quinta-feira, 30 de junho de 2011

Iniciação

A loja dá corpo a um antigo negócio de família. Já o seu pai, antes dele, fora o responsável. Hoje, frente à montra, tirou o filho, ainda bebé, do seu carrinho e, enquanto com um dos braços o segurava, apontava com o outro os artigos expostos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Mistérios da vida quotidiana tranquila"

A propósito do aniversário da minha filha C., esta semana, ofereci-lhe um belíssimo livro:


São 15 pequenas histórias de Shaun Tan com ilustrações magníficas. E é um repetente por aqui, no mesmo mês.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Uma rua para os próximos dias...

Antes de entrar num café tenha alguns cuidados

Por exemplo: não beba álcool, nem consuma Valium ou soníferos. E, digo eu, simpatizar com algumas figuras da História Mundial também não ajuda muito. Argumentar que não se lembra de nada poderá ser um sinal que a medicação que toma não está a resultar bem. Mas não me parece que possa servir de desculpa para um acto inqualificável como este, de alguém que era suposto ditar tendências. 

domingo, 19 de junho de 2011

Solidão

Tinha perto de 80 anos. Da sua terra, no Minho, já só recordava que a tinha deixado há muito tempo. Estava em Lisboa há 60 anos. Tinha vindo servir. E tanto tinha servido que não tinha sobrado tempo para aprender a ler, a escrever, a ser. A família com que ainda sonhara não chegou a acontecer. Era aos filhos dos outros que lavava a roupa, que a passava. Era para eles que cozinhava. Mais tarde, quando o corpo deixou de colaborar neste jogo do faz de conta, a reforma. E ao rendimento miserável vinha agora juntar-se a enorme constatação de que estava só. No edifício onde vivia era a única moradora. Os outros tinham já morrido. Para chegar à sua casa, no último andar, passava por várias portas fechadas que nunca se abriam. Foi no Centro de Dia que encontrou alguma animação para os seus dias sempre iguais. Era lá que as tarde eram passadas. Com outros homens e mulheres, muitos igualmente sós, partilhava a dificuldade, cada vez maior, em manter a nitidez das suas lembranças. Um dia não foi. Ao segundo estranharam a sua ausência. Quando foram verificar encontraram-na. Tinha morrido na sua casa, depois de ter subido os degraus carcomidos uma última vez. A sua casa continua na mesma. Os sobrinhos, que não a viam há anos a mais, nada quiseram dos seus pertences. Coisas que a eles nada diziam. Nem as fotografias antigas onde a tia, em dias distantes de felicidade, sorria.

À memória da D. Aurora

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quadras ao (des)gosto popular

Mesmo com algumas hesitações na gramática... e ao nível da entidade a quem se dirige a prece (Santo Antoninho ou FMI) o apelo vai no mesmo sentido.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Santo no top

Comerciantes e moradores em bairros históricos de Lisboa, quando questionados por um jornalista da rádio, afirmaram que, em termos de público, este foi o melhor "Santo António" dos últimos anos. Para o ano como será?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Perfeição

No aniversário do nascimento de Pessoa:

"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito."

in Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Relógio d'Água, 2008, p. 288

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O escriturário, a criança, o mendigo, o palestrante, o homem/mulher e o revoltado

Quando, aos 14 anos, ouviu falar dele, Carlos Paulo procurou-o no "Martinho da Arcada". Foi um empregado que lhe explicou que ele tinha já morrido há muitos anos. Mas se a ele já não o encontrou, a procura nos alfarrabistas permitiu-lhe tomar contacto com alguns poetas que afinal eram um só homem de carne e osso. Naquela altura, na escola, só se falava da "Mensagem" mas uma professora tinha-o despertado para outros poetas, como Álvaro de Campos ou Ricardo Reis. E a partir do momento em que tomou contacto com Bernardo Soares nunca mais o seu livro, o do desassossego, deixou de fazer parte da sua vida.
Quando eu fiz o ensino secundário, Pessoa era já um autor que fazia parte do programa. Cada vez que líamos um novo poema dos seus heterónimos ficávamos com uma sensação de quem tinha acabado de crescer mais um bocadinho. E eu acho que era isso mesmo que acontecia. O "Livro do Desassossego" veio mais tarde. A dificuldade em ler um livro que não é um livro só aguça mais a nossa vontade de o ler mais e mais.
E agora quando, como sempre, o desassossego toma conta das nossas vidas, veio a peça de teatro. Estreada em 2001, e depois de muito percorrer o país, está novamente na Comuna, onde finalmente a vi. Carlos Paulo é intensamente cada uma das personagens. Ou serão elas que ali estão tal a cumplicidade que conseguimos sentir.
Mesmo sendo dois actores em palco ele está sozinho, como Bernardo Soares está sozinho ou como Fernando Pessoa está sozinho. E é sós que estão também as personagens interpretadas.
E nós, como ficamos nós no final da peça? Desassossegados será um lugar comum. Será. Mas é o próprio actor que o diz: "A minha esperança é que, no final de cada noite, alguém saia daqui diferente do que quando entrou; alguém saia daqui desassossegado para sempre..." E a verdade é que é através das reflexões daquelas personagens que percebemos que ainda não parámos de crescer, aos bocadinhos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

mai acceso, mai acceso, mai acceso...

