terça-feira, 30 de março de 2010

(At the edge of the world)

Charlie Haden e o seu contrabaixo precisam de poucas apresentações. Já gravaram com músicos importantíssimos. Lembro só que um deles foi Carlos Paredes (em 1990).  Por curiosidade foi também preso em Portugal, em 1971, por ter dedicado uma canção aos partidários da independência das colónias portuguesas de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Do magnífico "Nocturne" deixo aqui:

segunda-feira, 29 de março de 2010

Luz azul

Lisboa, Março 2010

As calças de ganga

- Eu, menina, nunca usei calças de ganga.
A conversa tinha começado com o dono do café. Para além dele éramos as únicas pessoas presentes. A senhora, muito bem cuidada, deixando a um canto as minhas calças de ganga e o blusão já com alguns borbotos, continuou:
- E olhe que já tenho 81 anos! Não me leve a mal, a si ficam-lhe bem as calças mas eu experimentei-as uma vez e percebi logo que não era roupa para mim. E olhe que eu, quando era nova, era de fazer parar o trânsito.
Depois de me perguntar a idade e, na sequência da resposta, me ter passado a tratar por senhora, acrescentou:
- Em 1958, quando cheguei a Lourenço Marques, fiquei doente durante 6 meses, o tempo que lá estive. Não conseguia perceber como é que pessoas normais conseguiam vestir aquilo. Aqui, em Portugal, só os varredores das ruas as usavam. Luanda não, Luanda era como Lisboa. Nenhuma diferença! Mas em Moçambique, tão próximo da África do Sul, era de mais.
Para lá da soberba contida na explicação, achei engraçada a forma como defendia o seu ponto de vista.
Depois de algumas palavras trocadas, saí do café. Não sem antes a senhora me desejar muitas felicidades para o futuro e o dono do café me dizer:
- Esperemos que a menina chegue àquela idade assim.
E eu, pensando na idade desta mulher e na forma como se percebia estar bem consigo própria, dei-lhe razão.

sábado, 27 de março de 2010

O que eu quero dizer daqui a umas horas

Se eu podia viver sem uma vitória do Benfica no jogo desta noite? Podia, mas não era a mesma coisa.

Ta-da!!!


Foto encontrada aqui.

Não foram os circos que inspiraram Capossela na criação deste espectáculo, mas sim as feiras de prodígios. “A cabra com cinco patas”, “o porco com duas cabeças”… que estavam ali apenas para serem exibidas, não porque tivessem algum talento.

O espectáculo de ontem foi uma festa. Da sonoridade associada ao circo até aos temas mais intimistas, Vinicio foi o maestro de uma orquestra composta por músicos que sabiam tocar muito bem os seus instrumentos (o theremin, controlado por Vincenzo Vasi, é sempre um sucesso), mas foram sempre para além disso. O mágico, presente ao longo de todo o tempo, com os seus números, ora bem conseguidos, ora apenas para nos entreter, foi uma peça que ajudou a manter a ideia de que estávamos num local de magia, conscientemente enganados. O público, composto por muitos italianos e portugueses rendidos, fez do auditório da Culturgest um recinto de baile.

E, no entanto, a alegria não nos fez esquecer que estávamos num “Solo Show”. É que, tal como diz o próprio Vinicio Capossela, “chama-se Solo Show porque vamos ter que lidar com ele sozinhos, aguentando firmes, no palco e na plateia. E também porque, afinal de contas, é só um espectáculo - entretenimento, como dar uma volta numa montanha russa suspendendo a incredulidade. Suspendendo o esforço constante para domar o tempo. Umas tréguas com a vida, para que permitamos ser atacados por dentro, por nós próprios, no momento em que fechamos os olhos”.


quarta-feira, 24 de março de 2010

De Viva Voz e Uma das razões/poemas porque gosto de Miguel-Manso

"De Viva Voz". Era esta a expressão que nos convidava a entrar na sala onde os poetas, sentados por entre o público, ouviam outros poetas ler… poemas, como não podia deixar de ser. E, quando chegava a sua vez, lá se levantavam para, também eles, lerem alguns dos seus.
Foi assim que ouvi Pedro Tamen, Nuno Júdice, Armando Silva Carvalho, Teresa Rita Lopes e Tolentino Mendonça. Mas nem só os consagrados tinham voz. Também alguns poetas mais novos nos mostraram que a poesia, em Portugal, está bem e recomenda-se.
Quando o apresentador, André e. Teodósio, chamou Miguel-Manso lembrou-nos que, fisicamente, havia uma semelhança com Herman Melville. E de facto… Mas o que realmente interessa é a sua poesia e essa vale a pena descobrir. Este foi um dos poemas por si escolhido para ler nessa tarde:

O PREC em 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: “esta
revolução não dá um passo!”

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

[in Quando escreve descalça-se, Trama, 2008]

Fui "buscar" o poema aqui.

Uma viagem de comboio

Via a webrails.tv chegou-me a notícia de um programa engraçado para quem gosta de viajar de comboio (mesmo para os que aguardam impacientes a chegada do TGV). Neste caso a paisagem merece uma atenção que só neste meio de transporte, mais lento, se consegue apreciar. A consultar aqui.

terça-feira, 23 de março de 2010

Luz verde

Lisboa, Março 2010

Precaução

O leão doente

   Um leão vendo-se enfêrmo,
Passa aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo,
   E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão e honrá-los.
   Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e que o procura;
   Porêm na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
   Eis uma esperta raposa
Pára e diz, sem que entre lá:
«Xou! que eu observo uma cousa!
   Pègadas mil aqui há;
Mas para lá tôdas vão,
E nenhuma para cá;
   Saúde, senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão;
   Porque jurei jàmais ir
A qualquer casa ou logar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair.»

