segunda-feira, 8 de julho de 2013

A urgência (2)

Não estava mais ninguém na estação àquela hora. A quantidade de cartões verdes que tinha comigo não ajudava a ser rápida na compra do bilhete de comboio que me levaria a Lisboa nesse princípio de noite. De repente um homem, cujo andar demonstrava o que já tinha bebido, aproximou-se e disse-me que queria apanhar o comboio. Ao princípio não o percebi. Mas depois entendi que o dinheiro que tinha não lhe chegava para o bilhete e queria passar atrás de mim, quando a cancela se abrisse. Disse-lhe que sim.
Perante a minha demora em atinar com o cartão e os trocos ele atirou:
- Vá lá, depressa, que eu quero ir para casa!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

À entrada do metro

À excepção das primeiras horas da manhã, aquele é sempre o seu lugar. É certo que dificulta a passagem quando, vindos do lado direito da rua, queremos aceder às escadas de entrada no metro. Mas já se estranha a sua ausência se ele ali não está. A sua cegueira não lhe permite ver as caras de repugnância com que muitos, que por ele passam, reagem à sua presença. Numa das mãos está sempre um pequeno rádio a pilhas. Esse pequeno aparelho parece agarrá-lo à vida com a mesma força com que ele o agarra.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Adrian Mole ainda na adolescência?

Há uns tempos atrás, lembrando-me da personagem Adrian Mole, perguntei numa livraria se tinham algum dos seus diários. Pensei eu que seria uma leitura divertida para as férias das minhas filhas adolescentes. Disseram-me, na altura, que só tinham os últimos livros em que Adrian é já adulto. Pois hoje encontrei um dos tais livros em reedição. Não gostei da capa. Mesmo assim, peguei nele com intenção de o comprar. Mas, entretanto, li as linhas que estavam na contracapa. As referências à música punk e às calças de bombazine fizeram-me pensar duas vezes. Será que os tormentos de um rapaz a crescer na Inglaterra dos anos 80 dirá alguma coisa aos miúdos hoje em dia? Como leitura de uma época talvez. Quanto à identificação com a personagem ficará bem longe do que acontecia há 30 anos atrás. Da próxima vez pensarei melhor. Por hoje o livro ficou na livraria.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A urgência (1)

Eu estava a acabar de pagar. Ele entrou na loja e dirigiu-se à empregada que estava ainda a entregar-me o troco e perguntou: 
- Tem daqueles anéis tipo aliança?
A urgência presente no seu tom de voz levou a rapariga a responder de imediato. Que naquela loja só havia artigos de fantasia... Mesmo assim ele quis ver e logo a seguiu, com um passo apressado, até ao expositor.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Há trilogias assim

Em 1995 eu tinha 28 anos. A história de Celine e Jesse, que então conhecemos, correspondia a um sonho de adolescência que já não se justificava na altura. E, no entanto, o seu encontro teve em mim um efeito nostálgico acentuado. Anos mais tarde eles voltavam a encontrar-se e as suas conversas pareciam fazer tanto sentido...
Neste terceiro filme os diálogos continuam a ser de luxo e, na Grécia, sob o signo do "conhece-te a ti mesmo", os protagonistas, numa fase da vida em que, supostamente, deveria haver mais certezas, mostram-nos que é a dúvida que ganha terreno.  

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma crónica de rádio sobre a rádio

Um "acordo de viabilidade comercial" fez com que, no lugar de um programa de rádio que existia há 24 anos em Bragança, com ouvintes fiéis, se ouça agora música dos anos 80. A notícia, que ouvi na terça-feira à noite, dava destaque à falta percebida por esses ouvintes que sentem que algo lhes foi roubado. Sensibilizou-me o trabalho de proximidade que dava frutos e que agora foi interrompido.
Ora, esta manhã, a crónica de Fernando Alves foi exactamente sobre o assunto. E porque diz tanto e de uma forma tão bonita aqui fica.

Amália na Rua do Capelão


terça-feira, 4 de junho de 2013

Finalmente!

