sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Hoje já não é dia de S. Valentim


Pausa

A cadeira de rodas está posicionada no único lugar da rua onde uma nesga de sol consegue penetrar. É aí que ele se encontra. Saiu do local onde costuma estar normalmente de mão estendida, exibindo as suas pernas deformadas, sempre em silêncio. Fuma um cigarro. Tem um ar sereno que contrasta com os rostos de todos os que, apressados, passam na rua. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Poema de Eugénio de Andrade com voz de Natália Luiza



Mais um interessante vídeo de Cine Povero. Este com a voz, que sempre achei magnífica, de Natália Luiza.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Pequenos prazeres

Acordar de manhã e ouvir as minhas filhas a partilharem, uma com a outra, os sonhos que tiveram durante a noite.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Curiosidade

A marca de lingerie que podemos ver na montra é "SexKiss". As rendas, cores, laços, a fazer jus ao nome, pretendem ser apelativas. Os manequins, exibem-na, no entanto, sem grande brilho. Podiam ser aqueles artigos ou casacos de inverno que o ar triste teria o mesmo efeito. No interior da loja, porém, o único cliente parece não se importar com isso. Com um ar interrogativo, que as muitas rugas acentuam, olha, toca, apalpa  o material. A empregada parece estranhar. Mas ele continua de costas para ela, indiferente, com o ar de alguém que tenta resolver um mistério.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Definição minimalista

"Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do que quando não tinha coisa nenhuma"

 in Millôr Fernandes, Pif-Paf, O Independente, 2004, pág. 87

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do leitão para o sushi...

É uma antiga pastelaria, ou casa de pasto, no centro de Lisboa. Exibe orgulhosamente os azulejos azuis e brancos onde são retratadas cenas rurais ligadas ao cultivo dos cereais. Ultimamente, as sandes de torresmos e de leitão, que via habitualmente na montra, têm vindo a ser substituídas pelas bandejas com sushi. Nada de novo, numa área da cidade onde as lojas de produtos orientais têm vindo a ganhar terreno. Mas não deixa de ser estranho encontrar tal comida naquele cenário. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Aqui não houve contenção nos números

Deste ponto de vista o ano começou bem.

Uma das razões/poemas porque gosto de Giuseppe Conte

Toda a Maravilha do Mundo

É como tu dizes, devia de novo partir.
Nunca fui feliz numa casa.
Nunca fui feliz em família.
Nunca senti saudades, quando estava
só e distante. Toda a maravilha
do mundo para mim era o passeio
alto sobre o mar quando, com os livros da escola
numa pasta, com passo rápido
andava, e inspirava o vento
da cor do sal e das piteiras
e fingia dar a mão
a uma rapariga: a maravilha, a raça
forte dos sonhos, os livros, o cinema,
as longas viagens de comboio,
as longas travessias da alma
mas nunca as paredes de uma casa, nunca.

traduzido do italiano por Clara Rowland in No Cais da Poesia 2 Antologia, Organização de Manuela Júdice, Teorema, 2006, pág. 59

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

À rapariga que passa por mim quase todos os dias

Serpenteia por entre os automóveis de uma forma que só parece acessível a um artista de circo. Quer chova, quer o calor aperte. Não sei para onde vai mas sei que chega sempre primeiro. Gosto especialmente da forma como aperta o cabelo com um elástico enquanto pedala a grande velocidade.


Elogio Barroco da Bicicleta

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

Alexandre O´Neill
in Poesias Completas, Assírio & Alvim