Tinha acabado de saber que se comemorava o Dia Internacional da Filosofia. De regresso a casa, no metro, a rapariga sentada no banco à minha frente comia uma maçã e olhava para fora, pela janela, embora, provavelmente, porque o que se vê é reflexo, o que via fosse o interior da carruagem.Terminada a maça tirou um livro da mala. Como é costume, espreitei para ver o título. Era Busca Inacabada, de Karl Popper. Não podia ser mais adequado, pensei.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
À atenção do senhor que ia à minha frente hoje no metro
e a outros que ainda não perceberam que não estão sozinhos no mundo...
Obrigada, Jorge pela partilha.
Obrigada, Jorge pela partilha.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
A rapariga
Habituei-me a vê-la na rua. Sempre de chinelos de enfiar no dedo, de Verão e de Inverno. Aproveitava as portas entreabertas e esgueirava-se para o interior dos prédios, muitas vezes só para dormir nalgum canto mais escuro. O seu ar era sempre de alguém a quem o cansaço nunca deixava. Desta vez vi-a no centro comercial. Era um dia de semana à noite e pouca gente andava por ali. Provavelmente ninguém reparou nela. Dormia num sofá no meio do corredor, o corpo dobrado, a cabeça pendente para um dos lados. Estava descalça mas, numa das mãos, segurava um par de sapatos.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Manoel de Barros sabia...
...que crescer não adianta muito. Hoje morreu um guri.
"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...)."
Citação copiada daqui
O marco do correio
Já tinha escurecido. Aproximei-me da passadeira e vi um homem, com cerca de 80 anos, a afastar-se do centro do passeio e a aproximar-de da berma. Travei e parei pensando que ele iria atravessar. Em vez disso dirigiu-se ao marco do correio que, apesar de ali passar todos os dias, eu nunca tinha reparado que ali estava e depositou nele uma carta. Fiquei surpreendida. Percebi, então, que há já muito tempo não via alguém a utilizar um marco do correio. Lembrei-me de mim própria quando era criança. Deve ter sido um dos primeiros recados que fiz. O marco do correio ficava no cruzamento. Quando dizíamos cruzamento já sabíamos que era daquele cruzamento que falávamos. Era preciso andar um bocadinho mas não tinha que atravessar ruas. E lá deixava as cartas que seguiriam depois para a aldeia no Norte ou para Moçambique e para o Brasil. Nessa altura achava extraordinário como é que, algum tempo depois, o envelope com aquela folha de papel iria estar na mão de outra pessoa que estava num sítio tão longe. Ao pensar nisso sorri sozinha. Depois avancei.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Para trocar o sofá lá de casa pela cadeira do teatro
Há cartões para tudo e para nada. Este é um cartão para uma coisa boa, muito boa: ir ao teatro. E a divulgação está interessante. Vários vídeos testemunham o que acontece quando se cruzam uma Maria e um Luiz. Este é um deles:
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Um ano com dores
Fazer uma ressonância magnética no Serviço Nacional de Saúde não é coisa fácil. Mas, após 8 meses à espera, lá conseguiu. O médico tinha-lhe dito para ir logo à consulta mal tivesse o resultado. Por azar, quando o resultado ficou pronto, o médico entrou de férias. Logo a seguir entrou em licença de paternidade. Quando finalmente, dois meses depois, a consulta ficou marcada para o mês seguinte ela pensou que bastava ter mais um pouco de paciência. Mas umas semanas depois uma carta informou-a que, por motivos imprevistos, a consulta tinha sido adiada mais um mês. Com resignação, pensou: ainda bem que é só um pé!
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Enquanto o autocarro percorria as ruas
Foi o sorriso da rapariga que primeiro me chamou a atenção. Ela olhava em frente. Sentados nos bancos, que eu também via, estavam dois rapazes. Eram gémeos e, aos nossos olhos, só as roupas eram diferentes. Ambos tinham auriculares nos ouvidos. Não sabemos se estariam a ouvir a mesma música. Estavam de olhos fechados e as suas cabeças balouçavam nas mesmas direcções em simultâneo e com o mesmo ritmo. Durante longos minutos foi assim. Quem os olhava não podia, de facto, deixar de sorrir.
domingo, 26 de outubro de 2014
No interior de um tanque. No interior de uma guerra.
