo-a e ela ama-me de todo o coração - diga-me se poderia desejar uma esposa melhor?" (Viena, 15 de Dezembro de 1781).
terça-feira, 3 de abril de 2012
Parece tão simples...
E é. Não é preciso complicar para fazer uma grande canção.
Podem ouvir-se todas as músicas do novo álbum aqui.
Uma das razões/poemas porque gosto de Albano Martins
Como se fosses o mar
Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.
in Albano Martins, Escrito a Vermelho, Porto, Campo das Letras, 1999, p. 79
Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.
in Albano Martins, Escrito a Vermelho, Porto, Campo das Letras, 1999, p. 79
sexta-feira, 30 de março de 2012
Por vezes as palavras não fazem falta
Saíam do supermercado. Um ao lado do outro. Cada um transportava um saco. As mãos que ficavam mais perto vinham dadas. Apesar do penso, que certamente incomodava, a mão dele agarrava com força a dela. Caminhavam em silêncio com um ar grave. Tinham cerca de 80 anos. Não precisavam de falar para saber um do outro.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Incompleta interrompida
Gabo-me de a ter visitado algumas vezes e de lá ter comprado alguns livros. Lamento não o ter feito mais. Espaço agradável, livreiro simpático e muitos livros de poesia. Quase um paraíso. Pois é... Mas esses têm a tendência tramada de desaparecerem...
quarta-feira, 28 de março de 2012
Febre
Eles fazem parte do cartaz do Optimus Alive deste ano. Para perceberem porque vou ter pena se não os vir:
terça-feira, 27 de março de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
Já ganhei o dia!
Tenho andado arredada da leitura dos "blogues que tornam os dias mais perfeitos". Não por falta de vontade mas por falta de tempo. Hoje consegui pôr a leitura em dia em alguns deles. No Ponteiros Parados deliciei-me com os temas, as ideias, a escrita. É um Blogue com B grande se é que isso existe.
Cada um mostra o que tem
Ao passar numa rua deparo-me com este cartaz que promove um novo concurso de uma televisão, cujo objectivo é descobrir mais uns quantos talentos que parece que abundam por cá.
Das quatro personagens que nele vejo o meu olhar detém-se numa delas. Se a ideia era divulgar os membros do júri do concurso, não sei... O que podem a calvície, os olhos escondidos e os botões do casaco de Pedro Abrunhosa; a gola da camisa, o cabelo e o sorriso de Gioconda de Tony Carreira; a cara de "não rio que já basta os fretes que vou ter que fazer no programa" do senhor da direita, cujo nome não recordo; quando colocados ao lado dos seios convenientemente destacados pelo vestido de padrão animal de Bárbara Guimarães? As audiências mandam e há coisas que sempre dão mais garantias...
domingo, 25 de março de 2012
Alugar um amigo
sábado, 24 de março de 2012
Apelos que se dispensam
Hoje, pouco tempo depois do acidente ocorrido no concelho de Tondela com um autocarro, o jornal da TVI apresentava-o como notícia de última hora. Em rodapé passava, ininterruptamente, um apelo. E não, não era para os residentes mais perto do local se dirigirem aos hospitais para dar sangue ou para desimpedirem as estradas a fim de facilitarem a circulação de viaturas de socorro. O apelo era no sentido de se dirigirem ao local e fazerem registos fotográficos ou vídeos para depois enviarem para aquela estação de televisão.
Ora eu não sei se a TVI não tem orçamento para este tipo de situações ou o objectivo era obter as fotos mais escabrosas. Seja como for não me parece um procedimento correcto.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Não me digam!
Quem diria que um estudo poderia chegar a esta conclusão?
Individualidades?
