Como tantas coisas que me foram acontecendo na vida, licenciei-me em Sociologia. Fui eu que escolhi, é certo. Mas, envolta numa névoa de indecisão, preenchi o formulário de candidatura à universidade na noite do dia anterior à entrega e a cruz lá acabou por ficar naquela área de conhecimento de que só tinha tido uma cadeira na escola secundária, mas que, mercê de uma professora empenhada, me tinha despertado interesse.
A licenciatura aconteceu, sem grande brilhantismo da minha parte, mas com um resultado que não envergonha. O entusiasmo, esse, nunca foi muito se considerarmos o que poderia ter sido.
Com o mestrado a sensação não foi muito diferente.
Ao longo do tempo que levo como socióloga tenho tido a sorte de me poder intitular assim, apesar de nem todas as tarefas que desempenhei terem sido da exclusiva alçada desta área de conhecimento.
Sempre entendi a Sociologia como uma base que me permite olhar para as situações de um determinado ponto de vista, ou, o que é mais importante, de vários pontos de vista. Os métodos e as técnicas que os profissionais da Sociologia utilizam são úteis mas sempre usados num contexto e tendo em conta as suas limitações. As estatísticas, por exemplo, cumprem o seu papel quando, através da recolha, da análise e da interpretação de dados nos permitem compreender o que sem elas se tornaria mais difícil ou até impossível.
Mas os sociólogos, tal como os profissionais das outras ciências sociais, sabem bem que a realidade dificilmente se deixa apreender por um qualquer estudo, por muito aprofundado que ele seja.
Depois de tudo isto dito confesso que, ao longo dos anos, muitas foram as vezes em que dei por mim a dizer, a propósito de determinadas situações, que "cada caso é um caso", expressão de difícil relação com uma ciência que estuda o comportamento humano em situação de grupo. Há dias em sinto que não há teorias, modelos, instrumentos de análise, capazes de tornar mais perceptível a realidade que nos cerca. Nesses dias questionar o valor e a capacidade da Sociologia para atingir esse objectivo é um exercício que não posso deixar de fazer. Tentar chegar a uma qualquer conclusão, isso sim, é coisa para me deixar à beira de um ataque de nervos.
(Pronto, está bem, exagero um bocadinho com esta ideia de estar à beira de um ataque de nervos. Mas não resisti à hipérbole).