Não gosto de filmes de guerra. Por isso ir ver "Fúria" seria sempre um risco. Mesmo assim fui. Tinham-me dito que este era um filme diferente. Logan Lerman, que interpreta o papel de um muito jovem soldado que se vê, de repente, na tripulação de um tanque, dizia outro dia numa entrevista que, durante as gravações, todos os dias se chocava com o que via. De facto, mesmo estando com toda a equipa em filmagens não deve ser fácil participar naquelas cenas. A mim custou-me ver o filme. O seu realismo obrigou-me a fechar os olhos algumas vezes. Senti-me muito desconfortável como se também eu estivesse presa naquele tanque. Isso significa que eu não gostei do filme? Não. Isso significa que eu não gosto da guerra.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Refeição especial
Vou com alguma frequência ao Café Império. Mesmo que a comida não seja nada de especial, o espaço compensa. Fechado durante algum tempo, temeu-se que não voltasse a reabrir com a anterior função o que teria sido lamentável. Felizmente tal não aconteceu.
Integrado no edifício do Cinema Império, um projecto de Cassiano Branco, podemos ver, no interior, numa parede revestida a cerâmica (de Jorge Barradas), uma composição de esculturas de Martins Correia. Na mesma sala e ocupando uma área considerável, uma pintura mural de Luís Dourdil.
Durante muito tempo, sentia-me triste ao olhar para esta obra, de 1955, tal era o seu estado de degradação. Nas últimas vezes que lá estive, porém, pude apreciar muito melhor aquele magnífico trabalho, agora restaurado no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do pintor.
Não sei se os estudantes que enchem a sala ao almoço estarão conscientes da importância das obras em causa. Talvez não. Eu sinto-me uma privilegiada por poder tomar uma refeição na sua companhia. Passem lá e vejam. O café ganha muito. Lisboa também.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Prémio "Um pouco de modéstia não ficava nada mal"
Se é que a TSF citou bem (foi de uma notícia da rádio que a copiei), foi assim que Cristiano Ronaldo se referiu às suas novas chuteiras: «Estas chuteiras têm tudo a ver comigo: são elegantes, bonitas e brilham (...)»
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Uma consequência positiva da greve do metro de hoje
Estava quase a chegar ao meu destino depois de longos 45 minutos de autocarro. O rádio foi-me fazendo companhia. Em pé e sem possibilidade de me mexer nem o livro tinha sido aberto. Nada faria pensar que terminaria a viagem com um sorriso nos lábios com o prazer da descoberta. Mas foi o que aconteceu ao ouvir a voz de Marisa Mena, ou melhor, Mimicat. Esta voz e esta canção.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Publicidade barata
Depois de ter herdado, há algum tempo, um iPod que está já bastante desactualizado, a minha filha mais nova tem tentado convencer-me que o ideal seria comprar um mais recente.
Após a minha argumentação no sentido de lhe dizer que faria mais sentido algo que a ajudasse mais na escola ela respondeu: -Sim, é um brinquedo... Mas eu ainda sou uma criança. E isso é bom. Isto depois do já clássico: - Não estou a pedir para tabaco.
Por fim, perante a minha pergunta: - E tem que ser mesmo um iPod?; ela responde: -Ó mãe, o mundo da Apple só tem porta de entrada. Não tem porta de saída.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
O Outono de Modiano
Não tenho uma opinião clara sobre a atribuição do prémio Nobel da literatura deste ano. Aliás, de nenhum ano. A sua importância é muito grande mas o júri, tal como noutros prémios, terá, certamente, dificuldades em decidir e as suas decisões não podem ser aceites por todos. Vem isto a propósito deste post do Pedro Correia. Depois de o ler resolvi fazer o mesmo exercício.
