e porque Janeiro é um dos meus meses preferidos...
janeiro
é esta a completude dos dias
quando se reúnem sobre a cidade
os sossegos da nossa idade já meiga.
são estas as palavras que ficam
desde o interior do nosso mais antigo nome.
é o inverno aberto de janeiro
com as árvores despidas e o frio azul,
é o ano que começa no tempo que é nada,
os bolsos que se enchem de mãos,
as casas que parecem mais juntas.
por esta altura estarão a nascer
as horas mais felizes das nossas vidas
- bebemos chá escutando o lume
e amanhã será um dia a menos,
um outro som acrescentado à voz,
um abraço fechando-se até ao amor.
in Vasco Gato, Um mover de mão, Assírio & Alvim, p. 10
domingo, 31 de janeiro de 2010
Definitivamente republicana!
É este fim-de-semana que têm início as comemorações do centenário da República. E é na cidade do Porto por ter sido aí que, a 31 de Janeiro de 1891, teve lugar um levantamento militar contra o Governo e a coroa, dadas as suas cedências ao Ultimato britânico de 1890, considerado o primeiro movimento revolucionário com o objectivo de implantar o regime republicano em Portugal.
Tal como em Outubro passado, também por estes dias a discussão em torno da questão República versus Monarquia animou muita gente.
Confesso que, ao longo da minha vida, este assunto nunca me preocupou muito. Provavelmente porque viver numa República era, para mim, um dado adquirido que nunca senti necessidade de pôr em causa. Um busto da República, de barro pintado, já com a tinta toda a descascar era um dos poucos objectos que tinha restado do conjunto de pertences da casa do meu avô materno. Por ele ter desaparecido era eu uma criança, nunca tive oportunidade de lhe perguntar se a presença desse busto era casual ou correspondia a alguma convicção mas, pelo que recordo do meu avô, bem pode ser a segunda hipótese a verdadeira. Gosto de pensar que assim é.
Mas a verdade é que me apercebi, neste último ano, que existem mais partidários da causa monárquica do que imaginava. No entanto, dos argumentos que tenho lido até agora, não me conseguiram convencer que a Monarquia é melhor que a República.
Em Portugal, ultimamente, enquanto uns preparam as comemorações das datas mais importantes desse período da história, outros falam da 1.ª República como um exemplo de como este regime não funciona. Para os primeiros, ela marca a época anterior à Revolução Nacional de 1926 (precursora da ditadura) em que foram testados os modelos de democracia mais avançados na altura. Para os segundos ela é uma época de instabilidade, em que se cometeram excessos gritantes.
É um facto que, devido a divergências entre os próprios republicanos, em 16 anos, cheios de conflitos, houve 7 parlamentos, oito presidentes da república e 46 governos. É um facto que os meios de divulgação deste novo regime, em todo o território, eram demasiado impositivos. É um facto, também, que as condições económicas em Portugal, agravadas pela 1.ª guerra mundial, eram atrozes, bem como indicadores como a taxa de analfabetismo, por exemplo. Mas fazer uma ligação directa entre a situação que se vivia nas ruas e a nova forma de organizar a vida política é não querer ver que as características de país periférico, com um desenvolvimento quase nulo, na maior parte dos sectores, tinha as suas raízes muito atrás.
Também se argumenta que muitos dos países mais desenvolvidos do mundo são monarquias. Mas dizer que uma coisa é causa e outra é efeito é algo completamente diferente.
As repúblicas, muitas e diversas, e as monarquias, muitas e diversas também, nunca foram regimes isentos de defeitos. Mas fundamental, para mim, é que assentar a representação de um país numa figura que esteja nessa posição por uma simples sucessão hereditária nunca será melhor que eleger, através do voto, essa figura. E eu que já participei em várias eleições que tinham como objectivo eleger o Presidente da República quero continuar a fazê-lo pois, mesmo que nem sempre os candidatos demonstrem a excelência que se deseja, somos todos nós a contribuir para a escolha e não a mera transmissão de informações genéticas de pais para filhos.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Os Graffiti que nos observam
Júlio Pereira resolveu, desta vez, juntar aos seus instrumentos as vozes de Maria João (que dispensa apresentações) e Luanda Cozetti (vocalista dos Couple Coffee e que já cantou com J.P. Simões).
As letras são de Tiago Torres da Silva e as músicas do disco são pintadas por Tiago Taron que costuma passar também pelos dias imperfeitos. Parabéns a todos pelo resultado deste projecto que pode ser acompanhado aqui (de onde copiei também a foto da capa do disco).