Depois de ter falhado as anteriores apresentações esta noite assisti, finalmente, a um espectáculo de Ute Lemper.
Sala cheia. No palco só a cantora e dois músicos, um ao piano, outro com o bandoneón. Não foi preciso mais para uma noite quente, cheia de uma voz que nos transporta para diferentes cenários de música para música.
Ute Lemper fez questão de mostrar solidariedade com Portugal e, por várias vezes, se referiu a Angela Merkel de forma muito pouco simpática. 
Residente nos Estados Unidos, da sua Alemanha natal falou-nos da distância que sente da Berlim que conheceu e das dificuldades em reconhecer uma cidade que eliminou, por completo, a memória da vida antes da queda do muro. Interessante, esse reconhecimento da falta que fazem elementos que nos recordam o passado e que, fazendo parte da história dos sítios que conhecemos, fazem parte de nós. 
Mas, voltando à música, para mim o ponto alto foi a interpretação de "Avec le temps" de Léo Ferré. Uma canção que é, já de si, magnífica e que, assim cantada, nos deixa sem fôlego. 
Um grande espectáculo! Perdoamos até o seu castelhano...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Uma das razões/poemas por que gosto de Jorge Reis-Sá

A Vida Inteira

A vida inteira esperei por ti.

Mesmo que ainda se não tenha passado
a vida inteira.

in , Jorge Reis-Sá, Instituto de Antropologia , {glaciar}, 2013, pág. 44

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Para quem tem o sonho de ter uma quinta...

Apesar de faltar o preço... Será que a autarquia, para compensar a diminuição dos valores do FEF, está a dar início à venda das caldeiras das árvores da cidade?





quinta-feira, 30 de maio de 2013

Similitudes

- Mãe, estava aqui a pensar que os partidos são assim como a Casa dos Segredos.
- Então?
- Bem, há uns quantos que estão numas casas e resolvem nomear alguns. Depois há um domingo em que o público vota. Quem tiver mais votos vem cá para fora...

M., 13 anos

E ao lado dos carris...


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Património sobre carris

"O comboio é, talvez, um ex-libris do património ferroviário, por ser o que está mais próximo dos cidadãos e, por isso, mais reconhecido, ou mesmo por integrar o universo do coleccionismo. Todavia, o âmbito do património ferroviário é extenso e diversificado, incorporando, material circulante, bens imóveis e móveis, pontes, traçados e até paisagens ou histórias de vida. De que modo, as profundas e rápidas transformações dos hábitos de viajar e a opção crescente pelos transportes rodoviários podem colocar em perigo estes valores patrimoniais, e que soluções se têm encontrado para a sua preservação, são algumas das questões colocadas pelo jornalista Manuel Vilas-Boas, que conversa com a Arq. Paula Azevedo, o Eng. Nelson Oliveira e com os Drs. Jorge Custódio e Rui Cardoso."
É assim que a TSF fala da próxima edição do programa "Encontros com o património", que passa já amanhã, pouco depois do meio-dia. 
Numa altura em que a rede ferroviária do passado, a do presente e a do futuro deveriam ser seriamente discutidas este poderá ser um programa interessante.

Música com desenhos

Fez um ano já que o vi ao vivo. Hoje, por esta hora, está a apresentar o novo álbum, "Roma", como sempre, cheio de humor e bom gosto. Já o comprei. Agora é ouvi-lo!
Deixo aqui o tema já com vídeo. E que vídeo! Para quem desenha bem, Lisboa é mesmo uma bela fonte de inspiração. 


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Na soleira da porta

Os dois homens estão sentados lado a lado, na soleira da porta de um edifício, numa rua movimentada, onde tanta gente passa apressada. Um deles, com as pernas estendidas para o passeio, segura a muleta com uma mão e um recipiente de plástico onde se vêem algumas moedas com a outra. O outro, com as pernas dobradas, segura no colo um computador portátil que consulta com atenção.

Escalas

M., depois de eu a censurar por ter deixado por pagar o lanche que consumiu no bar da escola:
- Ó mãe, o país com uma dívida pública de tantos milhões e tu preocupada com 1,70€.

M., 13 anos

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cachecóis há muitos...

