sábado, 30 de junho de 2012

Uma retroescavadora no quarto

Da janela aberta para a rua conseguimos vê-la. Nas suas manobras executa uma dança que vai deixando algumas paredes e os tectos destruídos. O estuque vai caindo. As madeiras vão aparecendo. Estranha-se uma máquina destas numa casa que faz parte dum edifício de mais de 5 andares no centro da cidade. Estranha-se a decoração dos tectos a ser arrasada. Estranha-se. Não é por acaso que, cá fora, tanta gente se põe em bicos de pés para ver para dentro daquele rés do chão alto.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Depois do Jogo

O silêncio nas casas.
O regresso do trânsito às ruas.

Durante o jogo

As ruas sem trânsito. 
Os sons desfasados de rádios e TV's que saem das janelas abertas.
Os gritos de incentivo de todos os que não estavam no estádio mas estavam no estádio.
Os ooooh... quando alguma jogada não tinha o desfecho que todos esperavam.
As unhas roídas nos momentos cruciais finais.

Antes do jogo

A excitação de quem vai no comboio e tem que preparar os petiscos.
O parque do supermercado quase vazio e o letreiro na porta que diz "encerramos às 19".
O sinal de trânsito vertical que indica local exacto de passagem para peões onde alguém amarrou o pau de uma bandeira portuguesa.
As pessoas a entrarem nas suas casas com as mãos cheias de latas, garrafas, grades de cerveja.
Os donos dos cães que aproveitam para os passear.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Agradar a portugueses e espanhóis


Enquanto Portugal se enche de cachecóis e bandeiras verde-rubras à janela, os quiosques da baixa de Lisboa equilibram-se nos símbolos e as cores espanholas rivalizam com as portuguesas. É um facto que as bandeiras espanholas parecem ter sido desempacotadas há pouco tempo, uma vez que estão ainda com as marcas de terem estado dobradas dentro das caixas. Mas isso não incomoda ninguém. E os euros dos turistas espanhóis não se podem desperdiçar.

Identificação de um país

Dois homens, brasileiros, vão por uma rua de Lisboa a conversar. Um deles, referindo-se a uma localidade que não sei qual seja, diz para o outro:
- Lá ainda é bem Portugal!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

À beira da estrada

Cerejas, melão, melancia... O cartaz anuncia estas e outras frutas. O toldo improvisado resguarda do sol várias caixas. Uma balança e uma cadeira ao centro. A mulher está sentada enquanto espera que os carros parem e as pessoas comprem o que tem a vender. É domingo e, apesar do calor, sabe que é o melhor dia  por isso não pode sair dali. Limita-se a observar o seu filho pequenino, que dorme numa cadeirinha, indiferente à música do rádio e ao barulho dos automóveis que passam.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pesquisas...

De vez em quando vou consultar as estatísticas aqui do blogue. Na "secção" "Pesquisar palavras-chave", que parece indicar as palavras que foram usadas para fazer a pesquisa que trouxe alguém até aqui, aparecem, por vezes, as coisas mais extraordinárias. Como não registei expressões anteriores que me fizeram sorrir, não as recordo. Mas ainda ontem tinha uma entrada vinda de uma pesquisa com a seguinte expressão chichi na boca porno. Não pude deixar de pensar a que post teria ido parar esta visita...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

No mês dos santos populares...

... hoje é dia de S. Rui, S. Bruno, S. Fábio, S. João, S. Pepe, S. Miguel, S. Raul, S. Cristiano, S. Hélder, S. Nani, S. Varela, entre outros...


terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma das razões/poemas porque gosto de Inês Dias

Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor
de pontes, conheci apenas as iniciais,
gravadas na pedra com que tomara
o último dos elementos. Mas a sul
do passado, o meu avô repetia-lhe
ainda os gestos, ensinando-me a travar
as marés com pequenos diques improvisados -
paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel.

Nunca mais o futuro voltou a ter pé
como nessa Praia do Amanhã, tão literal,
tão só para mim. Aprendi a bordar
iniciais, às vezes na própria pele,
a construir diques cada vez mais frágeis
de palavras, pontes entre o meu corpo
e a margem dos outros.

De pouco vale: geração em geração,
ano a ano, vamos perdendo a luta
contra o avanço das águas.

in Inês Dias, In Situ, Língua Morta, 2012, p. 14

domingo, 10 de junho de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Uma refeição

O homem e a mulher terminaram a sua refeição e levantaram-se, deixando os tabuleiros com os restos da comida nos pratos. Na esplanada mais algumas pessoas almoçavam. Ele estava de fora, atento. Mas não era as pessoas que ele observava. Mal o casal saiu, aproximou-se. Rapidamente retirou do prato os restos que, por não serem muitos, couberam numa mão. Não ficou ali. Afastou-se. Mas provavelmente voltaria. O que tirou não era suficiente para matar a fome.   

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bruce para alguns

Estava para aqui sentada e via na televisão o Bruce Springsteen, no Rock in Rio. Não pude deixar de pensar em quantos operários, trabalhadores precários, desempregados e outros, de quem tanto fala nas suas canções,  estariam presentes.

sábado, 2 de junho de 2012

Radix

Com a minha filha mais velha no Rock in Rio, a mais nova via a emissão da SIC Radical que transmitia, em directo, os concertos. Na altura em que passei frente à televisão, as repórteres no local, pois só mulheres eu vi nessas funções, falavam do último concerto. Entre frases sem nexo e brincadeiras inócuas mas verdadeiramente aparvalhadas, passavam o microfone e as imagens de umas para as outras sem que nada realmente acontecesse. Sim, já sei, só estive um minuto a ver. E também já sei que começo a ficar velha. Mas, caramba, será que não havia nada, mesmo nada, interessante para dizer? Entretanto percebi que esta foi uma estratégia delineada pelo director de programação do canal. "O problema é que não há ali gente com coisas interessantes para dizer", diz. E pensa, certamente, que do lado de cá, só há gente que aprecia ouvir baboseiras. Bem, pode-se sempre mudar de canal. Exactamente. Isso sim é ser radical! 

Post-it!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Through the glass

Um pouco a medo espreitava lá para dentro. Colocava as mãos junto ao vidro para poder ver melhor. As roupas muito sujas, os cabelos em desalinho, o cheiro que dele emanava, faziam afastarem-se os que  se cruzavam com ele . Lá dentro ninguém lhe ligava. Os cabeleireiros continuavam atentos aos cabelos das clientes. Elas continuavam a olhar para as fotografias das revistas.