domingo, 30 de novembro de 2014

Numa noite fria, no Alentejo

Na sala do lado, a do restaurante, as vozes, só de homens, misturavam-se naquele burburinho normal das refeições em conjunto. De repente, silêncio. E então, de forma que me pareceu espontânea, eles começaram a cantar. Eu estava de saída do bar daquele hotel. Aquelas vozes, naquele lugar de paredes brancas, fizeram-me sentir arrepios e ficar. Permaneci à escuta. Não havia na sala mais ninguém para lá daqueles homens. Eles cantavam para si, uns para os outros, numa comunhão de emoções que partilhavam por puro prazer. Talvez pela situação inusitada senti aquele como um momento mágico e não mais o esqueci.

(Este episódio passou-se há poucos anos, num hotel em Portel.) 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Um conceito moderno de televisão

É verdade que, naquela altura, a nossa escolha era muito limitada. A televisão oferecia e para nós era "pegar ou largar". Mas ninguém nos obrigava a ver o TV Rural. E, mesmo nas cidades, eram muitos os que não perdiam um. Certamente não era por acaso. E não foi por acaso, também, que aquele foi o programa com maior longevidade na televisão portuguesa (esteve no ar de 1959 a 1990). E o elemento chave era, sem dúvida, o seu apresentador, o Engenheiro Sousa Veloso que percorria o país a falar de um tema que manifestamente o apaixonava. Todos recordam o respeito que demonstrava pelos agricultores que entrevistava mas também pela própria natureza. A forma como ela era transformada pela agricultura era apresentada de forma didáctica mas também emocionante, até. Era um conceito muito moderno, mesmo se os meios técnicos não eram muito evoluídos. 
Esta noite, a RTP Memória passou um programa, de 2005, em que era ele o convidado. Percebi que o final do TV Rural não o preocupou tanto quanto a sensação que tinha do abandono da agricultura, enquanto actividade produtiva. E gostei de o ouvir dizer que ficava irritado quando ouvia, mesmo da boca de jornalistas, que estava um tempo muito bom quando, em tempo de chuva, ela teimava em não cair; porque se lembrava daqueles para quem a chuva era um bem precioso.
Talvez pelas minhas raízes rurais, durante alguns dos anos da minha infância e adolescência, nunca perdia um programa ao domingo. Provam-no os registos do meu diário. Depois fui crescendo e a minha atenção não acompanhou o TV Rural. Hoje, com a morte do Engenheiro Sousa Veloso, não podia deixar de o recordar.

Acto de contrição

Depois do post anterior, confesso que fiquei um pouco arrependida de ter brincado com esta questão. Não porque ache que no humor há assuntos tabus mas porque nesta, como noutras questões, todos falamos muito do que não sabemos. De facto sabemos tão pouco sobre o caso que é até constrangedor ouvir tanto comentador a dar a sua opinião. E se há os que se limitam a referir teorias aplicadas a cenários variados, há aqueles que enviam recados aos que têm o poder para fazer avançar o caso. Esperemos que estes façam o seu trabalho sem serem influenciados. Às vezes penso que deveriam fazer como os jurados em julgamentos. Fechavam-se numa sala, alheios às opiniões de outros e decidiam o melhor que podem. Todos nós, cidadãos portugueses, merecemos que tudo se faça de acordo com a lei. E a lei não prevê consultas a "opinadores" profissionais. Acho que mais vale, de facto, a abordagem dos humoristas que, essa sim, apela a sentimentos, quer os mais básicos, quer os mais elaborados, permitindo sempre um avanço. E nós precisamos mesmo de avançar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Um êxito a médio prazo

Não sei quem poderia fazer, no PS, um dueto com Sócrates, neste bonito tema... Mas um destes intérpretes tem o apelido Costa...

Publicidade, ali não, obrigada

Nas cidades, lugar por excelência da diversidade, cabe tudo. E desde que alguém se começou a dedicar à publicidade que esta está ligada àquele espaço de uma forma marcante. Dificilmente conseguimos pensar numa cidade sem os painéis, os mupis, e outros, que anunciam produtos ou acontecimentos. A eles nos fomos habituando e frequentemente nem os notamos. No entanto, muitas são as situações em que esses elementos criam verdadeira poluição visual. Na Europa há já alguns locais onde se tentou minorar os efeitos dessa realidade e agora os responsáveis de uma cidade com alguma dimensão, como Grenoble, vão tomar medidas que certamente terão grande impacto. Será um exercício interessante e cá estaremos para saber como correrá a experiência. Em cidades como Lisboa o que se perderia em verbas que chegam à câmara com a publicidade certamente não permitirá a realização de uma experiência semelhante. Mas não deixa de ser curioso imaginar certos locais sem o mobiliário urbano que suporta a publicidade. Eu já o fiz e gostei do que vi.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Popper ao final do dia