Como benfiquista que sou, este segundo lugar na Primeira Liga, a um ponto do primeiro, deixou-me triste. Nem discuto se este foi o final mais justo para uma prova que obrigou Benfica e Porto, a uma disputa como há muito não se via. Erros dos árbitros à parte, no final há sempre um vencedor que conseguiu ultrapassar todos os outros, dentro do campo. E este ano, mais uma vez, foi o Futebol Clube do Porto que o fez. É por isso que os seus adeptos têm razões para festejar. Mas confesso que as imagens que vi na televisão, mal o fim do jogo chegou, foram deploráveis. Da principal avenida do Porto e dos locais onde os jornalistas estavam em directo, as imagens mostravam cachecóis que eram agitados, mas que, na sua maioria, tinham, não palavras positivas  sobre o vencedor, mas outras agressivas e injuriosas dirigidas ao Benfica. Ao mesmo tempo, também, que os repórteres faziam os directos, adeptos dirigiam-se às câmaras e aproveitavam para fazer sair da boca mais umas quantas palavras ofensivas.
Sei que o futebol, como outras actividades humanas, traz à superfície muito do mais primário de cada um e a demonstração da supremacia de um grupo sobre outro faz parte desse mundo. E sei, ainda, que, se o campeão fosse o Benfica, haveria cenas destas. Mesmo assim chocou-me a forma como se transformou uma comemoração num ajuste de contas entre rivais. E os realizadores de TV (pelo menos do canal que eu estava a ver) ainda ajudaram pois parecia estarem à procura destas situações mais do que da verdadeira festa que, apesar de tudo, espero que tenha existido.

domingo, 19 de maio de 2013

Uma das razões/poemas por que gosto de Al Berto

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade 

in , Al Berto, O Último Coração do Sonho , Quasi edições, 2006, pág. 43

quinta-feira, 16 de maio de 2013

As letras "politicamente incorrectas"

Confesso que não sei explicar muito bem porque é que não gosto do acordo ortográfico. Muitos dizem que a resistência à sua utilização se prende com a nossa típica resistência à mudança. Poderá até ser. É mais fácil escrever como sempre o fizemos. Claro que sim. Mas até por isso, continuo a não compreender as tais regras que, em muitos locais, vemos já aplicadas. Custa-me, por exemplo, ver as minhas filhas na escola aprenderem a escrever de uma forma diferente da minha. É evolução, dirão; a língua não deve ficar estática, acrescentarão. São argumentos que fazem sentido se se tratar de uma evolução natural, nascida no interior da própria língua. Este acordo não nasceu assim e ainda não me convenceram, até agora, da sua bondade. Continuo, por isso, a defender as vogais e as consoantes que querem arredar das palavras, por decreto, situação que chega, em alguns casos, a dificultar a compreensão das frases.  
E se eu as defendo da única maneira que posso, utilizando-as, há quem o faça de forma mais aprofundada e complexa. Pedro Correia, decidiu passar à acção e deixar escritas as razões pelas quais considera este acordo uma aberração. Podemos lê-las neste livro 


que está já à venda e que será apresentado por Pedro Mexia na próxima terça-feira, dia 21, a partir das 18.30, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa).

sábado, 4 de maio de 2013

King e Chavez

O tempo passado nas afinações não foi, neste concerto, tempo perdido. A importância desse preliminar, prévio a qualquer tema tocado, só reforçou a importância das guitarras, verdadeiras protagonistas. Kaki King cantou uma única vez. Mas o seu poder está na forma como nos surpreendeu ao tirar da guitarra sons que não nos pareciam, à partida, possíveis. Pelo meio ainda conversou connosco sobre a sua vida e contou alguns episódios caricatos da sua experiência em Lisboa. 
Antes houve Frankie Chavez. Modesto, na contenção com que lidou com o público, mas grande na forma como se concentrou na sua arte. Grandes canções e interpretações a condizer. Um grande músico.
Os dois tocaram juntos alguns temas. O amor que têm pelas suas guitarras parece ser comum e foi bonito vê-lo assim, partilhado. Ficámos nós a ganhar. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A diferença que faz uma t-shirt

Ele está no mesmo lugar de sempre. Os movimentos com que indica os lugares vagos para estacionar são os mesmos que faz todos os dias. Só o rosto, hoje com um sorriso, é diferente do habitual. Traz vestida uma t-shirt encarnada com um emblema com uma águia e três estrelas no topo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Era Abril. Hoje é Abril.