Eram cinco. Sentadas à volta de uma mesa, conversavam. Riam muito e o som das gargalhadas chamava a atenção. Todas na casa dos cinquenta, vestiam roupas dos mesmos tons. Os mesmos tons tinham também os vernizes que usavam nas unhas. Os cabelos, nas cores "extra light beige blonde" ou "extra light ash blonde" e os penteados armados eram comuns a todas. Não precisava de as distinguir. Mas acho que não conseguiria fazê-lo.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Por vezes não é fácil encontrar um bom nome para uma loja...
quarta-feira, 21 de março de 2012
A fuga da alma no dia mundial da Poesia
A minh'Alma fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Paris, Agosto de 1915
in Antologia Poética de Mário de Sá Carneiro, Organização, prefácio e cronologia biográfica de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2010, p. 182
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Paris, Agosto de 1915
in Antologia Poética de Mário de Sá Carneiro, Organização, prefácio e cronologia biográfica de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2010, p. 182
segunda-feira, 19 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
"Ó mãe, o Liam é lindo, não é?"
Será que só existe uma direcção?
(Desabafo de uma mãe farta de discos, posters, conversas, suspiros, à volta dos "One Direction")
quarta-feira, 14 de março de 2012
Plastificar para consumir
Nesta pausa forçada de alguns dias sobrou-me o tempo para, de comando na mão, percorrer canais e mais canais de televisão que, de outra forma, nem conheceria, apesar de já ter ouvido falar deles. Pois: eu sou daquelas pessoas a quem os canais também sobram. Apesar dos disponíveis serem em número considerável (sempre o mínimo dos pacotes das ofertas das empresas) raras são as vezes em que passo para lá dos primeiros 5 ou 6. As tentativas para me convencerem a pagar mais canais provocam-me sempre um sorriso complacente...
Nos canais norte-americanos a quantidade de séries que exploram a temática do crime, do dia a dia de polícias é imensa. Há para todos os gostos. Ou melhor: quase para todos os gostos. Porque, herdeiros dos protagonistas de "Modelo e Detective" (série que não perdíamos na década de 80 do século passado), também os personagens destas séries são todos muito jovens, bonitos, atléticos, inteligentes, bem vestidos. Ufa! Que enjoo! Certamente não vi tudo. Mas não encontrei nada do género "Hill Street Blues"(também dos anos 80 do séc. XX) onde, a par de algum brilho do capitão Furillo e da defensora pública Joyce Davenport, sentíamos alguma empatia com polícias de carne e osso que nem sempre tinham o uniforme limpo ou os sapatos a combinar com a roupa. Mas também já nem uma "Roll-call" eu vi. Deve ser tudo por tele-conferência.
quarta-feira, 7 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
"You silly girl"
(O vídeo do Paulo Furtado é muito bom)
Paisagem com montanhas, árvores e rio
As montanhas erguiam-se num tom azulado. O verde das árvores era a cor mais visível. Num dos cantos, um rio serpenteava. Esta paisagem repetia-se 10 vezes, 5 em cada mão.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Até para roubar se deve respeitar um horário
No metro, a abarrotar de gente, ao final do dia, dois polícias conversam:
- Só espero que não apareça nenhum carteirista!
- Pois...
- Já viste, uma detenção agora, ter que o levar para a esquadra a esta hora... Lá ficávamos nós sem jantar...
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
À espera
O casaco sujo e o gorro demasiado grande parecem quentes demais para aquele canto ao sol que escolheu para pedir esmola a quem passa. Olho-o há alguns minutos. Adormeceu. Mas, quase como uma deformação que o tempo se encarregou de tornar permanente, a sua mão continua aberta, em concha. As moedas, se alguém as deixar, não se perderão.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A "Portugal" hoje
Nas estantes os livros de capa dura misturam-se com opúsculos sobre os mais variados temas. Algumas delas estão quase vazias. Nas mesas, os montes dividem os livros pelos preços: 5 euros, 3 euros, 2 euros. Os maiores, com fotografias de casas ou quadros famosos, estão mesmo à frente da porta de entrada. É aí que os clientes mais se demoram. As caixas vão sendo trazidas à medida que se vão vendendo livros sobre temas improváveis. Na montra anunciam-se os saldos. Anuncia-se o fim.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
O cúmulo da displicência
Há muito que nos habituámos à falta de respeito por todos os que, em alguns momentos da vida, têm que contar já não os tostões, mas os cêntimos, para conseguirem sobreviver. E cada vez são mais os portugueses que se encontram nessa situação. Por isso, afirmações destas, sejam elas verdadeiras ou não, no que têm de demonstração de uma indiferença atroz, de colocação num patamar muito acima do comum dos mortais, de soberba desmedida, deixam-me verdadeiramente incomodada, para não dizer outra coisa...
