terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Há homens assim...



Vídeo enviado por Cine Povero (Obrigada!)

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.

Herberto Helder,  (Elegia Múltipla III) in «A Colher na Boca» (1961).

(poema copiado daqui

sábado, 28 de janeiro de 2012

O meu bota de ouro

Vejo-o todos os dias na praça, frente ao local onde trabalho. Deve ter uns 10 anos. O sapato alto e pesado que usa para compensar, certamente, uma diferença de tamanho nas pernas, não facilita. As duas muletas que o ajudam a caminhar também não. Impressiona-me a persistência com que chuta a bola contra o muro, com que a persegue quando ela lhe foge, a fúria com que remata contra a inexistente baliza. Não sei se quando lhe perguntam o que quer ser quando for grande responderá jogador de futebol. Mas certamente que o pensa. E, no meu mundo imaginário, daqui a uns anos, este miúdo será certamente bota de ouro.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dormir na cidade

Passava já das 9.30. Levantava-se tarde. Os eléctricos chegavam e partiam, os autocarros chiavam ao travar, os empregados dos cafés montavam as esplanadas, os turistas disparavam as suas máquinas fotográficas. Indiferente ao barulho à sua volta, continuava a dormir profundamente. A sua mão pendia para fora do pequeno murete que delimitava a cama. Esta era feita de grades, aquecidas pelo ar que saía pelos respiradouros do metro. O cartão já só tapava parte do seu corpo meio encolhido.

E agora a Aliança...

Nesta só entrei por curiosidade. Porque sabia que valia a pena visitar. Nunca ali comprei nada. Mas custa saber que também este espaço comercial será reutilizado para outro fim. 
Ainda hoje reparei que entre a Praça da Figueira e o Rossio, numa das zonas mais nobres da nossa cidade, nem uma loja estava aberta. Uma estava entaipada. As outras três foram encerradas deixando o interior à vista, um misto de restos de manequins partidos, alguns móveis imprestáveis e muito pó. Desolador.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma livraria com o nome de um país

Não raras vezes na faculdade era ali que encontrava o livro que já tinha procurado, sem êxito, nas outras livrarias de Lisboa. Sei também que determinados temas só ali estavam representados com alguma profundidade. Nem sempre a arrumação era a ideal. Mas na Livraria Portugal estávamos como na casa de alguém que, sem previamente contar com isso, nos tinha convidado para uma visita. 
Soubemos esta segunda-feira que, devido à quebra nas vendas, irá encerrar. A inevitabilidade da situação, comum a tantas outras actividades, começa a deixar-nos indiferentes. Mas a Portugal vai fazer falta naquela esquina.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A angústia de um presidente antes do final do mês

Não, por favor, digam-me que isto não aconteceu. O Presidente da República de um país chamado Portugal, sim, esse em que a média dos rendimentos mensais dos seus habitantes é confrangedora, veio dizer, para os que o quisessem ouvir, que não consegue, com as reformas que tem, pagar as despesas. E agora, o que vamos nós fazer? Será que a Troika aceitará um acordo extraordinário para pagar as contas da lavandaria de Cavaco Silva? Amanhã vou fazer sopa numa panela maior que o costume e entregar uma caixa no Palácio de Belém.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Descoberta recente

A moda dos Cabazes

É o novo grito da moda em supermercados: o cabaz. Aqui ficam uns exemplos:

Cabaz Família Bebidas
Cabaz Família Carne
Cabaz Família Casa Limpa
Cabaz Família Congelados
Cabaz Família Higiene Pessoal
Cabaz Família Lacticínios
Cabaz Família Loiça
Cabaz Família Mercearia
Cabaz Família Roupa Limpa

Agora podia fazer uma brincadeira tipo:
Cabaz Família Queijo Gouda ou
Cabaz Família Tulipas...

Mas não o vou fazer. Até porque o Sr. Pedro Soares dos Santos escreveu-me "em nome dos mais de 25 mil colaboradores" (o que eu gosto desta palavra...) que a cadeia de supermercados emprega em Portugal para partilhar comigo "três verdades fundamentais que não têm obtido a atenção devida" e que eu, por não me apetecer transcrever tudo aqui, não vou reproduzir (até porque parece-me que o Administrador-Delegado da empresa não me escreveu só a mim). Só para dizer que fiquei muito mais tranquila quando percebi que os  impostos podem nem ficar todos cá mas os cabazes, esses, são só para nós... 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Magdalena Carmen