Era Abril e eu tinha sete anos. Agora é Abril e esses sete anos há muito ficaram  para trás. Já sei que, ao contrário do que sonhava na altura, não serei cantora. Também sei que os sonhos de muitos que, nesses tempos, sonharam com um país novo estão hoje abafados por uma realidade que se impõe de forma avassaladora. Já sei que os nossos sonhos não duram para sempre. 
Mas hoje é dia de lembrar esses sonhos. Hoje é dia 25 de Abril.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Uma das razões/poemas por que gosto de Adília Lopes

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

in , Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida , Assírio e Alvim, 2009, pág. 395

Minimalista

A apresentação do autor, na contracapa do novo livro de Rui Zink.
Diz assim: escreve livros, dá aulas, imagina coisas.

sábado, 20 de abril de 2013

É difícil escolher

Vi-o no Teatro Aberto nesta peça, para a qual compôs a música que a acompanhava e que era tocada ao vivo.
Na altura procurei saber quem era e percebi que gostava do que fazia no mundo da música. Agora que ouvi o seu novo disco estou rendida. Deixo aqui "Distant gardens" só porque é a faixa disponível em vídeo. Mas elas são todas muito boas. Ouçam porque vale mesmo a pena.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uma das razões/poemas por que gosto de Susana Araújo

Programa de Estabilidade e Crescimento

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.

in , Susana Araújo, Dívida Soberana , Mariposa Azual, 2012, pág. 42


Que força é essa?


terça-feira, 16 de abril de 2013

Na rua

Estão deitados lado a lado. Um homem e uma mulher. Os seus corpos ocupam a largura exacta do espaço que havia disponível. A barreira formada pelos cartões não os esconde. Só inadvertidamente se parecem tocar, como se estivessem ali, debaixo do mesmo cobertor, por um qualquer acaso. Quem passa não deixa de os olhar. Eles dormem ainda.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Boas Versões (2)

E esta (original dos Fleetwood Mac), é uma verdadeira delícia...

Simon

Em certas alturas é impossível não pensar em Oliver Twist. O Simon de "L'enfant d'en haut" é a principal fonte de sustento da sua família numa Suiça que não estamos habituados a ver. Nem bancos, nem empresas relojoeiras. É o turismo que é o motor da economia à escala deste local, no sopé de uma montanha, que os residentes sobem para ir trabalhar nos restaurantes e hotéis, onde se divertem os que vêm de fora aproveitar a neve, enquanto os dias mais quentes não transformam tudo em lama. 
E é também lá em cima que Simon desenvolve a sua actividade, roubando o que pode e vendendo onde calha conseguindo, assim, sobreviver já que a sua "irmã", apesar de adulta, comporta-se como se fosse ela a criança. Nesta inversão de papéis, é fácil gostarmos de Simon. A sua é uma actividade solitária mas mais solitárias são as horas que passa em casa, sem ninguém, comendo as sandes que não foram feitas para ele. Mesmo assim, só na solidão e na escuridão da montanha, abandonada por todos, ele quebra. 
Com excelente música e mais uma vez um trabalho fantástico de Kacey Mottet Klein, no papel principal, este "Irmã" , na tradução portuguesa, é mais um filme interessante de Ursula Meier.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Boas versões (1)

Nos 25 anos da TSF aquela rádio resolveu pedir a alguns músicos que fizessem versões de músicas que se ouviam, à altura do nascimento. Algumas são muito boas. Esta, já bastante mais antiga, ouvia-se nessa época também já numa versão.
Esta do Vitorino Voador é muito boa.




Do outro lado da rua

A mulher atravessou a rua, rapidamente, para fugir ao carro que avançava e dirigiu-se-lhe.
- Peço desculpa... - começou a dizer.
Perante alguns indicadores que lhe permitiram perceber que lhe iria pedir dinheiro, a interpelada abanou a cabeça.
Em jeito de desabafo, mas de forma ríspida, a mulher respondeu: 
- Olhe, tenho fome, é o que é!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Lembras-te?

