sábado, 30 de outubro de 2010

Relax

2D versus 3D

Há poucos dias vi no programa "Onda Curta" da RTP 2 uma curta metragem realizada por Andrés Sanz. A história, narrada por Isabella Rossellini, fala-nos de um homem que se apaixona por uma mulher pintada num quadro exposto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Esta mulher, em duas dimensões, não sai da sua cabeça, ocupando mais espaço que a namorada que, com as suas três dimensões, não consegue competir com a nova obsessão. Um exercício muito, muito interessante.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Trabalhadores de última geração

A conversa desenrolava-se ao telefone. O rapaz, com vinte e poucos anos, contava ao seu interlocutor as últimas novidades sobre o projecto que se encontrava a desenvolver. A propósito do grupo que com ele trabalhava ouvi-o dizer que ele era o mais velho. "Só para tu veres: outro dia estávamos a conversar e chegámos à conclusão que eu era o único que tinha visto os Ficheiros Secretos na televisão"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Uma leitura de O Beijo


Apesar da quase unanimidade em relação a esta obra eu ainda não percebi se gosto ou não dela. Ou melhor, gosto no que diz respeito às questões mais visuais, das cores e dos padrões. Mas a atitude dos protagonistas sempre me deixou dúvidas.
Não consigo afastar-me da sensação de que é uma perspectiva muito masculina em que o homem controla subjugando, de alguma forma, a mulher (ele segura a sua cabeça não lhe deixando quase liberdade de movimentos) enquanto, não mostrando o rosto, se está a furtar ao nosso olhar e à possível exposição que isso lhe traria. A indefinição das suas formas, por contraste com as da mulher, mais contidas, sugere-me que, a concretizar o que deseja, a conseguirá dissolver no seu eu, dominando-a por completo.
Quanto à mulher, o facto de estar ajoelhada lembra submissão e o seu rosto revela resignação ou medo. Também a situação, à beira de um eventual precipício, em que é a mulher que está do lado de fora, pode indicar, até, um beijo de despedida antes do empurrão fatal. As mãos dela não me parecem muito decididas, oscilando entre a  vontade de o afastar e a certeza de não o conseguir. Definitivamente parece-me que não está ali mas em algum outro lugar para o que contribuem os olhos que se fecham (para não o ver ou para o ver melhor?).
Esta é a minha leitura de O Beijo. A maioria dos que conhecem este quadro (e são muitos, muitos mesmo) fazem uma interpretação menos crua e consideram-no uma representação por excelência de uma relação amorosa feita de paixão sem restrições em que a confiança e a entrega são tais que o facto de estarem à beira de um abismo só contribui para aumentar a união entre o homem e a mulher. É uma outra leitura, também possível. Mas eu não poria em qualquer lugar de destaque uma reprodução desta obra.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um beijo sui generis na hora de deitar

- Mãe, sabes que não me estás a dar um beijo a mim? É que eu sou sentimentos e portanto tinhas que me beijar o coração; e inteligência e para isso tinhas que me beijar o cérebro. E tu estás a beijar só as células mortas que estão na minha pele. (M., 10 anos)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma cidade, um filme triste e cenas de comédia

Lecce fica no "salto da bota". Depois de a vermos no filme apetece visitar esta cidade. É aí que se desenrola a história dramática da família Cantone, marcada pelo peso dos preconceitos e pelas tentativas de os ultrapassar. Pelo meio, cenas delirantes que nos deixam muito bem dispostos. Não será um grande filme. Mas saímos do cinema a achar que valeu a pena.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A razão principal da ida a Sintra...

...foi o Sr. Lloyd Cole. Gosto do novo álbum, apesar das vozes menos contentes com o facto de, morando agora nos Estados Unidos, o músico estar mais "americanizado". Neste concerto foi acompanhado por Mark Schwaber (na guitarra e no bandolim) e Matt Cullen (na guitarra e no banjo). Juntos constituem o Small Ensemble. Muito sóbrio, sem grandes efeitos de luz, centrado na música, Cole tocou e cantou temas do tempo em que estava com os Commotions, dos seus discos anteriores a solo e claro deste último. Gostei mas confesso que senti alguma monotonia. O acompanhamento, sempre o mesmo, cansou-me. Não deixou, no entanto, de ser um bom concerto. A proximidade que o músico conseguiu criar com o público, a cumplicidade, foram constantes. Tal como disse outro dia, a sua capacidade para fazer boas canções permanece. E por isso ouvi-las é um prazer.

