sábado, 31 de julho de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

António Feio (1954-2010)

A inevitabilidade da morte não deixa de nos surpreender.

A arte de contar estórias

Contar estórias é para todos. Mesmo os que dizem que não têm jeito, já em algum momento o fizeram ou ao deitar os filhos ou quando contam a amigos alguma peripécia acontecida. Verdadeira, inventada, lida ou sabida de cor, as estórias são inesgotáveis. Actualmente, neste nosso dia a dia apressado, já não se contam estórias à volta da lareira, pelo menos com a frequência com que se fazia. Mas o prazer de ouvir uma boa estória mantém-se. E há para todos os gostos. Desde pequenas narrativas humorísticas (o stand up comedy não deixa de se enquadrar nesta definição), até aos contos tradicionais mais longos. Nos últimos anos, entidades várias têm promovido formações neste âmbito e têm surgido grupos de pessoas interessadas na divulgação desta arte. Os Contabandistas são um desses grupos. Ouvi-los pode ser uma experiência bem interessante. 

Deixo aqui um exemplo de uma estória contada, dirigida aos mais pequenos, que, sendo muito, muito simples,  prende a atenção de todos.



Nota: resolvi utilizar a palavra estória apesar de, para muitos, ser um neologismo a evitar. Esses que me perdoem.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mocidade

"Não preciso de vos contar o que é bater caminho numa embarcação descoberta. Recordo noites e dias de calma em que remámos, remámos e a canoa parecia parada como se um feitiço a mantivesse presa àquele círculo de mar. Recordo o calor, o dilúvio de aguaceiros que obrigava a baldeações para salvarmos a pele (mas ao menos enchiam o nosso barril) e dezasseis horas sem fim, de boca seca como cinza e com um remo à popa para moderar a rebentação contra o meu primeiro comando. E ainda não tinha descoberto que afinal eu era aquilo a que pode chamar-se um homem! Recordo as caras desanimadas, as figuras abatidas dos meus dois tripulantes, recordo ainda a mocidade que eu tinha e uma sensação que nunca mais voltei a sentir… de poder viver sempre, sobreviver ao mar, ao céu e aos homens; a sensação enganosa que nos arrasta às alegrias, aos perigos, ao amor, ao esforço inútil…à morte; a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo… e se apaga cedo, muito cedo… antes da própria vida."

in Joseph Conrad, Mocidade (Uma narrativa), Assírio & Alvim, Lisboa, p. 66-67

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Emma, Joana e Suzanne

Em relativamente pouco tempo vi três filmes, de que muito gostei, todos com a mesma temática: a insatisfação das mulheres em casamentos aparentemente bem sucedidos mas que, proporcionando-lhes bem-estar e conforto, não as preenchem deixando de fora aquilo a que se convencionou chamar o amor.

Do primeiro e, na minha opinião, o melhor dos três, já aqui falei.

O segundo, que vi esta semana, foi uma boa surpresa. Duas Mulheres, de João Mário Grilo, com a fantástica Beatriz Batarda é um filme muito bem realizado e com momentos cheios de tensão que nos leva a acompanhar uma fase da vida de uma psiquiatra que se envolve com uma modelo, colorindo os seus dias demasiado cinzentos. Mas, ao contrário do filme de Luca Guadagnino, esse envolvimento não a leva a sair da situação opressiva do seu casamento. Aliás, o seu marido, disposto a tudo para manter as aparências, “resolve” o caso mantendo-a prisioneira de uma vida que ela não deseja mas da qual não consegue sair. Destaco também a banda sonora, muito boa e os momentos iniciais do filme com imagens de uma câmara de vigilância da A5.


Quanto ao último, Partir, de Catherine Corsini, (mais uma vez com a actriz principal a brilhar – Kristin Scott Thomas num desempenho notável) é toda a vida da protagonista que é posta em causa por uma paixão que o seu marido não está disposto a deixar desenvolver-se. Mas aqui, a Suzanne não se acomoda como a Joana de “Duas Mulheres” mesmo que essa atitude lhe possa custar a liberdade.