- Ah, olha, era aqui a Loja das Meias! - dizia a senhora para a amiga que, como ela, olhava a fachada do edifício agora ocupado por outra loja.
- Lembras-te do vestido às flores que comprei aqui para o casamento da Alice? - acrescentou.
Já não ouvi a resposta. Elas ficaram a olhar a montra actual mas a ver a que já não existe.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Para sermos felizes é preciso sermos infelizes?

Foi esta a pergunta que me ficou na mente quando o filme acabou. Para as personagens principais, parece que só depois dos acontecimentos traumáticos vividos por ambos, embora em diferentes momentos no tempo, as suas vidas começaram a fazer sentido. Antes disso, cada um no seu registo, ela mais comedida, ele muito desafiador, viviam como se aguardassem ainda a sua vez. E essa vez chega, embora o sofrimento vivido deixe marcas demasiado profundas, que vão até ao osso.
Não é um filme que me tenha deixado rendida. Mas alguns momentos, alguns pequenos pormenores, são de grande beleza. Com soluções técnicas que actualmente tornam possível o que há alguns anos seria um quebra cabeças e uma banda sonora muito interessante é um filme que valerá a pena ver.

sexta-feira, 22 de março de 2013

They call me on and on...



Uma versão de que gosto, no dia em que faz 50 anos que os Beatles lançaram o seu primeiro álbum.

Geografias

M., depois de eu a mandar calar: ora, mas então isto é a Coreia do Norte, ou quê?

M., 12 anos

quinta-feira, 21 de março de 2013

De regresso com a poesia

A Carência

Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo
mas creio que a minha solidão deveria ter asas.

Tradução de Maria Sousa do poema de Alejandra Pizarnik de Las Aventuras Perdidas, 1958 in Golpe d'asa - Revista de Poesia 1, CLEPUL e GOLPE Edições, 2011, pág. 63

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Hoje já não é dia de S. Valentim


Pausa

A cadeira de rodas está posicionada no único lugar da rua onde uma nesga de sol consegue penetrar. É aí que ele se encontra. Saiu do local onde costuma estar normalmente de mão estendida, exibindo as suas pernas deformadas, sempre em silêncio. Fuma um cigarro. Tem um ar sereno que contrasta com os rostos de todos os que, apressados, passam na rua. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Poema de Eugénio de Andrade com voz de Natália Luiza



Mais um interessante vídeo de Cine Povero. Este com a voz, que sempre achei magnífica, de Natália Luiza.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Pequenos prazeres

Acordar de manhã e ouvir as minhas filhas a partilharem, uma com a outra, os sonhos que tiveram durante a noite.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Curiosidade

A marca de lingerie que podemos ver na montra é "SexKiss". As rendas, cores, laços, a fazer jus ao nome, pretendem ser apelativas. Os manequins, exibem-na, no entanto, sem grande brilho. Podiam ser aqueles artigos ou casacos de inverno que o ar triste teria o mesmo efeito. No interior da loja, porém, o único cliente parece não se importar com isso. Com um ar interrogativo, que as muitas rugas acentuam, olha, toca, apalpa  o material. A empregada parece estranhar. Mas ele continua de costas para ela, indiferente, com o ar de alguém que tenta resolver um mistério.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Definição minimalista

"Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do que quando não tinha coisa nenhuma"

 in Millôr Fernandes, Pif-Paf, O Independente, 2004, pág. 87

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do leitão para o sushi...

É uma antiga pastelaria, ou casa de pasto, no centro de Lisboa. Exibe orgulhosamente os azulejos azuis e brancos onde são retratadas cenas rurais ligadas ao cultivo dos cereais. Ultimamente, as sandes de torresmos e de leitão, que via habitualmente na montra, têm vindo a ser substituídas pelas bandejas com sushi. Nada de novo, numa área da cidade onde as lojas de produtos orientais têm vindo a ganhar terreno. Mas não deixa de ser estranho encontrar tal comida naquele cenário. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Aqui não houve contenção nos números

Deste ponto de vista o ano começou bem.

