segunda-feira, 28 de junho de 2010

Para ouvir sentado e de chapéu…



Destes senhores

Explicações dos deuses

O Amor e a Loucura

Brincavam uma tarde, alegremente,
Loucura e Amor, quando êste se zangou.
Um dito puxou outro mais ardente,
E Amor levou um murro que o cegou...

Vénus, que amava o filho loucamente,
Cega, tambêm, de muita dor ficou.
Foi ter com Júpiter, o deus potente,
E parte carregada apresentou.

Sensível ao queixume maternal,
Júpiter reùniu o tribunal.
Tal crime impunha o máximo rigor.

E confirmado, pôsto bem a limpo,
Sentenciou o código do Olimpo
Que a Loucura guiasse o cego Amor...

                                                    Matias Lima

in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 153

domingo, 27 de junho de 2010

Apoio à Selecção?

I Gotta Felling? De acordo com o dicionário que consultei "felling" significa derrube de árvores, matança. Não me parece que seja uma mensagem de apoio muito animadora.

sábado, 26 de junho de 2010

Olhar os olhos dos outros

Intenso filme este. Não só porque, através da vivência das personagens, podemos acompanhar os dias imperfeitos da Argentina, naquela altura, década de 70 do século passado; mas porque o protagonista, habituado que está, até por razões profissionais, a observar e a ver para lá do que é aparente, mantém essa capacidade, mesmo que tenham passado 25 anos sobre acontecimentos que o marcaram, quer profissionalmente, quer na sua vida pessoal.

E é exactamente nessa vontade de ver que reside a questão. Os nossos olhos podem dizer muita coisa e conter alguns segredos. Mas é fundamental que os outros saibam e queiram ver. Benjamin Esposito não desiste de o fazer. E nós que ali estamos temos a obrigação de estar atentos e aprender que, mesmo que os anos passem, não devemos nunca deixar de olhar os olhos dos outros.

Aliás o filme só termina quando, na última cena, a porta se fecha, não nos deixando acompanhar aquilo que adivinhamos sem precisar, nesse caso, ver.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Chico Buarque

A mais bonita (1989)

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar

Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei

in Wagner Homem, Histórias de Canções Chico Buarque, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2009, p. 258

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paisagem entaipada

Nas auto-estradas não se viaja. Percorrem-se distâncias. Para ir de um sítio para outro em menos tempo não há melhor. Mas parte do prazer de conduzir está vedada aos automobilistas que se vêem confrontados com a monotonia da estrada. Quanto à paisagem deixámos quase de a poder apreciar. É um facto que as habitações que se localizam perto dessas vias devem ser protegidas do ruído forte. Mas parece-me que existe actualmente uma febre que se traduz na colocação de taipais em extensões enormes de auto-estradas e vias rápidas, que limitam a nossa visão à sucessão interminável dos postes que os seguram, pois são estes os elementos que mais se destacam. Mesmo aqueles de acrílico transparente servem apenas para distorcer o que nos parece ser um monte, um pomar, uma barragem.

Em certos locais não conseguimos perceber se existem habitações, se campos agrícolas, se outras estradas. Em determinados troços é como entrar num túnel mas aberto em cima. Ao limite podemos passar de uma paisagem com determinadas características para outra, com características opostas, sem nos apercebermos das alterações.

É certo que nem sempre a paisagem merece ser apreciada. Mas, se não a observarmos, como saberemos? É caso para dizer: já que pagamos portagens queremos as paisagens!

As paisagens que vemos




Lagoa de Albufeira, Março 2010

sábado, 19 de junho de 2010

Chegou a grande sombra

“…. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?”

in José Saramago, As pequenas memórias, Lisboa, Caminho, 2006, p. 130

Sempre a tempo

terça-feira, 15 de junho de 2010

"Je Suis Comme Je Suis"

Vento

Li algures que hoje, 15 de Junho, é dia mundial do vento. Deve ser para comemorar a data que ele está a soprar desta forma. Ouço-o lá fora e ainda há pouco o senti. Não deve querer que o esqueçam. Assim certamente vai conseguir.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Excepcionais

E não podia faltar hoje (era para ser ainda ontem) uma referência a um homem único, Fernando Pessoa, que sabia que todos nós o éramos.

"Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe."

Citação in Paulo Neves da Silva (org.), Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa, Lisboa, Casa das Letras, 2009, pág.56

domingo, 13 de junho de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Valter Hugo Mãe

3
não faço qualquer ruído ao ler estas
palavras. busco o silêncio agora, enquanto
o espectro da morte ilumina o meu caminho
e não tenho para fazer algo que lhe
seja mais parecido. colaboro. já o sol
se esgota na minha cabeça e os
dias não são mais que a intermitência
com que abro e fecho os olhos.

in valter hugo mãe, Estou escondido na cor amarga do fim da tarde, Porto, Campo das letras, 2000, p. 43

sábado, 12 de junho de 2010

"E agora, que já lá estamos... vamos ter tudo aquilo que desejamos"

Em 12 de Junho de 1985 Portugal assinou o tratado que lhe permitiu entrar na então Comunidade Económica Europeia. Faço parte de uma geração que passou já toda a vida adulta com um pé mergulhado em iniciativas enquadradas nos vários quadros comunitários de apoio, primeiro como formanda, depois já no âmbito das minhas actividades profissionais. Sei que Portugal beneficiou muito com esta adesão. Só é pena que nós não tenhamos aproveitado as oportunidades para transformar esses apoios em verdadeiro desenvolvimento.

Mas a verdade é que mesmo no meio de uma crise continuamos a querer estar unidos nesta União cada vez maior mas cada vez mais desunida.

Apesar da CEE já ter ficado lá para trás, relembro aqui os GNR, ainda com a voz de Alexandre Soares e antes de fazerem concertos com a GNR (tantas vezes que eu ouvi este 45 rotações).


Só um facto:

Uma das minhas filhas está a terminar agora o 4.º ano de escolaridade. Esta sexta-feira, pela primeira vez este ano lectivo, levou, para a escola, por solicitação da professora, o seu computador Magalhães.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Renque de árvores


Quinta da Apostiça, Sesimbra, Março 2010

Seriedade

O edifício, imponente, fazia adivinhar, no seu interior, a importância de um trabalho desenvolvido com seriedade. Nas escadas de acesso passavam aqueles que pretendiam tratar de assuntos, para si, fundamentais. Nesse dia, sentadas nessas escadas, duas raparigas, com as suas mochilas e casacos espalhados pelo chão, e também com seriedade nos rostos, jogavam às cartas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Impressionismo campestre


Alentejo, Maio 2010

O cão e o seu dono

O homem dava passadas largas. Durante o tempo de cada uma delas o cãozito saltitava três ou quatro vezes ao seu lado. Não havia qualquer trela a segurá-lo, apesar do local público o recomendar. O homem estava orgulhoso do seu cão. Este, enquanto subiam a rampa, parecia sentir também o mesmo orgulho e não largou nunca o atacador do sapato do dono.

domingo, 6 de junho de 2010

E a propósito de liberdade...

um poema de um amigo de Vinicio Capossela dito num dos seus concertos ao vivo e que consegui encontrar aqui:

Ognuno ha le sue prigioni , mentali, fisiche ...
Ognuno ci convive...
Ma quando le pareti cominciano a restringersi, le facce diventano anonime...
Quando lo specchio comincia a darti del tu
quando i marciapiedi ti provocano vertigini e la strada sembra il tuo tappeto rosso
metti insieme il tuo bagaglio.
Riempilo di ricordi, speranze, parole, storie vissute e storie da vivere
riempilo di emozioni, musiche, liti, illusioni d’epoca, domande e risposte.
Trovati un amico e comincia la condivisione , l’esplorazione.
Vai a caso, lascia le tue lacrime sul cuscino, incontrati con la vita, scontrati con il dolore ruba l’amore.
Non avere una meta ma cento, prova a ritornare perché il ritorno da senso al viaggio.
Pensa a Polifemo e alla sua solitudine e rispetta la solitudine altrui.
Gira intorno al mondo non girare con lui.
Affrancati da te stesso e dall’attesa.
Per amare la vita bisogna tradire le aspettative.
Guardati intorno e guardati da chi si professa libero.
Il sapore della libertà è la paura.
Solo chi ha paura della libertà ha il coraggio di inseguirla.

(Vincenzo Costantino Chinaski - Le cento città)

Qual a quantidade de liberdade que precisamos?

sábado, 5 de junho de 2010

Barreiras à circulação de peões

Quem é peão convicto como eu (no sentido em que só utilizo o automóvel quando ele é realmente necessário) sabe da dificuldade em circular a pé pela cidade. Os carros mal estacionados, frequentemente em cima de passeios ou a dificultar a visibilidade em passadeiras, os inúmeros elementos de sinalização vertical e suportes de informação que obrigam a uma atenção constante, os buracos que forçam o nosso olhar na direcção do chão, o que permite, simultaneamente, evitar os dejectos caninos e outros, sempre à espera que alguém os pise; e outras dificuldades tornam esta actividade uma verdadeira aventura.

E já nem falo de todos os que, por motivos vários, têm dificuldades acrescidas (os que se deslocam em cadeiras de rodas ou com carrinhos de bebé, os que têm visão ou audição limitadas), enfim, aqueles sobre os quais se convencionou dizer que têm mobilidade reduzida. Lembro sempre as vezes que acompanho, na rua, uma colega praticamente cega. É nessas alturas que esses problemas mais se colocam.

Todos estes problemas são causados pela falta de civismo de muitos cidadãos e automobilistas em particular e ainda pelos serviços responsáveis pela organização do trânsito na cidade, normalmente as câmaras municipais. Estas têm feito um esforço, nomeadamente disciplinando o estacionamento (embora nem sempre da melhor maneira) ou aumentando o número de espaços interditos a automóveis, tornando pedonais algumas ruas.

De vez em quando surge, no entanto, um exemplo contra corrente. O caso da Praça Duque da Terceira (Cais do Sodré) é um deles. Recentemente, à volta dessa praça, em todos os passeios, foram colocados uns pilaretes unidos entre si, à altura da cintura de um adulto médio. Estes elementos obrigam qualquer pessoa que necessite aceder à paragem de autocarros, que se encontra no centro, a circular toda a praça uma vez que os atravessamentos nas passadeiras que existiam foram abolidos. Ora quem chega à Praça, vindo do comboio, e quer ir apanhar algum dos autocarros a essa paragem tem duas opções: ou, como tenho visto, passa por cima da tal “vedação” e atravessa na mesma a praça, fintando os automóveis; ou circunda toda a praça, o que demora bastante tempo e nos obriga a passar não sei quantas passadeiras sem semáforos, obrigando-nos a ficar a olhar o autocarro que nos dava tanto jeito apanhar que, nesse preciso momento, arranca, indiferente ao nosso esforço de cumprir as novas disposições do trânsito. Mas então não era suposto ser facilitado o uso dos transportes públicos?

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Detesto este meu medo de andar de avião

Uma das razões/poemas porque gosto de Margarida Vale de Gato

Mulher ao Mar

MAYDAY lanço, porque a guerra dura
e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
suga a fissura, uma falta - não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, fará a onda em ponto
lento um manto sobre o afogamento.

in Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar, Lisboa, Mariposa Azual, 2010, p. 8

Boas surpresas

De vez em quando tenho surpresas:

- como esta, que descobri por acaso. É bom saber que a Nave dos Dias também navega por aqui (obrigada a Alfredo Maia).

- e esta. Eu gosto que goste, Pedro.