quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma das razões/poemas porque gosto de Nuno Júdice

e como também vem a propósito...

Declaração

Eu, abaixo assinado, não sei o que
hei-de declarar.

Mas posso declarar que foi ontem que eu,
abaixo-assinado, declarei que era hoje que
iria declarar o que tinha de declarar.

E declaro hoje que não sei o que declarar no dia
de hoje enquanto amanhã não chega.

Eu abaixo-assinado declaro que
amanhã terei de declarar tudo o que tenho
de declarar.

Ontem teria declarado e subscrito
o que tinha de declarar.

E amanhã também iria declarar
todas as declarações do mundo se, quando
amanhã chegar, não descobrisse que amanhã
é hoje.

Por isso é que eu, abaixo-assinado,
declaro que não sei declarar hoje, que é o amanhã
de ontem, tudo o que tenho de declarar.

E eu, abaixo-assinado, declaro solenemente
por minha honra que só não declaro nada hoje porque
hoje é o amanhã de ontem,
e também não vou declarar nada amanhã porque
amanhã é o hoje em que irei deixar para depois
de amanhã o que tenho de declarar.

E cumpra-se esta declaração que vou datar
de amanhã, sabendo que só a poderei escrever
depois de amanhã, quando ontem for o amanhã
em que a vou adiar para ontem.

in Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Dom Quixote, p. 49

2009/2010/2011...

E, quase sem darmos por isso, estamos no último dia do ano. Será por isso mais imperfeito que os outros? Ou será, pelo contrário, mais perfeito?

A perspectiva de cada um fará certamente a diferença. Para alguns 2009 terá sido um ano positivo. Outros terão razões para o querer esquecer. Para alguns ainda terá sido igual a tantos outros, sem nada significativo a assinalar. Estes últimos terão vivido menos mas, dependendo das circunstâncias, menos pode ser mais.

E o próximo ano? Porque pensamos nele como se fosse novo? O calendário assim o diz mas será novo na realidade? Tantas situações negativas que nos marcaram passam para 2010. A nível global ou a nível pessoal. E porque é que sabemos, antecipadamente, que no dia 31 de Dezembro de 2010 estaremos a desejar que 2011 seja melhor que este que agora se irá iniciar? Ah, pois, é a renovação, é a força que está contida nos nossos desejos que contribuirá para melhorar o que precisa ser melhorado. Está bem, vamos todos acreditar, por um dia, pelo menos, que isso é possível.

Ganho de mais uns dias

Para os que defendem que a gravidez se  inicia com a fecundação e que a vida começa no momento da fertilização e, por isso, rejeitam os métodos abortivos, esta pílula é mais um problema. Para os outros é uma boa notícia.

E a vida continua...

Mesmo no tronco de uma árvore cortada.


Réquiem por uma esplanada

Hora do almoço, Príncipe Real. As máquinas avançam destruindo o que resta do pavimento alcatroado do jardim, exactamente onde as mesas e cadeiras da esplanada costumam estar. O dono do quiosque olha o que está a acontecer com um ar de desalento. Alguns clientes habituais, encostados ao balcão, em silêncio, têm também, estampado no rosto, o mesmo desânimo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O meu último filme do ano: um dos primeiros



Não foram só os magníficos diálogos ou a música, belíssima, que contribuíram para fazer da minha ida ao cinema hoje um prazer.

As conversas que temos. As perguntas que fazemos. O que sabemos responder e o que apenas pensamos que sabemos. Está lá tudo. Neste filme, de Agnès Jaoui, somos nós que ali estamos no ecrã. A verdade é que não é preciso sair de onde nos encontramos para escrever uma história. E é o cinema que, de quando em vez, nos relembra isso.




Já não se fazem ocupações como antigamente

Há quem diga que não se deve brincar com coisas sérias (e o dinheiro de cada um é uma coisa séria) mas não resisto a comentar a ocupação da sede do BPP, dia 28, no Porto, por parte de alguns clientes que queriam garantir o acesso às poupanças que têm na instituição.

