segunda-feira, 12 de abril de 2010

A propósito de duas coisas

Depois de ter andado a acompanhar as leituras de um livro de Diderot, no blog experimental e dadas as recentes e constantes notícias na comunicação social, sobre a forma como a igreja, em alguns casos, tem tratado aqueles que, por vontade ou por imposição, passam parte da vida a ela ligados; lembrei-me do único livro de Diderot que li até agora. Trata-se de "A Religiosa", livro publicado postumamente em 1796, que nos permite acompanhar a vida no interior de um convento, através dos olhos de alguém que não desejou lá entrar.

Desse livro retiro um excerto:

(…) Deus, que criou o homem social, aprovará que o encarcerem? Deus, que o criou tão inconstante, tão frágil, poderá consentir na temeridade dos seus votos? Esses votos, contrários à inclinação geral da natureza, poderão ser alguma vez bem observados a não ser por criaturas mal organizadas, em quem os germes das paixões fossem nulos e que de direito devessem figurar entre os monstros se os nossos conhecimentos nos permitissem medir a estrutura interior do homem como medimos a sua forma exterior? Porventura as funções animais serão suspensas com todas essas cerimónias lúgubres que presidem ao acto de professar quando se consagra um homem ou uma mulher à vida monástica e à desventura? Ou, pelo contrário, não despertarão elas, no silêncio, no constrangimento e na ociosidade, com uma violência que a gente do século desconhece, entretida nas suas distracções? Onde é que se vêem cérebros obcecados pelos espectros impuros que os perseguem e os agitam? Onde se encontra esse tédio profundo, essa palidez, essa magreza, todos esses sintomas de uma natureza que elanguesce e se consome? Onde é que as noites são perturbadas pelos gemidos, os dias repassados de lágrimas vertidas sem causa e precedidas de uma melancolia que se não sabe a que atribuir? Onde é que a natureza, revoltada contra uma opressão para que não foi feita, quebra os obstáculos que se lhe opõem, ganha fúria, lança a economia animal numa desordem para que não há remédio? Onde é que o humor e a mágoa aniquilaram todas as qualidades sociais? Onde é que não há pai, nem mãe, nem irmão, nem irmã, nem parentes, nem amigos? Onde é que o homem, certo de que vive um instante e passa, trata as relações mais ternas deste mundo como o viandante os objectos que encontra no caminho, sem se prender a nenhum? Onde vive o ódio, o desgosto e o histerismo? Onde é a mansão do servilismo e do despotismo? Onde os ódios que não cansam? Onde as paixões germinadas no silêncio? Onde a morada da crueldade e da curiosidade? «Desconhece-se a história destes asilos», dizia o senhor Manouri no seu depoimento. E acrescentava noutro passo: «Quem faz voto de pobreza compromete-se, sob juramento, a ser preguiçoso e ladrão; fazer voto de castidade é prometer a Deus a infracção constante da mais sábia e mais importante das suas leis; fazer voto de obediência, renunciar à prerrogativa inalienável do homem, a liberdade. Quem observa estes votos é criminoso; quem os não observa, perjúrio. A vida claustral só convém aos fanáticos e aos hipócritas».” (…)

in Diderot, A Religiosa, Lisboa, Editora Arcádia, 1975, p. 109-110

2 comentários:

  1. :) Era o Século das Luzes!

    Mas, Ana, recomendo-te vivamente
    que leias dele, o "Tiago, O Fatalista"
    («Jacques, Le Fataliste»)
    que é excepcional.

    Provavelmente, já agora,
    até sou capaz de o reler
    e colocar algum texto no blog! :)

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