Caso tenham oportunidade vejam.

domingo, 25 de julho de 2010

Sob os pinheiros os pensamentos são mais livres


Lagoa de Albufeira, Março 2010

2711

Agora é que vão ser elas... O Daniel Santos, do 2711, desafiou-me a fazer parte do conjunto de autores daquele blogue que acompanho sempre com prazer. Trata-se de um blogue colectivo com uma dinâmica por vezes difícil de acompanhar, tal é o ritmo da publicação. Mesmo com um ritmo menos acelerado tentarei integrar-me no grupo e estar à altura do desafio.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma rua

Marvão, Maio 2010

Temos mesmo que esperar pela chuva?

Há 2 meses atrás referi aqui, embora não directamente, que a conclusão das obras no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, estava para breve e que, por isso, poderíamos voltar a usar o jardim como fazíamos antes.

A verdade é que não tenho utilizado o jardim como fazia. E aqui tenho de dar o braço a torcer face aos mais cépticos. Quando as obras se iniciaram defendi que se devia dar o benefício da dúvida a quem projectava e as executava. Eu dei. Algumas coisas, nomeadamente o estado das árvores, não discuto por não ter conhecimentos suficientes para me poder pronunciar. Mas parece-me triste ver os canteiros quase despidos de plantas, onde sobressaem os tubos da rega automática que, aparentemente, não funcionam. E o problema principal: o material escolhido para o pavimento, aquele saibro que, com qualquer vento, larga um pó que continuamente se espalha por todo o lado. Confesso que, por vezes, opto por caminhar no passeio, ao sol, em vez de passar onde já sei que, provavelmente, serei envolvida por uma nuvem de pó. E a esplanada do quiosque é agora um local que frequento muito menos pela mesma razão.

Do gabinete do vereador do pelouro falam da estação do ano, que não será favorável à estabilização do pavimento, e da necessidade de chuva. Hoje, m. nagashima, o pintor que retrata, há anos, o jardim e os seus frequentadores, trocou, por um bocado, os pincéis pela mangueira e regou parte dele. Não deve ser fácil pintar naquelas circunstâncias.

Espero que a situação possa ser corrigida pelos responsáveis pela intervenção para que possamos voltar a fruir o jardim como costumávamos fazer. Estes espaços foram criados para serem vividos e não para afastar as pessoas.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

No "Delito de Opinião"

Depois de mais esta referência, foi com surpresa que recebi um simpático convite do Pedro Correia, do Delito de Opinião, para escrever um texto para ser aí publicado. Apesar de lisonjeada fiquei apreensiva por não ter, à partida, ideia sobre o tema. Mas afinal eu gosto de pessoas, não é? E uma visita recente ao atelier do Sr. Acácio estava ainda presente na minha memória.

O resultado, que podem ler no post anterior, foi publicado hoje (ontem) naquele blogue que comecei a acompanhar há algum tempo e onde aprendo sempre algo de novo quando o visito.

Obrigada, Pedro. Foi uma honra.

Para lá de umas portas azuis


A fotografia da maqueta da basílica de Fátima está pendurada em lugar de destaque, bem visível para quem entra. É com orgulho que nos diz que foi ele a construí-la nos anos 50 do século passado. São dessa altura as fotografias emolduradas e penduradas em fio de nylon que o representam a si, quando sonhava em ser um grande escultor.

O amontoado de peças moldadas em gesso branco ou pintado não deixa muito espaço para os movimentos. Mas o Sr. Acácio, habituado que está ao seu estreito corredor, por entre as estantes improvisadas, move-se ali com um grande à-vontade. O ar aprumado do vestuário com que recebe os visitantes, aparentemente pouco adequado para um atelier em que se manipulam materiais que sujam, é uma prova de respeito para aqueles que entram, mas também para o trabalho que considera a sua vida. O orgulho no seu passado de artista reconhecido (“trabalhei com grandes arquitectos”) é evidente em cada referência que faz ao tempo em que não se limitava a trabalhar sozinho naquele lugar, para onde vem todos os dias, logo cedo, desde a sua casa nos subúrbios.