Todos os que estavam dispostos a passar ali a noite de final do ano, entretanto, já abandonaram o local, depois de terem recebido ordens da polícia nesse sentido. Mas eram bem menos que os ocupantes iniciais pois foram saindo aos poucos para lancharem, para tomarem medicamentos a horas certas e até para tomarem um café. Parece que, ao quererem regressar, às instalações do banco, a PSP já não os deixava. Que agentes tão pouco solidários!

A RTP sempre em cima do acontecimento

Raramente vejo televisão. Não porque não queira mas porque não consigo arranjar tempo para o fazer. Já sei que perco imensas coisas interessantes.

Mas hoje vi parte do Telejornal da RTP. De tudo o que vi (e foi bastante) o tema foi sempre o mesmo: o mau tempo e as suas consequências por todo o país. Depois de se falar das situações em Vila Nova da Barquinha, no Porto, na Régua, em Faro e noutros locais; no início da 2.ª parte, José Alberto Carvalho introduz uma “notícia de última hora”: “e o mau tempo acaba de fazer 3 desalojados, numa derrocada junto a algumas habitações no concelho de Alenquer” (por causa do mau tempo, claro!).

Passando a emissão em directo para o local encontramos a repórter, Daniela Santiago, cuja primeira frase é: “tudo aconteceu às 9 da manhã!”. E lá ficámos a saber que, por volta dessa hora, (há cerca de 12 horas atrás) em Espiçandeira, freguesia de Meca, concelho de Alenquer, uma casa tinha ficado praticamente destruída devido à derrocada de algumas pedras o que tinha obrigado a protecção civil e os bombeiros a selá-la. Tirando uma pequena lanterna do bolso, qual MacGyver, gesto completamente ridículo, pois era a luz da câmara de filmar que iluminava a cena, Daniela Santiago apontou o foco ao interior da casa onde conseguimos ver o mau estado em que tinha ficado a habitação. Mas, quando pensávamos que era ali que vivia a família desalojada, a repórter diz: “ a sorte, neste azar, é que esta casa estava desabitada há dois anos”. Esta introdução era só para criar algum suspense.

Passámos então à casa do lado. Eu já imaginava que não havia duas sem três; afinal era mesmo ali que tinha sido necessário desalojar os residentes. A moradora, Cláudia de seu nome, muito nervosa, contou, numa voz trémula, e quase em lágrimas, o que tinha acontecido. Daniela Santiago, ia fazendo perguntas que já continham a resposta e acabou por dizer que “as pedras só não caíram para o seu quarto por uma sorte do destino”. Cláudia anuiu mas aposto que ainda agora estará a pensar nessa “sorte do destino” que a obrigou a ficar fora de casa não se sabe por quanto tempo.

O directo terminou com a frase: “é o desespero de uma mãe, com um filho de 4 anos” e um grande sorriso para a câmara. Bom trabalho, Daniela!

Assim, com notícias sempre em cima do acontecimento e tão bem documentadas, dá gosto ver televisão.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

50 anos de Metropolitano em Lisboa - Aditamento

Através do Rui Ribeiro da webrails.tv (obrigada mais uma vez) tomei conhecimento da realização de uma exposição, organizada pelo Metropolitano de Lisboa, no âmbito desta efeméride. Assim, até 15 de Janeiro de 2010, podem ser visitadas, na estaçao de Alvalade, duas carruagens onde estão expostas fotografias, vídeos e objectos que fazem parte desta história de 50 anos. Aqui podem visitar um pouco da exposição.

Numa das carruagens

Ele era grande. Um homem muito alto. As mãos acompanhavam o seu tamanho. O livro que elas agarravam era pequeno (de bolso) mas ficava-se com a ideia que, naquelas mãos, qualquer volume pareceria insignificante. Era como uma árvore, maior que as que se encontram à sua volta. Do boné saíam chamas. Ele estava a arder. Ao pé dele todos os passageiros daquela carruagem de metro eram pequenos. Ele não estava à vontade. O hábito de se sentir observado ainda não devia ser suficiente para ignorar os olhares. Curvou-se quando saiu como que a pedir desculpa por estar acima de todos os outros e não porque só assim conseguiria sair.