sábado, 16 de outubro de 2010

Conhecer Hedda

Há já bastante tempo que não ia ao teatro. Agora, ao ver Hedda, uma produção dos Artistas Unidos, relembrei como é bom estarmos ali, numa sala cheia de emoções, encenadas, mas nem por isso menos verdadeiras.
O texto, de José Maria Vieira Mendes, a partir de Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, é muito bom e as interpretações, à excepção de António Pedro Cerdeira, do qual nunca fui capaz de gostar, são excepcionais. O destaque vai, obviamente, para  Maria João Luís. O comportamento da sua personagem já deu azo a tantas interpretações, todas elas possíveis, que se torna difícil saber qual a que estaria na mente de Ibsen ou dos autores mais recentes. De qualquer forma, se todos entendêssemos Hedda da mesma forma seria um sinal que a peça não atingia os seus propósitos.
Até domingo, no S. Luiz podem tentar formar a vossa opinião. Verão que valerá a pena.

Foto aqui

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma das razões/textos poéticos porque gosto de Rosa Maria Martelo

Vidros

Não há como colar o vidro das palavras ao vidro das coisas. Ainda que sendo o mesmo vidro, não há como juntar vidro com vidro e ocultar a cicatriz que não continua o mesmo quando do mesmo se separa. E para mais neste caso, sendo um como o outro translúcido, e eu sem saber de qual dos dois estou a falar agora. Vidro do mesmo vidro, em dois pedaços - contíguos, não contínuos: este, que agora uso, como uma lente, e o outro que através dele procuro ver, sem discernir qual dos dois o mais opaco ou qual dos dois mais transparente.

in Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp, Averno, Lisboa, 2009, p. 19

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu quero lá saber dos segredos desta gente...

Ainda não tive oportunidade de ver "A Casa dos Segredos" na TVI à excepção de um minuto ou dois em que Júlia Pinheiro, num vestido vermelho, explicava umas regras que os concorrentes tinham de cumprir e que giravam à volta de uma tal de "A Voz" (não percebi o que é que Frank Sinatra tinha a ver com o assunto a não ser o facto, dizem, de ter tido, também ele, muitos segredos). Mas o programa já foi motivo de desentendimento com as minhas filhas que depois de terem ficado deslumbradas com a casa onde tudo se passa se preparavam para acompanhar as peripécias dos residentes. Por enquanto o assunto ficou resolvido, mas...
A propósito deixo duas críticas ao programa: uma séria e outra ainda mais séria.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O meu nome não é Alexandre

O mundo do cinema de Hollywood está cheio de casos de actores que, por terem nomes estrangeiros, eram aconselhados a mudar de nome. Mas aí até se podia argumentar que seria difícil alcançar o estatuto de estrela com um nome, muitas vezes, difícil de pronunciar. Neste caso, parece que o dono da empresa terá achado que Mohamed não agradaria aos clientes. Nada melhor, portanto, do que "sugerir" o uso de um outro nome, supostamente mais francês. São situações como esta que têm tendência para acontecer cada vez mais num país onde se vai instalando um clima xenófobo que poderá tornar-se dificilmente controlável.

Ironias de um regime

Segundo ouvi hoje na rádio, a mulher de Liu Xiaobo disse que  foram os guardas prisionais que informaram o marido que era ele o vencedor do Prémio Nobel da Paz deste ano.

domingo, 10 de outubro de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Philip Larkin

High Windows


When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives--
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.


in Philip Larkin, Janelas Altas, Livros Cotovia, Lisboa, 2004, p. 44

sábado, 9 de outubro de 2010

O valor de uma "golden share"

A crise a preto e branco

Já foi uma loja com muito movimento. Agora, encerrada há algum tempo, por ter deixado de ser necessária, mantém na montra os retratos de alguns dos clientes que ali tiravam as fotografias para o bilhete de identidade ou outros. Provavelmente estes foram os últimos clientes e ali permanecem em jeito de homenagem. Mas agora os rostos já não são nítidos. O sol encarregou-se de apagar os pormenores e agora até as reproduções que já foram a cores ficaram esquecidas no preto e branco. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"Ler é sonhar pela mão de outrém"

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego.