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Congelada
Nestes últimos dias tenho-me sentido congelada. Como o meu salário.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
A felicidade na sociedade do hiperconsumo (3)
A conclusão de Gilles Lipovestsky é que apesar do crescente domínio tecnológico não podemos controlar a felicidade, conceito múltiplo mas que todos reconhecemos como associado a uma certa alegria por estar vivo. A análise da felicidade escapa à matriz que normalmente utilizamos. Claro que a qualidade de vida objectivamente aumentou. Mas quando pensamos na vida subjectiva o padrão é completamente diferente. Sem dúvida que, ao contrário do que muitos ainda dizem, são os que se dizem mais pobres os menos felizes. Mas a verdade é que, à medida que somos mais ricos, não somos mais felizes. Os bens materiais dão-nos felicidade até um determinado limite, a partir do qual já não o fazem.
Quando se cruza a questão do consumo com a da felicidade facilmente nos apercebemos que o excesso do primeiro é criticável ao torná-lo um fim da existência em si mesmo. Ao viver para consumir há uma parte dessa vida que é desperdiçada nesse acto que não nos traz compensações, de forma proporcional. O consumo só fará sentido enquanto um meio. O objectivo principal do homem deve ser sempre pensar, progredir, ultrapassar-se.
Mas como reduzir a “paixão consumista” quando tudo à nossa volta nos empurra para tal? Lipovestsky pensa que não será a razão que irá subjugar a paixão mas sim uma nova paixão. Devem ser apresentadas aos indivíduos outras paixões, outros centros de interesse que, consoante as situações, podem ser o trabalho, a política, a arte ou outros. Interessa, acima de tudo, dar a capacidade aos seres humanos de viverem para lá do consumo, criando um novo equilíbrio, uma “ecologia da vida”. Mas para isso há que ter instrumentos. E é aí que o papel da escola se apresenta como fundamental. Perante a mundialização do consumo somos impotentes. Mas na educação temos margem de manobra. É por isso aí que deve ser concentrado o investimento.
“Impõe-se constatar que o nosso poder sobre as coisas segue uma curva exponencial, mas o nosso poder sobre a alegria de viver mantém-se muito fraco. As chaves que abrem as portas da felicidade não progridem, teimando em escapar ao controlo dos homens. Manifestamente, o projecto de poderio ilimitado dos modernos atinge aqui os seus limites.
Sem pessimismo, nem optimismo radical: resta-nos viver tendo a consciência de que a felicidade é o enigma indomável, imprevisível, inultrapassável de hoje como de amanhã.” (*)
(* Excerto do texto distribuído na conferência)
A leitura do jornal
O jornal está no chão, junto a uma daquelas caixas de electricidade que encontramos pelos passeios. O rapaz está a lê-lo. De cócoras, sem tocar o papel, debruçado sobre a realidade. Indiferente a quem dobra a esquina e quase lhe cai em cima. Provavelmente subjugado pelas notícias.
Provocação aos clientes (2)
Bem, entrei e perguntei. Nenhum dos empregados presentes me foi capaz de explicar a "filosofia" da campanha. Mas sugeriram-me que procurasse na "net". Claro, porque não me lembrei disso antes? Afinal sempre me senti um bocadinho es...
E aí está: trata-se da nova campanha da marca, desenvolvida pela agência britânica "Anomaly", que visa levar-nos a pensar que ser esperto não é tão criativo, inspirador, corajoso, etc., como ser estúpido e que se não tivéssemos pensamentos estúpidos não teríamos quaisquer pensamentos. Claro que, deste ponto de vista, quem usa artigos da Diesel será estúpido...
Tudo isto é um bocadinho forçado mas tem imagens interessantes, como estas:
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Provocação aos clientes
Não percebo bem a mensagem desta montra (da loja Diesel no Camões, em Lisboa). Será que nos estão a dizer que se ficarmos do lado de fora da loja somos estúpidos? Ou só que, com tais saldos, até ficamos de boca aberta? Amanhã vou entrar e perguntar. Espero que não me apareça nenhum René Artois a responder qualquer coisa do género: então não se vê logo, "you stupid woman"?
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Na montra, o branco e o azul
Ao passar, ao final do dia, por um café, junto ao Largo Camões, pude observar, junto à montra, uma imagem que parecia pertencer a outro tempo, há umas décadas atrás. Numa das mesas, onde se destacava uma toalha com quadrados azuis e brancos, uma mulher, já velha, estava sentada. Na cabeça tinha um lenço, atado sob o queixo, azul, com bolas brancas.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
"Vocações"
Diz ele que "esta é a sua vocação". Imaginem o que aconteceria se já usasse telemóvel durante a sua infância!