Nunca apreciei especialmente a pintura de Frida Kahlo. Provavelmente não compreendo inteiramente o sofrimento excessivo dos seus quadros, inspirados na sua vida que foi curta mas cheia de momentos terríveis. E não é fácil compreender o que sentiria alguém tão duramente marcada pela dor física e pelas pequenas e grandes tragédias do seu preenchido quotidiano. André Breton terá escrito que a sua obra era surrealista. Frida terá dito depois que tal não era verdade pois nunca pintou sonhos mas a sua própria realidade. 
É dessa realidade que podemos espreitar alguns episódios na exposição organizada pela Casa da América Latina de Lisboa que está, até ao final do mês, no Museu da Cidade. 
E a verdade é que, se a sua pintura não me entusiasma, sempre admirei a forma como viveu e sobreviveu num México em mudança e como a sua vida pessoal se cruzou com os importantes movimentos colectivos e com personagens que deixaram a sua marca naquele país e no mundo. É este percurso, ao mesmo tempo íntimo e mais alargado, que podemos acompanhar pelas fotografias tiradas por si ou em que ela está presente. Eu fiquei a conhecê-la melhor. E a sua obra passa a fazer mais sentido para mim.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A educação virtual

No final da semana passada, na minha qualidade de encarregada de educação, estive presente numa reunião na escola que as minhas filhas frequentam. Para além das questões da avaliação são normalmente dadas informações, entre as quais a programação de algumas actividades e visitas a realizar no período seguinte. Ora, chegados a este ponto, ouvi, não sem alguma indignação, mas compreendendo perfeitamente os motivos, que este período não vai haver visitas a qualquer lugar fora da escola. A menor disponibilidade de dinheiro por parte dos pais dos alunos (que têm que pagar entradas e deslocações) levou a escola a substituir essas visitas com visitas virtuais a alguns museus que as disponibilizam nos seus sites. 
Para os museus ou outros organismos que sobrevivem, grande parte, graças a esta componente das escolas será, certamente, um problema. E para os miúdos não será a mesma coisa. Pois não. Mas a crise chega a todos.     Até a quem a escola deveria proporcionar um alargamento de horizontes. Fiquemos-nos então pelo ecrã do computador. Esperemos que, ao menos, a dimensão e a resolução sejam boas.

Os anjos podem ser terríveis

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A neve tem muitos nomes

Ainda não tinha tido oportunidade de ouvir o disco de Kate Bush, 50 Words for Snow, um dos dois que publicou o ano passado. Já esperava gostar. Agora tive a certeza.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ainda falam dos mais velhos!

- Mãe, hoje andei três intervalos à procura da Beatriz para lhe dizer uma coisa. Quando a encontrei e lhe quis dizer o que queria esqueci-me do que era. 

M. (11 anos)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

As crianças e nós

O filme começa e acaba nas crianças. São elas que criam o problema à volta do qual gira toda a acção e são elas que o resolvem sem precisarem da intervenção de mais ninguém. De facto, apesar do único sangue presente acontecer no parque onde as crianças brincam, é entre adultos que a carnificina tem lugar. O que começa por ser um encontro entre pessoas civilizadas transforma-se numa batalha que vai para além da mera troca de palavras para ter verdadeiras consequências físicas.
Pelo meio, via telefone, acompanhamos ainda um tema bastante controverso nos EUA: o grande poder da indústria farmacêutica.
Muito teatral, as expressões faciais dos quatro actores são de uma enorme riqueza (o cartaz de promoção é muito bem escolhido). Em certas cenas, como a das gargalhadas, partilhada entre as mulheres, ou a das constantes reentradas no "cenário" parece haver até algum exagero. Mas tudo isso me parece deliberado. É que, dessa forma, se demonstram as enormes dificuldades, para não dizer incapacidade, dos adultos para ultrapassarem os seus problemas, portadores que são de dúvidas, frustrações, ideias feitas que os impedem de os analisarem claramente. Já as crianças, sem elaborações desnecessárias, limitam-se a resolvê-los.
Catarse é a palavra que mais facilmente nos surge quando ouvimos expressões como: "I am glad our son kicked the shit out of your son and I wipe my ass with your human rights!"
Todos nós devíamos, de vez em quando, ficar fechados e ser confrontados com os problemas em vez de falar deles à distância. Terapêutico, sim. E quem melhor que Polanski para o filmar?

Ainda mal começámos o ano e já estamos no dia 3

"Não há espectáculo mais belo para um homem sem antolhos que o da inteligência em contenda com uma realidade que ultrapassa o seu entendimento"

in Albert Camus, O Mito de Sísifo, Lisboa, 198..., Livros do Brasil, p. 70