Se me comovesse o amor
Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
in Francisco José Viegas, Se me Comovesse o Amor, V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2008, p. 35
domingo, 16 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Associação de ideias
A propósito de alheiras e de caça e de Noruega vejam lá do que me fui lembrar:
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Cá como lá
O último número da revista "Sociologia Ciência e Vida", publicada no Brasil, debruça-se muito particularmente sobre o fenómeno da corrupção. Uma das linhas de análise refere-se à forma como a sociedade brasileira lida com essa prática. E parece que, por a corrupção estar presente no quotidiano dos brasileiros, mesmo na esfera privada, muitos já perderam a capacidade de se indignar com as práticas públicas. Isto não acontece só no Brasil, pois não?
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Que bem se canta na Sé…
uns sentados, outros de pé.
Foi a expressão que me veio à memória ao assistir, esta tarde, à chegada de muitas pessoas que queriam estar presentes na missa que o papa daria no Terreiro do Paço. Era uma lição para as crianças que estão a falar na escola dos três grupos: clero, nobreza e povo. Na realidade, enquanto muitos se dirigiam para a praça com as suas vestes religiosas muitos mais tentavam encontrar um lugar de onde pudessem ver o papa e esperar até essa altura com algum conforto. O banquinho portátil era alvo de cobiça, para quem não se tinha prevenido. T-shirt’s e lenços eram vendidos enquanto dois jornais diários eram os monopolizadores das ofertas de bonés para o sol e das bandeirinhas.
Mas o que eu não tinha previsto era assistir à chegada dos convidados VIP, que tinham direito a uma entrada preparada para o efeito. Uns chegavam em carros reluzentes, a maioria com matrículas do corpo diplomático. “Por favor, pelo passeio”, diziam os seguranças à medida que quem vinha a pé se aproximava. “Por aqui só com convite”. E assim era. Não havia protestos. As diferenças no vestuário, nos cabelos, na pose era de tal forma grande que, imediatamente, quem não fazia parte do grupo dos privilegiados, se afastava. Os envelopes na mão eram o passaporte para entrar. Figuras públicas, presidentes de clubes de futebol, representantes da tendência monárquica, personagens do “jet-set” nacional, anónimos mas vestidos de modo a poderem ser fotografados para as revistas, todos convergiam para uma área, certamente mais restrita e de onde a cerimónia podia ser acompanhada de uma forma mais próxima e sem os constrangimentos a que estavam sujeitos todos os que não tinham o tal convite. Perante Deus e o seu Filho todos os homens serão iguais. Mas perante o representante máximo da Igreja Católica não são de certeza.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Uma das razões/poemas porque gosto de Gastão Cruz
Rosto
Como se um mar de folhas
descobrisse o teu corpo
ouço-te a vida devolvida
à minha vida
Deitas-te assim na dobra estreita
da minha vida não fictícia
Tu és o rosto inexorável
diante de que
o
meu rosto vive
o olhar, a boca, os lábios ácidos
em que os meus, áridos, se extinguem
in Gastão Cruz, Poemas Reunidos (Campânula), Lisboa, Publicações D. Quixote, 1999, p. 208
Como se um mar de folhas
descobrisse o teu corpo
ouço-te a vida devolvida
à minha vida
Deitas-te assim na dobra estreita
da minha vida não fictícia
Tu és o rosto inexorável
diante de que
o
meu rosto vive
o olhar, a boca, os lábios ácidos
em que os meus, áridos, se extinguem
in Gastão Cruz, Poemas Reunidos (Campânula), Lisboa, Publicações D. Quixote, 1999, p. 208
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Uma ciranda em Castelo de Vide
Na rua onde nasceu Salgueiro Maia encontra-se a igreja de Santo Amaro. Aparentemente o espaço não é utilizado para o culto. No interior as paredes há muito que deixaram de ser pintadas. Os altares permanecem vazios. No lugar onde estiveram certamente os bancos há agora um enorme vazio.
No escuro, que a pouca luz de umas lâmpadas fracas para a dimensão do espaço, não consegue tornar mais claro, distingo uma mesa improvisada com um aparelho de onde sai um som que se vai repetindo. Um grupo de mulheres, de várias idades, organizadas numa roda, ensaia uma dança. “Ciranda” está escrito na t-shirt que veste aquela que vai marcando o compasso.
domingo, 9 de maio de 2010
A certos lobos
O Lôbo feito pastor
Para assaltar um rebanho
Sem nêle espalhar o horror,
Um lôbo - recurso estranho! -
Quis disfarçar-se em pastor.
Mas do pastor verdadeiro
Buscando a voz imitar,
Acordou êste e o rafeiro,
Que estavam a ressonar.
E p'los dois reconhecido,
Morto é logo o espertalhão,
Que, pelo traje impedido,
Tentára fugir em vão.
Velhacos, ou longe ou perto,
São pilhados, afinal.