Mesmo no centro da cidade
sábado, 18 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Uma das razões/poemas porque gosto de Helder Macedo
A esquina estava lá
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a esquina sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a esquina sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.
in Helder Macedo, 10.º poema de Viagem de Inverno - Poemas Novos e Velhos - , Lisboa, Editorial Presença, 2011, p. 37
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Ai, as conversas...
Acho que já disse aqui que, nas viagens nos transportes públicos, me agrada poder ouvir as conversas de quem faz o mesmo trajecto. É assim uma espécie de voyeurismo auditivo. Só que, nestas circunstâncias, quase sempre quem é ouvido sabe que o está a ser, pelo que não é completamente inocente o que se diz e a maneira como se diz e por isso é atenuado o sentimento de escutar conversas alheias. Vem isto a propósito de duas conversas que ouvi nestes dois últimos dias, nas viagens de comboio de regresso a casa.
Na primeira, dois homens, de cerca de 70 anos, algarvios, percebi a meio da conversa, trocavam opiniões sobre peixes, as melhores maneiras de os cozinhar e os melhores sítios para os comer. Foi como ter lido um suplemento de uma revista da especialidade. A lampreia, o sável, a abrótea, a cavala, a sardinha, o cação, a garoupa, o imperador, o salmonete e outros, foram ali falados de maneira rica e interessante como só dois bons apreciadores o poderiam fazer e de uma forma tão espontânea que me fez ter pena de levantar e sair na minha estação deixando-os ainda a tecer loas ao mercado de Vila Franca de Xira nos idos de 60.
A outra conversa juntou duas amigas que discorreram sobre as vantagens e desvantagens de comprar nas lojas de chineses e o problema de ser convidada para um casamento em pleno Inverno com temperaturas tão baixas. Se, no primeiro caso, as opiniões divergiam, tendo cada uma delas experiências opostas; já no caso do segundo estavam em sintonia: as toilettes vaporosas usadas no Verão não têm concorrente à altura numa época em que está guardado, para a noiva, o sacrifício de usar um vestido sem costas quando lá fora estão 5 graus.
Se bem que, de registos completamente diferentes, ambas as conversas me distraíram do meu livro e me fizeram sorrir.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Que raio de entretenimento!
Há coisas muito estranhas. Enquanto procurava uma notícia fui dar a uma página do jornal "Correio da Manhã" deveras macabra e com propósitos que tenho dificuldades em atingir. A pesquisa de mortes violentas, por anos, no nosso país, permitindo "recordar as circunstâncias em que as vítimas do tipo de crime mais irreversível perderam a vida" é, pelos vistos, um assunto merecedor de algum investimento. Mas será que isto era mesmo preciso?
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Uma das razões/poemas porque gosto de Bénédicte Houart
hoje tive uma ideia na banheira, mas
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água
in Bénédicte Houart, Vida: Variações II , Lisboa, Edições Cotovia, 2011, p. 84
por pouco tempo: infelizmente
não me apareceu no cérebro, como é habitual, mas
sim à tona da pele
de modo que a água do chuveiro a
levou ralo abaixo
dela restando apenas flocos de espuma e
outra ideia irresistível
quantas não andarão por aí mergulhadas
nos esgotos nas estações de tratamento de água
(algumas bem precisam de ser desinfectadas)
sem mencionar rios riachos ribeiros mares e
à conta de tudo isso
quantas ideias não bebemos num simples copo de água
in Bénédicte Houart, Vida: Variações II , Lisboa, Edições Cotovia, 2011, p. 84
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Razoável, volátil e maleável?