Tinha acabado de saber que se comemorava o Dia Internacional da Filosofia. De regresso a casa, no metro, a rapariga sentada no banco à minha frente comia uma maçã e olhava para fora, pela janela, embora, provavelmente, porque o que se vê é reflexo, o que via fosse o interior da carruagem.Terminada a maça tirou um livro da mala. Como é costume, espreitei para ver o título. Era Busca Inacabada, de Karl Popper. Não podia ser mais adequado, pensei. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A rapariga

Habituei-me a vê-la na rua. Sempre de chinelos de enfiar no dedo, de Verão e de Inverno. Aproveitava as portas entreabertas e esgueirava-se para o interior dos prédios, muitas vezes só para dormir nalgum canto mais escuro. O seu ar era sempre de alguém a quem o cansaço nunca deixava. Desta vez vi-a no centro comercial. Era um dia de semana à noite e pouca gente andava por ali. Provavelmente ninguém reparou nela. Dormia num sofá no meio do corredor, o corpo dobrado, a cabeça pendente para um dos lados. Estava descalça mas, numa das mãos, segurava um par de sapatos. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros sabia...

...que crescer não adianta muito. Hoje morreu um guri.

"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...)."

Citação copiada daqui

O marco do correio

Já tinha escurecido. Aproximei-me da passadeira e vi um homem, com cerca de 80 anos, a afastar-se do centro do passeio e a aproximar-de da berma. Travei e parei pensando que ele iria atravessar. Em vez disso dirigiu-se ao marco do correio que, apesar de ali passar todos os dias, eu nunca tinha reparado que ali estava e depositou nele uma carta. Fiquei surpreendida. Percebi, então, que há já muito tempo não via alguém a utilizar um marco do correio. Lembrei-me de mim própria quando era criança. Deve ter sido um dos primeiros recados que fiz. O marco do correio ficava no cruzamento. Quando dizíamos cruzamento já sabíamos que era daquele cruzamento que falávamos. Era preciso andar um bocadinho mas não tinha que atravessar ruas. E lá deixava as cartas que seguiriam depois para a aldeia no Norte ou para Moçambique e para o Brasil. Nessa altura achava extraordinário como é que, algum tempo depois, o envelope com aquela folha de papel iria estar na mão de outra pessoa que estava num sítio tão longe. Ao pensar nisso sorri sozinha. Depois avancei. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Para trocar o sofá lá de casa pela cadeira do teatro

Há cartões para tudo e para nada. Este é um cartão para uma coisa boa, muito boa: ir ao teatro. E a divulgação está interessante. Vários vídeos testemunham o que acontece quando se cruzam uma Maria e um Luiz. Este é um deles:




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Um ano com dores

Fazer uma ressonância magnética no Serviço Nacional de Saúde não é coisa fácil. Mas, após 8 meses à espera, lá conseguiu. O médico tinha-lhe dito para ir logo à consulta mal tivesse o resultado. Por azar, quando o resultado ficou pronto, o médico entrou de férias. Logo a seguir entrou em licença de paternidade. Quando finalmente, dois meses depois, a consulta ficou marcada para o mês seguinte ela pensou que bastava ter mais um pouco de paciência. Mas umas semanas depois uma carta informou-a que, por motivos imprevistos, a consulta tinha sido adiada mais um mês. Com resignação, pensou: ainda bem que é só um pé!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Enquanto o autocarro percorria as ruas

Foi o sorriso da rapariga que primeiro me chamou a atenção. Ela olhava em frente. Sentados nos bancos, que eu também via, estavam dois rapazes. Eram gémeos e, aos nossos olhos, só as roupas eram diferentes. Ambos tinham auriculares nos ouvidos. Não sabemos se estariam a ouvir a mesma música. Estavam de olhos fechados e as suas cabeças balouçavam nas mesmas direcções em simultâneo e com o mesmo ritmo. Durante longos minutos foi assim. Quem os olhava não podia, de facto, deixar de sorrir.

domingo, 26 de outubro de 2014

No interior de um tanque. No interior de uma guerra.