As peças em gesso ganham cor com as técnicas utilizadas que vão das mais clássicas às que ele próprio inventa, misturando produtos que nem sempre resultam. “Às vezes sai cada coisa…”, diz sorrindo.

Nas prateleiras, os bustos de Lenine estão lado a lado com os de Salazar. Mas Lenine tem direito a ter estatuetas que representam a totalidade da sua figura. Santo António está também lado a lado com um dos motivos mais representados: uma cabeça e tronco de mulher com uns seios bem avantajados. E depois há os animais: andorinhas, burros, peixes, rãs, cavalos, mochos. E figuras do imaginário infantil, como anões.

Os bustos da República constituem a aposta mais recente. Há que estar a par das efemérides. Mas, num absoluto sincretismo religioso, as N. Sras. de Fátima, os Santos António, as figurações de Jesus Cristo, mas também os Budas e divindades orientais estão sempre no top. Quanto aos bustos de Camões já tiveram mais saída mas mesmo assim convém tê-los sempre à mão. Parece que os turistas gostam.

“Semana em que venda duas peças já é boa”, diz. E no entanto não deixa de trabalhar. O stock acumulado não o assusta. No meio de tanta coisa há sempre espaço para mais uma. E quando o Sr. Acácio deixar de trabalhar ficará, certamente, ainda muito espaço.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Memória truncada

Com uma fachada com esta qualidade alguém acredita que no interior não havia nada que valesse a pena reabilitar?

Televisão no quarto desde o nascimento

Estava eu uma noite destas frente à televisão, de comando na mão, a passar os canais, quando apanhei algo parecido com isto:



Manifestei em voz alta a minha estranheza e logo uma das minhas filhas me explicou que era o canal para bebés. Pesquisei e percebi então que a BabyFirst TV (há também, pelo menos, a Baby TV) é um canal dirigido a menores de 3 anos (sim, leram bem, menores de 3 anos) que emite 24 horas por dia. Parece que o objectivo é ajudar os pais a interagirem com os seus bebés. Não vou colocar aqui questões, levantadas pela maior parte dos especialistas, que alertam para o facto de que bebés com tão pouca idade (aliás só a palavra bebé, seria suficiente), não devem ver televisão. E, pelos vistos, estes canais têm também a solução certa para a hora de dormir: "um programa mágico que trará ao seu ecrã imagens animadas e encantadas, que se movem delicadamente para deliciar os seus sentidos, acompanhadas pelos sons de música suave". Os móbiles (aquelas peças penduradas por cima das camas, com bonecos coloridos), que os ajudavam a adormecer, parecem estar a perder terreno para o ecrã de televisão.

Não sei se a interacção pais/filhos sairá fortalecida com o visionamento deste canal. Mas uma coisa é certa: tenham ou não bebés em casa, para adultos com problemas de insónia, programas como este fazem, certamente, milagres.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Para um piquenique topo de gama...

Através da janela

Alentejo, Maio, 2010

"This movie exists"

Não foi fácil ver este filme. Confesso que os movimentos da câmara deixaram-me um pouco tonta. Os realizadores, dois irmãos de Nova Iorque, quiseram homenagear o seu pai que amando-os, indubitavelmente, desempenhou o seu papel de uma forma muito pouco ortodoxa. Apesar da brincadeira constante e das experiências proporcionadas aos filhos é o olhar triste dos miúdos, numa cidade cinzenta, que acaba por nos acompanhar quando saímos da sala.


O título deste post corresponde à frase usada na promoção do filme, levada a cabo por um dos realizadores. A ver aqui.

domingo, 18 de julho de 2010

Solidão

Neste filme o whisky não se bebe. Ele é apenas uma palavra que se pronuncia. Da mesma forma a felicidade não se vive. Ela é apenas fingida para que outros pensem que não estamos sós. Para que nós próprios pensemos que não estamos sós.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Uma curta

imagem retirada daqui

Gosto muito de ler contos. Talvez um pouco pelas mesmas razões gosto de curtas-metragens. Desta que vi recentemente, apesar de já ter alguns anos (é de 2004), gostei bastante. É uma boa ideia alguns cinemas exibirem estas curtas-metragens antes dos filmes pois, de outra forma, certamente, não chegariam a um público tão vasto.