Tenho dois livros de Patrick Modiano. Dora Bruder, foi-me oferecido em Janeiro de 2001 e li-o no mês seguinte. A memória que tenho dessa história de uma rapariga de origem judia no período de ocupação de Paris pelos alemães não é nítida embora ache que gostei de o ler (a falta de sublinhados, no entanto, poderá indicar o contrário). Anos depois fui eu a comprar No café da juventude perdida (lido em Maio de 2012). Mais uma vez a personagem principal é uma mulher e o cenário é Paris, mas agora nos anos 60 (do século XX). Deste sei que não gostei especialmente. Mesmo assim, este último tem mais sublinhados. Deixo aqui um deles. Porque também gosto do Outono.
Tenho dois livros de Patrick Modiano. Dora Bruder, foi-me oferecido em Janeiro de 2001 e li-o no mês seguinte. A memória que tenho dessa história de uma rapariga de origem judia no período de ocupação de Paris pelos alemães não é nítida embora ache que gostei de o ler (a falta de sublinhados, no entanto, poderá indicar o contrário). Anos depois fui eu a comprar No café da juventude perdida (lido em Maio de 2012). Mais uma vez a personagem principal é uma mulher e o cenário é Paris, mas agora nos anos 60 (do século XX). Deste sei que não gostei especialmente. Mesmo assim, este último tem mais sublinhados. Deixo aqui um deles. Porque também gosto do Outono.
"Para mim, o Outono nunca foi uma estação triste. As folhas secas e os dias cada vez mais curtos nunca me recordaram o fim de alguma coisa, antes uma expectativa do futuro. Há electricidade no ar, em Paris, nas tardes de Outono, à hora em que cai a noite. Mesmo quando chove. Não fico deprimido, nem tenho a impressão de que o tempo me foge. Sinto que tudo é possível. O ano começa no mês de Outubro."
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O desejado (ou talvez não)
E ele, será que vai aparecer?
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
505
Uma grande canção dos Arctic Monkeys que é, ao mesmo tempo, neste dia mundial da música, o novo valor do salário mínimo nacional em Portugal. Se, na canção, não podemos saber ao certo a que corresponde o número (que pode ser um quarto de hotel, por exemplo) já para muitas famílias portuguesas ele significa mais 20 euros por mês. Ainda chega para comprar um CD da banda britânica mas, dada a situação real, não me parece que seja a comprar discos que a maioria o irá gastar.
Frugal, espartano e que mais?
Alguém com um estilo de vida espartano pode ser exactamente o que o país precisa. Esta, pelo menos, será a opinião dos credores da dívida pública portuguesa.
Para fazer jus a esta fama e depois de um primeiro-ministro a morar em Massamá e a passar férias na Manta Rota; ainda teremos um primeiro-ministro a morar num quartinho arrendado na R. da Imprensa à Estrela e a passar férias no Parque de Campismo da Costa da Caparica...
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Parabéns, Sr. Joaquín Tejón
(imagem encontrada na net)
Os livros sempre tiveram, para mim, grande importância. Por isso, há muitos anos atrás, fiz uma lista dos livros que emprestei e das pessoas a quem os emprestei para não lhes perder o rasto. Infelizmente, nunca tive coragem de os pedir de volta e muitos deles nunca foram devolvidos. Entre eles estava o álbum "Toda a Mafalda".
Há muitos anos que não sei da amiga da altura a quem o emprestei. Ela certamente não conhece este blogue. Mas no dia em que se somam 50 anos desde que esta menina inocente e contestatária apareceu, pela primeira vez, nas páginas de um semanário argentino; apelo à sua devolução. Se tal não acontecer serei, certamente, uma das primeiras compradoras desta edição.
Gostaria muito de dar a ler às minhas filhas as reflexões, cheias de crítica social e de sentimentos de justiça, que Quino punha na boca da sua personagem, mesmo sabendo que, o próprio autor já o disse, Mafalda, hoje, seria diferente (esta entrevista é muito interessante).
Ao mesmo tempo não posso deixar de pensar que aquilo que me fascinava na idade que as minhas filhas têm agora, já não será tão marcante para elas. A minha ingenuidade, que encontrava eco nas palavras e atitudes da Mafalda, é difícil de repetir hoje em dia. Ou será que esta é a minha sensação, agora que essa ingenuidade se perdeu? Pelo sim, pelo não, o melhor é fazer as apresentações. Elas depois dirão.
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