Foi reflexão mui subida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer cousa
Sem ver se temos saída.

                                         Curvo Semedo

in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 13

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sean Riley & The Slowriders

Ou como em Portugal se escreve e canta tão bem em inglês:

This woman is crazy
Comes around now and then
And shouts some words at me.

I can't remember where we met
Up north near the border
Or down south by the sea.

She's wrong most of the times
But it's the times when she's right
She really gets to me.

So I pray not to see her again
Everytime she comes around

But I know it's not gonna be easy

I don't know where she is
I don't know where she is now.

She always finds a way to find me
I can't run away, there's no way out
No way I'm gonna stay another day.



Notícias recentes aqui.

sábado, 20 de março de 2010

Durmam bem!

Este dia que passou foi dia mundial do sono. Entre outras iniciativas a Associação Mundial da Medicina do Sono previa a exibição de "vídeos históricos". Sempre gostava de saber que vídeos seriam esses... E será que quem os quis ver lhe conseguiu resistir (ao sono)? Quanto a mim, acho que deveria ter aproveitado para me deitar ontem. É que hoje já não é dia do sono e ele não quer mesmo aparecer...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Pedro Tamen

26.

Suspendo a mão entre o A e o B,
entre a minha vida e a vida que andará
dentro da minha vida.
E o mundo refloresce
com memórias de rios e montanhas
inundando estes mares de sal e carne
onde me afogo
para respirar.

in Pedro Tamen, o livro do sapateiro, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2010, p. 34

Um mundo à beira da estrada

As lojas, junto à estrada, vendem ainda artigos em cerâmica pintados com flores de muitas cores. Mas agora já não se vêem os carros parados à porta. Ou só um ou dois, talvez. Para além dessas lojas só os restaurantes, alguns com dormidas, em construções de rés-do-chão e primeiro andar, pintadas com cores garridas e com azulejos com padrões variados, ainda se mantêm abertos. É num deles que estou agora. Os únicos clientes são alguns motoristas que, por ser hora de almoço, aqui vêm fazer a sua refeição. E é de colher na mão que lhe vão piscando o olho. Ela, a dona do estabelecimento, sorri-lhes. É só para servir à mesa que utiliza o batom que comprou da última vez que esteve na cidade. Enquanto está na cozinha não vale a pena, pensa ela. Desde que regressou de França está para ali metida, sem conversar com ninguém. Com tanto que fazer que o seu homem tem e a sua filha a maior parte do dia na escola, até se esquece que é tão nova e que sempre gostou tanto de brincar, de conversar e passear com as suas amigas. É como se aquele restaurante fosse o seu mundo. E ela sente que é um mundo pequeno demais. E, no entanto, a estrada está mesmo ali, a alguns passos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Poesia (dia mundial)

A poesia está em todos os meus dias imperfeitos. Mas no domingo, dia mundial da poesia, podem até passar a Ponte 25 de Abril a pé, que não deixa de ser uma experiência um pouco poética, quando nos sentimos oscilar por sobre o Tejo; mas lembrem-se que há muitos programas interessantes, como este do CCB para, nesse dia, nos encherem os sentidos de palavras.

Quem parte e reparte...

O cartaz publicitário apresentava uma composição de várias fotografias que formavam uma rapariga bonita vestida com diferentes roupas. Os rapazes passaram e ficaram a olhar o cartaz. Percebi então que eles eram tantos quantos os pedaços em que estava dividido o corpo da rapariga.

"É aquilo ali..."

Já não estamos no dia 17, dia em que Elis Regina comemoraria um aniversário. Mas não faz mal! As efemérides incomodam-me um pouco... e todos os dias são bons para relembrá-la.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Luís Quintais

D.

No dia da tua morte
o que nos restou cobriu-se
de uma intensidade sem justificação.

Um homem desceu uma encosta,
um jornal dobrado em frente do rosto
protegia-o do fulgor da manhã.

Os semáforos fizeram cair
vermelhos amarelos e verdes
com um diabolismo que lhes não conhecia.

Um homem continuou a descer a encosta,
e a sua indiferença era um acontecimento
maior na história do universo.

As crianças regressavam à escola,
excesso de peso nas mochilas,
foi a notícia do dia.

in Luís Quintais, Canto Onde, Lisboa, Edições Cotovia, 2006, p. 32

segunda-feira, 15 de março de 2010

Extraordinário...

este novo disco de Peter Gabriel.

Diz ele que "... Rather than make a traditional covers record, I thought it would be much more fun to create a new type of project in which artists communicated with each other and swapped a song for a song, i.e. you do one of mine and I'll do one of yours, hence the title - Sractch My Back - and I'll scratch yours."

O resultado é de ficarmos sem respiração. Gosto especialmente de "The boy in the bubble", de "The power of the heart" e deste "My body is a cage". Mas todos os temas nos deixam verdadeiramente emocionados.



Para ouvirmos o que tem o próprio Peter Gabriel a dizer sobre as várias canções podemos ouvi-lo aqui e aqui.