50 anos de Metropolitano em Lisboa

Nem sempre necessito andar de metro. Muitas vezes faço-o simplesmente porque gosto. Das novas estações há algumas que ainda não visitei. Talvez hoje para comemorar o seu aniversário. Pois é, o Metropolitano de Lisboa faz hoje 50 anos. A sua história pode ser vista aqui.

A rapidez com que nos leva de um lado para o outro e o respeito pela cidade são fundamentais. Recordo, a propósito, uma frase utilizada aqui há uns anos numa campanha e que foi escrita por uma amiga copywriter: não queremos pisar Lisboa.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cantar com sentimento

Concha Buika (intérprete do flamenco jazz) lançou recentemente um novo disco. Apesar de não ser o tipo de música de que mais gosto abro excepções quando os sentimentos que se transmitem são tão genuínos. Esta canção é ainda do anterior álbum:

Aquecimento ou arrefecimento global? As teses contraditórias.

Estou plenamente convencida que, a nível global, a intervenção humana na Terra causa ao planeta mais danos que benefícios e que tudo o que puder ser feito, por cada um de nós, para minorar esses danos, deve ser feito. E claro que, se ao nível individual há muito a fazer, quando pensamos em organizações, com dimensões variadas, desde empresas a governos, esse muito tem que ser várias vezes multiplicado.

Mas enquanto ser humano preocupado com o ambiente não posso deixar completamente de lado a possibilidade de todas as teses que são comummente aceites, não estarem completamente encerradas nas suas conclusões. Esse é aliás o princípio do espírito científico.

Não sou adepta de teorias da conspiração e afins mas acho até contraproducente, para as aspirações dos que tomaram para si a defesa dos interesses do planeta, o constante relegar para segundo plano das teorias que não estão de acordo com as que tomamos como adquiridas. Por exemplo as que defendem que o planeta sofrerá não um aquecimento mas um arrefecimento global. Não possuo conhecimentos suficientes que me permitam sequer ter opinião sobre o assunto mas acho muito pouco ético notícias como as que surgiram no final de Novembro (e podemos ver aqui alguma tentativa de influenciar a cimeira de Copenhaga) que dão conta de situações graves de omissões e tentativas de alteração de dados que tentam demonstrar o contrário do que hoje em dia se dá já como adquirido relativamente ao aquecimento global.

Há ainda quem, como Bjørn Lomborg, defenda uma profunda alteração relativamente à forma como se deve reagir aos fenómenos climáticos, colocando a tónica nas questões económicas e considerando exagerado a situação, de algum pânico, criada à sua volta.

Acredito, como já disse, que, ou pelo arrefecimento ou pelo aquecimento, o futuro do planeta Terra parece estar a sofrer condicionamentos que, mais tarde ou mais cedo, terão consequências graves. Mas não me parece que seja calando as vozes discordantes, sem que as suas teses tenham hipóteses de ser discutidas, que este problema maior será ultrapassado.

Chegar a casa


Lisboa, Novembro 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A música deste Natal

Há já algum tempo que não comprava um disco de música francesa. Esta foi, sem dúvida, uma compra acertada. La Superbe é realmente soberbo. Lembra-nos que "on gagne, on perd, on perd la gagne". A banda sonora deste meu Natal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Razões para noites mal dormidas

Na reunião de final de período escolar, hoje de manhã, li uma composição feita pela minha filha de 9 anos numa ficha de avaliação.
A propósito de noites mal dormidas, dois amigos conversavam. Um dizia que não tinha dormido nada porque a mulher tinha passado a noite a ressonar. O outro dizia que, ao menos, a razão dele era melhor: tinha passado a noite, sem conseguir parar, a ler um livro de José Saramago.