sexta-feira, 25 de julho de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma das razões/poemas por que gosto de Angélica Freitas

"eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado."

in, Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho 

Este e outros poemas da autora foram descobertos por aí na net.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Os tolos e os espertos

"Será necessário, apenas, levá-lo a concluir que o dinheiro dos tolos é, por direito divino, o património dos espertos! – exclamou Blondet."

Honoré de Balzac, “A Casa Nucingen” in
A Comédia Humana, VII Volume (Cenas da Vida
da Província), Livraria Civilização, Lisboa, 1980


Citação copiada do blog experimental e que vem a propósito da situação do GES/BES, mesmo que o argumento do direito divino não tenha sido apresentado.

"how strange the change from major to minor..."

Também Charlie Haden nos deixou.



terça-feira, 15 de julho de 2014

P. O. Box 269, Old Chelsea Station

A notícia já tem uns dias mas foi hoje, através desta crónica de Miguel Esteves Cardoso, que soube. É verdade que, mesmo antes da morte de Tommy Ramone, os Ramones já não existiam como banda. O tempo, o desaparecimento dos outros elementos bem como algumas vicissitudes ligadas à própria evolução de qualquer grupo de músicos tinham-nos colocado numa área já não actualizável da história do rock. Mas os Ramones, segundo Tommy, eram também "uma ideia". E essa ideia está ainda presente não só na cabeça dos que gostavam de os ouvir mas até dos que não conhecem a sua história. O logo estampado em t-shirts de muitos miúdos adolescentes (que várias marcas continuam a produzir) não corresponde muitas vezes a um interesse genuíno sobre o grupo mas a uma imagem que associam a uma rebeldia que sentem que lhes assenta bem.
A mim, os Ramones marcaram-me mesmo que as suas canções dissessem respeito a uma realidade muito longe da minha: uma miúda de uma escola secundária da periferia de Lisboa, um pouco ingénua e "bem-comportada". Eu era assim quando comprei o álbum "Rocket to Russia", lançado em 1977. A fotografia da capa que todos reconhecem, os desenhos de John Holmstrom, as letras decoradas e na ponta da língua até hoje, fazem parte dos discos que ainda estão ali na estante. As músicas eram curtas e repetitivas na sua fórmula mas eu não me cansava de as ouvir. Na verdade nunca estive perto da realidade de que falavam Johnny, Joey, Dee Dee e Tommy. Mas isso não me impede de partilhar o sentimento de M.E.C.



O título do post corresponde à morada do clube de fãs dos Ramones, na altura.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Há três mas são verdes...

- São tugas, são tugas!... disse a mulher para o homem. E, sendo assim,  lá ficaram sentados no banco da paragem (no caso, do eléctrico 15). Decidiram esperar por algum grupo maior a caminho da zona de Belém. As suas tácticas aplicam-se melhor a turistas incautos, mais atentos à paisagem que vêem da janela do que aos movimentos destes mestres na arte do "carteirismo". Os motoristas, polícias e passageiros habituais, que os conhecem certamente, sabem que a forma como "trabalham" dificulta muito o flagrante delito, única forma de agir. Agora a Carris decidiu que, já que não pode vencê-los nem juntar-se a eles, vai criar carreiras especiais para turistas, contando que estejam livres destas já "figuras típicas de Lisboa". Não se sabe como vai resultar esta iniciativa. Pelo preço avançado, serão os turistas mais endinheirados a escolher este novo serviço pelo que aos carteiristas restarão as carteiras menos abonadas... Mas uma coisa é certa: entre outras coisas, e para lá do lado mais genuíno (referido em guias), que incluía conversas interessantes entre quem vem de fora e sobretudo idosos que utilizam este meio de transporte nas suas deslocações diárias;  lá se vai, para alguns, a emoção toda de viajar no 28...  

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"Mare nostrum"*

Foto via Facebook


A imagem, tirada de um helicóptero da Marinha italiana, suscita-nos emoções contraditórias. Este barco, cheio de pessoas que deixaram o seu país numa tentativa de poderem viver melhor ou, em muitos casos, só sobreviver; lembra-nos imediatamente as dramáticas notícias de naufrágios que têm provocado inúmeras mortes de homens, mulheres e crianças. Muitos nunca tinham visto o mar antes de se fazerem a ele desta maneira que, para nós, habituados à ideia de segurança em qualquer situação, nos parece absurdamente suicida. Mas a verdade é que este barco, para além do medo, está a abarrotar de esperança, de vontade de recomeçar, de vontade de começar. A Europa pode ser só um continente, aquele que a maior parte dos que cá estão assumem como o seu lugar, aquele onde, ainda hoje, se luta por territórios finitos que as fronteiras teimam em partir e repartir. Visto deste barco, pelo contrário, a Europa é um lugar infinito. E o que é a travessia de um mar para quem quer chegar ao infinito? 

* O título deste post, como é óbvio, nada tem a ver com as acepções atribuídas à expressão pelos antigos romanos (que a criaram), pelos nacionalistas italianos, ou pelos fascistas na época de Mussolini.