Eu não consigo mesmo gostar de Berlusconi.
Mas nem todas as mulheres pensam assim. E estas, afinadas ou não, há uns anos atrás, lá mostravam os dotes ao seu querido Silvio. Mas as crianças, as crianças, tinham mesmo que fazer isto às crianças?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Votar foi fácil. Votar é que foi difícil.

Junto à mesa onde eu deveria votar ninguém aguardava. O papelinho da Junta de Freguesia com um número assegurava que tudo correria sem problemas. Que diferença em relação às anteriores eleições! Talvez por isso demorei um pouco mais na cabina. Li duas vezes os nomes dos partidos. Estudei os símbolos. Tentei recordar-me do que ouvi em relação às propostas de cada um. Mesmo assim não me consegui decidir. Dobrei a folha de papel sem que lá dentro nada indicasse um sentido. Saí dali com meia sensação do dever cumprido...

domingo, 5 de junho de 2011

Participar

"As sociedades democráticas podem existir com diferentes níveis de participação, embora seja evidente que deles decorrem consequências diversas. Os que acreditam ser a democracia melhor servida por um elevado nível de participação apontam para o fato de que um Estado democrático, ao invés da oligarquia tradicionalista, deve depender do consentimento da sua cidadania. E um estado em que uma grande parte da população seja apática, desinteressada e inconsciente é um daqueles em que o consentimento não poderá ser nunca tomado como coisa certa e em que, na realidade, o consenso pode ser bastante fraco... A falta de participação e representação também reflete a ausência de uma cidadania efectiva e a consequente falta de lealdade para com o sistema como um todo."

in Seymour Martin Lipset, O Homem Político, Rio de Janeiro, Zahar Editores, p. 227


sábado, 4 de junho de 2011

Mal a gente vem ao mundo...

Desta vez não consegui escrever nada sobre as eleições do próximo domingo.
Mas tenho-me lembrado desta canção...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma das razões/poemas porque gosto de Leonard Cohen

Basket

You should go
from place to place
recovering the poems
that have been written for you,
to which you can affix your signature.
Don't discuss these matters
with anyone.
Retrieve. Retrieve.
When the basket is full
someone will appear
to whom you can present it.
She will spread her wide skirt
and sit down
on a black stone
and your basket will bounce
like a speck in sunlight
on the immense landscape
of her lap.

in Leonard Cohen, Livro do Desejo, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2008, p. 51

Também a propósito deste prémio. 

100 anos a educar


A citação é de António Sérgio e podemos lê-la na Exposição Educar - Ensino para todos. Ensino na I República, em Lisboa, no Palácio Valadares, até 30 de Junho.
Calhou ter sido no Dia Mundial da Criança que a fui ver. O Largo do Carmo estava lindo com os seus jacarandás em flor. Cá fora um grupo de crianças cantava no que parecia ser uma actividade que comemorava o dia. 
A exposição, integrada nas comemorações do centenário da República, é bastante interessante e dá conta da importância dada à Educação pelos governos republicanos. O investimento em infraestruturas, em material e em recursos humanos foi extraordinário pois entendia-se que os cidadãos só seriam capazes de construir um futuro em liberdade se tivessem os instrumentos necessários para compreenderem o mundo à sua volta. Nessa altura o acesso à escola era mais dificultado do que agora. No entanto custa perceber que, 100 anos depois, estamos longe de cumprir os objectivos iniciais.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A realidade e o sonho

Numa mão o chapéu de chuva que servia de bengala. Na outra o saco de plástico. Os artigos que trazia hoje para vender eram "carteirinhas para o passe". Ali ninguém lhe comprou nada. Arrastando os pés, passou então à carruagem seguinte.
As pantufas que trazia calçadas, que causam estranheza nestes dias quentes, (ou noutros, se pensarmos que não é suposto serem trazidas para a rua) estavam cheias de um pó branco por cima. Imaginei-as, de noite, junto a uma parede, onde a caliça vai caindo, numa casa em que o abandono a que é votada é semelhante ao que é votado o seu ocupante.
E imaginei-o a ele. A sonhar. Um sonho em que lhe bastava uma carruagem para vender tudo o que trazia. E a sair com um sorriso, na direcção de uma sapataria.