Há uns bons anos atrás os Trovante, ou o Trovante, como parece que é melhor dizer, eram um grupo de que eu gostava bastante. Comprava os álbuns, fui ao Coliseu vê-los num concerto, sabia as canções de cor. Depois do fim do grupo as carreiras a solo dos dois membros mais conhecidos seguiram diferentes caminhos. João Gil fez coisas interessantes. O Luís Represas deixei de conseguir ouvir. Tudo o que fazia soava igual ao anterior e a voz passou a irritar-me sobremaneira.
Talvez por isso esta nova música lançada pelos dois para comemorar os 35 anos de carreira me soe muito, muito fraca. E depois há a letra. Não percebi de quem será mas parece-me que João Monge não será o culpado.
Ora, vejam lá...
Apenas um teu sorriso
Apenas um teu olhar
O código que autorizo
A senha para entrar
Gosto de ti !
Quando és razoável
Gosto de ti !
Volátil e maleável
E só assim é viável
Fazer um sisudo amável
Levo-te a cem
Tu pões-me alerta
Levas-me a bem
Como ninguém
Dá-me o teu sim
Que eu nunca sei dizer não
Dá-me o teu dom
Que eu dou-te o meu coração
Gosto de ti !
Quando és razoável
Gosto de ti !
Volátil e maleável
E só assim é viável
Fazer um sisudo amável
Levo-te a cem
Tu pões-me alerta
Levas-me a bem
Como ninguém
Dá-me o teu sim
Que eu nunca sei dizer não
Dá-me o teu dom
Que eu dou-te o meu coração
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Há homens assim...
Vídeo enviado por Cine Povero (Obrigada!)
Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
Herberto Helder, (Elegia Múltipla III) in «A Colher na Boca» (1961).
(poema copiado daqui)
sábado, 28 de janeiro de 2012
O meu bota de ouro
Vejo-o todos os dias na praça, frente ao local onde trabalho. Deve ter uns 10 anos. O sapato alto e pesado que usa para compensar, certamente, uma diferença de tamanho nas pernas, não facilita. As duas muletas que o ajudam a caminhar também não. Impressiona-me a persistência com que chuta a bola contra o muro, com que a persegue quando ela lhe foge, a fúria com que remata contra a inexistente baliza. Não sei se quando lhe perguntam o que quer ser quando for grande responderá jogador de futebol. Mas certamente que o pensa. E, no meu mundo imaginário, daqui a uns anos, este miúdo será certamente bota de ouro.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Dormir na cidade
Passava já das 9.30. Levantava-se tarde. Os eléctricos chegavam e partiam, os autocarros chiavam ao travar, os empregados dos cafés montavam as esplanadas, os turistas disparavam as suas máquinas fotográficas. Indiferente ao barulho à sua volta, continuava a dormir profundamente. A sua mão pendia para fora do pequeno murete que delimitava a cama. Esta era feita de grades, aquecidas pelo ar que saía pelos respiradouros do metro. O cartão já só tapava parte do seu corpo meio encolhido.
E agora a Aliança...
Nesta só entrei por curiosidade. Porque sabia que valia a pena visitar. Nunca ali comprei nada. Mas custa saber que também este espaço comercial será reutilizado para outro fim.
Ainda hoje reparei que entre a Praça da Figueira e o Rossio, numa das zonas mais nobres da nossa cidade, nem uma loja estava aberta. Uma estava entaipada. As outras três foram encerradas deixando o interior à vista, um misto de restos de manequins partidos, alguns móveis imprestáveis e muito pó. Desolador.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Uma livraria com o nome de um país
Não raras vezes na faculdade era ali que encontrava o livro que já tinha procurado, sem êxito, nas outras livrarias de Lisboa. Sei também que determinados temas só ali estavam representados com alguma profundidade. Nem sempre a arrumação era a ideal. Mas na Livraria Portugal estávamos como na casa de alguém que, sem previamente contar com isso, nos tinha convidado para uma visita.