Por não haver vídeos disponíveis deixo apenas esta ligação. Atentem, por favor, na sinopse que é bastante elucidativa.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Final (2)

Holanda versus Espanha(s).

Final (1)

No dia em que Portugal e Espanha jogaram os oitavos de final vi-o vestido, da cabeça aos pés, com as cores espanholas. Passeava, frente a uma esplanada, com ar desafiador. Pela trela trazia o cão, grande e com porte também desafiador. Hoje voltei a vê-lo. Vestia da mesma forma. O chapéu, grosso demais para este calor, também estava na sua cabeça. Falava descontraidamente ao telemóvel. Não trazia o cão.

Sorriso lento

A arte da rua na sala do museu

Só para abrir o apetite:

A música


Graffiti com relevo




Os desenhos





Os pormenores






sexta-feira, 9 de julho de 2010

Receita para aplacar um certo mau humor pré-adolescente

Esta exposição:


Garanto que o prazer que proporcionou transformou uma “secante” tarde de férias em efectivo “tempo de qualidade”, como agora se diz.

Podemos ver aqui estes irmãos writers de S. Paulo, Brasil:


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tudo pessoal

A minha primeira reacção ao filme não foi das melhores. À medida, porém, que o tempo vai passando vou tornando-o mais pessoal, mais próximo. Porque me revejo no que escreveu, sobre ele, o autor deste texto remeto-vos para a sua leitura.

Aqui fica também o "teaser":

Desatenção

Foi o que me fez perder este concerto hoje.

Será que esta música passou por lá?

domingo, 4 de julho de 2010

Onde estamos?

40 anos a fotografar é muito tempo. E no entanto Alfredo Cunha lembra-nos que "Estamos no Mesmo Sítio". A não perder.

Uma das razões/poemas porque gosto de Filipa Leal

Nos dias tristes não se fala de aves

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

in Filipa Leal, A Cidade Líquida e outras texturas, Deriva Editores, Porto, 2006, p. 27

À beira da lagoa


Lagoa de Albufeira, Março 2010

sábado, 3 de julho de 2010

Quando os números são pessoas

Sempre gostei muito de Demografia. Na faculdade não era difícil tirar boas notas. Os exercícios que nos eram propostos eram sempre bastante interessantes e as interpretações do que nos diziam os números sobre a dinâmica da população apelava sempre a um conhecimento da realidade que englobava várias perspectivas e temáticas. Hoje a Demografia continua a interessar-me. Foi por isso que ao encontrar este livro, ainda por cima por um preço bastante acessível, não hesitei. Escrito pela minha antiga professora e pelo jornalista e também professor, Paulo Chitas "propor uma leitura de Portugal para as últimas cinco décadas, através de tendências que deixaram marcas nos factos (isto é, em dados estatísticos), foi o objectivo deste texto.", lê-se na Nota Introdutória. "A Pordata - base de dados de Portugal Contemporâneo - serviu de ponto de partida a este ensaio... A ideia deste texto não foi, obviamente, a de reproduzir o conteúdo desses vastíssimos quadros, mas sim descortinar tendências globais da sociedade portuguesa e sobre elas propor uma leitura." Do que li até agora parece-me bem conseguido.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

54 anos de portas abertas

A folha de papel colada por cima da porta da entrada lembra-nos que a casa foi fundada em Fevereiro de 1956. O toldo, que sempre vi recolhido, está crestado pelo sol. As folhas de revistas, coladas nas vidraças têm já uma cor uniforme dada por anos e anos de permanência no mesmo lugar. Até há pouco tempo, a montra, parada no tempo, exibia roupas que pareciam estar lá desde o dia da inauguração. Quando por lá passava o empregado ao balcão tinha já a atitude de quem não espera sequer um cliente que, provavelmente, não chegou a entrar. E eu, que também nunca entrei na loja, agora que encerrou, sinto-lhe a falta.