segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um sorriso

Não foi o som da guitarra que me chamou a atenção. Nem o facto de assim tocar, sem público, naquele túnel onde ninguém àquela hora passava. Foi o seu sorriso. Sorria de prazer ao tocar. Sorria para os seus dedos que faziam soar as cordas. O som era ampliado por todo o espaço mas era dentro de si que ele o sentia. Era para si que tocava, indiferente ao que o rodeava.
O sorriso prolongou-se quando me viu a sorrir também. As moedas que lhe dei premiaram esse sorriso que, de tão genuíno, me recordou que, mesmo sozinhos, onde ninguém nos vê, vale a pena sorrir. 

Está bem que fica no Continente mas...

Com uma boa localização, condições climatéricas amenas, boas condições para o desenvolvimento da actividade agrícola, uma boa relação com as autoridades locais para o apoio e desenvolvimento de projectos imobiliários... bem que o Governo Regional da Madeira podia comprá-la para local de estágio do próximo presidente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Na procissão

A procissão, como tantas outras, avança com os membros do clero à frente. Segue-se o andor, levado por paroquianos mais acostumados a estas coisas de transportar aos ombros a santidade. Depois a banda que toca, a um ritmo lento, músicas que os que vêm atrás entoam, uns com mais, outros com menos devoção. É no meio destes, anónimos, alguns turistas, que um, em particular, se destaca. À medida que prossegue, no ritmo cadenciado dos demais, a garrafa de cerveja é levada à boca também com uma devoção que se adivinha forte.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Saartjie

Quando fui ver o filme desconhecia este facto: o realizador é o mesmo de "O Segredo de um Cuscuz", de que eu tanto gostei. Mesmo depois de o ver acho que não chegaria a perceber que tinham sido ambos realizados pela mesma pessoa. Esta "Vénus Negra", ao contrário das personagens do "Segredo...", não tem uma vida comum. Mesmo depois da sua morte, em 1815, o seu corpo não teve descanso pois logo foi feito um molde em gesso e conjuntamente com partes dele, conservadas em formol, estiveram em exibição, até 1974, num museu em Paris. Mais recentemente, em 2002, o governo francês  devolveu os restos mortais ao seu país de origem, a África do Sul, mais por motivos políticos que por uma convicção de justiça humana. 
Uma vida, como a de Saartjie, é motivo mais que suficiente para um argumento de um filme. Mas, parece-me, o realizador alongou-se demais, prolongando cenas que se tornam penosas para nós, dada também a violência nelas presente. Mas não será isso que se pretende? 
Mostrar-nos a violência presente em todas as exibições forçadas, quer em feiras de curiosidades; quer em festas privadas para satisfazer os caprichos de nobres com posses; quer junto de cientistas sedentos de confirmações para teorias que nos lembram que a ciência deve ser sempre historicamente lida. 
E é aqui que o filme cumpre a sua função mais "pedagógica" pois se esta história pessoal já é, de si, suficiente para com ela aprendermos muito é a sua relação com o meio histórico em que aconteceu que a torna tão interessante. E a exploração de um ser humano pelas suas características físicas bem como a tentativa de as tornar na base de sistemas de poder estão ainda hoje demasiado presentes. 
Talvez se pudesse fazê-lo mais curto. É um facto. Mas as interpretações são muito boas e as ambições  do filme muito meritórias. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Luís Filipe Castro Mendes

À Tarde, Em Casa


Entardecer entre animais pequeninos,
pássaros que debicam a relva do jardim,
esquilos que sobem e descem das árvores,
eu próprio, no meio dos jornais.

Nenhum deus se lembrou de aparecer esta tarde:
e foi melhor assim.

in Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2011, p. 85

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Final de dia feriado

Logo à entrada do túnel a luz que vem do exterior ilumina e faz brilhar o plástico e o metal dos brinquedos espalhados na manta. Ninguém parado a comprar ou sequer a ver. Ele não parece esperar que ninguém o faça. Está de cabeça baixa, agarrado aos joelhos nus. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Olhares

Era o seu olhar que surpreendia quando a fitei. Sentada num banco era impossível não a notar enquanto eu subia a escada rolante naquele centro comercial. E era tristeza que se via naquele olhar. O local parecia ter sido escolhido para poder contemplar a aparente felicidade dos outros que, sorridentes, entravam e saíam de lojas. Quanto a ela pouco se parecia interessar pela impressão que causava. Já no final da subida os nossos olhares cruzaram-se. Desviei o meu rapidamente. Não queria ser apanhada a olhar assim, entrando na sua intimidade, testemunhando algo que eu não podia adivinhar mas que me magoava também. E tive medo. Como se a possibilidade daquela tristeza se pegar existisse verdadeiramente. 

4 anos depois...

Em Setembro sai o "Biophilia". Até lá...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Elementar, meu caro...

Estava parado há tempo de mais no corredor. Fazia frio, bastante frio. Olhava fixamente, muito de perto, talvez procurando exactamente o que pretendia. Indeciso, pensei. À sua volta outros chegavam, olhavam e tiravam da prateleira o que queriam. Finalmente um movimento. A mão dirigiu-se ao bolso e de lá retirou um objecto. Era uma lupa, potente, a avaliar pelo aspecto. Finalmente podia escolher os iogurtes e passar a outro corredor onde a temperatura era mais amena.