Uma das razões/poemas porque gosto de Giuseppe Conte

Toda a Maravilha do Mundo

É como tu dizes, devia de novo partir.
Nunca fui feliz numa casa.
Nunca fui feliz em família.
Nunca senti saudades, quando estava
só e distante. Toda a maravilha
do mundo para mim era o passeio
alto sobre o mar quando, com os livros da escola
numa pasta, com passo rápido
andava, e inspirava o vento
da cor do sal e das piteiras
e fingia dar a mão
a uma rapariga: a maravilha, a raça
forte dos sonhos, os livros, o cinema,
as longas viagens de comboio,
as longas travessias da alma
mas nunca as paredes de uma casa, nunca.

traduzido do italiano por Clara Rowland in No Cais da Poesia 2 Antologia, Organização de Manuela Júdice, Teorema, 2006, pág. 59

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

À rapariga que passa por mim quase todos os dias

Serpenteia por entre os automóveis de uma forma que só parece acessível a um artista de circo. Quer chova, quer o calor aperte. Não sei para onde vai mas sei que chega sempre primeiro. Gosto especialmente da forma como aperta o cabelo com um elástico enquanto pedala a grande velocidade.


Elogio Barroco da Bicicleta

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

Alexandre O´Neill
in Poesias Completas, Assírio & Alvim

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ciclos

E pronto! Este já acabou... É grande a sensação de alívio quando chega ao fim este dia. Sabemos então que, só para o ano, voltaremos a ter dias como estes. Cheios de frenesim consumista, das canções de sempre em inúmeras versões, do convívio mais ou menos forçado, dos ataques de gula incontrolável perante doces que ameaçam o nosso bem-estar, do choro contido perante a lembrança de alguém que já não está. No entanto, essa certeza da repetição, de alguma forma, reconforta-nos. É o mito do eterno retorno que mantém tudo no seu lugar e que nos dá uma sensação que, ao testemunharmos a renovação contínua de determinadas práticas (sejamos nós ou não religiosos), viveremos para sempre. Pelo menos mais um ano. Até ao próximo Natal.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um Natal ao contrário

Estende uma das mãos como qualquer outro pedinte. Estão muitas pessoas na rua e ele vai de um lado para o outro tentando convencer alguém a dar-lhe alguma coisa. Um homem chama-o e coloca na sua mão algo que eu não vejo mas que ele se apressa a guardar no saco. É um saco grande mas pouca coisa tem lá dentro. O fato vermelho debruado a branco, que veste, está-lhe um pouco largo e o gorro não assenta bem. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Próxima paragem: mudar a nossa vida

Não gosto de falar do que não sei. E realmente não sei bem o que se passa com os comboios da linha de Cascais. 
No Verão do ano passado chegavam as notícias da supressão temporária de comboios (por exemplo, aqui) que, tal como se esperava, passou a definitiva. Determinadas notícias davam conta de um fim previsível. 
Em Novembro também do ano passado falei aqui sobre este assunto.
Nesta última semana, depois do serviço se ter vindo a deteriorar, mais supressões têm acontecido. Comboios cheios, espera à chuva, informações inexistentes, passageiros confusos...
Entretanto a notícia da concessão a privados. Se, em princípio, essa ideia me causa estranheza, pior ainda é a sensação de que a nossa vida vai mudar, sim. Mas não posso deixar de pensar que não será para melhor...



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Bolas de sabão


Tinha já anoitecido.  Àquela hora as pessoas caminhavam depressa pelos passeios. Também eu fazia o mesmo. Subitamente um ponto de luz que se move chama-me a atenção. E depois outro. Eram pequenas bolas de sabão. Saíam de um daqueles frasquinhos cuja tampa as permite modelar, soprando. Quem se apercebia parava e acompanhava-as, com o olhar, até se desfazerem no chão. A rapariga também avançava pelo passeio. Mas um pouco mais devagar. Era ela que soprava. Tinha um sorriso nos lábios enquanto o fazia. Parecia contente consigo mesma. Como se distribuísse felicidade, consciente do poder de simples bolas de sabão. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Já lá vão 16 horas do dia

Mesmo assim, ainda estão a tempo de aproveitar as dicas .
Nesta época de dificuldades há até uma receita para os que desejam atrair dinheiro: "banho, com diversos condimentos, seguido de orações. “Sete galhinhos de salsinha, sete cravos da índia, sete pedaços de canela em pau, três folhas de louro e um pitada noz-moscada. Ferver tudo em um litro de água e jogar no corpo. Não seque. Depois reze um pai-nosso e três ave-marias”.
Mas não comecem já a tentar perceber se salsinha é o mesmo que salsa, ó almas pecadoras... É que "somente as almas de quem segue o caminho do bem estão preparadas para esta nova fase".