O que fôr lobo, o mais certo
É sempre obrar como tal.
A. França
in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 181
Para assaltar um rebanho
Sem nêle espalhar o horror,
Um lôbo - recurso estranho! -
Quis disfarçar-se em pastor.
Mas do pastor verdadeiro
Buscando a voz imitar,
Acordou êste e o rafeiro,
Que estavam a ressonar.
E p'los dois reconhecido,
Morto é logo o espertalhão,
Que, pelo traje impedido,
Tentára fugir em vão.
Velhacos, ou longe ou perto,
São pilhados, afinal.
O que fôr lobo, o mais certo
É sempre obrar como tal.
A. França
in La Fontaine Fábulas (escolhidas) edição organizada por Matias Lima, Livraria Chardron de Lello & Irmão, Porto, p. 181
sábado, 8 de maio de 2010
Comunicação não-verbal
Não havia sol mas estava calor. Os quatro homens, jovens, nitidamente no intervalo de almoço, estavam sentados à mesa da esplanada, formando um quadrado. Conheciam-se, claramente. Mas não trocavam uma palavra. Aliás não olhavam uns para os outros apesar de estarem frente a frente. Em vez disso olhavam para o ecrã dos seus computadores portáteis onde escreviam de vez em quando. Não sei se falavam entre si mas quando se levantaram fecharam as tampas dos computadores, cumprimentaram-se com um aperto de mão e afastaram-se.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Olha a foooooooto antiga!
Uma boa associação esta entre um gelado fresco e fotos antigas dos locais onde estão instalados estes pontos de venda. Já vi alguns e pareceu-me uma ideia interessante. E quem passava parecia gostar de ver também.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Que coisa tão rebuscada!
Há determinadas campanhas publicitárias que até constrangem de tão sem sentido. Esta é muito ridícula.
"A desonestidade e o lápis azul"
Porque achei interessante esta situação publico aqui o que escreveu uma amiga, a propósito do que lhe aconteceu com a publicação de um texto num jornal. Eu sei que eles se reservam o direito de publicar ou não e que o espaço é escasso. Mesmo assim:
"O destacável Fugas sai ao sábado, aconchegado pelo jornal Público. Este saiu neste 1.º de Maio. Neste destacável há uma rubrica aberta aos leitores intitulada As Fugas dos Leitores. Por única condição, em rodapé, o texto não deve ultrapassar o limite de 3000 caracteres.
No rescaldo de uma viagem à China, decido participar. Redijo o texto, contabilizo os caracteres, que respeitam o limite imposto, subscrevo com pseudónimo (o nome de uma das minhas bisavós, Catarina Duarte), anexo uma fotografia da muralha da China e envio-o por mail, declarando nesse momento a minha identidade, em conformidade com o meu endereço electrónico.
O jornal Público prescinde do seu direito de não publicar o texto e publica-o mas, com o exercício de um lápis azul, censura-o. Sem poder alegar excesso de caracteres, faz desaparecer um pequeno parágrafo, entalado entre o relato da experiência de visitar dois templos, um taoista, o Templo do Céu, e o outro budista, o Templo Lama. A propósito do ritual taoista de sacrifício de animais atirados a fogueiras, escrevi e foi censurado “Contemporâneos a estas fogueiras, e também em nome do Céu, são os auto-de-fé do meu país e da minha cidade de Lisboa, que serviam para atrofiar a populaça e consolidar o poder da igreja católica apostólica romana.”.
Do modo como foi publicado, o texto não apresenta qualquer vestígio de censura: é como se o parágrafo e o tipo de relação histórica entre os autos-de-fé e a igreja católica nunca tivessem existido. Mas, apesar desta divina intervenção, a linha editorial do Público insiste na subscrição do texto por uma única autora, que já não está sozinha. Porque o Público proibiu o meu direito de liberdade de expressão e porque omitiu a sua própria acção, concluo que, afinal, os outros tempos não são outros, são mesmo estes."
O texto e o título são da autoria da protagonista desta situação.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Um cachecol
Era cedo. Em Lisboa havia algum vento mas não justificava um cachecol. O homem, jovem, encostado à ombreira da porta, tinha um ar desafiador. Fumava calmamente. Quase não se mexia mas tinha um ar desafiador. Parecia indiferente aos carros que passavam em marcha lenta, por causa da fila. Mas o ar desafiador estava presente no seu rosto. Só quando me aproximei mais reparei. O cachecol era do Futebol Clube do Porto.
Em tempos de crise nascem árvores na planície!
Depois de uns dias no Alentejo, afastada do computador, regresso com uma sugestão de post feita pelo Paulo Marçal que, ainda por cima, lembra as paisagens alentejanas apesar de, neste caso, estarmos em plena Lisboa (obrigada, Paulo, pela foto e pela legenda, aqui "pedida emprestada" para o título).
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