Soubemos esta segunda-feira que, devido à quebra nas vendas, irá encerrar. A inevitabilidade da situação, comum a tantas outras actividades, começa a deixar-nos indiferentes. Mas a Portugal vai fazer falta naquela esquina.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A angústia de um presidente antes do final do mês
Não, por favor, digam-me que isto não aconteceu. O Presidente da República de um país chamado Portugal, sim, esse em que a média dos rendimentos mensais dos seus habitantes é confrangedora, veio dizer, para os que o quisessem ouvir, que não consegue, com as reformas que tem, pagar as despesas. E agora, o que vamos nós fazer? Será que a Troika aceitará um acordo extraordinário para pagar as contas da lavandaria de Cavaco Silva? Amanhã vou fazer sopa numa panela maior que o costume e entregar uma caixa no Palácio de Belém.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A moda dos Cabazes
É o novo grito da moda em supermercados: o cabaz. Aqui ficam uns exemplos:
Cabaz Família Bebidas
Cabaz Família Carne
Cabaz Família Casa Limpa
Cabaz Família Congelados
Cabaz Família Higiene Pessoal
Cabaz Família Lacticínios
Cabaz Família Loiça
Cabaz Família Mercearia
Cabaz Família Roupa Limpa
Agora podia fazer uma brincadeira tipo:
Cabaz Família Queijo Gouda ou
Cabaz Família Tulipas...
Cabaz Família Bebidas
Cabaz Família Carne
Cabaz Família Casa Limpa
Cabaz Família Congelados
Cabaz Família Higiene Pessoal
Cabaz Família Lacticínios
Cabaz Família Loiça
Cabaz Família Mercearia
Cabaz Família Roupa Limpa
Agora podia fazer uma brincadeira tipo:
Cabaz Família Queijo Gouda ou
Cabaz Família Tulipas...
Mas não o vou fazer. Até porque o Sr. Pedro Soares dos Santos escreveu-me "em nome dos mais de 25 mil colaboradores" (o que eu gosto desta palavra...) que a cadeia de supermercados emprega em Portugal para partilhar comigo "três verdades fundamentais que não têm obtido a atenção devida" e que eu, por não me apetecer transcrever tudo aqui, não vou reproduzir (até porque parece-me que o Administrador-Delegado da empresa não me escreveu só a mim). Só para dizer que fiquei muito mais tranquila quando percebi que os impostos podem nem ficar todos cá mas os cabazes, esses, são só para nós...
domingo, 15 de janeiro de 2012
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Magdalena Carmen
Nunca apreciei especialmente a pintura de Frida Kahlo. Provavelmente não compreendo inteiramente o sofrimento excessivo dos seus quadros, inspirados na sua vida que foi curta mas cheia de momentos terríveis. E não é fácil compreender o que sentiria alguém tão duramente marcada pela dor física e pelas pequenas e grandes tragédias do seu preenchido quotidiano. André Breton terá escrito que a sua obra era surrealista. Frida terá dito depois que tal não era verdade pois nunca pintou sonhos mas a sua própria realidade.
É dessa realidade que podemos espreitar alguns episódios na exposição organizada pela Casa da América Latina de Lisboa que está, até ao final do mês, no Museu da Cidade.