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Centro Comercial

A meio do dia de trabalho, chegada a hora do almoço, abrem a mesa portátil e as cadeiras e a comida é posta de forma a que todos possam comer sem que se perca muito tempo. Entre as caixas de papelão e a mercadoria exposta são indiferentes a quem passa, aos olhares curiosos de uns e aos mais tímidos de outros, incomodados por entrarem, mesmo sem querer, no quotidiano da família. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Entre o teatro e o cinema: a vida

Cosimo Rega, há 34 anos numa prisão de alta segurança perto de Roma, diz, lá para o final do filme (mas logo no início do trailer): "agora que conheço a arte, esta cela tornou-se uma prisão". Condenado a prisão perpétua por crimes graves, participou, com outros presos, nesta experiência teatral que, filmada numa perspectiva documental mas ao mesmo tempo poética, nos deixa com a sensação de termos assistido a momentos únicos pois sabemos que, para além das imagens que os realizadores escolheram para nos mostrar, estão ali as vidas reais de quem assumiu, como uma redenção, a participação naquela peça. Aquele grupo de homens, em situação de reclusão, entrega-se, por inteiro, a um texto, a uma encenação, a uma alteração do seu quotidiano que, mesmo sendo ficção, vai muito para além das celas, a que obrigatoriamente têm que se recolher quando chega a hora. Por isso aquelas imagens são poderosas. Por isso as sentimos tão intensamente. 
É ainda Cosimo que explica: "Não me bastava sobreviver à prisão. Eu queria viver. Foi por isso que fiz teatro. Porque um detido é antes de tudo um homem, com as suas emoções, os seus medos. E as suas dores. Nós somos pessoas que têm o direito e o dever de se redimir, para demonstrar, para lá daquilo que fizemos, toda a nossa humanidade. " Tradução de um extracto desta entrevista.
Já vi este filme há umas semanas mas ainda não tinha tido oportunidade de falar sobre ele. Não podia, no entanto, deixar de o fazer. Nem que fosse para registar que o cinema ainda pode ser algo de novo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um passeio pequeno de mais

Com tantos sacos de compras de lojas de marca nem se percebia como conseguia andar. Mas lá ia, com pequenos passinhos, que contrastavam com a altura dos saltos dos sapatos. E ainda tinha capacidade para atender o telemóvel, aparentemente de topo de gama. O casaco de peles, enorme, as pulseiras e os anéis dourados, que não disfarçavam o material nobre de que eram feitos, também faziam parte do conjunto. E o cabelo? Não, não imaginam o cabelo. Da mesma cor que o casaco e que não deixava esquecer as mãos experientes de cabeleireiro que o esteve a moldar para que o vento não destruísse, em segundos, tal obra. À primeira ri para mim, tal era o exagero da monocromia e a postura altamente caricaturável. Depois deixei de rir.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lar, doce lar

Esta fotografia


e sobretudo a situação fizeram-me lembrar o filme Home, de que já falei aqui



Não percebi se o casal vive ou não no local. Seja como for não deixa de ser estranho que, num país como a China, onde estão habituados a não respeitar as vontades individuais, isto aconteça.

Foto aqui.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Esperança

É hora de almoço. Estão os três vestidos com os fatos de trabalho. Certamente trabalham na construção do edifício ali mesmo ao lado. Formam uma linha oblíqua no passeio, quando passo por eles. Estão parados enquanto, cada um com a sua moeda, vêem se tiveram sorte com as raspadinhas que acabaram de comprar no quiosque.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma simples palavra

-Mãe, estive a falar com a M. Ela é bastante simpática.