Não gosto de filmes de guerra. Por isso ir ver "Fúria" seria sempre um risco. Mesmo assim fui. Tinham-me dito que este era um filme diferente. Logan Lerman, que interpreta o papel de um muito jovem soldado que se vê, de repente, na tripulação de um tanque, dizia outro dia numa entrevista que, durante as gravações, todos os dias se chocava com o que via. De facto, mesmo estando com toda a equipa em filmagens não deve ser fácil participar naquelas cenas. A mim custou-me ver o filme. O seu realismo obrigou-me a fechar os olhos algumas vezes. Senti-me muito desconfortável como se também eu estivesse presa naquele tanque. Isso significa que eu não gostei do filme? Não. Isso significa que eu não gosto da guerra.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Refeição especial

Vou com alguma frequência ao Café Império. Mesmo que a comida não seja nada de especial, o espaço compensa. Fechado durante algum tempo, temeu-se que não voltasse a reabrir com a anterior função o que teria sido lamentável. Felizmente tal não aconteceu.
Integrado no edifício do Cinema Império, um projecto de Cassiano Branco, podemos ver, no interior, numa parede revestida a cerâmica (de Jorge Barradas), uma composição de esculturas de Martins Correia. Na mesma sala e ocupando uma área considerável, uma pintura mural de Luís Dourdil. 
Durante muito tempo, sentia-me triste ao olhar para esta obra, de 1955, tal era o seu estado de degradação. Nas últimas vezes que lá estive, porém, pude apreciar muito melhor aquele magnífico trabalho, agora restaurado no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do pintor.
Não sei se os estudantes que enchem a sala ao almoço estarão conscientes da importância das obras em causa. Talvez não. Eu sinto-me uma privilegiada por poder tomar uma refeição na sua companhia. Passem lá e vejam. O café ganha muito. Lisboa também. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Prémio "Um pouco de modéstia não ficava nada mal"

Se é que a TSF citou bem (foi de uma notícia da rádio que a copiei), foi assim que Cristiano Ronaldo se referiu às suas novas chuteiras: «Estas chuteiras têm tudo a ver comigo: são elegantes, bonitas e brilham (...)»

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma consequência positiva da greve do metro de hoje

Estava quase a chegar ao meu destino depois de longos 45 minutos de autocarro. O rádio foi-me fazendo companhia. Em pé e sem possibilidade de me mexer nem o livro tinha sido aberto.  Nada faria pensar que terminaria a viagem com um sorriso nos lábios com o prazer da descoberta. Mas foi o que aconteceu ao ouvir a voz de Marisa Mena, ou melhor, Mimicat. Esta voz e esta canção.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

Publicidade barata

Depois de ter herdado, há algum tempo, um iPod que está já bastante desactualizado, a minha filha mais nova tem tentado convencer-me que o ideal seria comprar um mais recente.
Após a minha argumentação no sentido de lhe dizer que faria mais sentido algo que a ajudasse mais na escola ela respondeu: -Sim, é um brinquedo... Mas eu ainda sou uma criança. E isso é bom. Isto depois do já clássico: - Não estou a pedir para tabaco.
Por fim, perante a minha pergunta: - E tem que ser mesmo um iPod?; ela responde: -Ó mãe, o mundo da Apple só tem porta de entrada. Não tem porta de saída.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Outono de Modiano

Não tenho uma opinião clara sobre a atribuição do prémio Nobel da literatura deste ano. Aliás, de nenhum ano. A sua importância é muito grande mas o júri, tal como noutros prémios, terá, certamente, dificuldades em decidir e as suas decisões não podem ser aceites por todos. Vem isto a propósito deste post do Pedro Correia. Depois de o ler resolvi fazer o mesmo exercício.
Tenho dois livros de Patrick Modiano. Dora Bruder, foi-me oferecido em Janeiro de 2001 e li-o no mês seguinte. A memória que tenho dessa história de uma rapariga de origem judia no período de ocupação de Paris pelos alemães não é nítida embora ache que gostei de o ler (a falta de sublinhados, no entanto, poderá indicar o contrário). Anos depois fui eu a comprar No café da juventude perdida (lido em Maio de 2012). Mais uma vez a personagem principal é uma mulher e o cenário é Paris, mas agora nos anos 60 (do século XX). Deste sei que não gostei especialmente. Mesmo assim, este último tem mais sublinhados. Deixo aqui um deles. Porque também gosto do Outono.

"Para mim, o Outono nunca foi uma estação triste. As folhas secas e os dias cada vez mais curtos nunca me recordaram o fim de alguma coisa, antes uma expectativa do futuro. Há electricidade no ar, em Paris, nas tardes de Outono, à hora em que cai a noite. Mesmo quando chove. Não fico deprimido, nem tenho a impressão de que o tempo me foge. Sinto que tudo é possível. O ano começa no mês de Outubro."

in , Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida, Edições Asa, 2009, pág. 16