E a verdade é que, se a sua pintura não me entusiasma, sempre admirei a forma como viveu e sobreviveu num México em mudança e como a sua vida pessoal se cruzou com os importantes movimentos colectivos e com personagens que deixaram a sua marca naquele país e no mundo. É este percurso, ao mesmo tempo íntimo e mais alargado, que podemos acompanhar pelas fotografias tiradas por si ou em que ela está presente. Eu fiquei a conhecê-la melhor. E a sua obra passa a fazer mais sentido para mim.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A educação virtual
No final da semana passada, na minha qualidade de encarregada de educação, estive presente numa reunião na escola que as minhas filhas frequentam. Para além das questões da avaliação são normalmente dadas informações, entre as quais a programação de algumas actividades e visitas a realizar no período seguinte. Ora, chegados a este ponto, ouvi, não sem alguma indignação, mas compreendendo perfeitamente os motivos, que este período não vai haver visitas a qualquer lugar fora da escola. A menor disponibilidade de dinheiro por parte dos pais dos alunos (que têm que pagar entradas e deslocações) levou a escola a substituir essas visitas com visitas virtuais a alguns museus que as disponibilizam nos seus sites.
Para os museus ou outros organismos que sobrevivem, grande parte, graças a esta componente das escolas será, certamente, um problema. E para os miúdos não será a mesma coisa. Pois não. Mas a crise chega a todos. Até a quem a escola deveria proporcionar um alargamento de horizontes. Fiquemos-nos então pelo ecrã do computador. Esperemos que, ao menos, a dimensão e a resolução sejam boas.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
O ano mudou mesmo...
Há uma semana atrás quando saíamos da estação os vendedores ambulantes gritavam:
- É a 5 euros, é tudo a 5 euros!
Hoje gritavam:
- É a 6 euros, é tudo a 6 euros!
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A neve tem muitos nomes
Ainda não tinha tido oportunidade de ouvir o disco de Kate Bush, 50 Words for Snow, um dos dois que publicou o ano passado. Já esperava gostar. Agora tive a certeza.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Ainda falam dos mais velhos!
- Mãe, hoje andei três intervalos à procura da Beatriz para lhe dizer uma coisa. Quando a encontrei e lhe quis dizer o que queria esqueci-me do que era.
M. (11 anos)
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
As crianças e nós
O filme começa e acaba nas crianças. São elas que criam o problema à volta do qual gira toda a acção e são elas que o resolvem sem precisarem da intervenção de mais ninguém. De facto, apesar do único sangue presente acontecer no parque onde as crianças brincam, é entre adultos que a carnificina tem lugar. O que começa por ser um encontro entre pessoas civilizadas transforma-se numa batalha que vai para além da mera troca de palavras para ter verdadeiras consequências físicas.
Pelo meio, via telefone, acompanhamos ainda um tema bastante controverso nos EUA: o grande poder da indústria farmacêutica.
Muito teatral, as expressões faciais dos quatro actores são de uma enorme riqueza (o cartaz de promoção é muito bem escolhido). Em certas cenas, como a das gargalhadas, partilhada entre as mulheres, ou a das constantes reentradas no "cenário" parece haver até algum exagero. Mas tudo isso me parece deliberado. É que, dessa forma, se demonstram as enormes dificuldades, para não dizer incapacidade, dos adultos para ultrapassarem os seus problemas, portadores que são de dúvidas, frustrações, ideias feitas que os impedem de os analisarem claramente. Já as crianças, sem elaborações desnecessárias, limitam-se a resolvê-los.
Catarse é a palavra que mais facilmente nos surge quando ouvimos expressões como: "I am glad our son kicked the shit out of your son and I wipe my ass with your human rights!"
Todos nós devíamos, de vez em quando, ficar fechados e ser confrontados com os problemas em vez de falar deles à distância. Terapêutico, sim. E quem melhor que Polanski para o filmar?
Todos nós devíamos, de vez em quando, ficar fechados e ser confrontados com os problemas em vez de falar deles à distância. Terapêutico, sim. E quem melhor que Polanski para o filmar?
Ainda mal começámos o ano e já estamos no dia 3
"Não há espectáculo mais belo para um homem sem antolhos que o da inteligência em contenda com uma realidade que ultrapassa o seu entendimento"
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