M., 12 anos

Saiu-lhe assim mesmo. Oh, que alegria!... E bastou uma simples palavra... Sem qualquer constrangimento, ela escolheu bastante quando poderia ter dito bué!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Socióloga à beira de um ataque de nervos

Como tantas coisas que me foram acontecendo na vida, licenciei-me em Sociologia. Fui eu que escolhi, é certo. Mas, envolta numa névoa de indecisão, preenchi o formulário de candidatura à universidade na noite do dia anterior à entrega e a cruz lá acabou por ficar naquela área de conhecimento de que só tinha tido uma cadeira na escola secundária, mas que, mercê de uma professora empenhada, me tinha despertado interesse. 
A licenciatura aconteceu, sem grande brilhantismo da minha parte, mas com um resultado que não envergonha. O entusiasmo, esse, nunca foi muito se considerarmos o que poderia ter sido.
Com o mestrado a sensação não foi muito diferente.
Ao longo do tempo que levo como socióloga tenho tido a sorte de me poder intitular assim, apesar de nem todas as tarefas que desempenhei terem sido da exclusiva alçada desta área de conhecimento.
Sempre entendi a Sociologia como uma base que me permite olhar para as situações de um determinado ponto de vista, ou, o que é mais importante, de vários pontos de vista. Os métodos e as técnicas que os profissionais da Sociologia utilizam são úteis mas sempre usados num contexto e tendo em conta as suas limitações. As estatísticas, por exemplo, cumprem o seu papel quando, através da recolha, da análise e da interpretação de dados nos permitem compreender o que sem elas se tornaria mais difícil ou até impossível.
Mas os sociólogos, tal como os profissionais das outras ciências sociais, sabem bem que a realidade dificilmente se deixa apreender por um qualquer estudo, por muito aprofundado que ele seja.
Depois de tudo isto dito confesso que, ao longo dos anos, muitas foram as vezes em que dei por mim a dizer, a propósito de determinadas situações, que "cada caso é um caso", expressão de difícil relação com uma ciência que estuda o comportamento humano em situação de grupo. Há dias em sinto que não há teorias, modelos, instrumentos de análise, capazes de tornar mais perceptível a realidade que nos cerca. Nesses dias questionar o valor e a capacidade da Sociologia para atingir esse objectivo é um exercício que não posso deixar de fazer. Tentar chegar a uma qualquer conclusão, isso sim, é coisa para me deixar à beira de um ataque de nervos.
(Pronto, está bem, exagero um bocadinho com esta ideia de estar à beira de um ataque de nervos. Mas não resisti à hipérbole).


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Eu, introvertida, me confesso (ou talvez não)

Diz a notícia de jornal que basta enviar um email até quinta-feira. Depois o próprio jornal entra em contacto e o introvertido poderá "participar numa reportagem e falar da sua experiência de vida".

Se eu deixar de ser introvertida até quinta-feira ainda lhes mando um email...


A guitarra e o violino

Este sábado, no interior da Aula Magna, recebemos um presente esperado mas, até por isso mesmo, muito, muito saboroso. Andrew Bird ofereceu-nos o seu virtuosismo e um grande concerto.  Ainda bem que eu estava lá. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Engano?

Pode ter sido um engano. Mas colocar uma notícia destas no separador de "entretenimento" nas notícias do google parece-me revelador da importância que se concede ao Património Cultural.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma espécie de pensamento do dia

Quem me dera que o meu tempo fosse medido em minutos-carris. Sabem, aqueles que, nas paragens, nos indicam quanto tempo falta para o próximo autocarro? Pois...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Estão a ver?

Poderia pensar-se que a renovação seria necessária por causa dos elementos apostos na fachada, os materiais utilizados ou ainda a forma aportuguesada da palavra que publicita o segundo tipo de artigos à venda na loja. Mas não é isso. O que está ali, de alguma forma, a mais é a referência a artigos para bebé...

Mesmo a precisar de renovação


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quem dera!

Estou sentada a uma mesa. A rapariga entra e fica ao balcão. Queixa-se à empregada que está do outro lado. Está cansada. Para ir trabalhar tem que se levantar ainda de madrugada e apanhar vários transportes para chegar até ali. É bom ter trabalho mas o ordenado é tão pequeno, diz. 
Está de chinelos. Numa das pernas, uma tatuagem: uma fada segura nas mãos uma varinha de condão.