As sócias do Automóvel Clube de Portugal...
não devem achar muita graça ao anúncio que está a passar nas rádios portuguesas e que pretende divulgar as vantagens da assistência médica ao domicílio para os sócios daquele clube. É que, convenhamos, uma mãe que tem um filho a “arder em febre” e que precisa que seja aquele, no seu delírio, a sugerir que seja chamado um médico a casa, deixa bastante a desejar. Tal comportamento faz-nos pensar que, se o miúdo se esqueceu de lhe chamar a atenção para o pagamento das quotas, o melhor é ele próprio ligar para a Linha Saúde 24.
domingo, 24 de janeiro de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
A felicidade na sociedade de hiperconsumo (2)
(continuação)
Fim dos constrangimentos espacio-temporais ao consumo – actualmente consumimos em contínuo, em todo o lado e a toda a hora. O tempo da vida social alterou-se e o hiperconsumo implica a comercialização quase integral da vida. Uma das questões fundamentais e completamente recente, em termos históricos, é o consumidor internauta que não tem praticamente limites. Mas o conforto material obtido com o consumo já não chega. Os consumidores querem emoções. A exigência de qualidade chega em simultâneo com a de quantidade. A preocupação estética, com o design dos produtos está cada vez mais na ordem do dia. Nunca como hoje a decoração das habitações, dos jardins privados, a procura de serviços oferecidos para “cuidar do corpo”, em SPA’s, etc. constituíram áreas de consumo tão importantes.
Indiferença face ao futuro – perante o longo termo a atitude geral é a de não querer saber da degradação contínua da biosfera. Apesar dos desafios ecológicos e energéticos estarem na ordem do dia, a consciência dos males causados pelo hiperconsumo não é ainda significativa pelo que este tem ainda tendência para continuar sem que os alertas de quem luta pela sustentabilidade tenham eco real. (Ler a propósito este post).
“Qualquer que seja a intensidade das críticas apontadas à sociedade de hiperconsumo esta ainda só se encontra nos primórdios, sendo o cenário mais provável vir a alargar-se à escala do planeta numa época em que não há nenhum sistema alternativo credível. Nem os protestos ecologistas, nem as novas formas de consumo mais sóbrio, nem os «alterconsumidores» serão suficientes para pôr cobro ou travar a fuga em frente da mercantilização da experiência e dos modos de vida.” (*)
Depois de apresentar estes traços gerais, Lipovestsky avaliou então a sociedade no que respeita à “felicidade”. Segundo a sua opinião, vive-se uma situação paradoxal: vivemos cada vez mais tempo. Mas nem sempre isso nos torna mais felizes. O tempo do não trabalho diminui, a vida sexual é mais longa mas o stress negativo, mesmo a esses níveis, vai sempre aumentando.
A realidade é que, se em termos económicos, a dinâmica de crescimento é exponencial, a percepção da felicidade não cresce ao mesmo ritmo. Muitos convencem-se que a verdadeira solução é uma revolução interior e aderem aos movimentos que defendem que devemos mudar por dentro e assim, no mundo ocidental, temos cada vez mais seguidores do Budismo ou da “New Age”. Mas GL defende que ninguém possui a felicidade. Somos incapazes disso. A posse das coisas é só um dos elementos a ter em conta. Como ser incompleto, o homem precisa dos outros para ser feliz e não o será na sua individualidade. No entanto é fundamental ter sempre presente que não há felicidade perfeita. Na vida de cada um de nós há momentos de felicidade mas não existe o conceito de uma vida feliz.
“A sociedade de hiperconsumo é a da «felicidade paradoxal». Relativamente aos anos de 1960, consumimos o triplo da energia, contudo ninguém pode sustentar que somos três vezes mais felizes. Quanto mais se multiplicam as fruições privadas mais se afirmam as frustrações da vida íntima, as ânsias e as depressões, as desilusões afectivas e profissionais. As insatisfações próprias progridem proporcionalmente às satisfações proporcionadas pelo mercado.
O «trágico» da nossa época radica na dinâmica da individualização e em novas aspirações de vida feliz; quanto mais se afirma a exigência de felicidade privada, mais crescem, inevitavelmente, as insatisfações e desilusões de todo o tipo.” (*)
(* Excerto do texto distribuído na conferência)
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Café Haiti, Gafanha de Aquém
Sabemos todos que, cada vez mais, as não notícias são transformadas em notícias. Não há meio de comunicação social que não o faça. Mas há algumas, como esta, que, de tão ridículas, nos constrangem enquanto ouvintes (neste caso).
"Desde este lugar sem história..."
Não, não me enganei a colocar a fotografia. É mesmo assim que vemos o elevador quando espreitamos por este objecto colocado no cimo da Calçada da Glória:
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