Nesta escola (Secundária de Miraflores) os livros estão sempre onde menos se espera. Há brigadas que “assaltam” aulas com o propósito de lerem, há poemas que aparecem aqui e ali… Dois alunos ficaram, este ano, em primeiro lugar: um no Concurso Nacional de Leitura no Ensino Secundário e outro no Concurso Nacional “Faça lá um poema”. Para Novembro está marcada uma homenagem a José Saramago onde estará presente João Tordo, vencedor do prémio Saramago 2009. Grande parte deste dinamismo deve-se à equipa da biblioteca da escola que promove a leitura e a escrita de forma muito apelativa para os alunos.

Porque me parece um bom exemplo deixo aqui a ligação para o blogue .

terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro sempre! Ou como os regimes são imperfeitos, como os dias.

Busto da República que pertenceu ao meu avô (e que agora me pertence)


Sim, eu sei. Podemos discutir imensa coisa relacionada com a República. Podemos dizer que, nestes 100 anos, foram mais os anos negativos que os positivos. Podemos dizer que os dias, meses, anos, mais recentes desta República não têm trazido grandes motivos de alegria. Podemos argumentar que os dias futuros que se avizinham não serão fáceis.
Mesmo assim a República continua a ser o sistema de governo que me parece mais equilibrado. Vejam-se, por exemplo, as ideias de Philip Pettit.

Levantem o “Embargo”

Eu e outra pessoa éramos os únicos espectadores na noite de 6.ª feira numa das salas de cinema de um centro comercial dos arredores de Lisboa. O filme era “Embargo”, de António Ferreira.
Corajoso este realizador que faz um filme baseado num conto de José Saramago onde impera o absurdo: um homem que, querendo mudar a sua vida e tendo finalmente uma arma para o fazer se vê preso, literalmente preso, ao seu automóvel, que o impede de alcançar um outro patamar na escala social. Apesar de incompreendido pelos outros personagens, ele não deixa de tentar.
Entendo este filme como uma alegoria. Querendo entrar na dinâmica do mercado capitalista, através da sua própria iniciativa, é o automóvel, um símbolo desse próprio mercado, que se constitui como o seu primeiro inimigo, criando um obstáculo intransponível.
Os locais escolhidos num qualquer subúrbio não identificável, o tempo que podia ser qualquer um, reforçam essa ideia de alegoria.
A interpretação de Filipe Costa é muito boa. A banda sonora também.
Pode não ser um grande filme. Mas merece ser visto. Está por aí nas salas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí""

Parece que não será hoje que o Brasil terá um novo presidente. A candidata apoiada pelo PT, Dilma Rousseff, terá que ir a uma segunda volta com José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira. Serão mais alguns dias de campanha, aqui tão bem analisada.

Entretanto:

sábado, 2 de outubro de 2010

Uma das razões/poemas porque gosto de Teresa M. G. Jardim

Mulher-Sono
(com imagens de Paula Rego)

Se tivesse uma filha
mostrava-lhe como fiar
e desfiar um novelo,
para que fosse mais desconfiada
com a vida que leva.
Ensinava-lhe desde o berço
a dar utilidade a tudo: à Branca de Neve
como toalha de mesa, ao nariz do Pinóquio
para colher peras abacates, etc.
Viver seria mais simples para ela
do que tem sido para mim.

in Teresa M. G. Jardim, Jogos Radicais, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 27

Revolta só no futebol

Continuo a ver os funcionários públicos e todos os outros trabalhadores a sorrir, mesmo depois do anúncio das intenções do governo. Na comunicação social este, na capa d'a Bola, parece ter sido o grito de revolta mais visível desde quarta-feira (e ainda por cima apresentado pelo lado positivo), o dia em que percebemos finalmente o alcance da mensagem da ministra da educação: vamos agarrar-nos aos livros, relembrar sobretudo a aritmética. Nunca, como agora, foi tão importante saber fazer contas. E é melhor começarmos já. 2011 está quase aí.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O poeta e o louco

O homem estava sentado na mesa da esplanada. Falava sozinho, ou para si próprio, como só os que consideramos loucos podem fazer. Fernando Pessoa, no seu fato de bronze, com a perna esquerda sobre a direita, estava ali numa mesa mesmo ao lado. Ninguém lhe fazia companhia. Nenhum turista, dos que habitualmente se sentam, sem serem convidados. Neste momento estavam os dois sós.